23 outubro, 2010

1 Calvino – A Gênese de um Enigma



Sugerir que Calvino representa algo como um enigma histórico pode, à primeira vista, parecer absurdo. Não sabemos mais a seu respeito do que sobre várias outras figuras do século 16? Antes de iniciar a análise histórica e a reconstituição da incrível carreira de Calvino, porém, é relevante atentarmos para o fato de que sabemos muito menos sobre ele, particularmente sobre seu período inicial, do que gostaríamos de saber. Seu maior legado para a civilização ocidental foram suas idéias e as formas literárias com que elas foram expostas. Na verdade, mais de um historiador sugeriu a existência de paralelos entre Calvino e Lênin, alegando que os dois possuíam um grau extraordinário de visão teórica e aptidão organizacional.30 Ambos forneceram fundamentos teóricos para movimentos revolucionários, os quais dependeram justamente de tais fundamentos para sua organização, direção e posterior sucesso. O próprio Calvino, porém, como figura humana, de carne e osso, por detrás dessas idéias, permanece vago. As razões para isso não são difíceis de se entender, sendo, talvez, melhor compreendidas pela comparação de Calvino com o grande Reformador saxão, Martinho Lutero.

Em primeiro lugar, possuímos um material abundante, proveniente da pena generosa de Lutero, datado do período anterior ao seu surgimento como importante Reformador. Sua carreira como Reformador tem por marcos iniciais as suas Noventa e Cinco Teses, referentes às indulgências (3 í de outubro de 1517), o debate de Leipzig de junho-julho de 1519 e os três tratados reformistas de 1520. Por volta de 1520, Lutero era tido como um Reformador carismático e popular. Essa vocação, entretanto, fundamentava-se em um conjunto de idéias religiosas que se desenvolveram anteriormente a seu engajamento público. De 1513 a 1517, Lutero tinha-se engajado no ensino teológico, na Universidade de Wittenberg, período em ele refletiu sobre as idéias que exerceram tão grande influência sobre os acontecimentos que se seguiram. Possuímos a maioria de seus escritos, em uma ou outra forma, daqueles primeiros anos, o que nos habilita a traçar a evolução destes conceitos religiosos básicos.


No caso de Calvino, contudo, somos confrontados com uma ausência quase que absoluta de material de sua autoria, relacionado a seu período de formação. As origens de sua carreira como Reformador podem ser fixadas a partir de algum ponto entre o final de 1533 ou o início de 1534, mas não se sabe, precisamente, quando. Seu comentário sobre a obra De clementia, de Séneca, que surgiu em abril de 1532, pouco revela em relação a seu autor, exceto quanto a sua erudição e as prováveis ambições juvenis de um estudioso humanista. Arazão para essa escassez de material não é difícil de entender. As relações entre a coroa francesa e os ativistas evangélicos vinham se deteriorando, continuamente, durante o início da década de 1530. No início da manhã de domingo, do dia 18 de outubro de 1534, a nuvem negra, que já vinha se formando há algum tempo, finalmente se rompeu com o "Incidente dos Panfletos". Ocorreu que, naquele dia, panfletos que atacavam violentamente práticas religiosas católicas, escritos pelo panfletista Antoine Marcourt, foram afixados em importantes locais, por todo o reino da França, inclusive na antecâmara do quarto do rei, em Amboise.

Enfurecido por esses acontecimentos, Francisco I foi levado a deflagrar uma série intimidante de medidas repressivas contra os evangélicos, na França, tornando desaconselhável, àqueles que tivessem uma visão reformista, chamar atenção para este fato. João Calvino já havia chegado a essa conclusão, em novembro de 1533, quando deixou Paris pela segurança relativa de Angoulême, um dia após Nicolas Cop - o recém empossado reitor - ter feito um discurso inflamado pelo Dia de Todos os Santos, na Universidade de Paris. Devemos ressaltar que o discurso de Cop, que parecia promover convicções evangélicas, provocou considerável oposição por parte dos mais conservadores. Calvino, provável suspeito de haver escrito o discurso, achou aconselhável deixar Paris o mais rápido possível, atitude totalmente justificável em face dos acontecimentos posteriores. Como ressaltam seus biógrafos, ele escapou por pouco:33 dentro de algumas horas, a polícia havia revistado suas salas e confiscado seus trabalhos. Esses trabalhos que, sem dúvida, possuíam um valor inestimável para o esclarecimento da evolução do pensamento de Calvino durante esta fase tão importante, jamais foram encontrados. Assim, somos obrigados a considerar esse período de formação como um enigma. No entanto, relutando em se deixarem conter por essa falta de evidências, alguns relatos destes primeiros anos parecem ter cedido à tentação de apresentar suposições históricas como fatos históricos. Até mesmo Doumergue, que corretamente afirma que se deve reconhecer ao menos parte da carreira de Calvino como "une enigme chronologique", tende a aceitar essas suposições históricas de seus estudiosos, em vez de se empenhar na sua reconstituição crítica.

