24 novembro, 2010

0 Há Um Só Deus – João Calvino



Porquanto há um só Deus (1 Tm 2.5).

Crisóstomo e muitos outros forçam o seguinte significado: não há tantos deuses como os idólatras imaginam. Quanto a mim, porém, creio que a intenção de Paulo era diferente, a saber, que há aqui uma comparação implícita entre o único Deus e o único mundo com suas diversas nações, e desta comparação surge uma perspectiva de ambos em relação um ao outro. E assim ele diz em Romanos 3.29: "E porventura Deus somente dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, também dos gentios." Portanto, qualquer que fosse a diversidade entre os homens, naquele tempo, pelo fato de muitas classes e nações serem estranhas à fé, Paulo lembra aos crentes a existência da unicidade de Deus, para que soubessem que existe um vínculo entre eles e todos os homens, visto que há um só Deus sobre todos, para que soubessem que aqueles que se encontram sob o governo do mesmo Deus não são excluídos para sempre da esperança de salvação.

Sua intenção, aqui, tem a mesma conotação daquilo que ele prossegue afirmando: há um só Mediador. Pois como há um só Deus, o Criador e Pai de todos, assim, declara o apóstolo, há um só Mediador, através de quem se nos abre acesso para Deus, e este Mediador não é oferecido a uma só nação, ou a umas poucas pessoas de uma classe específica, mas a todos, pois o benefício do sacrifício, por meio do qual ele fez expiação por nossos pecados, se aplica a todos. Visto que, naquele tempo, grande parte do mundo se encontrava alienada de Deus, o apóstolo explicitamente menciona o Mediador através de quem os que estavam longe agora ficaram perto. O termo universal, 'todos', deve sempre referir-se a classes de pessoas, mas nunca a indivíduos. E como se ele quisesse dizer: "Não só os judeus, mas também os gentios; não só as pessoas de classe humilde, mas também os príncipes foram redimidos pela morte de Cristo." Portanto, visto que sua intenção é que a morte do Mediador seja um benefício comum destinado a todos, aqueles eme mantêm um ponto de vista que exclui alguns da esperança de salvação lhe fazem injúria.

Cristo Jesus, homem. Ao denominá-lo de homem, o apóstolo não está negando que Cristo seja igualmente Deus; visto, porém, que seu propósito, aqui, é atrair a atenção para o vínculo que nos liga a Deus, ele menciona a natureza humana de Cristo em vez de mencionar a divina, e esse fato deve ser atentamente observado. Pois a razão pela qual, desde o princípio, os homens têm se apartado cada vez mais de Deus, inventando para si um mediador após outro, é que foram dominados pela errônea noção de que Deus estava muitíssimo distante deles, e assim não sabiam onde buscar socorro. Paulo remedia esse mal, mostrando que Deus se encontra presente conosco, pois que desceu até nós para que não tivéssemos que buscá-lo para além das nuvens. Aqui ele está dizendo a mesma coisa, como em Hebreus 4.15: "Porque não temos sumo sacerdote que não se compadeça de nossas fraquezas, antes foi ele tentado em todas as coisas." E se ficasse impresso nos corações de todos os homens que o Filho de Deus nos estende a mão de irmão, e que está unido a nós por participar de nossa natureza, quem não escolheria andar nessa vereda plana em vez de vaguear por trilhos irregulares e íngremes? Por conseguinte, sempre que orarmos a Deus, se porventura a lembrança de sua sublime e inacessível majestade toldar de medo nosso espírito, lembremo-nos também de que o homem Cristo gentilmente nos convida e nos toma em sua mão, de modo que o Pai, de quem tínhamos medo e tremíamos, se nos tornou favorável e amigável. Eis a única chave capaz de reabrir-nos a porta do reino do céu, de modo que agora podemos comparecer confiantes na presença de Deus.

Portanto, ao longo de todos os tempos, Satanás tem tentado transtornar essa confiança com o fim de extraviar os homens. Não digo nada sobre como antes da vinda de Cristo ele distraía os homens de muitas e variadas formas, inventando outros meios de se alcançar a Deus. Desde o princípio da Igreja Cristã, porém, até ao tempo quando Cristo acabara de surgir como um penhor infinitamente valioso da graça divina, e quando sua deleitosa e amorável palavra: "Vinde a mim todos os que estais cansados" etc. [Mt 11.28] ainda ressoava por toda a terra, já havia alguns enganadores vis que apresentavam em seu lugar anjos mediadores, como se pode facilmente deduzir de Colossenses 2.1-18. E essa corrupção que Satanás, naquele tempo, inventara em secreto levou a cabo de tal forma, du-rante o papado, que dificilmente uma pessoa entre mil reconhecia a Cristo como Mediador, mesmo nominalmente -e se o nome era desconhecido, ainda mais o era a realidade.

