28 janeiro, 2011

0 Seja Feita a Tua Vontade – João Calvino



Pedimos aqui que Deus governe e dirija tudo sobre a terra segundo a sua vontade, como faz no céu; que dirija todas as coisas para o fim que lhe parecer bom, servindo-se de todas suas criaturas segundo lhe apraz, e dominando todas as vontades.

Ao pedirmos isto, renunciamos a todos nossos desejos próprios, submetendo e consagrando ao Senhor tudo o que há disponível em nós, e pedindo-lhe que conduza as coisas não segundo nossos desejos, senão como quiser e decidir Ele.

Deste modo lhe pedimos não só que nossos desejos sejam feitos vãos e sem nenhum efeito quando se opõem a sua vontade, senão que crie em nós um espírito e um coração novos, mortificando os nossos de modo tal que não surja neles nenhum desejo sem o completo consentimento de sua vontade.

Em resumo: pedimos não desejarmos nada a não ser o que o Espírito deseje em nós, e que por meio de sua inspiração aprendamos a amar tudo quanto lhe é grato, e a odiar e detestar tudo o que lhe desagrada.

O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DÁ HOJE

Pedimos aqui, de um modo geral, tudo o que dentre as coisas deste mundo é útil para o cuidado de nossa existência; não só o alimento e o vestido, senão tudo o que Deus sabe que necessitamos para que possamos comer nosso pão em paz. Para dizê-lo brevemente: nos acolhemos com esta petição à providência do Senhor, e nos confiamos a sua solicitude para que nos alimente, cuide e conserve. Pois este bom Pai não tem em menos guardar com solicitude inclusive o nosso corpo. Deste modo, exercita nossa confiança nEle até nos menores pormenores, fazendo que esperemos dEle tudo o que nos é necessário: até a última migalha de pão ou gota d'água. Ao dizer: Dá-nos hoje nosso pão cotidiano, provamos que não devemos desejar mais que o que necessitamos para o dia, com a confiança que, depois de alimentar-nos hoje, nosso Pai também o fará amanhã.

Ainda no caso de viver atualmente em abundância, sempre devemos pedir nosso pão cotidiano, reconhecendo que nenhum meio de existência tem sentido senão em quanto que o Senhor o faz prosperar e aproveitar com sua bênção. Pois o que possuímos não é nosso senão na medida em que Deus nos concede seu uso hora após hora e nos faz participar de seus bens. Ao dizer "pão nosso", a bondade de Deus se manifesta ainda mais, fazendo nosso o que por nenhum título nos era devido. Finalmente, ao pedir que nos seja dado este pão, significamos que tudo o que adquirimos —ainda o que achamos que ganhamos com nosso trabalho—, é puro e gratuito dom de Deus.

PERDOA NOSSAS DÍVIDAS, ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS OS NOSSOS DEVEDORES

Pedimos agora que se nos conceda graça e remissão de nossos pecados, pois são necessárias a todos os homens sem exceção alguma.

Chamamos de dívidas as nossas ofensas, pois devemos a Deus a pena como pagamento das mesmas, e não poderíamos de modo algum satisfazer por elas se não estivéssemos absolvidos por essa remissão que é um perdão gratuito de sua misericórdia.

E pedimos que nos seja dado o perdão como nós o damos aos nossos devedores, quer dizer: como nós perdoamos àqueles que nos magoaram de algum modo, que nos ofenderam com atos, ou que nos injuriaram com palavras. Não se trata aqui de uma condição que se agrega, como se merecêssemos, pelo perdão que concedemos a outrem, que Deus no-lo dê a nós. Senão que é uma prova que Deus nos propõe para testemunhar que o Senhor nos recebe em sua misericórdia com a mesma certeza que nós temos em nossas consciências de sermos misericordiosos com os outros, se é que nosso coração está também purificado de todo tipo de ódio, inveja e vingança.

Ao contrário, por esta prova ou sinal, Deus apaga do número de seus filhos àqueles que, deixando-se levar pela vingança e recusando-se a perdoar, mantêm suas inimizades arraigadas em seus corações. Que não pretendam os tais invocar a Deus como Pai deles, pois a indignação que abrigam a respeito dos homens cairá então sobre eles.

E NÃO NOS DEIXES CAIR NA TENTAÇÃO, MAS LIVRA-NOS DO MAL, AMÉM.

Não pedimos aqui não ter que sofrer nenhuma tentação. Temos grandíssima necessidade de que as tentações nos despertem, estimulem e sacudam, pois corremos o perigo de converter-nos em seres amorfos e preguiçosos se permanecermos numa calma excessiva. Cada dia o Senhor prova seus escolhidos, adestrando-os por meio da ignomínia, a pobreza, a tribulação e outras classes de cruzes.

Porém nossa demanda consiste em pedir que o Senhor nos dê também, ao mesmo tempo que as tentações, o meio de sair delas, para não sermos vencidos e esmagados; antes, fortalecidos com a força de Deus, poder manter-nos constantemente contra todos os poderes que nos assaltam.

Mais ainda: uma vez salvaguardados e protegidos por Ele, santificados com as graças de seu Espírito, governados pela sua direção, seremos invencíveis contra o Diabo, a morte e toda classe de artifício do inferno —que é o que significa estarmos livres do mal u do Maligno.

Devemos perceber como quer o Senhor que nossas orações estejam conformes à regra do amor, pois não nos ensina a pedir cada um para si o que é bom, sem olharmos para o nosso próximo, senão que nos ensina a preocupar-nos pelo bem de nosso irmão como do nosso próprio.

PERSEVERAR NA ORAÇÃO

Para terminar, devemos observar que não podemos pretender ligar a Deus a alguma circunstância, da mesma forma que nesta oração dominical nos ensina a não submetê-lo a nenhuma lei nem impor-lhe nenhuma condição.

Antes de dirigi-lhe em nosso favor alguma oração, dizemos primeiramente: "Seja feita a tua vontade". Deste modo submetemos de antemão nossa vontade à dEle para que, detida e retida como por uma brida, não tenha a presunção de querer submetê-lo ou dominá-lo.

Se, uma vez educador nossos corações nesta obediência, nos deixarmos governar pelo bom querer da divina providência, aprenderemos com facilidade a perseverar na oração e a esperar no Senhor com paciência, rejeitando a realização de nossos desejos até que soe a hora de sua vontade. Estaremos também seguros de que, ainda que às vezes possa parecer-nos outra coisa, Ele está sempre presente junto de nós, e que a seu devido tempo manifestará que jamais fez ouvidos surdos a nossas orações, embora segundo o juízo dos homens tenha podido parecer que as menosprezava.

Finalmente, se depois de uma longa espera, inclusive nossos sentidos não chegam a captar de que nos tem servido orar, nem percebem fruto algum de nossa oração, nossa fé contudo nos garantirá o que nossos sentidos não podem perceber: que conseguimos tudo o que era necessário. Pela fé possuiremos então abundância na necessidade e consolo na dor. De fato, embora tudo nos falte, Deus jamais nos abandonará, pois não pode frustrar a espera e a paciência dos seus; e Ele sozinho substituirá todas as coisas, já que contém em si mesmo todos os bens, o qual nos revelará totalmente no futuro.