Em segundo lugar, Lutero é excepcionalmente generoso com relação a referências autobiográficas, as quais encontram-se espalhadas por todas as suas obras. Talvez a referência mais famosa seja o "fragmento autobiográfico", de 1545, escrito no ano anterior à sua morte. Esse segmento funciona como uma introdução à primeira edição da coletânea de suas obras escritas em latim, na qual ele se apresenta a seus leitores. Ao longo desse prefácio, ele descreve com detalhes sua experiência pessoal, a evolução de suas idéias religiosas e o modo como se desenrolou a crise que levou à origem da Reforma Luterana. Embora reminiscências pessoais de homens idosos não sejam, em regra, muito confiáveis, as memórias de Lutero parecem acuradas, até onde podem ser comprovadas. O modo como ele sugere que se desenvolveram suas idéias religiosas (sobre as quais sua proposta de reforma se fundamentaria) também pode ser comprovado pela comparação com suas obras relativas ao período inicial de sua carreira. Calvino, contudo, parece ter sido reticente quanto a inserir qualquer referência pessoal em suas obras. É provável que uma passa¬gem da obra Réplica a Sadoleto (1539), na qual um representante evangélico descreve seu rompimento com a Igreja medieval, possa ser autobiográfica;36 entretanto, Calvino não faz qualquer afirmação neste sentido. Aparte explicitamente autobiográfica do prefácio de seu Comentário sobre os Salmos,1" de 1557, é, porém, de uma brevidade intrigante e, em certos pontos, de difícil interpretação. Em seus sermões Calvino usa, freqüentemente, a primeira pessoa - mas não se pode, necessariamente, concluir que revele muito sobre si mesmo ao fazê-lo. Sua modéstia o impediu de revelar" as reflexões e reminiscências, das quais tanto depende a reconstituição histórica.

Porque Calvino deveria ser tão relutante em se revelar? A explicação para sua personalidade complexa encontra-se na forma pela qual ele entendia seu chamado. Em um raro momento de revelação pessoal, ele deixou clara sua crença veemente de que teria sido separado por Deus para um propósito específico. Ao meditar sobre sua carreira, ele pôde perceber a mão oculta de Deus dirigindo sua vida nos momentos cruciais. Ele acreditava que, apesar de não possuir qualquer mérito pessoal, Deus o chamou, mudou o curso de sua vida, conduziu-o a Genebra e o investiu na função de pastor e pregador do Evangelho. Qualquer que fosse a autoridade que Calvino possuísse, ele a entendia como sendo derivada de Deus, e não de seus talentos e habilidades inatos. Ele não era nada mais do que um instrumento nas mãos de Deus. Deve-se ressaltar que Calvino compartilhava da ênfase comum à Reforma, expressa na doutrina da justificação pela fé de Lutero e na doutrina reformada da eleição imerecida (ante praevisa merita), na pecaminosidade e na insignificância da humanidade caída. O fato de que Deus o tivesse escolhido era uma expressão da compaixão e generosidade divinas, e não de qualquer mérito ou qualidade pessoal que Calvino pudesse possuir. Sugerir que seu senso de chamado divino reflete sua arrogância revela uma peculiar falta dé conhecimento a respeito da espiritualidade da Reforma.

