05 janeiro, 2011

0 Qualificações para o Pastorado – João Calvino



- 1 Timóteo 3.2-7 - 

O pastor, portanto, deve ser irrepreensível. A partícula, 'pois ou portanto', confirma a explicação que acabo de dar, pois à luz da dignidade do ofício infere-se que ele não demanda nenhum homem comum, senão alguém dotado de dons excepcionais. Se a tradução correta fosse "uma boa obra", tal como figura na tradução comum, ou "uma obra digna", seguindo Erasmo, então a inferência à próxima afirmação não seria tão adequada.

Ele quer que o bispo seja irrepreensível, ou, como expôs em Tito 1.7, ávéyKÀnjov [anegkleton] O significado de ambos os termos consiste em que o bispo não deve ser estigmatizado por nenhuma infâmia que leve sua autoridade ao descrédito. Certamente que não se encontrará nenhum homem que seja eximido de toda e qualquer mancha; mas, uma coisa é ser culpado de faltas comuns que não ferem a reputação de um homem, visto que os homens mais excelentes participam delas; e outra, completamente distinta, é ter um nome carregado de infâmia e manchado por alguma nódoa escandalosa. Portanto, para que os bispos não se vejam privados de autoridade, Paulo ordena que se faça uma seleção daqueles que desfrutem de excelente reputação e sejam eximidos de qualquer nódoa extraordinária. Além do mais, ele não está meramente influenciando a Timóteo sobre que tipo de homens deva ele escolher, senão que lembra a todos os que aspiram o ofício, que examinem atentamente sua própria vida.

Marido de uma só esposa. É um absurdo pueril interpretar isto como significando pastor de uma só igreja. Outra interpretação mais geralmente aceita é que o bispo não deve ter casado mais de uma vez; e, portanto, uma vez que sua esposa tenha morrido, ele então não seria mais um homem casado. Mas tanto aqui como no primeiro capítulo de Tito, as palavras de Paulo equivalem "que e marido", não "que o marido"; e, finalmente, no capítulo cinco, quando trata expressamente das viúvas, ele usa no tempo passado o particípio que aqui está no tempo presente. Além disso, se essa fosse sua intenção, ter-se-ia contraditado ao que diz em 1 Coríntios 7.35, que não desejava pôr um laço desse gênero às suas consciências. A única exegese correta é a de Crisóstomo, que o considera como uma expressa proibição de poligamia na vida de um bispo, numa

época quando ela era quase legal entre os judeus. Tal coisa se originou em parte de uma perversa imitação dos antigos pais -pois liam que Abraão, Jacó, Davi e outros foram casados com mais de uma esposa, concomitantemente, e assim criam que lhes era permitido proceder da mesma forma -, e em parte ela era uma corrupção aprendida dos povos circunvizinhos, porquanto os homens orientais nunca observaram o matrimônio conscienciosa e fielmente. Mas ainda que isso fosse assim, a poligamia certamente era muito prevalecente entre os judeus, e era mui oportuno que Paulo insistisse em que um bispo deveria ser uma pessoa isenta de tal nódoa.

E no entanto não discordo inteiramente daqueles que pensam que aqui o Espírito Santo estava impondo-lhes vigilância contra a diabólica superstição surgida em torno deste assunto pouco depois; como se dissesse: "Os bispos não devem ser compelidos ao celibato, porque o matrimônio é um estado sublimemente apropriado à vida de todos os crentes." Isso não demandaria que devessem casar-se, mas simplesmente enaltece o matrimônio como sendo ele de forma alguma incompatível com a dignidade de seu ofício.

