30 novembro, 2010

0 Pela Hipocrisia falam Mentiras - Calvino



Alguns apostatarão da fé (1Tm 4.2). Não fica muito claro se ele está falando dos mestres ou dos ouvintes, mas prefiro tomá-lo como uma aplicação aos últimos, visto que prossegue tratando dos mestres quando os chama de espíritos sedutores. É mais enfático dizer que não só haverá quem divulgue os ensinos ímpios e corrompa a pureza da fé, mas também dizer que não faltarão alunos que sejam atraídos para suas seitas. E quando uma mentira aumenta sua influência, ela avoluma as dificuldades. Mas ele não está falando de um erro trivial, e, sim, de um mal terrível, a apostasia da fé, embora à primeira vista não pareceria ser tão mal assim à luz do ensino que ele menciona. Pois como é possível ser a fé completamente subvertida pela proibição de certos alimentos ou do matrimônio? Devemos, porém, levar em conta uma razão mais ampla, ou seja, que aqui os homens estão inventando um culto divino pervertido para a satisfação de seu ego; e ao ousarem proibir o uso de coisas saudáveis que Deus permitiu, estão alegando que são os mestres de suas próprias consciências. E tão logo a pureza do culto é pervertida, não permanece nada íntegro e saudável, e a fé é completamente subvertida. Por isso, ainda que os papistas debochem de nós, ao criticarmos suas leis tirânicas acerca de observâncias externas, temos consciência de que estamos lidando com um assunto seríssimo e importantíssimo; porque, assim que o culto divino é contaminado com tais corrupções, a doutrina da fé é também subvertida. A controvérsia não é acerca de carne e peixe, ou acerca das cores preto ou cinza, acerca de quarta-feira ou sexta-feira, e, sim, acerca das más superstições dos homens que desejam obter o favor divino por meio de tais futilidades e pela invenção de um culto carnal, fabricando para si ídolos no lugar de Deus. Quem ousaria negar que fazer isso é apostatar da fé?

Espíritos sedutores. Ele está se referindo a profetas ou mestres, aplicando-lhes esse título porque se vangloriavam de possuir o Espírito, e ao procederem assim estavam causando impressão sobre o povo. Em geral, é deveras verdade que todas as classes de pessoas falam da inspiração de uni espírito, mas não o mesmo espírito que inspira a todos. Pois às vezes Satanás passa por espírito mentiroso na boca dos falsos profetas, com o fim de iludir os incrédulos que merecem ser enganados [1 Rs 22.21-23]. Mas todos quantos atribuem a Cristo a devida honra falam pelo Espírito de Deus, no dizer de Paulo [1 Co 12.3]. Esse modo de expressar-se teve sua origem na reivindicação feita pelos servos de Deus, a saber, que todos os seus pronun¬ciamentos públicos lhes vieram por revelação do Espírito; e, visto que eram os instrumentos do Espírito, lhes foi atribuído o nome do Espírito. Mais tarde, porém, os ministros de Satanás, através de uma falsa imitação, como fazem os símios, começaram a fazer a mesma reivindicação em seu favor, e da mesma forma falsamente assumiram o mesmo nome. Eis a razão por que João diz: "provai os espíritos, se realmente procedem de Deus" [1 Jo4.1].

Além do mais, Paulo explica o que quis dizer, acrescentando: e doutrinas de demônios, o que eqüivale dizer: "atentando para os falsos profetas e suas doutrinas diabólicas". Uma vez mais digamos que isso não constitui um erro de somenos importância ou algo que deva ser dissimulado, quando as consciências dos homens são constrangidas por invenções humanas, ao mesmo tempo que o culto divino é pervertido.

Pela hipocrisia, falam mentiras. Se esta frase for considerada como uma referência aos demônios, então falar mentiras será uma referência aos seres humanos que falam falsamente pela inspiração do diabo. Mas é possível substituí-la por: "através da hipocrisia dos homens que falam mentiras". Evocando um exemplo particular, ele diz que falam mentiras hipocritamente, e são marcados com ferretes em sua consciência. E devemos observar que essas duas coisas se relacionam intimamente, e que a primeira flui da segunda. As más consciências que são marcadas com o ferrete de seus maus feitos lançam mão da hipocrisia como um refúgio seguro, a saber, engendram pretensões hipócritas com o fim de embaralhar os olhos de Deus. Aliás, esse é o mesmo expediente usado por aqueles que tentam agradar a Deus com ilusórias observâncias externas.