A compreensão a respeito de seu chamado é o que contém as aparentes tensões em nosso conhecimento sobre a personalidade de Calvino. Tímido e reservado, ainda assim, ele era capaz de uma coragem que beirava a intransigência, recusando-se a fazer concessões quando acreditava que a vontade de Deus estava em jogo. Pronto a ser ridicularizado, se preciso (embora isto costumasse feri-lo profundamente), Calvino não estava pronto a permitir que este ridículo fosse transferido dele, como indivíduo, para a sua causa e ao Deus que ele acreditava servir. Acima de tudo, aparentava estar convencido de que era apenas um simples instrumento, através do qual Deus poderia trabalhar; um porta-voz, através do qual Deus poderia falar. Considerava sua personalidade como um obstáculo potencial a essas ações divinas e, em resposta, aparentava ter cultivado a modéstia.

Desde o início o leitor deve estar, portanto, atento às dificuldades existentes em torno de qualquer reconstituição histórica da carreira e da personalidade de Calvino e também em relação à natural - e totalmente compreensível - tendência a se adotar uma atitude antagônica em relação a ele. Adiante, tentaremos fazer uso dos recursos disponíveis aos historiadores, ao final da Renascença, para desenvolver, do modo mais plausível que pudermos, um quadro das forças religiosas, sociais, políticas e intelectuais que modelaram alguns dos contextos em que Calvino viveu e, posteriormente, transformou. Existem, entretanto, lacunas significativas em nosso conhecimento. Calvino era um indivíduo extraordinariamente introspectivo, que optou por reter o material histórico que teria iluminado as sombras de sua história. Assim, é inevitável que ele seja retratado como uma figura um tanto quanto pálida, sem vida, um homem cujos mais íntimos pensamentos, atitudes e ambições aos são totalmente negados. Insatisfeitos com o esboço monocromático resultante, alguns historiadores caíram na eterna tentação de expandir os limites da história. Ainda que esta atitude seja compreensível, seu perigo deve ser prontamente reconhecido: o perfil retratado pode refletir pressuposições ocultas, por parte de historiadores tendenciosos, cujas lentes coloridas podem até mesmo nos negar acesso ao Calvino histórico.


Alister McGrath

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13 outubro, 2010

0 Onde o Pecado Transbordou – João Calvino



- (Rm 5. 20,21) -

Sobreveio a lei para que o delito sobressaísse. O que a apóstolo afirma aqui depende de sua observação anterior, ou seja: que o pecado existiu antes que a lei fosse promulgada. Quando este ponto é estabelecido, então surge, imediatamente, a pergunta: "Então, com que propósito a lei nos foi dada?" Portanto, era indispensável que esta dificuldade fosse também resolvida. Contudo, visto que não tivera oportunidade, naquela ocasião, de apresentar uma digressão mais extensa, então prorrogou sua consideração para a presente passagem. Ele agora mostra, suficientemente, que a lei entrou [em cena] a fim de que o pecado pudesse sobressair. Ele não está aqui a descrever todo o uso e função da lei, mas trata só daquela parte que servia ao seu presente propósito. A fim de estabelecer a graça de Deus, ele afirma que era indispensável que a destruição dos homens fosse-lhes mais nitidamente revelada. Em verdade, os homens já se achavam naufragados antes mesmo que a lei fosse promulgada; porém, visto que eles aparentemente sobreviviam, mesmo em sua destruição, achavam-se submersos nas profundezas, a fim de que seu livramento parecesse ainda mais extraordinário quando, ao contrário da expectativa humana, emergissem dos dilúvios que os subvertiam. Não é ilógico concluir que a lei fora em parte promulgada em razão de que ela pudesse outra vez condenar as mesmas pessoas que uma vez já haviam sido condenadas. Seremos plenamente justificados em usar todos e quaisquer meios para trazer os homens, e até mesmo forçá-los pela comprovação de sua culpabilidade, a ter consciência de sua própria impiedade.

Onde o pecado transbordou. E bem notório o método geral de interpretar-se esta passagem desde os tempos de Agostinho. Quando a concupiscência é reprimida pelos restringimentos da lei, a mesma é intensamente estimulada. Há no homem inerente tendência de esforçar-se por fazer aquilo que lhe é proibido. Mas acredito que aqui a referência é simplesmente ao aumento do conhecimento e à intensificação da obstinada, porquanto o pecado é, pela lei, exposto aos olhos humanos, de modo que se vêem constantemente compelidos a ter consiciência da condenação que lhes está reservada. Assim o pecado, que de outra forma seria por eles completamente desdenhado, toma posse de suas consciências. Agora que a lei já foi promulgada, e a vontade de Deus, que brutalmente pisoteavam sob a planta de seus pés, se torna conhecida, aqueles que antes simplesmente desrespeitavam as fronteiras da justiça, agora chegam ao cúmulo de desdenhar da autoridade divina. Segue-se disto que o pecado é intensificado pela lei, visto que a autoridade do Legislador é então menosprezada e sua majestade, degradada.