Minha interpretação pessoal é mais simples e melhor fundamentada, a saber, que Paulo está proibindo aos bispos a prática da poligamia por ser ela o estigma de um homem impudico que não observa a fidelidade conjugai. Aqui poder-se-ia objetar que o que é pecaminoso a todos os homens não deveria ser condenado só no caso dos bispos. A resposta não é difícil. O fato de que ela é expressamente proibida aos bispos não significa que a mesma seja livremente permitida a outros, porquanto não pode haver dúvida de que em cada caso Paulo condenaria algo que fosse contrário à eterna lei de Deus. Porquanto o decreto divino é imutável: "Serão uma só carne" [Gn 2.24]. Mas ele poderia, até certo ponto, tolerar em outros aquilo que nos bispos era excessivamente desditoso e impossível de se tolerar. Tampouco se estabelece aqui uma lei para o futuro, ou seja, que o bispo que tenha uma esposa não pode casar-se com uma segunda ou com uma terceira, senão que Paulo está excluindo do episcopado os que foram no passado culpados de um escândalo desse gênero. Por conseguinte, o que já foi feito uma vez, e não se pode corrigir, deve ser tolerado, mas somente entre as pessoas comuns. Pois, qual era o remédio? Que aqueles que, dentro do judaísmo, haviam caído se divorciassem de sua segunda ou terceira esposa? Tal divórcio não ficaria isento de injustiça. Daí ele deixar em silêncio algo que era errôneo, com esta exceção: que ninguém, desfigurado por tal nódoa, seja um bispo.

Controlado. A palavra traduzida por Erasmo é Vigilante'. O termo grego, [nefaJios], contém ambos os significados; portanto, que os leitores façam sua escolha. Decidi traduzir [sofrona] por temperante em vez de sóbrio, pois temperança tem uma referência mais ampla que sobriedade. Uma pessoa organizada [ordeira] é alguém que se porta decente e honestamente.

Propenso à hospitalidade. Essa hospitalidade era praticada em referência a estranhos, e era uma prática muito comum na Igreja Primitiva, porquanto era vexatório para as pessoas honestas, especialmente para os que eram bem conhecidos, hospedar-se em estalagens. Em nossos dias as coisas são diferentes, e no entanto, por diversas razões, tal atitude será sempre uma virtude muitíssimo necessária num bispo. Além disso, naquele tempo de cruel perseguição aos crentes, para muitos era inevitável ter que mudar de residência subitamente, e os lares dos bispos tinham que ser refúgio para os exilados. Nesses tempos, a necessidade compelia os membros da Igreja a darem uns aos outros socorro mútuo, o que envolvia a hospitalidade. Se os bispos não abrissem caminho aos outros, no cumprimento do dever da hospitalidade, muitos teriam seguido seu exemplo, negligenciando a prática dessa benevolência, e assim os exilados pobres teriam sido deixados em desespero.

Apto para ensinar. A docência é mencionada com maior ênfase na carta a Tito, e aqui a habilidade para ensinar é tocada apenas de leve. Não é suficiente que uma pessoa seja eminente no conhecimento profundo, se não é acompanhada do talento para ensinar. Há muitos, seja por causa da pronúncia defeituosa, ou devido à habilidade mental insuficiente, ou porque não estejam suficientemente em contato com as pessoas comuns, o fato é que guardam seu conhecimento fechado em seu íntimo. Tais pessoas, como diz a frase, devem cantar para si próprias e para as musas - e vão e fazem qualquer outra coisa. Os que são incumbidos de governar o povo devem ser qualificados para a docência. E o que se exige aqui não é propriamente uma língua leviana, porquanto nos deparamos com muitos cuja livre fluência nada contém que sirva para edificar. Paulo está, antes, recomendando sabedoria no traquejo de aplicar a Palavra de Deus visando à edificação de seu povo.

É digno de nota o fato de que os papistas sustentam que neste ponto as regras de Paulo não se aplicam a eles. Não entrarei em todos os detalhes; mas, neste ponto, que sorte de preocupação eles mostram no tocante ao que Paulo diz? Para eles, o dom da docência é algo completamente supérfluo, o qual rejeitam como sendo vil e ordinário, ainda que, para Paulo, a mesma fosse uma preocupação especial e o principal cuidado dos bispos. Todos eles sabem quão longe estava da intenção de Paulo de poderem eles assumir o título de bispo e vangloriar-se de ser um manequim que nunca fala, senão que só aparecem em público vestidos de vestes teatrais. Como se uma mitra comuda, um anel ricamente engastado de jóias, uma cruz de prata e outras bagatelas mais, acompanhados de uma exibição ociosa constituíssem o governo espiritual de uma igreja, a qual de fato não pode separar-se do ensino mais que a um homem é possível separar-se de sua alma.