E assim, a palavra hipocrisia deve ser entendida em relação ao presente contexto. Ela deve ser considerada primeiramente em relação à doutrina, e significando que gênero de doutrina é esse que substitui o culto espiritual de Deus por gesticulações corporais, e assim adultera sua genuína pureza, e então inclui todos os métodos inventados pelos homens para apaziguar a Deus ou obter seu favor. Seu significado pode ser assim sumariado: em primeiro lugar, que todos os que introduzem uma santidade forjada estão agindo em imitação ao diabo, porquanto Deus jamais é adorado corretamente através de meros ritos externos. Os verdadeiros adoradores "o adorarão em espírito e em verdade" [Jo 4.24]. E, em segundo lugar, que esse culto externo é uma medicina inútil por meio da qual os hipócritas tentam mitigar suas dores, ou, melhor, um curativo sob o qual as más consciências ocultam suas feridas sem qualquer valia, a não ser para agravar ainda mais sua própria ruína.
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24 novembro, 2010

0 Há Um Só Deus – João Calvino



Porquanto há um só Deus (1 Tm 2.5).

Crisóstomo e muitos outros forçam o seguinte significado: não há tantos deuses como os idólatras imaginam. Quanto a mim, porém, creio que a intenção de Paulo era diferente, a saber, que há aqui uma comparação implícita entre o único Deus e o único mundo com suas diversas nações, e desta comparação surge uma perspectiva de ambos em relação um ao outro. E assim ele diz em Romanos 3.29: "E porventura Deus somente dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, também dos gentios." Portanto, qualquer que fosse a diversidade entre os homens, naquele tempo, pelo fato de muitas classes e nações serem estranhas à fé, Paulo lembra aos crentes a existência da unicidade de Deus, para que soubessem que existe um vínculo entre eles e todos os homens, visto que há um só Deus sobre todos, para que soubessem que aqueles que se encontram sob o governo do mesmo Deus não são excluídos para sempre da esperança de salvação.

Sua intenção, aqui, tem a mesma conotação daquilo que ele prossegue afirmando: há um só Mediador. Pois como há um só Deus, o Criador e Pai de todos, assim, declara o apóstolo, há um só Mediador, através de quem se nos abre acesso para Deus, e este Mediador não é oferecido a uma só nação, ou a umas poucas pessoas de uma classe específica, mas a todos, pois o benefício do sacrifício, por meio do qual ele fez expiação por nossos pecados, se aplica a todos. Visto que, naquele tempo, grande parte do mundo se encontrava alienada de Deus, o apóstolo explicitamente menciona o Mediador através de quem os que estavam longe agora ficaram perto. O termo universal, 'todos', deve sempre referir-se a classes de pessoas, mas nunca a indivíduos. E como se ele quisesse dizer: "Não só os judeus, mas também os gentios; não só as pessoas de classe humilde, mas também os príncipes foram redimidos pela morte de Cristo." Portanto, visto que sua intenção é que a morte do Mediador seja um benefício comum destinado a todos, aqueles eme mantêm um ponto de vista que exclui alguns da esperança de salvação lhe fazem injúria.

Cristo Jesus, homem. Ao denominá-lo de homem, o apóstolo não está negando que Cristo seja igualmente Deus; visto, porém, que seu propósito, aqui, é atrair a atenção para o vínculo que nos liga a Deus, ele menciona a natureza humana de Cristo em vez de mencionar a divina, e esse fato deve ser atentamente observado. Pois a razão pela qual, desde o princípio, os homens têm se apartado cada vez mais de Deus, inventando para si um mediador após outro, é que foram dominados pela errônea noção de que Deus estava muitíssimo distante deles, e assim não sabiam onde buscar socorro. Paulo remedia esse mal, mostrando que Deus se encontra presente conosco, pois que desceu até nós para que não tivéssemos que buscá-lo para além das nuvens. Aqui ele está dizendo a mesma coisa, como em Hebreus 4.15: "Porque não temos sumo sacerdote que não se compadeça de nossas fraquezas, antes foi ele tentado em todas as coisas." E se ficasse impresso nos corações de todos os homens que o Filho de Deus nos estende a mão de irmão, e que está unido a nós por participar de nossa natureza, quem não escolheria andar nessa vereda plana em vez de vaguear por trilhos irregulares e íngremes? Por conseguinte, sempre que orarmos a Deus, se porventura a lembrança de sua sublime e inacessível majestade toldar de medo nosso espírito, lembremo-nos também de que o homem Cristo gentilmente nos convida e nos toma em sua mão, de modo que o Pai, de quem tínhamos medo e tremíamos, se nos tornou favorável e amigável. Eis a única chave capaz de reabrir-nos a porta do reino do céu, de modo que agora podemos comparecer confiantes na presença de Deus.