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25 janeiro, 2011

0 Deus emprega de modo justo agentes ímpios - João Calvino



Uma dificuldade maior é-nos apresentada por aquelas passagens das Escrituras onde se diz que o próprio Satanás e todos os ímpios são controlados e dirigidos pela vontade de Deus. Pois a mente natural dificilmente pode compreender como Deus pode operar pela instrumentalidade deles, e ainda permanecer livre de toda a culpa e lavrar uma sentença justa contra Seus próprios agentes. Para enfrentar esta dificuldade, alguns inventaram uma distinção entre aquilo que Deus faz e aquilo que Ele permite. Mas isso, embora seja bem intencionado, é uma tentativa para vindicar a honra de Deus por meio de uma teoria falsa; porque Ele mesmo repudia tal defesa ao dizer claramente que faz as coisas referidas. Inúmeras passagens das Escrituras comprovam claramente que os homens não realizam nada senão de acordo com o decreto sigiloso de Deus. Quando o salmista diz: "No céu está o nosso Deus; e tudo faz como lhe agrada" (Sal. 115:3), fica evidente que isto inclui todas as ações dos homens; e esta verdade é vista mais claramente em ocorrências especiais. Sabemos pelo livro de Jó que Satanás se apresenta diante de Deus para receber ordens tanto quanto os santos anjos que obedecem de boa vontade. Logo, quando Satanás e os sabeus afligiram e roubaram a Jó, ele reconheceu que a mão de Deus o fizera, e disse: "O Senhor o deu, e o Senhor o tomou." Da mesma maneira, quando foi da vontade de Deus que Acabe fosse enganado, "Então saiu um espírito e se apresentou diante do Senhor, e disse: Eu o enganarei."

Disse o Senhor: "Tu o enganarás, e ainda prevalecerás; sai, e faze-o assim." Se a cegueira e a estulticia de Acabe lhe sobrevieram como julgamento da parte de Deus, a teoria de uma simples permissão é vã; porque seria absurdo para um juiz meramente permitir a execução de uma sentença, e não decretar que fosse executada. E mais: era o propósito dos judeus destruir a Cristo; Pilatos e os soldados cumpriram seus desejos furiosos, mas os discípulos confessaram na linguagem solene da oração que os ímpios fizeram somente o que a mão de Deus e o Seu propósito predeterminaram (At. 4:27-28). Eu poderia aduzir muitos outros exemplos de outras partes das Es-crituras.

Aquilo que Salomão diz a respeito do coração do rei, isto é, que está na mão do Senhor que o dirige para onde quiser, é igualmente verdadeiro acerca dos corações de to¬dos os homens. Até os conceitos de nossas mentes são dirigidos pelo poder sigiloso de Deus para cumprir Seus propósitos. Nada pode comprovar isto mais claramente do que o fato de que Deus tão freqüentemente nos diz que cega as mentes dos homens, aflige-os com delírio, derrama sobre eles o espírito do sono, fere-os com loucura, endurece seus corações. (Ver Rom. 1:26 e 11:8). Muitos, conforme dissemos, atribuem todas estas declarações à "vontade permissiva de Deus" mas esta solução não me parece sábia, visto que o Espírito Santo expressamente declara que a cegueira e a loucura são infligidas sobre os ímpios pelo reto juízo de Deus.

Até este ponto tenho apenas exposto o que é aberta e claramente ensinado nas Escrituras; portanto considerem que tipo de censura tomam sobre si todos aqueles que estigmatizam os oráculos sagrados com difamação. Se disserem, "Tais coisas estão além do nosso conhecimento, e queremos crédito pela nossa modéstia em deixá-las como estão", eu respondo: "O que pode ser mais arrogante do que falar uma única sílaba contra a autoridade de Deus, e dizer: "Eu penso de modo diferente", ou "É melhor não tocar em tais doutrinas?" Semelhante arrogância não é novidade; pois em todos os tempos houveram homens ímpios, sem Deus, que.têm atacado esta verdade como cães furiosos. Tais insolentes descobrirão que as palavras de Davi são verídicas, que Deus "será tido por justo... no seu julgar" (Sal. 51:4).

Tem-se argumentado que, se nada acontece senão segundo a vontade de Deus, então Ele deve ter duas vontades contrárias, pois secretamente decreta o que na Sua lei abertamente proíbe. É fácil desmascarar esta falácia, mas antes de fazer isso, deixem-me lembrar aos meus leitores que se trata de uma cavilação contra o Espírito Santo e não contra mim; pois o Espírito Santo certamente ensinou a Jó a dizer: "O Senhor o tomou", quando salteadores o despojaram dos seus bens. Está escrito também que os filhos de Eli não obedeciam a seu pai, porque o Senhor resolvera matá-los (1 Sam. 2:25). Assim também, em tempos posteriores, a Igreja diz que Herodes e Pilatos conspiraram juntos para fazerem o que a mão de Deus e o Seu propósito predeterminaram (At. 4:27-28). Realmente, se Cristo não tivesse sido crucificado pelo desígnio de Deus, como poderíamos ter obtido a redenção?

O fato é que Deus não está em desacordo com Si mesmo, nem sofre mudança Sua vontade, nem finge que não deseja as coisas que deseja. Sua vontade é una e indivisa, mas parece-nos, por causa da fraqueza do nosso entendimento, que está em desacordo com ela mesma. Sobre este assunto Agostinho tem uma declaração com a qual todas as pessoas piedosas concordarão: "Alguns homens têm bons desejos que não estão de acordo com a vontade de Deus, e outros têm maus desejos que estão de acordo com a vontade de Deus. Por exemplo, um bom filho pode corretamente desejar que seu pai viva, ao passo que é a vontade de Deus que morra; e um mau filho pode maldosamente desejar que seu pai morra, quando é também a vontade de Deus que o pai morra. E mesmo assim, o filho piedoso agrada a Deus ao desejar aquilo que não é da vontade de Deus; enquanto o filho ímpio desagrada a Deus ao desejar aquilo que é da vontade de Deus." Deus às vezes cumpre Seus propósitos justos mediante os maus propósitos dos ímpios. O mesmo escritor (Agostinho) diz que ós anjos apóstatas e todos os ímpios, no que lhes dizia respeito, fizeram aquilo que era contrário à vontade de Deus; mas, quanto à Sua onipotência, era impossível para eles fazerem qualquer coi¬sa contra a Sua vontade; pois, enquanto agem em oposição à vontade de Deus, ela é cumprida por eles. Acrescenta que um Deus bom não permitiria que» o mal fosse feito, a não ser que um Deus onipotente pudesse transformá-lo em bem.

Uma resposta semelhante pode ser dada a outra objeção que tem sido feita contra a verdade que agora estamos considerando. A objeção é a seguinte; Se Deus não somente emprega a instrumentaíidade dos ímpios, como também governa seus planos e paixões, porventura não seria Ele o autor de todos os seus crimes? E quanto aos homens que estão sujeitos à Sua vontade, não estariam injustamente condenados por cumprirem Seus decretos? Este falso raciocínio confunde a vontade de Deus com Seu mandamento, embora fique evidente por muitos exemplos que há uma diferença muito grande entre eles. Foi a vontade de Deus que o adultério de Davi fosse vingado pela imoralidade de Absalão (com as concubinas do seu pai); mas não se segue que Deus ordenou a Absalão cometer tal ato incestuoso; a não ser que possamos falar assim a respeito de Davi, da mesma ma¬neira que ele fala das maldições de Simei. Quando o rei disse: "Deixai-o, que amaldiçoe, pois o Senhor lhe ordenou" (2 Sam. 16:11), de modo algum recomendava Simei por sua obediência a Deus; mas, reconhecendo que a língua maligna daquele homem era o flagelo de Deus, submeteu-se pacientemente a ser castigado por ela. Devemos apegar-nos firmemente ao princípio de que os ímpios, por cujo inter¬médio Deus realiza os Seus justos julgamentos e decretos, não devem ser considerados inculpáveis como se tivessem obedecido ao Seu mandamento, mandamento este que atrevida e deliberadamente quebram.