Não esbravejador. Com este termo os gregos descreviam não apenas a embriaguez, mas qualquer tipo de viciado bebedor de vinho. Beber com excesso não é só indecoroso num pastor, mas geralmente resulta em muitas coisas ainda piores, tais como rixas, atitudes néscias, ausência de castidade e outras que não carecem de menção. Mas a antítese seguinte mostra que Paulo vai ainda mais longe, porque, assim como ele contrasta um agressor com alguém que é manso, e uma pessoa que deseja lucros desonestos, com alguém destituído de cobiça, assim ele contrasta um [paroinous], o bebedor de vinho, com alguém que é manso e bondoso. A interpretação de Crisóstomo é correta, a saber, que os homens inclinados à embriaguez e à violência devem ser excluídos do ofício episcopal. Mas, quanto à sua opinião de que um agressor sifnifica alguém que agride com sua língua, isto é, que se entrega a calúnias ou a acusações injuriosas, não me é possível concordar. Não me sinto convencido por seu argumento de que não é de muita relevância se um bispo é ou não um homem que fere com as mãos, pois creio que, aqui, Paulo está repreendendo de uma forma geral a ferocidade militar comum entre os soldados, mas que é completamente imprópria nos servos de Cristo. E notório quão ridículo é estar mais disposto a dar um murro ou puxar a espada do que apaziguar as rixas de outras pessoas pelo exercício da autoridade responsável. Portanto, com o termo, Violentos' Paulo quer dizer aqueles que fazem muitas ameaças e que são de temperamento belicoso.

Todas as pessoas cobiçosas são amantes do dinheiro. Pois toda avareza traz sobre si essa vileza de que o apóstolo está falando. 'Aquele que quer ficar rico, também quer ficar rico depressa", disse Juvenal. O resultado é que todos os cobiçosos, ainda que sua cobiça não se manifeste francamente, devotam-se a adquirir lucros desonestos e ilícitos. Com esse vício ele contrasta o desinteresse pelo dinheiro, já que não existe outro meio de corrigir-se. Repito que, aquele que não suportar a pobreza paciente e voluntariamente, inevitavelmente se tornará uma vítima da vil e sórdida cobiça.

Com o violento ele contrasta aquele que é manso e inimigo de contendas. Pessoa mansa ou amável é o oposto de pessoa que se entrega ao vinho, e é uma palavra usada por quem sabia como suportar as injúrias pacificamente e com moderação, que perdoava muito, que engolia insultos, que não se amedrontava quando se fazia necessário ser corajosamente severo, nem rigorosamente cobrava tudo o que lhe era devido. A pessoa que é inimiga de contendas é aquela que foge das demandas e rixas, como ele mesmo escreve: "Os servos do Senhor não devem ser contenciosos" [2 Tm 2.24].

Se um homem, porém, não sabe governar sua própria casa. Paulo não está a exigir de um bispo que o mesmo seja inexperiente na vida humana ordinária; antes, porém, que seja um bom e provado chefe de família. Porquanto, seja qual for a admiração comumente direcionada para o celibato e para uma vida filosófica e completamente desligada do viver comum, contudo os homens sábios e precavidos estão convencidos, pela própria experiência, de que aqueles que conhecem a vida comum e são bem práticos nos deveres que as relações humanas impõem, estão melhor preparados e adaptados para governar a Igreja. No próximo versículo ele explica isso, dizendo que aquele que não sabe como governar sua própria família não está apto para governar a Igreja de Deus. Ora, esse é na verdade o caso de muitos bispos e de quase todos os que vivem por muito tempo uma vida ociosa e solitária à semelhança de animais em covis e cavernas; pois são como selvagens e destituídos de toda humanidade.