Portanto, ao longo de todos os tempos, Satanás tem tentado transtornar essa confiança com o fim de extraviar os homens. Não digo nada sobre como antes da vinda de Cristo ele distraía os homens de muitas e variadas formas, inventando outros meios de se alcançar a Deus. Desde o princípio da Igreja Cristã, porém, até ao tempo quando Cristo acabara de surgir como um penhor infinitamente valioso da graça divina, e quando sua deleitosa e amorável palavra: "Vinde a mim todos os que estais cansados" etc. [Mt 11.28] ainda ressoava por toda a terra, já havia alguns enganadores vis que apresentavam em seu lugar anjos mediadores, como se pode facilmente deduzir de Colossenses 2.1-18. E essa corrupção que Satanás, naquele tempo, inventara em secreto levou a cabo de tal forma, du-rante o papado, que dificilmente uma pessoa entre mil reconhecia a Cristo como Mediador, mesmo nominalmente -e se o nome era desconhecido, ainda mais o era a realidade.

E agora, ao levantar Deus mestres íntegros e piedosos, cuja preocupação tem sido restaurar e trazer de volta ao espírito humano aqueles grandes e mui notórios princípios de nossa fé, os sofistas da Igreja de Roma recorrem a toda sorte de inventos com o fim de obscurecer algo que é tão óbvio. Em primeiro lugar, o nome se lhes afigura tão odioso que, se alguém menciona a mediação de Cristo sem mencionar a dos santos, cai imediatamente sob suspeita de heresia. E já que eles não ousam rejeitar sumariamente o que Paulo diz aqui, então evadem-se com um comentário pueril de que ele é chamado "um só mediador", e não "o único mediador", como se Paulo houvera feito menção de Deus como um entre uma grande multidão de deuses, porquanto ambas as afirmações de que há um só Deus e um só mediador estão estreitamente entrelaçadas. Dessa forma, aqueles que fazem de Cristo um entre muitos devem apresentar a mesma interpretação também em relação a Deus. Acaso se atreveriam a destruir a glória de Cristo, se não fossem impelidos por sua cega fúria e impudência?

Há outros que se imaginam mais argutos, fazendo de Cristo o único Mediador da redenção, enquanto que denominam os santos de mediadores da intercessão. O contexto desta passagem revela a insensatez de tal interpretação, visto que Paulo, aqui, está implicitamente tratando da oração. O Espírito Santo nos concita a orarmos em favor de todos, porquanto nosso único Mediador concita a todos a virem a ele, visto que ele, por intermédio de sua morte, reconcilia todos com o Pai. Não obstante, aqueles que, com sacrilégio tão ultrajante, despojam a Cristo de sua honra, desejam ainda ser considerados cristãos. Ainda se objeta que aqui parece haver contradição, porque nesta passagem Paulo nos concita a intercedermos por outros, enquanto que em Romanos 8.34 ele diz que a obra de intercessão pertence tão-somente a Cristo. Minha resposta é que as intercessões pelas quais os santos auxiliam uns aos outros não se conflitam com o fato de que todos eles têm um só Intercessor, porquanto ninguém é ouvido, seja em seu próprio favor ou em favor de outrem, a menos que confie em Cristo como seu Advogado. Nossas intercessões recíprocas, longe de denegrirem a intercessão única de Cristo, na verdade dependem completamente dela.