É sábio abraçarmos com mansidão e humildade tudo quanto é ensinado nas Sagradas Escrituras. Aqueles que têm a insolência de difamar suas doutrinas soltam suas lín¬guas contra Deus e não são dignos de mais refutação.
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19 janeiro, 2011

0 A Veracidade das Escrituras - João Calvino - 1509 - 1564



  PROVAS  SÓLIDAS  E  RACIONAIS  QUE  SERVEM  PARA CONFIRMAR A VERACIDADE DAS SAGRADAS ESCRITURAS

A não ser que os homens possuam a certeza da qual falei, certeza esta que é mais alta e mais forte do que aquela que a razão humana possa oferecer, é vão defender a autoridade das Escrituras por argumentos ou estabelecê-la pela aprovação da Igreja; pois a não ser que este fundamento seja posto, a incerteza permanecerá no coração. Por outro lado, uma vez que tenhamos abraçado as Escrituras de uma forma que não fazemos com nenhum outro livro, com uma reverência à altura da dignidade delas, aquelas considerações que originalmente eram insuficientes para convencer nossos corações agora se tornam muito benéficas à nossa fé. Ficamos maravilhosamente consolidados quando consideramos a ordem e o arranjo dos seus tesouros de sabedoria divina, a pureza excelsa de suas doutrinas, a bela concordância de todas as suas partes e outros aspectos que as revestem de majestade. E nossos corações ficam ainda mais consolidados quando observamos que nossa admiração é excitada, não pelas belezas da linguagem, e sim pela dignidade das coisas reveladas. É, pois, uma providência singular da sabedoria de Deus que os mistérios sublimes do reino dos céus fossem revelados, na sua maior parte, num estilo simples e humilde. Se tivessem sido adornados com o esplendor da  eloqüência, os  ímpios teriam feito a objeção capciosa de que seu poder se devia apenas à beleza da linguagem em que foram apresentados. Conforme as coisas são na realidade, a simplicidade natural e quase corriqueira das Escrituras pede de nós mais reverência do que toda a eloqüência dos oradores; e apenas podemos concluir que as verdades ensinadas são por demais poderosas para precisarem da ajuda artificial de palavras habilidosas. Assim sendo, o apóstolo Paulo argumenta que a fé dos coríntios se firmava, não na sabedoria dos homens, e sim no poder de Deus, porque a pregação dele fora feita, não com palavras persuasivas da sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder (1  Cor. 2:4).

Vê-se que este poder é peculiar às Escrituras, pelo fato de que nenhum escrito humano, por mais bela que seja sua linguagem, pode afetar-nos da mesma maneira. Leia os escritos dos maiores oradores e filósofos do mundo; reconheço que te atrairão, deleitarão e comoverão as tuas afeições de modo maravilhoso; mas se te dedicares, em seguida, à leitura da Palavra de Deus, ela te afetará tão poderosamente, entrará tão profundamente no teu coração, tomará posse de tal maneira dos teus sentimentos mais íntimos, que o poder da oratória e o da filosofia parecerão como nada em comparação com ela.

Admito que alguns dos profetas usam um estilo literário tão elegante, polido e até mesmo esplêndido, que sua eloqüência não é inferior àquela dos grandes escritores do mundo. Mediante tais exemplos o Espírito demonstrou que não foi falta de eloqüência que O induziu a empregar em outros lugares um estilo simples e tosco. No entanto, quer leias a bela dicção de Davi e Isaías, quer a linguagem sem adornos de Jeremias ou Amos, a majestade do Espírito é conspícua em todos os lugares. Todos os profetas ultrapassam em muito os limites da excelência humana, e um leitor que não pode desfrutar dos escritos deles deve estar destituído de todo o bom gosto.

Até mesma a antigüidade das Escrituras não está sem peso. Todo documento religioso é muito posterior à era de Moisés, embora muitas histórias fabulosas tenham sido contadas acerca da teologia do Egito. Nem sequer Moisés apresentou um Deus novo, mas sim o Deus eterno, acerca de quem os israelitas ouviram de seus pais mediante as tradições transmitidas de geração em geração; ele simplesmente chama-os de volta à aliança que Deus fizera com Abraão; doutra forma, não teriam escutado.

O modo desinteressado de Moisés comprova sua honestidade. Quando, pois, registra a profecia de Jacó, não procura engrandecer sua própria tribo, a tribo de Levi; pelo contrário, ferreteia-a com a marca da infâmia — "Simeão e Levi são irmãos; as suas espadas são instrumentos de violência. No seu secreto conselho não entre minha alma com a sua congregação minha glória não se ajunte" (Gen. 49:5-6). Certamente poderia ter deixado passar em silêncio esta parte, de tal maneira que salvasse a reputação da sua tribo, bem como seu próprio bom nome e o de toda a sua família. De modo semelhante, registra fielmente as murmurações de Arão e Miriã (Num. 12:1). Além disso, embora possuísse a mais alta autoridade, atribuiu a honra do sacerdócio, não aos seus próprios filhos, e sim aos filhos de Arão.
Os numerosos milagres que ele registra são tantas confirmações da autoridade das suas leis e da veracidade da sua doutrina; subiu em densas trevas ao monte, e ficou lá em solidão durante quarenta dias; seu rosto brilhou como o sol; raios caíam em derredor, e o ribombar dos trovões enchia o ar; uma trombeta não tocada por boca humana tornou-se cada vez mais estridente; quando entrava no tabernáculo, uma nuvem ocultava-o dos olhos do povo; sua autoridade foi milagrosamente vindicada pela terrível destruição de Core, Data e Abirão e toda a facção deles; a água jorrava da rocha diante do toque da sua vara; o maná chovia do céu diante da oração dele. Porventura tudo isto não é o testemunho do próprio Deus à inspiração do Seu servo? Se alguém objetar que estou tomando por certo coisas que são discutíveis, a resposta é fácil: quando Moisés proclamou todas estas coisas diante da congregação de Israel, como teria sido possível para ele impor um falso relato sobre aqueles que foram testemunhas oculares das cenas referidas? Será provável que ele veio diante do povo com acusações de descrença, rebeldia, ingratidão e outros crimes, e, ao mesmo tempo, reivindicou para sua doutrina a sanção de milagres que o povo nunca tinha visto? É também digno de' nota que os milagres aos quais Moisés se refere são freqüentemente ligados com eventos desonrosos ao povo de tal forma que este teria protestado contra suas declarações se tivesse sido possível assim fazer. Fica claro, portanto, que os israelitas somente admitiram a veracidade das suas palavras porque estavam plenamente convictos dela pela sua própria experiência.

Agora aduzirei algumas provas da inspiração dos demais profetas. Nos tempos de Isaías, o reino de Judá estava em paz, e até mesmo confiava na Caldéia como fonte de ajuda; mesmo assim, Isaías previu a destruição da cidade pelos caldeus e o exílio do povo para a Babilônia. Mencionou, também, Ciro pelo nome, como um libertador que haveria de conquistar os caldeus e restaurar a liberdade aos cativos. Depois desta profecia, passaram-se mais de cem anos até que Ciro nascesse. Ninguém poderia então prever que haveria um certo Ciro, que guerrearia contra a Babilônia, que subjugaria seu poderoso império, e que poria fim ao cativeiro dos israelitas. Porventura esta simples narrativa, sem qualquer adorno de palavras, não nos mostra que os pronunciamentos de Isaías não eram conjecturas humanas, e sim os oráculos de Deus?

Acaso, quando Jeremias, pouco antes do povo ser levado para o cativeiro, predisse que a duração do cativeiro seria de setenta anos e previu a volta, não teria sido sua lingua guiada pelo Espírito de Deus? A esta prova Isaías também apela, quando diz: "Eis que as primeiras coisas passaram e novas coisas eu vos anuncio; e, antes que venham à luz, vo-las faço ouvir" (Is. 42:9). E Daniel não previu o futuro seiscentos anos antes e compôs suas profecias as¬sim como se estivesse escrevendo uma história de eventos passados e bem conhecidos?