A graça se plenificou infinitamente. A graça veio em auxílio do gênero humano depois que o pecado subjugou a todos, e a todos manteve sob seu domínio. Paulo, pois, nos ensina que a extensão da graça é ainda mais admiravelmente revelada, visto ser derramada mui copiosamente à medida que o pecado pervade tudo, não só para conter a avalanche do pecado, mas também para que ela o destrua completamente. Aprendemos deste fato que nossa condenação não nos é exibida pela lei com o propósito de fazer-nos continuar nele, mas com o fim de familiarizar-nos intimamente com nossa própria miséria, bem como para guiar-nos a Cristo, o qual nos foi enviado como Médico ao encontro de nossa enfermidade, como Libertador ao encontro de cativos, como Consolador ao encontro de aflitos e como Defensor ao encontro de oprimidos [Is 61.1].

Para que, como o pecado reinou para a morte, assim também reinasse a graça através da justiça. Como o pecado é descrito em termos de aguilhão da morte, visto que esta não tem poder algum sobre os homens exceto em decorrência do pecado, assim ele executa seu domínio por meio da morte. E por isso que se nos diz que ele exerce seu domínio por meio da morte. Na última cláusula, a ordem das palavras é confusa, porém não involuntariamente. Se Paulo houvera dito "a fim de que a justiça viesse a reinar por meio de Cristo", seu contraste teria sido direto. Entretanto, ele não se sentia satisfeito em comparar os opostos, e então acrescenta a palavra graça, de modo a imprimir ainda mais profundamente em nossa memória a verdade de que toda a nossa justiça não tem sua procedência em nossos próprios méritos, e, sim, na divina munificência. Ele previamente dissera que a morte mesma havia reinado. Ele agora atribui ao pecado o conceito de reinado. Mas o fim ou efeito do pecado é a morte. Afirma que ele reinou no passado, não porque cessou de reinar naqueles que são nascidos somente da carne, senão que distingue entre Adão e Cristo de tal forma como a designar a cada um o seu próprio tempo. Portanto, tão logo a graça de Cristo começa a prevalecer nos indivíduos, o reinado do pecado e da morte também cessa.
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07 outubro, 2010

0 No dia da ira. ( Rm 2.5b, 6) – João Calvino



Literalmente, introduzido no dia [grego, eiççççcç r||iépav, para o dia). Os ímpios, agora, amontoam em torno de si a ira divina, cuja força será derramada sobre suas cabeças naquele dia. A destruição virá sobre eles secretamente, a qual será, então, tirada dos tesouros divinos. O dia do juízo final é chamado o dia da ira, quando a referência é feita aos ímpios, embora o mesmo será um dia de redenção para os crentes. Semelhantemente, todas as outras visitações de Deus, no tocante aos ímpios, são sempre descritas como sendo horríveis e cheias de ameaças; no tocante aos fiéis, porém, suas visitações são agradáveis e trazem alegria. Daí, sempre que a Escritura faz menção da proximidade do Senhor, o fiel é convidado a exultar com intenso júbilo. Entretanto, quando se dirige aos réprobos, ela os golpeia com nada menos do que terror e medo. Diz Sofonias: "Aquele dia será um dia de indignação, dia de tribulação e de angustia, dia de alvoroço e de assolação, dia de trevas e de escuridão, dia de nuvens e de densas trevas" [Sf 1.15]. Há uma descrição similar em Joel 2.2, e Amós declara: "Ai daqueles que desejam o dia do Senhor! Para que quereis vós este dia do Senhor? Será de trevas e não de luz" (Am 5.18). Ao adicionar a palavra revelação, Paulo indica o que será esse dia de ira, ou seja: que o Senhor, então, manifestará seu juízo. Embora todos os dias ele dá indicações de seu juízo, todavia suspende e retém a clara e plena manifestação dele até àquele dia quando se abrirão os livros, as ovelhas serão separadas dos cabritos e se limpará o trigo do joio.