Mas o homem que aqui conquista a aprovação do apóstolo não é aquele que é engenhoso e profundamente instruído nos assuntos domésticos, mas aquele que aprendeu a governar sua família com saudável disciplina. Sua referência é especialmente aos filhos de quem se espera saibam refletir a disposição de seu pai. Por conseguinte, seria uma imensa desgraça para um bispo que tenha filhos que levam vida dissoluta e escandalosa. Das viúvas ele trata mais adiante; aqui, porém, como já disse, ele toca de leve na principal parte da vida familiar.

No primeiro capítulo de Tito, ele mostra o que pretende ao usar a palavra seriedade. Pois havendo dito que os filhos de um bispo não devem ser rebeldes e desobedientes, imediatamente adiciona que não devem ser passíveis de repreensão por dissolução ou intemperança. Sua intenção é, em suma, que seu comportamento seja regulado em toda a castidade, modéstia e seriedade. O argumento procede do menor para o maior, e é sobejamente evidente que um homem que não é apto para governar sua própria família será plenamente incapaz de governar todo um povo. Além disso, o fato de ele, obviamente, ser destituído das qualidades necessárias, que autoridade pode um homem ter no seio de um povo quando sua própria vida familiar o faz desprezível?

Não seja neófito. Naquele tempo, muitos homens de extraordinária habilidade e cultura estavam sendo conduzidos à fé. Paulo, porém, proíbe que se façam bispos aos que recentemente tenham professado a Cristo. E ele mostra quão danoso seria tal expediente. Pois é evidente que os neófitos na fé geralmente são fúteis e dominados pela ostentação, de modo que a arrogância e a ambição facilmente os levam a se desertarem. O que Paulo diz aqui podemos confirmar evocando nossa própria experiência; pois os neófitos não são simplesmente ousados e impetuosos, mas também inchados de néscia confiança em si próprios, como se fossem capazes de fazer o que nunca experimentaram. Portanto, não é sem razão que sejam eles excluídos da honra do episcopado, até que, com o passar do tempo, suas noções extravagantes tenham sido subjugadas.

Incorra na condenação do diabo pode ser interpretado de três formas. Enquanto que alguns pensam que [diabolos] significa Satanás, outros crêem que significa caluniadores. Sinto-me inclinado para o primeiro ponto de vista, pois o termo latino, indicium, raramente significa calúnia. Uma vez mais, porém, é possível entender a condenação de Satanás no sentido ativo ou passivo. Crisóstomo a toma passivamente, e concordo com ele. Há uma antítese elegante que realça a enormidade do caso: "Para não suceder que aquele que é posto sobre a Igreja de Deus, movido de orgulho, caia na mesma condenação em que caiu o diabo." Não obstante, não descarto o significado ativo, a saber, que tal homem dará ao diabo ocasião para condená-lo. A tradução de Crisóstomo, porém, se aproxima mais da verdade.

Deve desfrutar do bom testemunho dos de fora. Parece muito difícil imaginar que um crente piedoso deva ter, como testemunhas de sua integridade, a incrédulos que estão mais solícitos em forjar mentiras contra ele. O apóstolo, porém, quer dizer que, no que concerne ao comportamento externo, mesmo os incrédulos devem esforçar-se por reconhecer que ele [o crente] é uma boa pessoa. Pois ainda que sem causa coluniem todos os filhos de Deus, todavia não podem afirmar que alguém seja perverso quando na verdade leva uma vida boa e inofensiva na presença de todos. Essa é a sorte de reconhecimento de retidão que Paulo está a referir-se aqui.

A razão ele adiciona aqui: a fim de não cair no opróbrio e no laço do diabo, o que ele explica assim: não suceda que, estando exposto à infâmia, comece a endurecer seu coração e se entregue mais livremente a todos os tipos de perversidade, o que, aliás, equivaleria a colocar-se voluntariamente nos laços do diabo. Pois que esperança restaria para alguém que peca sem qualquer laivo de pudor?


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