Estou ciente das objeções feitas por certos homens in-dignos, que desejam demonstrar sua própria esperteza ao assaltar a verdade de Deus. Perguntam: quem pode provar que Moisés e os profetas realmente escreveram os livros que levam seus nomes? Ademais, até mesmo ousam levantar a questão da existência real de uma pessoa tal como Moisés. Todavia, se perguntássemos: já existiu um Platão, um Aristóteles, um Cícero, seríamos considerados culpados da estultícía mais absurda. A lei de Moisés foi  milagrosamente preservada pela providência de Deus; e embora por algum tempo ficasse soterrada devido a negligência dos sacerdotes, não obstante, desde o dia em que o bom rei Josias a descobriu, ela tem estado nas mãos dos homens por sucessivas gerações.

Uma objeção tem sido fundamentada na história dos Macabeus. Visto que Antíoco ordenou a queima de todos os livros sagrados, de onde vieram então os exemplares que agora possuímos? Podemos facilmente voltar este argumento contra nossos adversários e perguntar-lhes: nesse caso, em que oficina poderiam ser tão rapidamente fabricados? Pois é bem conhecido que tão logo a fúria da perseguição passou, foram achados em existência, e foram reconhecidos como genuínos, sem contestação por todos os piedosos que foram criados na sua doutrina e que pos¬suíam íntimo conhecimento do seu conteúdo. Quem pode deixar de reconhecer a maravilhosa obra de Deus na pre¬servação deles naquela época e no suceder de todos os desastres subseqüentes dos judeus? E por qual instrumentalidade Deus conservou para nós a doutrina da salvação e da revelação de Cristo contidas na lei e nos profetas? Pelos judeus, os inimigos mais figadais do próprio Cristo.

Quando chegamos ao Novo Testamento, descobrimos que sua veracidade está firmada em alicerces igualmente sólidos. Três dos evangelistas relatam sua história num estilo humilde e sem adornos. Os orgulhosos freqüentemente desprezam esta simplicidade; não observam a substância da doutrina, que claramente prova que os escritores estão tratando de mistérios celestiais que transcendem a capacidade da mente humana. Mesmo assim, os sermões de Cristo, que são sumarizados de modo breve por estes evangelistas, facilmente erguem os seus escritos acima do des¬prezo. João, porém, trovejando das alturas, confunde, como através de um raio, a obstinação de todos quantos não conseguem trazer à obediência da fé. De modo semelhante, os escritos de Paulo e Pedro compelem nossa admiração devido sua celestial majestade. E, no entanto, Mateus veio da recebedoria de impostos, e Pedro e João dos seus barcos de pesca; enquanto que Paulo, de inimigo aberto e perseguidor sanguinário, foi transformado num novo homem, e ele afirma que foi  compelido  pelo  mandamento  celestial  a  sustentar  a  doutrina  que  dantes   empenhou-se   para destruir.

E não nos esqueçamos que, embora Satanás e o mundo tenham procurado de várias maneiras esmagar, transtornar ou obscurecer a Palavra de Deus, entretanto, ela sempre tem-se saído vitoriosa da luta e permanecido invencível.

Há outras razões, não poucas nem fracas, que confirmam a dignidade das Escrituras nos corações dos piedosos e que vindicam a sua autoridade contra as maquinações dos difamadores; mas tais razões não conseguem transmitir a fé até que nosso Pai celestial, ao revelar Seu poder na Sua Palavra, a ergue acima de suspeita. Realmente, é absurdo procurar provar para os descrentes que as Escrituras são a Palavra de Deus; porquanto isto somente pode ser percebido mediante a fé.
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15 janeiro, 2011

0 A Criação do Homem – João Calvino – 1509 - 1564



Agora devemos falar da criação do homem, não simplesmente porque ele, entre todas as obras de Deus, é o exemplo mais notável da justiça, sabedoria e bondade do Criador, mas porque, conforme já dissemos, não podemos ter um conhecimento claro e real de Deus sem algum conhecimento correspondente de nós mesmos.

Deste conhecimento há dois ramos, a saber, o conhecimento do homem conforme originalmente foi criado, e o conhecimento da condição do homem desde a queda de Adão. No momento, restringiremos nossa atenção ao primeiro deles. Pois antes de tratarmos do estado miserável ao qual o homem caiu, vale a pena lembrar-nos daquilo que ele era originalmente, a fim de que não pareça que atribuímos a maldade do homem ao Autor da natureza. O homem pensa que tem uma desculpa suficiente pela sua maldade se pode alegar que as falhas da sua natureza procedem, dalguma maneira, de Deus; e até mesmo aqueles que afetam falar com uma medida de reverência acerca de Deidade alegremente agarram alguma desculpa para sua depravação ao atribuí-la à natureza, sem refletir que isto é uma ofensa indireta contra Deus, que seria desonrado pela presença do mal na obra das Suas mãos. Tendo, portanto, percebido que a carne procura achar tudo quanto é desculpa mediante a qual possa colocar a culpa da sua própria iniqüidade nas mãos de qualquer pessoa, senão ela mesma, devemos diligentemente procurar evitar tal coisa, falando da ruína da humanidade de tal maneira que anule toda desculpa do pecador, e vindicar a justiça de Deus de toda a acusação.

Não pode ser contestado com razão que o homem consiste  em  corpo  e  alma;   e  com  "alma"  quero  dizer  uma essência imortal, embora seja criada, que é a parte mais nobre dele. Às vezes é chamada espírito. Pois embora estas duas palavras, alma e espírito, tenham cada uma seu próprio significado especial  quando  usadas juntas, todavia,  a palavra "espírito" empregada sozinha tem o mesmo signi¬ficado que "alma" como, por exemplo, quando Salomão diz que o espírito volta para Deus que o deu (Ec. 12:7). Cristo entregou Seu espírito ao Pai, e Estêvão entregou seu espírito a Cristo, o que significa que quando a alma é liberta da prisão (o corpo) Deus é seu guardião constante. Aqueles que imaginam que a alma é chamada "espírito" porque é um mero sopro, ou uma força que Deus insuflou no corpo, sem existência ou essência própria, são culpados de insen¬satez grosseira;   isso fica evidente pela  natureza  do caso e   pelo   testemunho   universal   das   Escrituras.   É   verdade que os  homens  afundados  no  materialismo  são tão  obtusos, ou até mesmo tão cegos pelas trevas  (estando alie¬nados  do  Pai  das  luzes), que  se  esquecem  de que terão uma existência além da morte; e, no entanto, no meio das suas trevas, a luz não está tão totalmente apagada que os tenha deixado sem algum senso da sua própria imortalidade. A consciência, que reage ao julgamento de Deus e assim discerne entre o bem e o mal, é uma indicação segura da imortalidade. Como poderia mero motivo, sem essência, penetrar   no   tribunal   de   Deus   e   sentir   terror   diante   da aproximação do julgamento? Porquanto o temor do castigo espiritual  não afeta o corpo, mas sim recai sobre a alma somente; segue-se, daí, que a alma está dotada de essência ou existência pessoal. Até mesmo o conhecimento que os homens têm de  Deus  é  prova suficiente que suas  almas são imortais, pois um sopro, ou uma influência evanescente, não atingiria a fonte da vida. Finalmente, as muitas faculdades esplêndidas que a mente humana possui, bradando que a alma tem o carimbo da divindade, são tantas provas da sua existência imortal  e pessoal. O senso possuído pelos brutos, pois, não vai além do corpo, ou, no máximo, estende-se a objetos com os quais se encontram; mas a atividade da mente  humana atravessa o  céu  e  a terra,  penetra  os segredos da  natureza,  compreende e  se  lembra  do  curso das eras e infere coisas futuras baseadas nas coisas passadas, o que prova claramente que alguma coisa distinta do corpo jaz oculta no homem. Nosso pensamento concebe a respeito do Deus invisível e dos anjos um poder de concepção que certamente não pertence ao corpo. Sabemos o que é certo, o que é justo, o que é honroso; e a sede de tal entendimento deve ser o espírito. O próprio sono é uma prova certa da imortalidade, visto que sugere pensamentos de coisas que nunca aconteceram, e até mesmo sugere previsão do futuro.

