11 abril, 2012

0 Tristeza segundo Deus - João Calvino



- Arrependimento verdadeiro  –

2Co 7.9-11




9.         Não porque fostes entristecidos. O que Paulo está dizendo é que ele não se deleitava no sofrimento dos coríntios, e se lhe fosse dado escolher, tentaria, ao mesmo tempo, promover o seu bem-estar e a sua felicidade; porém, visto que lhe falta alternativa, o seu bem-estar lhe era de pouca importância, visto que ele se alegrava no fato de que fostes entristecidos para arrependimento. Há médicos que são amáveis e leais, porém, em certas ocasiões, têm de portar-se com severidade, e até mesmo com crueldade, com seus clientes. Paulo diz que não é homem de empregar remédios dolorosos, a não ser que seja necessário. Mas, visto que sua experiência com a cura por meios rudes provou ser bem sucedida, então ele se congratula com tal expediente. Eleja usou uma forma muito semelhante de expressão em 5.4: "Pois, na verdade, os que estamos neste tabernáculo gememos angustiados, não por querermos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida."

10.      Tristeza de Deus. A fim de entendermos o que significa "tristeza de, ou segundo Deus", precisamos observar como Paulo contrasta isto com o seu oposto — "a tristeza do mundo". Devemos considerar também o mesmo contraste entre duas espécies de alegria. Há a alegria do mundo, na qual os homens, em seus desatinos e sem qualquer reverência para com Deus, se deleitam nas coisas ilusórias deste mundo e se embriagam com os seus deleites transitórios, de tal maneira que de nada mais cuidam senão das coisas terrenas. Por outro lado, há a alegria segundo Deus, alegria esta na qual os homens buscam em Deus toda a sua felicidade, se deleitam em sua graça; e ao menosprezarem o mundo, realçam o fato de que ao desfrutarem das prosperidades terrenas é como se delas não desfrutassem, e mesmo na adversidade têm o seu coração iluminado. Da mesma forma, a tristeza deste mundo existe quando o coração humano se perturba em meio às aflições terrenas e é submerso em pranto; mas a tristeza segundo Deus existe quando os homens elevam seus olhos para Deus e consideram que a sua miséria consiste em serem eles privados da graça divina, e, temendo o seu juízo, choram seus pecados. Paulo afirma que este tipo de tristeza é a causa e a origem do arrependimento. Isto precisa ser cuidadosamente observado porque, a menos que o pecador se aborreça de si mesmo, de tal modo que odeie sua própria vida e, em profunda tristeza, confesse seu pecado, ele jamais se converterá ao Senhor. Mas uma pessoa não pode sentir este tipo de tristeza sem que experimente uma mudança de coração. Assim, o arrependimento tem início com a tristeza, porque, como já disse, ninguém pode tomar o caminho certo sem que primeiro odeie seu pecado, e onde não existe ódio ao pecado também não pode haver auto-recriminação e tristeza. Paulo nos apresenta uma belíssima descrição de arrependimento quando diz que esse arrependimento não traz nenhum pesar. Porque, por mais amargo possa ele ser no primeiro teste, os resultados benéficos que fluem dele o fazem desejável. A frase pode ser tomada como referindo-se à salvação antes que ao arrependimento; porém, em minha opinião, ela se ajusta melhor ao arrependimento, como se dissesse: "O resultado final nos ensina que esse tipo de tristeza não nos deve ser penoso nem humilhante, porque, por mais amargo que seja o arrependimento que nos domine, ele é denominado como sendo algo que não nos traz nenhum pesar, em virtude do precioso e agradável fruto que ele produz.

Para a salvação. Paulo parece estar fazendo do arrependimento a causa da salvação; e se assim fosse, seguir-se-ia que somos justificados pelas obras. A minha resposta é que devemos notar bem o ponto específico que Paulo discute aqui. Ele não se preocupa com a causa da salvação, e, sim, apenas recomenda o arrependimento para realçar o fruto que ele produz e para compará-lo ao caminho que conduz à salvação. E assim o é, Cristo, deveras, nos chama por sua livre graça, porém nos chama para o arrependimento; e Deus perdoa os nossos pecados gratuitamente, mas somente quando os renunciamos. Deus opera em nós ambas as coisas, concomitantemente, de modo que somos tanto renovados por meio do arrependimento e libertados da escravidão do pecado, como também somos justificados por meio da fé e libertados da maldição que o pecado gera. Estes são os inseparáveis dons da graça, e em razão dos invariáveis laços que existem entre eles, o arrependimento pode correta e adequadamente ser chamado o início do caminho que conduz à salvação, porém mais como acompanhamento do que como causa. Este argumento não é uma evasiva sutil, mas uma simples explicação da dificuldade, pois enquanto a Escritura ensina que jamais obtemos o perdão de nossos pecados sem o arrependimento, concomitantemente ensina, em muitos lugares, que a única base de nosso perdão é a misericórdia divina.

11. Quanto cuidado não produziu em vós. Não entrarei em disputa alguma sobre se o que Paulo enumera aqui são os efeitos ou se são partes do arrependimento, ou se são preparativos para ele, já que podemos entender o pensamento de Paulo sem tomar esse caminho. Ele está simplesmente atestando o arrependimento dos coríntios pelos sinais exteriores que o seguem. Ele faz da "tristeza segundo Deus" o primeiro destes sinais dos quais o restante emana, e na verdade isto é assim, pois tão logo começamos a ficar insatisfeitos conosco mesmos, somos incitados a buscar todo o restante. O que 'tanto cuidado' significa podemos entender com-parando-o com o seu oposto. Enquanto não houver reconhecimento do pecado, permanecemos modorrentos e inativos. E esta modorra, ou displicência, ou indiferença é o oposto deste 'quanto cuidado', de modo que um desejo ardente e ativo passa a corrigir o que fora pecaminoso e a emendar nossa vida.