É possível imaginar-se que atingir harmonia entre nós e os papistas é algo muito fácil, se eles apenas subordinassem à intercessão de Cristo tudo quanto atribuem aos santos. Não é tão fácil assim, pois a razão pela qual transferem o ofício da intercessão para os santos é porque imaginam que de outra forma ficariam privados de um advogado. Comumente se crê entre eles que necessitamos de um intercessor, visto que, por nós mesmos, somos indignos de comparecer perante a face de Deus. Ao fazerem tal afirmação, estão privando a Cristo da honra que lhe pertence. É uma chocante blasfêmia atribuir aos santos a dignidade de granjear-nos o favor divino. Todos os profetas, apóstolos e mártires, bem como os próprios anjos, muito longe estão de reivindicar para si tais prerrogativas, uma vez que eles também necessitam, como nós, da mesma intercessão.

Não passa de mera ficção de suas imaginações que os mortos intercedam pelos vivos, e basear nossas orações em tal conjectura é desviar completamente de Deus nossa confiança e nossas orações. Paulo estabelece a fé baseada na Palavra de Deus [Rm 10.17] como a forma correta para se invocar a Deus.

Estamos, pois, certíssimos em rejeitar as coisas imaginárias que a mente humana engendra à parte da Palavra de Deus.

Não nos detendo no assunto mais do que a exposição da passagem requer, podemos sumariá-lo, dizendo que aqueles que têm aprendido da obra de Cristo ficarão satisfeitos somente com ele, enquanto que aqueles que não conhecem tanto a Deus quanto a Cristo criarão mediadores segundo sua imaginação alienada de Deus. Daqui concluo que o ensino dos papistas, que obscurece e quase que sepulta a mediação de Cristo, e introduz mediadores fictícios sem qualquer autoridade bíblica, está saturado de desconfiança e de temeridade perversa.
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12 novembro, 2010

0 A Estrutura do Pensamento de Calvino - Alister McGrath



Calvino é considerado, de um modo geral, como um sistematizador frio e impassível, um cérebro, em vez de uma pessoa, uma figura introspectiva e socialmente isolada que se sentia mais à vontade no mundo das idéias do que no mundo real de carne e osso, o mundo das relações humanas. A concepção popular sobre o pensamento religioso de Calvino é a de um sistema rigorosamente lógico, centrado na doutrina da predestinação. Embora essa crença popular possa representar um pensamento de grande influência, ela guarda pouca relação com a realidade; ainda que a doutrina da predestinação possa ser importante para o posterior movimento Calvinista, isso não está refletido na exposição de Calvino sobre essa idéia. Porém, essa crença popular levanta um importante questionamento. Alguém pode falar a respeito do pensamento de Calvino como sendo, acima de tudo, um sistema! A palavra "sistema" implica pressupostos acerca de unidade. Ela requer coerência. Contudo, Calvino compartilhava do profundo desgosto característico da república humanista das letras pelos teólogos escolásticos, cujos lemas parecem haver sido "sistematização" e "coerência". Referir-se a Calvino como um sistematizador teológico implica um grau de afinidade com o escolasticismo medieval, o que contradiz suas próprias atitudes. Isso também sugere uma significativa descontextualização entre Calvino e sua cultura, a qual não possuía os recursos intelectuais nem percebia qualquer razão em particular para produzir obras de "teologia sistemática" - um gênero literário que era, de qualquer forma, reconhecido como uma reserva do tão desprezado Escolasticismo. Apenas através de uma postu¬ra que considera as Institutas como sendo consistentes com o Humanismo bíblico da época de Calvino, em vez de uma radical exceção a ele, torna-se possível apreciar o pleno significado da obra.

Certamente é fato que as Institutas de 1559 têm sido, freqüentemente, comparadas à Summa Theologiae de Tomás de Aquino - com suas 512 questões, 2.669 artigos e mais de 10.000 críticas e réplicas - em termos de sua abrangência e influência. Contudo, isso significa confundir, evidentemente, o volume literário e a influência histórica com a afinidade teológica. Como indica um estudo do desenvolvimento das Institutas, originalmente Calvino concebeu a obra em termos modestos, sem quaisquer pretensões de uma abrangência metodológica. A reorganização do material entre uma edição e outra, no período de 1536 a 1559, reflete uma preocupação pedagógica, e não metodológica; o interesse de Calvino é humanista, em vez de escolástico

- ou seja, o de auxiliar seus leitores, e não o de impor um método a seu próprio pensamento. As Institutos de 1559 combinam as virtudes cardeais do educador humanista- clareza e compreensão - permitindo a seus leitores o acesso a uma apresentação clara e abrangente dos principais pontos da fé cristã, da maneira como Calvino desejava que fossem entendidos. Em ponto algum há qualquer evidência que sugira que um princípio dominante, um axioma ou uma doutrina - exceto o da clareza da apresentação - tenham controlado a forma ou a substância da obra. Esta é uma expressão da eloquentia, tão valorizada pela Renascença, tanto em sua estrutura quanto em sua prosa.