6.        O qual retribuirá a cada um segundo suas obras.

Paulo está a tratar com cegos pretendentes a 'santarrões', que acreditam que a perversidade de seus corações está bem oculta, desde que esteja coberta com, pelo menos, alguma aparência de obras fúteis. Ele, pois, realça a genuína justiça das obras que Deus leva em conta, caso presumam os homens, com base em sua falsa confiança, que é bastante agradar a Deus pronunciando palavras e meras bagatelas. Esta cláusula, contudo, não é tão difícil como geralmente se pretende. Ao punir a perversidade dos réprobos com justa vingança, o Senhor lhes dará o que realmente merecem; e, finalmente, visto que ele santifica os que previamente resolveu glorificar, ele igualmente coroará suas boas obras, porém não em consideração de algum mérito inerente neles. Esta prova, contudo, não pode ser extraída do presente versículo que, enquanto declara que recompensa as boas obras terão, não afirma, porém, seu valor ou o preço que lhes é estipulado. E uma insensatez concluir que algo possui mérito só porque é recompensado.

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05 outubro, 2010

0 A Cura para a Arrogância – João Calvino


Não sejais sábios aos vossos próprios olhos (Rm 12.16).

O que o apóstolo diz no grego é mais significante e apropriado à luz da comparação: "Não pensar demais nas coisas por demais elevadas." O que ele tem em mente é que o cristão não deve desejar com obsessiva ambição aquelas realizações pelas quais ele exceda a outrem, nem alimentar sentimentos de superioridade; mas, ao contrário, ponderar com discrição e mansidão. E são estas que fazem a diferença na presença do Senhor, e não o espírito de soberba ou de desdém demonstrado contra os irmãos.

O apóstolo adiciona uma ordenança muito oportuna, à qual já fizera menção, porquanto nada é mais danoso para destruir a unidade cristã do que nos exaltarmos e aspirarmos uma posição mais elevada que a dos outros, sentindo-nos superiores aos demais. Tomo a palavra humilde no sentido neutro, a fim de completar a comparação. Portanto, toda ambição e elação do espírito, as quais se ocultam dentro do nome de magnanimidade, são aqui condenadas. A moderação é a principal virtude dos crentes; ou, antes, submissão, que sempre prefere atribuir honra a outrem do que recebê-la para si próprio.

A outra afirmação do apóstolo se acha estreitamente  conectada a esta. Nada inflama mais o espírito do que uma exagerada opinião de nossa própria sabedoria. Portanto, ele quer que ponhamos esta opinião de lado, ouçamos os outros e nos sujeitemos aos seus conselhos.O antídoto mais eficaz para a cura da arrogância é suprimir uma opinião demasiadamente exagerada acerca de nossa própria sabedoria.
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03 outubro, 2010

0 Onde está o Vanglória? – João Calvino




- ( Rom 3.27-28 ) -

Onde, pois, a vanglória? Tendo uma vez privado todos os homens da confiança nas obras, com razões suficientemente conclusivas, o apóstolo agora os reprova em face de sua vaidade. Sua exclamação, neste ponto, era indispensável, pois teria sido insuficiente, neste caso, que lhes ministrasse seu ensino, se o Espírito Santo não bombardeasse o nosso orgulho com fulminante veemência, com o fim de lançá-lo abaixo. A vanglória, diz ele, é, sem sombra de dúvida, de todo excluída, visto não podermos produzir nada por nós mesmos que mereça a aprovação ou o louvor de Deus. Contudo, se mérito é uma questão de vanglória, quer a chamemos de 'mérito côngruo' ou 'mérito condigno', por meio do qual alguém pode reconciliar Deus consigo mesmo, vemos que ambos são aqui destruídos. Paulo não está preocupado com a diminuição ou moderação do mérito, senão que não deixa ficar uma só partícula dele. Além disso, se a fé remove a ostentação das obras, de tal forma que não pode ser proclamado puramente sem privar totalmente os homens de todo e qualquer louvor, ao atribuir tudo à misericórdia de Deus, segue-se que obra alguma é de algum valor para obter-se a justiça.

