23 outubro, 2010

1 Calvino – A Gênese de um Enigma



Sugerir que Calvino representa algo como um enigma histórico pode, à primeira vista, parecer absurdo. Não sabemos mais a seu respeito do que sobre várias outras figuras do século 16? Antes de iniciar a análise histórica e a reconstituição da incrível carreira de Calvino, porém, é relevante atentarmos para o fato de que sabemos muito menos sobre ele, particularmente sobre seu período inicial, do que gostaríamos de saber. Seu maior legado para a civilização ocidental foram suas idéias e as formas literárias com que elas foram expostas. Na verdade, mais de um historiador sugeriu a existência de paralelos entre Calvino e Lênin, alegando que os dois possuíam um grau extraordinário de visão teórica e aptidão organizacional.30 Ambos forneceram fundamentos teóricos para movimentos revolucionários, os quais dependeram justamente de tais fundamentos para sua organização, direção e posterior sucesso. O próprio Calvino, porém, como figura humana, de carne e osso, por detrás dessas idéias, permanece vago. As razões para isso não são difíceis de se entender, sendo, talvez, melhor compreendidas pela comparação de Calvino com o grande Reformador saxão, Martinho Lutero.

Em primeiro lugar, possuímos um material abundante, proveniente da pena generosa de Lutero, datado do período anterior ao seu surgimento como importante Reformador. Sua carreira como Reformador tem por marcos iniciais as suas Noventa e Cinco Teses, referentes às indulgências (3 í de outubro de 1517), o debate de Leipzig de junho-julho de 1519 e os três tratados reformistas de 1520. Por volta de 1520, Lutero era tido como um Reformador carismático e popular. Essa vocação, entretanto, fundamentava-se em um conjunto de idéias religiosas que se desenvolveram anteriormente a seu engajamento público. De 1513 a 1517, Lutero tinha-se engajado no ensino teológico, na Universidade de Wittenberg, período em ele refletiu sobre as idéias que exerceram tão grande influência sobre os acontecimentos que se seguiram. Possuímos a maioria de seus escritos, em uma ou outra forma, daqueles primeiros anos, o que nos habilita a traçar a evolução destes conceitos religiosos básicos.


No caso de Calvino, contudo, somos confrontados com uma ausência quase que absoluta de material de sua autoria, relacionado a seu período de formação. As origens de sua carreira como Reformador podem ser fixadas a partir de algum ponto entre o final de 1533 ou o início de 1534, mas não se sabe, precisamente, quando. Seu comentário sobre a obra De clementia, de Séneca, que surgiu em abril de 1532, pouco revela em relação a seu autor, exceto quanto a sua erudição e as prováveis ambições juvenis de um estudioso humanista. Arazão para essa escassez de material não é difícil de entender. As relações entre a coroa francesa e os ativistas evangélicos vinham se deteriorando, continuamente, durante o início da década de 1530. No início da manhã de domingo, do dia 18 de outubro de 1534, a nuvem negra, que já vinha se formando há algum tempo, finalmente se rompeu com o "Incidente dos Panfletos". Ocorreu que, naquele dia, panfletos que atacavam violentamente práticas religiosas católicas, escritos pelo panfletista Antoine Marcourt, foram afixados em importantes locais, por todo o reino da França, inclusive na antecâmara do quarto do rei, em Amboise.

Enfurecido por esses acontecimentos, Francisco I foi levado a deflagrar uma série intimidante de medidas repressivas contra os evangélicos, na França, tornando desaconselhável, àqueles que tivessem uma visão reformista, chamar atenção para este fato. João Calvino já havia chegado a essa conclusão, em novembro de 1533, quando deixou Paris pela segurança relativa de Angoulême, um dia após Nicolas Cop - o recém empossado reitor - ter feito um discurso inflamado pelo Dia de Todos os Santos, na Universidade de Paris. Devemos ressaltar que o discurso de Cop, que parecia promover convicções evangélicas, provocou considerável oposição por parte dos mais conservadores. Calvino, provável suspeito de haver escrito o discurso, achou aconselhável deixar Paris o mais rápido possível, atitude totalmente justificável em face dos acontecimentos posteriores. Como ressaltam seus biógrafos, ele escapou por pouco:33 dentro de algumas horas, a polícia havia revistado suas salas e confiscado seus trabalhos. Esses trabalhos que, sem dúvida, possuíam um valor inestimável para o esclarecimento da evolução do pensamento de Calvino durante esta fase tão importante, jamais foram encontrados. Assim, somos obrigados a considerar esse período de formação como um enigma. No entanto, relutando em se deixarem conter por essa falta de evidências, alguns relatos destes primeiros anos parecem ter cedido à tentação de apresentar suposições históricas como fatos históricos. Até mesmo Doumergue, que corretamente afirma que se deve reconhecer ao menos parte da carreira de Calvino como "une enigme chronologique", tende a aceitar essas suposições históricas de seus estudiosos, em vez de se empenhar na sua reconstituição crítica.