E agora, ao levantar Deus mestres íntegros e piedosos, cuja preocupação tem sido restaurar e trazer de volta ao espírito humano aqueles grandes e mui notórios princípios de nossa fé, os sofistas da Igreja de Roma recorrem a toda sorte de inventos com o fim de obscurecer algo que é tão óbvio. Em primeiro lugar, o nome se lhes afigura tão odioso que, se alguém menciona a mediação de Cristo sem mencionar a dos santos, cai imediatamente sob suspeita de heresia. E já que eles não ousam rejeitar sumariamente o que Paulo diz aqui, então evadem-se com um comentário pueril de que ele é chamado "um só mediador", e não "o único mediador", como se Paulo houvera feito menção de Deus como um entre uma grande multidão de deuses, porquanto ambas as afirmações de que há um só Deus e um só mediador estão estreitamente entrelaçadas. Dessa forma, aqueles que fazem de Cristo um entre muitos devem apresentar a mesma interpretação também em relação a Deus. Acaso se atreveriam a destruir a glória de Cristo, se não fossem impelidos por sua cega fúria e impudência?

Há outros que se imaginam mais argutos, fazendo de Cristo o único Mediador da redenção, enquanto que denominam os santos de mediadores da intercessão. O contexto desta passagem revela a insensatez de tal interpretação, visto que Paulo, aqui, está implicitamente tratando da oração. O Espírito Santo nos concita a orarmos em favor de todos, porquanto nosso único Mediador concita a todos a virem a ele, visto que ele, por intermédio de sua morte, reconcilia todos com o Pai. Não obstante, aqueles que, com sacrilégio tão ultrajante, despojam a Cristo de sua honra, desejam ainda ser considerados cristãos. Ainda se objeta que aqui parece haver contradição, porque nesta passagem Paulo nos concita a intercedermos por outros, enquanto que em Romanos 8.34 ele diz que a obra de intercessão pertence tão-somente a Cristo. Minha resposta é que as intercessões pelas quais os santos auxiliam uns aos outros não se conflitam com o fato de que todos eles têm um só Intercessor, porquanto ninguém é ouvido, seja em seu próprio favor ou em favor de outrem, a menos que confie em Cristo como seu Advogado. Nossas intercessões recíprocas, longe de denegrirem a intercessão única de Cristo, na verdade dependem completamente dela.

É possível imaginar-se que atingir harmonia entre nós e os papistas é algo muito fácil, se eles apenas subordinassem à intercessão de Cristo tudo quanto atribuem aos santos. Não é tão fácil assim, pois a razão pela qual transferem o ofício da intercessão para os santos é porque imaginam que de outra forma ficariam privados de um advogado. Comumente se crê entre eles que necessitamos de um intercessor, visto que, por nós mesmos, somos indignos de comparecer perante a face de Deus. Ao fazerem tal afirmação, estão privando a Cristo da honra que lhe pertence. É uma chocante blasfêmia atribuir aos santos a dignidade de granjear-nos o favor divino. Todos os profetas, apóstolos e mártires, bem como os próprios anjos, muito longe estão de reivindicar para si tais prerrogativas, uma vez que eles também necessitam, como nós, da mesma intercessão.

Não passa de mera ficção de suas imaginações que os mortos intercedam pelos vivos, e basear nossas orações em tal conjectura é desviar completamente de Deus nossa confiança e nossas orações. Paulo estabelece a fé baseada na Palavra de Deus [Rm 10.17] como a forma correta para se invocar a Deus.

Estamos, pois, certíssimos em rejeitar as coisas imaginárias que a mente humana engendra à parte da Palavra de Deus.

Não nos detendo no assunto mais do que a exposição da passagem requer, podemos sumariá-lo, dizendo que aqueles que têm aprendido da obra de Cristo ficarão satisfeitos somente com ele, enquanto que aqueles que não conhecem tanto a Deus quanto a Cristo criarão mediadores segundo sua imaginação alienada de Deus. Daqui concluo que o ensino dos papistas, que obscurece e quase que sepulta a mediação de Cristo, e introduz mediadores fictícios sem qualquer autoridade bíblica, está saturado de desconfiança e de temeridade perversa.


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