Das obras? Em que sentido o apóstolo nega, aqui, que nossos méritos estão excluídos pela lei, quando, antes, provou nossa condenação pela lei? Se a lei entrega a todos nós à morte, que glória poderíamos obter dela? Ao contrário, não priva ela, a todos nós, de nos gloriarmos, e não nos cobre ela de opróbrio? Ele demonstrou, pois, que o nosso pecado está exposto pelo juízo da lei, visto que todos nós deixamos de observá-la. O que ele tem em mente, aqui, é que, se a justiça consistisse na lei das obras, então nossa vanglória não seria excluída; porém, visto que ela procede da fé somente, então não há nada que possamos reivindicar como nosso, porquanto a fé recebe tudo de Deus, e não apresenta nada senão uma humilde confissão de carência.

Deve-se observar cuidadosamente este contraste entre fé e obras, porquanto as obras são aqui mencionadas universalmente sem qualquer adição. Ele, pois, está se referindo não apenas a observâncias cerimoniais, nem especificamente a algumas obras externas, porém inclui todos os méritos provenientes das obras que porventura possam imaginar-se.

O termo lei é aqui impropriamente aplicado à fé, porém isto de forma alguma obscurece o significado do apóstolo. Ele tem em mente que, quando se busca o domínio da fé, toda e qualquer ostentação posta nas obras é destruída. E como se estivesse dizendo que a justiça procedente das obras é de fato recomendada na lei, mas aquela que procede da fé tem sua própria lei, a qual não deixa espaço algum para a justiça procedente das obras.

Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé. O apóstolo expõe sua principal proposição como sendo, neste ponto, incontroversível, e adiciona uma explicação, pois quando as obras são expressamente excluídas, muita luz é jorrada sobre a justificação pela fé. Por esta razão, nossos oponentes despendem os maiores esforços em suas tentativas para envolver a fé nos méritos das obras. Na verdade concordam que o homem é justificado pela fé, mas não só pela fé. De fato, concedem ao amor o poder da justificação, embora, ao falarem, a atribuem à fé. O apóstolo, porém, afirma nesta passagem que a justificação é gratuita, de tal modo que ela não pode, de forma alguma, ser associada com os méritos das obras. Já expliquei por que ele se refere às obras como sendo da lei, e ao mesmo tempo já provei que é um completo absurdo restringir as obras às observâncias cerimoniais. E igualmente um sério equívoco entender pelo termo obras da lei aquelas obras provenientes da letra, as quais são realizadas sem o Espírito de Cristo. Ao contrário, o termo lei que o apóstolo adiciona é equivalente ao termo obras meritórias, visto referir-se à recompensa prometida na lei.

Quando Tiago afirma que o homem não é justificado só pela fé, mas também pelas obras, isto de forma alguma contradiz o conceito precedente. A melhor forma de conciliar os dois conceitos é levando em conta a natureza do argumento utilizado por Tiago. A questão consiste não em como o homem pode obter a justiça para si mesmo na presença de Deus, e, sim, como pode provar aos seus iguais que ele está justificado.Tiago está refutando os hipócritas que faziam um fútil estardalhaço para provar que tinham fé. Portanto, é uma grosseira falta de lógica não admitir que o termo justificar é tomado por Tiago em sentido distinto do de Paulo, visto que ambos tratam de temas também distintos: O termo fé está também sujeito a vários significados, e tal ambigüidade deve ser levada em conta para um correto juízo sobre a questão. Tiago, como podemos averiguar do contexto, não pretendia dizer nada mais, nada menos, senão que o homem não deve ser tido por justo por meio de uma fé fictícia ou morta, a menos que ele prove sua justiça por meio de atos. Sobre esta questão, vejam-se minhas Instituías [Livro III.iii.12].
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01 outubro, 2010

0 Orem por todos os Governantes – João Calvino



1 Timóteo 2:1-3

Portanto, exorto, antes de tudo, que se usem súplicas, orações, intercessões, ações de graças em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se encontram em posição de destaque, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito. Isso é bom e aceitável aos olhos de Deus, nosso Salvador...

1. Portanto, exorto, antes de tudo. Os exercícios religiosos que o apóstolo aqui ordena mantêm e fortalecem em nós o culto sincero e o temor de Deus, bem como nutrem a consciência íntegra de que falamos anteriormente. O termo, portanto, é então perfeitamente apropriado, visto que essas exortações se deduzem naturalmente do encargo que ele pusera sobre Timóteo.