Se a alma não fosse alguma coisa que tem uma existência própria, à parte do corpo, ás Escrituras não nos ensinaram que "habitamos em casas de barro", que na morte partimos deste tabernáculo da carne, que "despojamos este corpo corruptível" e que no último dia "receberemos um galardão para as coisas feitas no corpo", pois estas passagens, e muitas outras semelhantes, não somente distinguem a alma do corpo, mas também falam dela como se fosse a própria pessoa, e assim indicam que é sua parte principal. Darei algumas citações adicionais. Paulo exorta os crentes a purificarem-se de toda a impureza da carne e do espírito (1 Cor. 7:1) demonstrando que a imundícia do pecado profana estas duas partes do homem. Pedro chama Cristo o Pastor e Bispo das almas, que seria uma declaração absurda se não existissem almas para Cristo cuidar. Além disso, se a alma não tivesse essência ou existência própria, que sentido haveria nas palavras de Pedro acerca da salvação eterna das almas, na sua exortação no sentido de purificar nossas almas, ou na sua advertência de que as concupiscências da carne guerreiam contra a alma? Como então poderia o escritor da epístola aos Hebreus dizer que os pastores vigiam pelas almas, "como aqueles que hão de dar conta delas"? Uma inferência semelhante pode ser tirada das palavras de Paulo, "Chamo a Deus como testemunha da minha alma" que não faria sentido a não ser que a alma fosse passível de castigo. Cristo expressa este fato em palavras mais claras quando nos manda temer Aquele que, depois de matar o corpo, tem poder para lançar a alma no inferno. Novamente na epístola aos Hebreus, nossos pais são distingüidos de Deus, o Pai dos espíritos, pelo que a existência da alma é clarissimamente asseverada. E se a alma não sobrevivesse depois de ser libertada da prisão do corpo, como poderia Cristo ter falado da alma de Lázaro descansando no seio de Abraão, e da alma do rico entregue a terríveis tormentos? A mesma Verdade é afirmada por Paulo quando diz que estamos ausentes do Senhor enquanto estivermos no corpo, mas quando o deixamos desfrutamos da Sua presença. Como prova de uma verdade tão evidente, preciso somente acrescentar que Lucas nos diz (At. 23:8) que um dos erros dos saduceus era a negação da existência de anjos e espíritos.

Uma prova sólida da existência da alma é fornecida pela declaração de que o homem foi feito à imagem de Deus; pois embora a glória do Criador resplandeça na forma externa do homem, é certo que a sede da imagem divina está na alma. É verdade que nossa aparência externa, que nos distingue dos brutos, demonstra que estamos mais perto de Deus do que eles. Nem faço objeção à opinião de que as palavras "à imagem de Deus" se refiram parcialmente à dignidade da forma humana. Até mesmo um poeta pagão disse (Ovídio, Met. I. 84-86):

"Os brutos olham o chão; somente ao homem é dado erguer a cabeça e perscrutar a abóbada celeste."

Todavia não deve ser esquecido que a imagem de Deus indicada por estas marcas externas é de um caráter espiritual. Consiste na integridade com que Adão foi dotado quando possuía entendimento correto, afeições sujeitas à razão sadia e sentidos sob controle perfeito e ordeiro.

As faculdades excelentes que o homem originalmente possuía, e que refletiam a glória de Deus, podem melhor ser conhecidas ao considerarmos a renovação da imagem de Deus no homem por Cristo, que é chamado o segundo Adão porque nos restaurou à verdadeira perfeição. Muito embora Paulo contraste o espírito vivificante que é dado aos crentes por Cristo com a alma viva com que Adão foi criado, e assim recomenda a graça mais abundante que nos é outorgada na regeneração, ele não contradiz desse modo a verdade que o objetivo da regeneração é recriar-nos à imagem de Deus. Diante disso, ensina-nos noutro lugar que o novo homem é renovado no conhecimento segundo a imagem dAquele que o criou. Quais, pois, são os aspectos especiais desta renovação? Primeiramente, o conhecimento

(Col. 3:10), em segundo lugar, a justiça e a verdadeira santidade (Ef. 4:24); mediante o que concluímos que, antes da queda, a imagem de Deus consistia na luz que enchia a mente do homem, na retidão do seu coração, e na integridade das suas faculdades todas. A mesma conclusão pode ser tirada das palavras, "Todos nós... contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados... na sua própria imagem" (2 Cor. 3:18). Cristo é a imagem mais perfeita de Deus; e nós, sendo conformados a ela, somos renovados de maneira que temos a imagem de Deus na verdadeira santidade, retidão, pureza e entendimento, imagem esta que chegará ao seu pleno esplendor quando chegarmos ao céu.

Não seria sábio procurar nos filósofos uma definição da alma do homem, visto que nenhum deles, a não ser Platão, foi plenamente persuadido da imortalidade dela. Os demais limitam tanto os poderes e faculdades dela à vida presente que praticamente nada nos deixam senão nosso corpo. Demonstramos pelas Escrituras que a alma é uma essência imaterial, uma coisa incorpórea que tem sua habitação no corpo. Podemos acrescentar que ela anima todas as partes do corpo, capacita seus membros para a ação, e tem uma espécie de primazia no governo da vida do homem. Não somente governa as ações comuns do homem, como também o desperta para adorar a Deus. Embora isso não fique bem aparente em nosso presente estado corrupto, mesmo assim, remanescentes disso podem ser vistos até mesmo em nossos fracassos. Outrossim, como é que os homens estão tão ansiosos para conquistarem fama? Porque têm certo senso de honra, algum respeito para com aquilo que é apropriado. O princípio do qual isto procede é o conhecimento de que nasceram para praticar a justiça.

Discussões mais sutis sobre as faculdades da alma deixo para os filósofos; uma definição simples bastará para a edificação piedosa. Algumas das conclusões da filosofia são verdadeiras, interessantes e úteis, e eu não excluiria de tais estudos todos os que anseiam adquirir erudição; mas devo indicar que os filósofos sempre têm imaginado que o homem possui um poder de raciocínio pelo qual pode governar-se corretamente. Não sabiam que a natureza do homem havia-se corrompido pela queda (no pecado) e, portanto, confundem duas coisas que são inteiramente diferentes: o estado do homem conforme foi criado e o estado do homem conforme é depois da queda.