O estudioso que, por quaisquer motivos, pressupõe a existência de um princípio unificador no pensamento de Calvino está, naturalmente, predisposto a encontrá-lo. As pesquisas acadêmicas sobre Calvino apresentam uma série de estudos que, presumindo a existência de um princípio unificador no pensamento de Calvino, procederam à identificação deste princípio em suas doutrinas da predestinação, do conhecimento de Deus ou em sua eclesiologia.10 Um enfoque mais modesto (e, deve-se dizer, mais realista) consiste em admitir o óbvio e em aceitar que não há qualquer doutrina central no pensamento de Calvino.11 Apropria idéia de um "dogma central" tem suas origens no monismo dedutivo do Iluminismo, e não na teologia do século 16. Alguém pode identificar, com certeza, certos temas de importância central, certas metáforas essenciais que permitem alguma compreensão acerca do pensamento de Calvino - porém, a noção de uma doutrina central ou de um axioma que o controle não pode ser sustentada. Não existe algo como "o cerne", "o princípio básico", "a premissa central" ou "a essência" do pensamento religioso de Calvino.

Contudo, é evidente que, em toda a sua discussão sobre o relacionamento de Deus com a humanidade, Calvino considera um único paradigma como normativo. O paradigma em questão é aquele que foi obtido através da encarnação, mais especificamente através da união, sem a fusão, da divindade e da humanidade na pessoa de Jesus Cristo. Repetidamente Calvino apela para a fórmula baseada na cristologia, distinctio sed non separatio, significando que as duas idéias podem ser distinguidas, mas não separadas. Assim, o "conhecimento de Deus" e o "conhecimento de nós mesmos" podem ser diferenciados, mas não podem ser alcançados de forma isolada, um em relação ao outro. Da mesma maneira que a encarnação representa uma manifestação paradigmática dessa complexio oppositorum, o mesmo padrão é, assim, repetido e deve ser percebido através das várias manifestações do relacionamento entre Deus e a humanidade. Pelo fato de enfatizar que a teologia é centrada no "conhecimento de Deus e no conhecimento de nós mesmos" (Institutas I.i.l), esse paradigma é, obviamente, relevante. Em todas as suas obras, Calvino demonstra uma forte tendência de distinguir, de forma radical, as dimensões divina e humana - insistindo, contudo, em sua unidade. Não há qualquer possibilidade de se separar Deus e o mundo ou Deus e os seres humanos.

Pode-se perceber esse princípio em ação do início ao fim das Institutas: a relação entre a Palavra de Deus e as palavras dos seres humanos, na pre¬gação; entre o símbolo e significado da eucaristia; entre o fiel e Cristo, na justificação, onde existe uma real comunhão de pessoas, ainda que não haja a fusão dos seres; entre o poder secular e o espiritual. O pensamento de Calvino é dominantemente cristocêntrico, não apenas pelo fato de que ele se centraliza na revelação de Deus em Jesus Cristo, mas também porque essa revelação desvenda um paradigma que governa outras áreas centrais do pensamento cristão. Onde quer que Deus e a humanidade entrem em contacto, o paradigma da encarnação ilumina esse relacionamento. Se existe um ponto central no pensamento religioso de Calvino, este pode, perfeitamente, ser identificado como sendo o próprio Jesus Cristo.

Sugerir que não é inteiramente apropriado designar o pensamento religioso de Calvino como um "sistema" não significa, de forma alguma, que este não possua coerência ou consistência interna. Ao contrário, significa ressaltar a habilidade com que Calvino, agindo aparentemente mais como um teólogo bíblico do que filosófico, foi capaz de integrar uma série de elementos na estrutura global de seu pensamento. Ele pode não ter desenvolvido um "sistema teológico", no sentido estrito do termo; entretanto ele foi, indubitavelmente, um pensador sistemático, que reconheceu plenamente a necessidade de assegurar a consistência interna, entre os vários componen¬tes de seu pensamento.