Primeiramente, ele trata da oração pública e de sua regulamentação, a saber: que ela deve ser feita não só em favor dos crentes, mas em favor de todo o gênero humano. É possível que alguém argumente: “Por que devemos preocupar-nos com o bem-estar dos incrédulos, já que não mantêm nenhuma relação conosco? Não é suficiente que nós, que somos irmãos, oremos uns pelos outros e encomendemos a Deus toda a Igreja? Os estranhos não significam nada para nós”. Paulo se põe contra essa perversa perspectiva, e diz aos efésios que incluíssem em suas orações todos os homens, e não as restringissem somente ao corpo da Igreja.

Admito que não entendo plenamente a diferença entre os três ou quatro tipos de oração de que Paulo faz menção. É pueril a opinião expressa por Agostinho, a qual torce as palavras de Paulo para adequarem-se ao uso cerimonial de sua própria época. O ponto de vista mais simples é preferível, a saber: que súplicas são solicitações para sermos libertados do mal; orações são solicitações por algo que nos seja proveitoso; e intercessões são nossos lamentos postos diante de Deus em razão das injúrias que temos suportado. Eu mesmo, contudo, não entro em distinções sutis desse gênero; ao contrário, deduzo um tipo diferente de distinção. Proseucai [Proseuche] é o termo grego geral para todo e qualquer tipo de oração; e deh>seiv [deeseis] denota essas formas de oração nas quais se faz alguma solicitação específica. Portanto, essas duas palavras se relacionam como o gênero e a espécie. v´Enteu>xeiv [Enteuxeois] é o termo usual de Paulo para as orações que oferecemos em favor uns dos outros, e o termo usado em latim é intercessiones, intercessões. Platão, contudo, em seu segundo diálogo intitulado, Albibíades, usa a palavra de forma diferenciada para denotar uma petição definida, expressa por uma pessoa em seu próprio favor. Em cada inscrição do livro, bem como em muitas passagens, ele mostra claramente que proseuch [proseuche] é, como eu já disse, um termo geral.

Todavia, para não nos determos desproporcionalmente por mais tempo numa questão que não é de grande relevância, Paulo, em minha opinião, está simplesmente dizendo que sempre que as orações públicas foram oferecidas, as petições e súplicas devem ser formuladas em favor de todos os homens, mesmo daqueles que presentemente não mantêm nenhum relacionamento conosco. O amontoado de termos não é supérfluo; pois ao meu ver Paulo, intencionalmente, junta esses três termos com o mesmo propósito, ou seja, com o fim de recomendar, com o maior empenho possível, e pedir com a máxima veemência, que se façam orações intensas e constantes.

Sobre o significado de ações de graças não há nada de obscuro, pois ele não só nos incita a orar a Deus pela salvação dos incrédulos, mas também a render graças por sua prosperidade e bem-estar. A portentosa benevolência que Deus nos demonstra dia a dia, ao fazer “seu sol nascer sobre bons e maus”, é digna de todo o nosso louvor; e o amor devido ao nosso próximo deve estender-se aos que dele são indignos.

2. Em favor dos reis. Ele faz expressa menção dos reis e de outros magistrados porque os cristãos têm muito mais razão de odiá-los do que todos os demais. Todos os magistrados daquele tempo eram ajuramentados inimigos de Cristo, de modo que se poderia concluir que eles não deviam orar em favor de pessoas que viviam devotando toda a sua energia e riquezas em oposição ao reino de Cristo, enquanto que, para os cristãos, a extensão desse reino, e de todas as coisas, é a mais desejável. O apóstolo resolve essa dificuldade e expressamente ordena que orações sejam oferecidas em favor deles. A depravação humana não é razão para não se ter em alto apreço as instituições divinas no mundo. Portanto, visto que Deus designou magistrados e príncipes para a preservação do gênero humano, e por mais que fracassem na execução da designação divina, não devemos, por tal motivo, cessar de ter prazer naquilo que pertence a Deus e desejar que seja preservado. Eis a razão por que os crentes, em qualquer país em que vivam, devem não só obedecer às leis e ao comando dos magistrados, mas também, em suas orações, devem defender seu bem-estar diante de Deus. Disse Jeremias aos israelitas: “Orai pela paz de Babilônia, porque, em sua paz, tereis paz” [Jeremias 29:7). Eis o ensino universal da Escritura: que aspiremos o estado contínuo e pacífico das autoridades deste mundo, pois elas foram ordenadas por Deus.