Que justificativa. Porque Erasmo traduziu esta frase por 'satisfação', comentaristas inexperientes, enganados pela ambiguidade desta palavra, a têm aplicado às satisfações papais, enquanto que, na verdade, o termo em grego, usado por Paulo, significa 'defesa'. Esta é a razão por que preferi seguir a Vulgata e conservar a palavra defensio, em latim, porém devemos observar que este é um tipo de defesa que tem mais a ver com a busca do perdão do que com a refutação de acusações. É semelhante a um filho que, desejando justificar-se diante de seu pai, não inicia com uma súplica advocatícia de sua causa, senão que reconhece sua culpa e se desculpa com um humilde pedido em lugar de confiantes protestos. Os hipócritas também se desculpam e orgulhosamente se defendem, porém mais com o intuito de ter um debate legal com Deus do que retornar ao seu favor. Se o termo 'escusa' é mais aceitável a alguém, não faço nenhuma objeção, desde que não faça nenhuma diferença ao significado, o qual aponta para o fato de que os coríntios estavam agora prontos a justificar-se, considerando que antes não tiveram cuidado com a opinião que Paulo pudesse ter deles.

Que indignação. Isto também coaduna-se com a tristeza santa, de maneira tal que o pecador se arde em ira contra suas faltas e ainda contra si mesmo, da mesma forma que aqueles que são zelosos pelo bem e pela divindade, e se iram quando percebem que Deus foi ofendido. Este sentimento é ainda mais intenso que a tristeza. O primeiro passo consiste no fato de que o mal nos traz desprazer, enquanto que o segundo consiste no fato de que devemos despertar a nossa indignação ao tratarmos severamente conosco mesmos e ter a nossa consciência sensibilizada. Isto pode, também, ser considerado como que significando a indignação dos coríntios contra as faltas do homem ou do pequeno grupo que antes tinham poupado, de modo que se sentiam arrependidos de sua aquiescência e conivência em seus pecados.

Temor vem da percepção do juízo divino, quando o pecador pondera: "Lembra-te de que deves atender a uma intimação, e que defesa apresentarás diante do juiz?'. Alarmado por tais pensamentos, ele tremerá de medo; porém, visto que os ímpios são às vezes afetados por semelhante temor, Paulo adiciona saudade, que é de natureza mais voluntária do que temor. Às vezes somos atemorizados contra a nossa vontade, porém jamais desejamos algo senão por nossa própria inclinação. Portanto, enquanto que, pela advertência de Paulo, tiveram medo da punição, também agora estavam ansiosamente saudosos pela correção. Porém, o que significa saudade! Não há dúvida de que Paulo a introduziu no clímax desta lista, de modo que deve significar mais do que intensa preocupação. O termo pode ser considerado com a implicação de que estavam incitando uns aos outros à rivalidade mútua, porém é mais simples entendê-lo no sentido de que cada um se esforçava com grande e fervoroso zelo para dar mostras de seu arrependimento. Portanto, saudade é o intenso esforço do desejo.

Que punição. O que foi dito sobre indignação pode aplicar-se também a 'punição', pois a maldade que uma vez estimularam por meio de sua conivência e indulgência, mais tarde se mostraram rigorosos consigo mesmos na punição. Por algum tempo, foram tolerantes com o incestuoso, porém, após as advertências de Paulo, não só cessaram de favorecê-lo, como também se fizeram juízes severos no julgamento, e esta foi a sua 'punição'. Mas, visto que devemos castigar os pecados em qualquer parte onde forem encontrados, e é preciso que antes comecemos por nós mesmos, há uma aplicação mais ampla do que o apóstolo está dizendo aqui. Ele está falando dos sinais de arrependimento, e entre os quais há este sinal especial, por meio do qual nós, ao punirmos os pecados, de certa forma antecipamos o próprio juízo de Deus, como ele ensina alhures: "Se julgássemos anos mesmos, não seríamos julgados pelo Senhor" (1 Co 11.31). Não se deve inferir disto que, pela autopunição, os homens podem compensar a Deus pelas faltas cometidas contra ele, de modo a livrarem-se de Suas mãos. A verdade da questão é que é plano de Deus disciplinar-nos a fim de que nos despertemos de nossa indiferença, de modo que, nos lembrando de Sua ira, possamos ser mais precavidos no futuro. Assim, quando o pecador primeiro se pune voluntariamente, não há necessidade desse tipo de admoestação da parte de Deus.

Pode-se perguntar se os coríntios estavam assumindo esta punição, esta saudade, este desejo etc, por causa de Paulo ou por causa de Deus. Respondo que todas estas coisas são os acompanhantes invariáveis do arrependimento, mas que há diferença entre pecado secreto, visto só por Deus, e pecado público, visto por todos os homens. Se se trata de pecado secreto, então o arrependimento diante de Deus é suficiente; porém, se o pecado é público, exige-se também uma manifestação publica de arrependimento. Desta forma, os coríntios, que tinham pecado publicamente e ofendido grandemente a homens de bem, tinham de demonstrar estes sinais publicamente como testemunho de seu arrependimento.


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