À medida que Calvino envelhecia, surgia uma nova preocupação com o método. Ocorreu uma alteração significativa no clima intelectual, conforme se desenvolvia um novo interesse humanista por questões metodológicas, com o efeito essencial de que a sistematização não era mais considerada a reserva exclusiva dos tão abominados teólogos escolásticos. Em parte, isso se deve à crescente influência da escola humanista de Pádua, cuja ênfase sobre a importância do método (e das contribuições de Aristóteles a essa ciência) alcançou uma audiência progressivamente favorável, ao final da Renascença. Se pretendesse manter a respeitabilidade e a credibilidade intelectual, o Calvinismo tinha que se adequar ao novo molde sistemático. Os sucessores de Calvino, ao final do século 16, confrontados com a necessidade de impor um método ao seu pensamento, descobriram que sua teologia era eminentemente adequada a uma readaptação, dentro das estruturas lógicas mais rigorosas sugeridas pela metodologia aristotélica, a qual era privilegiada ao final da Renascença italiana. Isso, talvez, tenha conduzido à conclusão precipitada de que o próprio pensamento de Calvino possuía a forma sistemática e o rigor lógico da ortodoxia reformada do período posterior e tenha permitido que a preocupação da ortodoxia, sobre a doutrina da predestinação, fosse imposta às Institutas de 1559. Como devemos sugerir, há uma sutil diferença entre Calvino e o Calvinismo nesse aspecto, assinalando e refletindo uma reviravolta relevante na história intelectual em geral. Se os discípulos de Calvino desenvolveram suas idéias, isso ocorreu em resposta a um novo espírito da época, o qual considerava a sistematização e a preocupação com o método como intelectualmente respeitáveis e desejáveis. O Luteranismo falhou em reconhecer a importância dessa decisiva mudança no contexto intelectual; na época em que os escritores luteranos adotaram os novos métodos, praticamente uma geração inteira havia se passado e a superioridade do Calvinismo parecia certa

Antes de considerar as principais características do pensamento de Calvino, pode ser útil identificar pelo menos algumas das influências mais relevantes sobre as suas idéias. Em primeiro lugar, deve-se ressaltar que Calvino é um teólogo bíblico. A primeira e mais relevante fonte de suas idéias religiosas era a Bíblia. A obra de Calvino, como comentarista bíblico, serve para reforçar a impressão geral que alguém adquire, a partir de uma leitura mais cuidadosa das Institutas: a de que ele considerava a si mesmo como um obediente expositor da Bíblia. Textos, contudo, demandam interpretação. Calvino tinha acesso às principais técnicas da teoria literária, do criticismo textual e da análise filológica que a Renascença havia colocado à sua disposição e não teve dúvidas em usá-las. Ele era um humanista e empregava as técnicas do mundo das letras a seu serviço, como expositor bíblico.

Embora a principal preocupação de Calvino fosse a interpretação das Escrituras, sua leitura desse texto era informada e enriquecida pela tradição cristã. Ele não hesitava em desenvolver a tese que havia, originalmente, defendido na Disputa de Lausanne - a tese de que a Reforma representava a restauração dos autênticos ensinamentos da Igreja primitiva, com a eliminação das distorções e das adições ilegítimas do período medieval. Sobretudo, Calvino considerava seu pensamento como uma exposição fiel das principais idéias de Agostinho de Hipona: "Agostinho é totalmente nosso!". Ele tinha em alta conta alguns dos anteriores escritores medievais, tais como Bernard de Clairvaux. Embora tivesse a tendência de considerar a antiga teologia medieval como algo irrelevante, é evidente que Calvino incorporou em seu pensamento pelo menos alguns de seus métodos e pressupostos. Seu voluntarismo e o apelo sutil ao método lógico-crítico são exemplos de uma afinidade ligada não necessariamente a algum escritor ou escola de pensamento em particular, mas ao acervo intelectual característico da teologia contemporânea. Por fim, sua dívida frente à primeira geração de Reformadores é em tudo evidente - a Lutero, a seu amigo Bucero, de Estrasburgo, e ao erudito Filipe Melanchthon, para mencionar apenas três deles.