Visando nosso presente propósito, basta dizer que a alma humana tem duas partes, o entendimento e a vontade; e que é do âmbito do entendimento discernir entre o bem e o mal, e da vontade fazer sua escolha entre os dois. Na retidão original do homem, a vontade estava livre, e, mediante a liberdade da sua vontade, poderia ter chegado à vida eterna. Falo aqui sem referência à predestinação divina, porque não estamos tratando agora desse assunto, mas sim da natureza original do homem. Está claro que Adão tinha o poder de ficar firme se assim quisesse, pois foi pela sua própria vontade que caiu. Estava livre para escolher o bem ou o mal: e não somente isso, mas também sua mente e sua vontade eram perfeitas, e todos os seus membros estavam em devida sujeição à sua mente e vontade, até que se arruinou, corrompendo assim todas as suas faculdades. Sobre este assunto, os filósofos estavam inteiramente nas trevas, procuravam o edifício entre as ruínas e buscavam conexões estreitas no meio da dispersão. Apegavam-se ao princípio de que o homem não seria um ser razoável a não ser que fosse livre para escolher entre o bem e o mal. Viram que se ele não dirigisse sua própria vida por meio de seus próprios propósitos, não haveria dis¬tinção entre as virtudes e os vícios. Até este ponto, tinham razão, mas isto somente se não tivesse havido mudança na natureza humana; visto que nada sabiam acerca da queda, não se deve estranhar que o raciocínio deles estava cheio de confusão. Mas aqueles que professam ser discípulos de Cristo, e ainda procuram o livre-arbítrio no homem perdido e arruinado, dividindo assim sua lealdade entre os dogmas dos filósofos e a doutrina do céu — o que podemos dizer deles senão o seguinte: são bastante estultos para pretenderem o céu e a terra, no entanto não alcançam nenhum dos dois.
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12 janeiro, 2011

0 Aos que Negligenciam as Escrituras – João Calvino



AQUELES QUE NEGLIGENCIAM AS ESCRITURAS, E PROCURAM REVELAÇÕES NOVAS, TRANSTORNAM TODOS OS PRINCÍPIOS DA PIEDADE

Certos homens tolos surgiram recentemente, os quais orgulhosamente fingem ser guiados pelo Espírito e desprezam a simplicidade daqueles que ainda se apegam à "letra morta — letra que mata". Gostaria que me dissessem qual é o espírito cujo sopro os leva a uma altura tão estonteante para que ousem menosprezar a doutrina das Escrituras como sendo infantil e desprezível. Se responderem que é o Espírito de Cristo, quão absurda é a sua presunção!  Eles mesmos devem reconhecer que os apóstolos e os crentes primitivos foram -iluminados por aquele Espírito; no entan¬to, nenhum deles aprendeu dEle a desprezar a Palavra de Deus; mas todos a consideravam com a mais profunda reverência. E isto concorda com a predição de Isaías: "O meu Espírito, que está sobre ti e as minhas palavras, que pus na tua boca, não se desviarão da tua boca nem da boca da tua posteridade, nem da boca da posteridade da tua posteridade, diz o Senhor, desde agora e para todo o sempre" (Is. 59:21).

O profeta predisse, portanto, que no reino de Cristo seria a mais alta felicidade da Sua Igreja ser guiada tanto pela Palavra quanto pelo Espírito de Deus. Logo, concluímos que estes zombadores ímpios separam aquilo que o profeta juntara por um vínculo sagrado. Além disso, em¬bora Paulo tenha sido arrebatado até ao terceiro céu, não cessou de fazer uso proveitoso da lei e dos profetas, e exortou Timóteo a dar atenção à leitura. Ademais, ele atribui honra singular às Escrituras ao dizer que são úteis "para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra" (2 Tim. 3:16-17). Certamente é o máximo da maldade e da loucura atribuir um uso rápido e temporário àquelas Escrituras que guiam os filhos de Deus até ao fim da sua viagem. Aqueles fanáticos teriam bebido de um espírito diferente daquele que o Senhor prometeu aos Seus próprios discípulos? Por mais loucos que sejam, dificilmente ousa¬rão dizer assim. Mas que tipo de Espírito o Senhor prome¬teu? Um que não falaria de Si mesmo, mas sim relembraria o que o próprio Cristo ensinara verbalmente. Portanto, não é o papel do Espírito prometido dar revelações estranhas e esquisitas, ou fabricar algum novo tipo de doutrina para nos desviar do evangelho que recebemos; pelo contrário, a função do Espírito é selar em nossos corações aquela mesma doutrina que o evangelho de Cristo nos entregou.

É claro, portanto, que os que desejam receber proveito e bênção do Espírito de Deus devem ser diligentes em ler as Escrituras e em ouvir sua voz. Assim sendo, Pedro recomenda o zelo daqueles que prestam atenção à palavra da profecia, embora os escritos dos profetas pudessem ter sido considerados ultrapassados' pela nova luz do evangelho (2 Ped. 1:19). Se, por outro lado, alguém descarta a sabedoria da Palavra de Deus e impinge sobre nós uma outra doutrina, podemos suspeitá-lo, com justiça, de ser vaidoso e falso. O próprio Satanás se transforma em anjo de luz; como, pois, podemos curvar-nos diante da autoridade de qualquer espírito, a não ser que seja evidenciado por algum sinal como sendo o Espírito de Deus? Este sinal se manifesta na medida em que concorda com a Palavra do Senhor. Todavia, estes infelizes deliberadamente se desviam para sua própria ruína, procurando orientação do seu próprio espírito ao invés do Espírito do Senhor.

Argumentam que é uma indignidade ao Espírito de Deus que Ele — Ele que está acima de todas as coisas — seja sujeito às Escrituras. Mas, pergunto, é uma desonra ao Espírito Santo ser em todas as instâncias o que Ele é — sempre consistente, sempre imutável? Se, na realidade, procurássemos testar o Espírito por qualquer regra estabelecida pelos homens ou pelos anjos, haveria certa força nesta acusação para desonrá-lO; mas se O compararmos com Ele mesmo, como se pode dizer que O estamos desonrando? A verdade é que o Espírito se alegra em ser reconhecido pela semelhança que tem com Sua própria imagem imprimida por Ele sobre as Escrituras. Ele é o Autor das Escrituras e não pode mudar; logo, sempre deve permanecer tal qual Se revelou ali.

Quanto à objeção capciosa de que estamos escravizados à letra que mata, os que empregam tal linguagem são culpados de desprezarem a Palavra de Deus. Quando Paulo disse que a letra mata [2 Cor. 3:6), estava se opondo a certos falsos apóstolos que ainda se apegavam à lei e que teriam privado o povo do benefício da nova aliança, na qual Deus declara que colocará Sua lei nas mentes dos fiéis, e que a escreverá em seus corações. Segue-se, portanto, que a lei do Senhor é uma letra morta que mata quando ela é separada da graça de Cristo, e que simplesmente soa ao ouvido sem tocar no coração; por outro lado, se for poderosamente implantada no coração pelo Espírito e se proclama a Cristo, é a palavra da vida, a qual converte as almas dos homens e que dá sabedoria aos simples. No mesmo capítulo, Paulo chama sua própria pregação de o ministério do Espírito, significando assim que o Espírito Santo permanece na verdade que revelou nas Escrituras, e somente revela Seu poder àqueles que tratam Sua Palavra com a reverência e honra a ela devida. E isto não está em desacordo com aquilo que eu disse no capítulo anterior deste livro, que a Palavra de Deus não ganha nossa confiança, a não ser que seja confirmada pelo testemunho do Espírito; porque o Senhor ligou juntas, por um tipo de vínculo mútuo, a certeza da Sua Palavra e a autoridade do Seu Espírito. Reverência verdadeira à Palavra domina os nossos corações quando a luz do Espírito nos capacita a ver Deus nas Escrituras; e, por outro lado, damos boas-vindas sem temor de sermos enganados, àquele Espírito que reconhecemos peia Sua semelhança à Sua própria Palavra. Os filhos de Deus sabem que Sua Palavra é o instrumento mediante o qual Ele comunica ao entendimento deles a luz do Seu Espírito; e não reconhecem nenhum outro espírito senão o Espírito que habitava nos apóstolos e falava através deles.
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05 janeiro, 2011

0 Qualificações para o Pastorado – João Calvino



- 1 Timóteo 3.2-7 - 

O pastor, portanto, deve ser irrepreensível. A partícula, 'pois ou portanto', confirma a explicação que acabo de dar, pois à luz da dignidade do ofício infere-se que ele não demanda nenhum homem comum, senão alguém dotado de dons excepcionais. Se a tradução correta fosse "uma boa obra", tal como figura na tradução comum, ou "uma obra digna", seguindo Erasmo, então a inferência à próxima afirmação não seria tão adequada.