Para que vivamos vida tranqüila e mansa. Ele acrescenta mais uma persuasão, ao mostrar como isso será proveitoso a nós próprios e ao enumerar as vantagens geradas por um governo bem regulamentado. A primeira é uma vida tranqüila, porquanto os magistrados se encontram bem armados com espada para a manutenção da paz. A menos que restrinjam o atrevimento dos homens perversos, o mundo inteiro se encherá de ladrões e assassinos. Portanto, a forma correta de conservar a paz consiste em que a cada pessoa seja dado o que é propriamente seu, e que a violência dos poderosos seja refreada. A segunda vantagem consiste na preservação da piedade, ou seja, quando os magistrados se diligenciam em promover a religião, em manter o culto divino e requerer reverência pelas coisas sacras. A terceira vantagem consiste na preocupação pela seriedade pública: pois o benefício advindo dos magistrados consiste em que impeçam os homens de se entregarem a impurezas bestiais ou a vergonha devassidão, bem como a preservar a modéstia e a moderação. Se esses três requisitos foram suprimidos, que gênero de vida será deixado à sociedade humana? Portanto, se porventura nos preocupamos com a tranqüilidade pública, com a piedade ou com a decência, lembremo-nos de que o nosso dever é diligenciarmo-nos em favor daqueles por cuja instrumentalidade obtemos tão relevantes benefícios.

Disso concluímos que os fanáticos que lutam pela supressão dos magistrados são privados de toda humanidade e promovem unicamente o barbarismo impiedoso. Que grande diferença há entre Paulo que declara que, por amor à preservação da justiça e da decência, bem como da promoção da religião, devemos orar em favor dos reis, e aqueles que dizem que não só o poder real, mas também todo e qualquer governo, são contrários à religião. O que Paulo afirma tem o Espírito Santo como Autor; conseqüentemente, o conceito dos fanáticos não tem outro autor senão o diabo.

Se porventura suscitar-se a pergunta se devemos ou não orar em favor dos reis de cujo governo não recebemos tais benefícios, minha resposta é que devemos orar por eles, sim, para que, sob as diretrizes do Espírito Santo, comecem a conceder-nos essas bênçãos, com as quais até agora não foram capazes de prover-nos. Portanto, devemos não só orar por aqueles que já são dignos, mas também pedir a Deus que converta os maus em bons governantes. Devemos manter sempre este princípio: que os magistrados são designados por Deus para a proteção da religião, da paz e da decência públicas, precisamente como a terra foi ordenada para produzir o alimento. Por conseguinte, quando oramos pelo pão de cada dia, pedimos a Deus que faça a terra fértil, ministrando-lhe sua bênção, assim devemos considerar os magistrados como meios ordinários que Deus, em Sua providência, ordenou para conceder-nos as demais bênçãos. A isso deve-se acrescentar que, se somos privados daquelas bênçãos que Paulo atribui como dever dos magistrados no-las fornecer, a culpa é nossa. É a ira de Deus que faz com que os magistrados sejam inúteis, da mesma forma que faz com que a terra seja estéril. Portanto, devemos orar pela remoção dos castigos que nos sobrevêm em virtude de nossos pecados.

Em contrapartida, os magistrados e todos quantos desempenham algum ofício na magistratura são aqui lembrados de seu dever. Não basta que restrinjam a injustiça, dando a cada um o que é devidamente seu, e mantenham a paz, se não são igualmente zelosos em promover a religião e em regulamentar os costumes pelo uso de uma disciplina construtiva. A exortação de Davi, para que [os magistrados] “beijem o Filho” [Salmo 2:12, e a profecia de Isaías, para que sejam pais da Igreja, é de grande relevância. Portanto, não terão motivo para se congratularem, caso negligenciem sua assistência na manutenção do culto divino.

3. Isso é bom e aceitável. Havendo demonstrado que o mandamento que ele promulgara é excelente, agora apela para um argumento mais enérgico, a saber: que é agradável a Deus. Pois quando sabemos que essa é a vontade, cumpri-la é a melhor que todas as demais razões. Pelo termo, “bom”, ele tem em mente o que é certo e lícito; e, visto que a vontade de Deus é a regra pela qual devemos regulamentar todos os nossos deveres, ele prova que ela é justa, porque é aceitável a Deus.

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