Obviamente, é impossível fornecer uma análise detalhada do pensamento de Calvino no espaço do qual dispomos. Nossa proposta é, portanto, apresentar um resumo do Cristianismo segundo Calvino, da forma como é apresentado nas Institutas.
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05 novembro, 2010

0 A Prioridade das Institutas – Alister McGrath



A forma mais conveniente - e, como devemos sugerir, a mais confiável -de apresentar um esboço da perspectiva de Calvino sobre o Cristianismo consiste em distinguir os temas centrais da edição de 1559 das Institutas da Religião Cristã. O próprio Calvino, de forma explícita, identificou as Institutas como a única apresentação oficial de suas idéias religiosas. Isso não quer dizer que outras fontes em potencial para essas idéias - por exemplo, seus comentários bíblicos ou seus sermões - sejam totalmente apagados pelas Institutas. Tampouco significa subestimar as incríveis habilidades de Calvino como comentarista bíblico ou pregador. Certamente é verdade que, ao menos em alguns casos, é possível construir os principais esboços de suas doutrinas a partir de uma pesquisa em seus comentários bíblicos.' Além do mais, os comentários geralmente não possuem o tom irritadiço e petulante, ocasionalmente beirando o desagradável, que é característico de certos trechos das Institutas de 1559. Afigura nada atraente de Calvino como autor, provavelmente um reflexo das progressivas debilidades que o desgastavam, relacionadas tanto ao seu envelhecimento quanto à sua enfermidade, é considerada, geralmente, como uma das principais deficiências de sua obra. O tratamento que ele dispensava a seus oponentes, particularmente a Andréas Osiander, é agressivo e arrogante, com uma lamentável tendência de combinar o criticismo de idéias ao criticismo da pessoa daqueles que as defendiam. O contraste com Tomás de Aquino é particularmente acentuado: sua obra Summa Theologiae se caracteriza pela considerável moderação, mesmo naqueles pontos em que Aquino está claramente expondo idéias que ele considera equivocadas. Por outro lado, os comentários de Calvino constituem uma leitura muito mais agradável. No entanto, devem ser observados dois potenciais perigos, no fato de se priorizar os comentários.

Em primeiro lugar, a rigorosa concepção de Calvino sobre o papel do comentarista em relação ao texto, evidenciada desde o comentário de Sêneca, coloca severas restrições à sua liberdade para proceder à transição hermenêutica crucial entre a exposição das Escrituras e a afirmação teológica. Calvino não concebe o termo "teologia" como algo que signifique apenas uma "explicação da Bíblia", embora ele não possua a menor intenção de

separar a teologia da explicação das Escrituras. Ainda que ele considere a teologia como "um eco do texto bíblico", esta não representa, estritamente falando, um comentário sobre o texto, mas uma estrutura de interpretação através da qual o texto pudesse ser compreendido. Fica claro que, ao comentar os textos, Calvino freqüentemente sente que não é adequado fornecer uma explicação detalhada sobre todas as implicações doutrinárias presentes em uma dada passagem. Em parte, isso reflete sua consciência da necessidade de lidar com os aspectos históricos, lingüísticos e literários, levantados por aquela passagem. Contudo, isso também se baseia na sua clara pressuposição de que seus leitores iriam se referir às Institutas como a fonte principal de toda a sua teologia - e, conseqüentemente, de seu método de interpretação das Escrituras. Os comentários podem esclarecer aspectos particulares dos textos bíblicos; as Institutas fornecem uma estrutura através da qual a essência da proclamação bíblica pode ser percebida e compreendida. Calvino claramente considerava seus comentários bíblicos como subordinados às Institutas, em alguns aspectos; estes não pretendiam ser um substituto independente e não podem ser tratados como se assim o fossem. Se é que existe um único auxilio à leitura das Escrituras, que supera todos os demais dentre suas obras e que foi idealizado como tal pelo próprio Calvino, este são as próprias Institutas, mais do que qualquer comentário sobre uma passagem bíblica especifica.

