16 setembro, 2010

0 Abnegação – João Calvino



A abnegação requer diligente empenho

Quão difícil é cumprir o dever de trabalhar pelo proveito do próximo! Se não deixarmos de lado a consideração de nós mesmos e não nos despojarmos de todo afeto ou interesse carnal, não conseguiremos fazer nada nessa esfera. Porque como havemos de cumprir os deveres que o apostolo quer que cumpramos com amor, se não renunciarmos a nós mesmos para dedicar-nos de coração aos nossos semelhantes? “O amor é paciente”, diz ele, “é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses”, etc. Ainda que ele só nos ordenasse que não busquemos nosso próprio proveito, ainda teríamos que forçar a nossa natureza, que de tal modo nos leva a amar a nós mesmos que não permite com facilidade que deixemos de procurar benefício próprio para atender diligentemente ao nosso próximo. Ou melhor, não nos deixa perder nossos direitos para cedê-los ao nosso próximo.

Ora, a Escritura, para nos persuadir a respeito, lembra-nos que tudo o que recebemos da graça do Senhor nos foi entregue sob esta condição: que o tornemos parte do bem comum da igreja. E, portanto, que o uso legítimo dos bens recebidos consiste em compartilhá-los fraternal e liberalmente, visando ao bem do nosso próximo. Para levar a efeito esse compartilhar, não se pode achar melhor regra nem mais certa do que quando se diz: tudo o que temos de bom nos foi confiado em depósito por Deus, e, nessas condições, deve ser distribuído para o bem dos demais.

E a Escritura vai além, comparando as graças e dons que cada um de nós tem com as qualidades ou funções próprias de cada membro do corpo humano. Nenhum membro tem sua faculdade independentemente, e não a aplica para seu beneficio particular, mas para proveito comum, e não recebe nenhum beneficio que não proceda do beneficio distribuído e partilhado por todo o corpo. Dessa maneira, o crente deve pôr tudo quanto é do seu poder à disposição dos irmãos, não fazendo uso disso unicamente para si, mas sempre com a nobre a clara intenção de que propicie o bem comum da igreja.

Portanto, para nos orientarmos na prática do bem e das ações humanitárias, adotemos esta norma: de tudo o que o Senhor nos deu com o que podemos ajudar o nosso próximo, somos despenseiros ou mordomos, sendo que teremos que prestar contas de como nos desincumbimos da nossa responsabilidade. E mais: não há outra maneira recomendável de administrar o que recebemos senão a de seguir a norma do amor. Em decorrência disso, não somente juntaremos os esforços para beneficiar o nosso próximo à solicitude que aplicamos com vistas ao nosso próprio proveito, mas também sujeitaremos o nosso proveito ao dos demais.

E realmente, para nos mostrar que essa é a maneira de administrar bem e devidamente o que ele nos dá, Deus a recomendou antigamente ao povo de Israel, mesmo com referencia aos menores beneficio que ele lhe fazia. Recordemos que ele ordenou que fossem ofertadas as primícias, ou seja, os primeiros frutos das colheitas, para que desse modo o povo testificasse que não lhe era lícito desfrutar nenhuma espécie de bens antes de lhe serem consagrados. Ora, se os dons de Deus nos são finalmente santificados, após os havermos consagrado de nossas mãos, certamente se vê que é um abuso condenável negligenciar a referida consagração. Por outro lado, seria uma verdadeira loucura tentar enriquecer a Deus dando-lhes as coisas que temos em mãos. Visto, pois, que o bem que podemos fazer não pode subir a Deus, como diz o profeta, devemos praticá-lo em favor dos seus servos que vivem neste mundo.


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