Ele quer que o bispo seja irrepreensível, ou, como expôs em Tito 1.7, ávéyKÀnjov [anegkleton] O significado de ambos os termos consiste em que o bispo não deve ser estigmatizado por nenhuma infâmia que leve sua autoridade ao descrédito. Certamente que não se encontrará nenhum homem que seja eximido de toda e qualquer mancha; mas, uma coisa é ser culpado de faltas comuns que não ferem a reputação de um homem, visto que os homens mais excelentes participam delas; e outra, completamente distinta, é ter um nome carregado de infâmia e manchado por alguma nódoa escandalosa. Portanto, para que os bispos não se vejam privados de autoridade, Paulo ordena que se faça uma seleção daqueles que desfrutem de excelente reputação e sejam eximidos de qualquer nódoa extraordinária. Além do mais, ele não está meramente influenciando a Timóteo sobre que tipo de homens deva ele escolher, senão que lembra a todos os que aspiram o ofício, que examinem atentamente sua própria vida.

Marido de uma só esposa. É um absurdo pueril interpretar isto como significando pastor de uma só igreja. Outra interpretação mais geralmente aceita é que o bispo não deve ter casado mais de uma vez; e, portanto, uma vez que sua esposa tenha morrido, ele então não seria mais um homem casado. Mas tanto aqui como no primeiro capítulo de Tito, as palavras de Paulo equivalem "que e marido", não "que o marido"; e, finalmente, no capítulo cinco, quando trata expressamente das viúvas, ele usa no tempo passado o particípio que aqui está no tempo presente. Além disso, se essa fosse sua intenção, ter-se-ia contraditado ao que diz em 1 Coríntios 7.35, que não desejava pôr um laço desse gênero às suas consciências. A única exegese correta é a de Crisóstomo, que o considera como uma expressa proibição de poligamia na vida de um bispo, numa

época quando ela era quase legal entre os judeus. Tal coisa se originou em parte de uma perversa imitação dos antigos pais -pois liam que Abraão, Jacó, Davi e outros foram casados com mais de uma esposa, concomitantemente, e assim criam que lhes era permitido proceder da mesma forma -, e em parte ela era uma corrupção aprendida dos povos circunvizinhos, porquanto os homens orientais nunca observaram o matrimônio conscienciosa e fielmente. Mas ainda que isso fosse assim, a poligamia certamente era muito prevalecente entre os judeus, e era mui oportuno que Paulo insistisse em que um bispo deveria ser uma pessoa isenta de tal nódoa.

E no entanto não discordo inteiramente daqueles que pensam que aqui o Espírito Santo estava impondo-lhes vigilância contra a diabólica superstição surgida em torno deste assunto pouco depois; como se dissesse: "Os bispos não devem ser compelidos ao celibato, porque o matrimônio é um estado sublimemente apropriado à vida de todos os crentes." Isso não demandaria que devessem casar-se, mas simplesmente enaltece o matrimônio como sendo ele de forma alguma incompatível com a dignidade de seu ofício.

Minha interpretação pessoal é mais simples e melhor fundamentada, a saber, que Paulo está proibindo aos bispos a prática da poligamia por ser ela o estigma de um homem impudico que não observa a fidelidade conjugai. Aqui poder-se-ia objetar que o que é pecaminoso a todos os homens não deveria ser condenado só no caso dos bispos. A resposta não é difícil. O fato de que ela é expressamente proibida aos bispos não significa que a mesma seja livremente permitida a outros, porquanto não pode haver dúvida de que em cada caso Paulo condenaria algo que fosse contrário à eterna lei de Deus. Porquanto o decreto divino é imutável: "Serão uma só carne" [Gn 2.24]. Mas ele poderia, até certo ponto, tolerar em outros aquilo que nos bispos era excessivamente desditoso e impossível de se tolerar. Tampouco se estabelece aqui uma lei para o futuro, ou seja, que o bispo que tenha uma esposa não pode casar-se com uma segunda ou com uma terceira, senão que Paulo está excluindo do episcopado os que foram no passado culpados de um escândalo desse gênero. Por conseguinte, o que já foi feito uma vez, e não se pode corrigir, deve ser tolerado, mas somente entre as pessoas comuns. Pois, qual era o remédio? Que aqueles que, dentro do judaísmo, haviam caído se divorciassem de sua segunda ou terceira esposa? Tal divórcio não ficaria isento de injustiça. Daí ele deixar em silêncio algo que era errôneo, com esta exceção: que ninguém, desfigurado por tal nódoa, seja um bispo.

Controlado. A palavra traduzida por Erasmo é Vigilante'. O termo grego, [nefaJios], contém ambos os significados; portanto, que os leitores façam sua escolha. Decidi traduzir [sofrona] por temperante em vez de sóbrio, pois temperança tem uma referência mais ampla que sobriedade. Uma pessoa organizada [ordeira] é alguém que se porta decente e honestamente.

Propenso à hospitalidade. Essa hospitalidade era praticada em referência a estranhos, e era uma prática muito comum na Igreja Primitiva, porquanto era vexatório para as pessoas honestas, especialmente para os que eram bem conhecidos, hospedar-se em estalagens. Em nossos dias as coisas são diferentes, e no entanto, por diversas razões, tal atitude será sempre uma virtude muitíssimo necessária num bispo. Além disso, naquele tempo de cruel perseguição aos crentes, para muitos era inevitável ter que mudar de residência subitamente, e os lares dos bispos tinham que ser refúgio para os exilados. Nesses tempos, a necessidade compelia os membros da Igreja a darem uns aos outros socorro mútuo, o que envolvia a hospitalidade. Se os bispos não abrissem caminho aos outros, no cumprimento do dever da hospitalidade, muitos teriam seguido seu exemplo, negligenciando a prática dessa benevolência, e assim os exilados pobres teriam sido deixados em desespero.

Apto para ensinar. A docência é mencionada com maior ênfase na carta a Tito, e aqui a habilidade para ensinar é tocada apenas de leve. Não é suficiente que uma pessoa seja eminente no conhecimento profundo, se não é acompanhada do talento para ensinar. Há muitos, seja por causa da pronúncia defeituosa, ou devido à habilidade mental insuficiente, ou porque não estejam suficientemente em contato com as pessoas comuns, o fato é que guardam seu conhecimento fechado em seu íntimo. Tais pessoas, como diz a frase, devem cantar para si próprias e para as musas - e vão e fazem qualquer outra coisa. Os que são incumbidos de governar o povo devem ser qualificados para a docência. E o que se exige aqui não é propriamente uma língua leviana, porquanto nos deparamos com muitos cuja livre fluência nada contém que sirva para edificar. Paulo está, antes, recomendando sabedoria no traquejo de aplicar a Palavra de Deus visando à edificação de seu povo.

É digno de nota o fato de que os papistas sustentam que neste ponto as regras de Paulo não se aplicam a eles. Não entrarei em todos os detalhes; mas, neste ponto, que sorte de preocupação eles mostram no tocante ao que Paulo diz? Para eles, o dom da docência é algo completamente supérfluo, o qual rejeitam como sendo vil e ordinário, ainda que, para Paulo, a mesma fosse uma preocupação especial e o principal cuidado dos bispos. Todos eles sabem quão longe estava da intenção de Paulo de poderem eles assumir o título de bispo e vangloriar-se de ser um manequim que nunca fala, senão que só aparecem em público vestidos de vestes teatrais. Como se uma mitra comuda, um anel ricamente engastado de jóias, uma cruz de prata e outras bagatelas mais, acompanhados de uma exibição ociosa constituíssem o governo espiritual de uma igreja, a qual de fato não pode separar-se do ensino mais que a um homem é possível separar-se de sua alma.