Em segundo lugar, Lutero é excepcionalmente generoso com relação a referências autobiográficas, as quais encontram-se espalhadas por todas as suas obras. Talvez a referência mais famosa seja o "fragmento autobiográfico", de 1545, escrito no ano anterior à sua morte. Esse segmento funciona como uma introdução à primeira edição da coletânea de suas obras escritas em latim, na qual ele se apresenta a seus leitores. Ao longo desse prefácio, ele descreve com detalhes sua experiência pessoal, a evolução de suas idéias religiosas e o modo como se desenrolou a crise que levou à origem da Reforma Luterana. Embora reminiscências pessoais de homens idosos não sejam, em regra, muito confiáveis, as memórias de Lutero parecem acuradas, até onde podem ser comprovadas. O modo como ele sugere que se desenvolveram suas idéias religiosas (sobre as quais sua proposta de reforma se fundamentaria) também pode ser comprovado pela comparação com suas obras relativas ao período inicial de sua carreira. Calvino, contudo, parece ter sido reticente quanto a inserir qualquer referência pessoal em suas obras. É provável que uma passa¬gem da obra Réplica a Sadoleto (1539), na qual um representante evangélico descreve seu rompimento com a Igreja medieval, possa ser autobiográfica;36 entretanto, Calvino não faz qualquer afirmação neste sentido. Aparte explicitamente autobiográfica do prefácio de seu Comentário sobre os Salmos,1" de 1557, é, porém, de uma brevidade intrigante e, em certos pontos, de difícil interpretação. Em seus sermões Calvino usa, freqüentemente, a primeira pessoa - mas não se pode, necessariamente, concluir que revele muito sobre si mesmo ao fazê-lo. Sua modéstia o impediu de revelar" as reflexões e reminiscências, das quais tanto depende a reconstituição histórica.

Porque Calvino deveria ser tão relutante em se revelar? A explicação para sua personalidade complexa encontra-se na forma pela qual ele entendia seu chamado. Em um raro momento de revelação pessoal, ele deixou clara sua crença veemente de que teria sido separado por Deus para um propósito específico. Ao meditar sobre sua carreira, ele pôde perceber a mão oculta de Deus dirigindo sua vida nos momentos cruciais. Ele acreditava que, apesar de não possuir qualquer mérito pessoal, Deus o chamou, mudou o curso de sua vida, conduziu-o a Genebra e o investiu na função de pastor e pregador do Evangelho. Qualquer que fosse a autoridade que Calvino possuísse, ele a entendia como sendo derivada de Deus, e não de seus talentos e habilidades inatos. Ele não era nada mais do que um instrumento nas mãos de Deus. Deve-se ressaltar que Calvino compartilhava da ênfase comum à Reforma, expressa na doutrina da justificação pela fé de Lutero e na doutrina reformada da eleição imerecida (ante praevisa merita), na pecaminosidade e na insignificância da humanidade caída. O fato de que Deus o tivesse escolhido era uma expressão da compaixão e generosidade divinas, e não de qualquer mérito ou qualidade pessoal que Calvino pudesse possuir. Sugerir que seu senso de chamado divino reflete sua arrogância revela uma peculiar falta dé conhecimento a respeito da espiritualidade da Reforma.

A compreensão a respeito de seu chamado é o que contém as aparentes tensões em nosso conhecimento sobre a personalidade de Calvino. Tímido e reservado, ainda assim, ele era capaz de uma coragem que beirava a intransigência, recusando-se a fazer concessões quando acreditava que a vontade de Deus estava em jogo. Pronto a ser ridicularizado, se preciso (embora isto costumasse feri-lo profundamente), Calvino não estava pronto a permitir que este ridículo fosse transferido dele, como indivíduo, para a sua causa e ao Deus que ele acreditava servir. Acima de tudo, aparentava estar convencido de que era apenas um simples instrumento, através do qual Deus poderia trabalhar; um porta-voz, através do qual Deus poderia falar. Considerava sua personalidade como um obstáculo potencial a essas ações divinas e, em resposta, aparentava ter cultivado a modéstia.

Desde o início o leitor deve estar, portanto, atento às dificuldades existentes em torno de qualquer reconstituição histórica da carreira e da personalidade de Calvino e também em relação à natural - e totalmente compreensível - tendência a se adotar uma atitude antagônica em relação a ele. Adiante, tentaremos fazer uso dos recursos disponíveis aos historiadores, ao final da Renascença, para desenvolver, do modo mais plausível que pudermos, um quadro das forças religiosas, sociais, políticas e intelectuais que modelaram alguns dos contextos em que Calvino viveu e, posteriormente, transformou. Existem, entretanto, lacunas significativas em nosso conhecimento. Calvino era um indivíduo extraordinariamente introspectivo, que optou por reter o material histórico que teria iluminado as sombras de sua história. Assim, é inevitável que ele seja retratado como uma figura um tanto quanto pálida, sem vida, um homem cujos mais íntimos pensamentos, atitudes e ambições aos são totalmente negados. Insatisfeitos com o esboço monocromático resultante, alguns historiadores caíram na eterna tentação de expandir os limites da história. Ainda que esta atitude seja compreensível, seu perigo deve ser prontamente reconhecido: o perfil retratado pode refletir pressuposições ocultas, por parte de historiadores tendenciosos, cujas lentes coloridas podem até mesmo nos negar acesso ao Calvino histórico.


Alister McGrath



1 comentários:

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cliqueboaleitura disse...

Obrigado pelo conteúdo de qualidade de seu blog! Fiz uma pequena homenagem, seu blog está na minha lista de homenageados!^^
Visite http://cliqueboaleitura.blogspot.com/ ,meus sinceros parabéns!
Genilda Silva

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