Em segundo lugar, as exposições teológicas de Calvino freqüentemente se baseavam em uma análise detalhada da relação das diversas partes que constituíam seu sistema, incluindo a exploração de possíveis dificuldades e a avaliação de alternativas contrárias. Esse esforço é real no contexto das Institutas, especialmente na edição de 1559. A plenitude das nuances, ênfases e sutilezas do pensamento de Calvino pode ser, dessa forma, identificada e avaliada. Ao tratar de qualquer tópico em particular, na edi¬ção de 1559, o leitor pode estar seguro de que ele ou ela encontrará tudo o que Calvino considerava como essencial para compreender seu posicionamento em relação àquele tópico. Essa extensão não será encontrada pelo leitor dos comentários bíblicos que tentar determinar a posição de Calvino através do estudo de sua explicação sobre passagens bíblicas potencialmente relevantes. A pessoa é, efetivamente, forçada a consultar as Institutas para determinar se houve omissão de algum componente es¬sencial do pensamento de Calvino em um dado tema, admitindo, portanto, a prioridade daquela obra.
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03 novembro, 2010

0 Satanás é Ministro da Ira Divina – João Calvino



A impiedade é um mal secreto, ( “por isso Deus os entregou...” Rm 1.24) daí o apóstolo fazer uma demonstração muito enfática a fim de patentear que eles não podem escapar sem justa condenação, visto que esta impiedade era seguida dos efeitos que provam a manifesta evidência da IRA do Senhor. Entretanto, se a ira do Senhor é sempre justa, segue-se que tem havido algo neles que era digno de condenação. Paulo, portanto, agora usa estes sinais para provar a apostasia e deserção dos homens, benevolência ao lançá-los de cabeça para baixo na destruição e ruína de todo gênero. Ao comparar os vícios de que eram culpados com a impiedade de que os acusara anteriormente, ele mostra que estavam sofrendo castigo proveniente do justo juízo de Deus. Visto que nada nos é mais precioso do que nossa própria honra, é o cúmulo da cegueira não hesitarmos em atrair desgraça sobre nós mesmos. Portanto, é um castigo muitíssimo justo para a desonra praticada contra a Majestade divina.

Este é o tema que o apóstolo desenvolve no fim do capítulo, porém lida com ele de várias formas, pois o requeria considerável de ampliação.

Em resumo, pois, o que o apóstolo está dizendo significa que a ingratidão humana para com Deus é injustificável. O próprio exemplo deles prova sem rodeios que a ira de Deus contra eles é sem misericórdia. Porque jamais teriam se precipitado, como bestas, em tão detestáveis atos de luxúria, se porventura não tivessem incorrido no ódio e inimizade de Deus em sua Majestade. Portanto, visto que o vício mais flagrantes é praticado em todos os lugares, ele conclui que as provas indubitáveis da vingança divina são evidentes na raça humana. Ora, se esta vingança divina nunca age sem motivo ou de forma injusta, Paulo nos afirma que é evidente deste fato que essa destruição, não menos certa do que justa, ameaça a humanidade toda.

É totalmente desnecessário, aqui, entrar numa infindável discussão sobre como Deus entrega os homens à vida de iniqüidade. É deveras certo que ele não só PERMITE que os homens caiam em pecado, aprovando que vivem assim, fingindo não ver sua queda, mas também ORDENA por seu justo juízo, de modo que são forçosamente conduzidos a tal loucura, não só por seus desejos maus, mas também pelo Diabo.

Paulo, pois, adota o termo ENTREGAR em concordância com o constante uso da Escritura. Aqueles que acreditam que somos levados a pecar tão-somente pela PERMISSÃO divina provocam forte violência contra esta palavra, pois Satanás é o MINISTRO DA IRA DIVINA, bem como seu ‘EXECUTOR’, ele também se acha fortemente armado contra nós, não simplesmente na aparência, mas segundo as ordens do JUIZ.

Deus, contudo, não deveria ser tido na conta de cruel, nem somos nós inocentes, visto que o apóstolo claramente mostra que somos entregues ao seu poder somente quando merecemos tal punição. Só uma exceção se deve fazer, a saber: que a CAUSA do pecado, as raízes do que sempre reside no próprio pecador; não tem origem em Deus, pois resulta sempre verdadeiro que “A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim o teu socorro” (Os 13.9).

Ao conectar os desejos perversos do coração humano com a IMPUREZA, o apóstolo indiretamente nos dá a entender o fruto que o nosso coração produzirá ao ser entregue a si mesmo. A expressão “entre eles mesmos” – é enfática, pois de modo significativo expressa quão profundas e indeléveis são as marcas da conduta depravada que trazem impureza a seus corpos.
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