Não esbravejador. Com este termo os gregos descreviam não apenas a embriaguez, mas qualquer tipo de viciado bebedor de vinho. Beber com excesso não é só indecoroso num pastor, mas geralmente resulta em muitas coisas ainda piores, tais como rixas, atitudes néscias, ausência de castidade e outras que não carecem de menção. Mas a antítese seguinte mostra que Paulo vai ainda mais longe, porque, assim como ele contrasta um agressor com alguém que é manso, e uma pessoa que deseja lucros desonestos, com alguém destituído de cobiça, assim ele contrasta um [paroinous], o bebedor de vinho, com alguém que é manso e bondoso. A interpretação de Crisóstomo é correta, a saber, que os homens inclinados à embriaguez e à violência devem ser excluídos do ofício episcopal. Mas, quanto à sua opinião de que um agressor sifnifica alguém que agride com sua língua, isto é, que se entrega a calúnias ou a acusações injuriosas, não me é possível concordar. Não me sinto convencido por seu argumento de que não é de muita relevância se um bispo é ou não um homem que fere com as mãos, pois creio que, aqui, Paulo está repreendendo de uma forma geral a ferocidade militar comum entre os soldados, mas que é completamente imprópria nos servos de Cristo. E notório quão ridículo é estar mais disposto a dar um murro ou puxar a espada do que apaziguar as rixas de outras pessoas pelo exercício da autoridade responsável. Portanto, com o termo, Violentos' Paulo quer dizer aqueles que fazem muitas ameaças e que são de temperamento belicoso.

Todas as pessoas cobiçosas são amantes do dinheiro. Pois toda avareza traz sobre si essa vileza de que o apóstolo está falando. 'Aquele que quer ficar rico, também quer ficar rico depressa", disse Juvenal. O resultado é que todos os cobiçosos, ainda que sua cobiça não se manifeste francamente, devotam-se a adquirir lucros desonestos e ilícitos. Com esse vício ele contrasta o desinteresse pelo dinheiro, já que não existe outro meio de corrigir-se. Repito que, aquele que não suportar a pobreza paciente e voluntariamente, inevitavelmente se tornará uma vítima da vil e sórdida cobiça.

Com o violento ele contrasta aquele que é manso e inimigo de contendas. Pessoa mansa ou amável é o oposto de pessoa que se entrega ao vinho, e é uma palavra usada por quem sabia como suportar as injúrias pacificamente e com moderação, que perdoava muito, que engolia insultos, que não se amedrontava quando se fazia necessário ser corajosamente severo, nem rigorosamente cobrava tudo o que lhe era devido. A pessoa que é inimiga de contendas é aquela que foge das demandas e rixas, como ele mesmo escreve: "Os servos do Senhor não devem ser contenciosos" [2 Tm 2.24].

Se um homem, porém, não sabe governar sua própria casa. Paulo não está a exigir de um bispo que o mesmo seja inexperiente na vida humana ordinária; antes, porém, que seja um bom e provado chefe de família. Porquanto, seja qual for a admiração comumente direcionada para o celibato e para uma vida filosófica e completamente desligada do viver comum, contudo os homens sábios e precavidos estão convencidos, pela própria experiência, de que aqueles que conhecem a vida comum e são bem práticos nos deveres que as relações humanas impõem, estão melhor preparados e adaptados para governar a Igreja. No próximo versículo ele explica isso, dizendo que aquele que não sabe como governar sua própria família não está apto para governar a Igreja de Deus. Ora, esse é na verdade o caso de muitos bispos e de quase todos os que vivem por muito tempo uma vida ociosa e solitária à semelhança de animais em covis e cavernas; pois são como selvagens e destituídos de toda humanidade.

Mas o homem que aqui conquista a aprovação do apóstolo não é aquele que é engenhoso e profundamente instruído nos assuntos domésticos, mas aquele que aprendeu a governar sua família com saudável disciplina. Sua referência é especialmente aos filhos de quem se espera saibam refletir a disposição de seu pai. Por conseguinte, seria uma imensa desgraça para um bispo que tenha filhos que levam vida dissoluta e escandalosa. Das viúvas ele trata mais adiante; aqui, porém, como já disse, ele toca de leve na principal parte da vida familiar.

No primeiro capítulo de Tito, ele mostra o que pretende ao usar a palavra seriedade. Pois havendo dito que os filhos de um bispo não devem ser rebeldes e desobedientes, imediatamente adiciona que não devem ser passíveis de repreensão por dissolução ou intemperança. Sua intenção é, em suma, que seu comportamento seja regulado em toda a castidade, modéstia e seriedade. O argumento procede do menor para o maior, e é sobejamente evidente que um homem que não é apto para governar sua própria família será plenamente incapaz de governar todo um povo. Além disso, o fato de ele, obviamente, ser destituído das qualidades necessárias, que autoridade pode um homem ter no seio de um povo quando sua própria vida familiar o faz desprezível?

Não seja neófito. Naquele tempo, muitos homens de extraordinária habilidade e cultura estavam sendo conduzidos à fé. Paulo, porém, proíbe que se façam bispos aos que recentemente tenham professado a Cristo. E ele mostra quão danoso seria tal expediente. Pois é evidente que os neófitos na fé geralmente são fúteis e dominados pela ostentação, de modo que a arrogância e a ambição facilmente os levam a se desertarem. O que Paulo diz aqui podemos confirmar evocando nossa própria experiência; pois os neófitos não são simplesmente ousados e impetuosos, mas também inchados de néscia confiança em si próprios, como se fossem capazes de fazer o que nunca experimentaram. Portanto, não é sem razão que sejam eles excluídos da honra do episcopado, até que, com o passar do tempo, suas noções extravagantes tenham sido subjugadas.

Incorra na condenação do diabo pode ser interpretado de três formas. Enquanto que alguns pensam que [diabolos] significa Satanás, outros crêem que significa caluniadores. Sinto-me inclinado para o primeiro ponto de vista, pois o termo latino, indicium, raramente significa calúnia. Uma vez mais, porém, é possível entender a condenação de Satanás no sentido ativo ou passivo. Crisóstomo a toma passivamente, e concordo com ele. Há uma antítese elegante que realça a enormidade do caso: "Para não suceder que aquele que é posto sobre a Igreja de Deus, movido de orgulho, caia na mesma condenação em que caiu o diabo." Não obstante, não descarto o significado ativo, a saber, que tal homem dará ao diabo ocasião para condená-lo. A tradução de Crisóstomo, porém, se aproxima mais da verdade.

Deve desfrutar do bom testemunho dos de fora. Parece muito difícil imaginar que um crente piedoso deva ter, como testemunhas de sua integridade, a incrédulos que estão mais solícitos em forjar mentiras contra ele. O apóstolo, porém, quer dizer que, no que concerne ao comportamento externo, mesmo os incrédulos devem esforçar-se por reconhecer que ele [o crente] é uma boa pessoa. Pois ainda que sem causa coluniem todos os filhos de Deus, todavia não podem afirmar que alguém seja perverso quando na verdade leva uma vida boa e inofensiva na presença de todos. Essa é a sorte de reconhecimento de retidão que Paulo está a referir-se aqui.

A razão ele adiciona aqui: a fim de não cair no opróbrio e no laço do diabo, o que ele explica assim: não suceda que, estando exposto à infâmia, comece a endurecer seu coração e se entregue mais livremente a todos os tipos de perversidade, o que, aliás, equivaleria a colocar-se voluntariamente nos laços do diabo. Pois que esperança restaria para alguém que peca sem qualquer laivo de pudor?
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