30 setembro, 2010

0 O que foi impossível à lei. - João Calvino



 - ( Rm 8.3 ) -

O Senhor nos justificou em Cristo, movido por sua soberana misericórdia. Tal coisa é impossível à lei fazer. Todavia, visto que esta cláusula é por demais notável, examinemos cada uma de suas partes.

O apóstolo afirma em termos claros que os nossos pecados foram expiados pela morte de Cristo, visto que era impossível que a lei nos conferisse a justiça. Daqui se infere que muito mais nos é ordenado na lei do que somos capazes de fazer. Se fôssemos capazes de cumprir a lei, não teria sido necessário buscar remédio em outra fonte. Portanto, é simplesmente absurdo medir a força humana pelos preceitos da lei, como se Deus, ao ordenar o que é justo, houvera considerado o caráter e a extensão de nossas faculdades.

No que estava enferma pela carne. Para que ninguém imaginasse que o apóstolo estava sendo irreverente, acusando a lei de enferma, ou restringindo-a às simples observâncias cerimoniais, ele expressamente afirma que esta defecção não era devido a alguma falha na lei, e, sim, às corrupções de nossa carne. E preciso admitir que, se alguém pudesse satisfazer a lei divina em termos absolutos, então o mesmo seria justo diante de Deus. Portanto, o apóstolo não nega que a lei seja suficiente para justificar-nos no que respeita à doutrina, visto que a mesma contém a norma perfeita de justiça. Contudo, visto que nossa carne não atinge essa justiça, todo o poder da lei falha e se desvanece. Por isso não é difícil refutar o erro ou, antes, a ilusão daqueles que imaginam que Paulo está privando somente as cerimônias da virtude de justificar. Porquanto Paulo expressamente põe a culpa em nós mesmos, e declara que ele não encontra falha na própria doutrina da lei.

Além do mais, é preciso que entendamos a enfermidade da lei no sentido em que o apóstolo usualmente toma a palavra, a qual significa não simplesmente uma leve fraqueza, e, sim, impotência. Ele adota este sentido com o fim de enfatizar que não é absolutamente a função da lei conceder justiça. Vemos, pois, que estamos inteiramente excluídos da justiça de Cristo, visto que não pode haver justiça em nós mesmos. Tal conhecimento é especialmente necessário, porque jamais seremos vestidos com a justiça de Cristo, a menos que antes saibamos com certeza que não possuímos em nós qualquer justiça que mereça chamar-se nossa. A palavra carne é sempre usada no mesmo sentido, significando nós próprios. A corrupção, pois, de nossa natureza torna a lei de Deus de nenhuma utilidade para nós. Embora nos mostre o caminho da vida, ela não nos impede de nos precipitarmos de ponta cabeça na morte.

Isso fez Deus enviando seu próprio Filho. Ele agora mostra a maneira como nosso Pai celestial nos restaurou à justiça por intermédio de seu Filho. O Pai condenou o pecado na carne de Cristo, ou seja: ao cancelar o escrito de dívida [Cl 2.14], ele aboliu a culpa que nos mantinha condenados na presença de Deus. A condenação proveniente do pecado nos trouxe para a justiça, porque, visto que nossa culpa foi desfeita, estamos absolvidos, de sorte que Deus nos considera justos. Em primeiro lugar, contudo, Paulo afirma que Cristo foi enviado, a fim de lembrar-nos que a justiça de forma alguma reside em nós, já que devemos buscá-la nele. E em vão que os homens confiam em seus próprios méritos, porquanto são justos somente através do beneplácito de outro, ouse apropriam da justiça procedente da expiação que Cristo efetuou em sua carne. Cristo, diz ele, veio na semelhança de carne pecaminosa. Embora a carne de Cristo fosse incontaminada por qualquer mancha, ela tinha a aparência de pecaminosidade, visto que levava em si o castigo devido aos nossos pecados. Certamente, a morte manifestava, na carne de Cristo, cada partícula de seu poder, como se sua carne se sujeitasse [espontaneamente] à morte. Visto que nosso Sumo Sacerdote tinha que aprender, de experiência própria, o que significa participar da fraqueza [Hb 4.15], aprouve a Cristo carregar nossas enfermidades, a fim de poder inclinar-se para nós com mais compaixão. Neste aspecto, também, transpareceu nele uma certa semelhança [—imago] com a nossa natureza pecaminosa.
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27 setembro, 2010

0 A Dispensação da Morte - João Calvino



A LEI EVIDENCIA NOSSA INILUDÍVEL CONDIÇÃO DE CULPA

Desta sorte, a lei é como que um espelho no qual contemplamos nossa incapacidade, então resultante desta a iniqüidade, por fim a maldição proveniente de ambas, exatamente como o espelho nos mostra as manchas de nosso rosto. Pois aquele a quem falta a capacidade para seguir a justiça, este está inexoravelmente chafurdado em um lamaçal de pecados. Ao pecado se segue imediatamente a maldição. Portanto, quanto mais a lei nos convence de que somos homens que têm cometido transgressão, tanto mais nos mostra que somos dignos de pena e castigo.

A isto é pertinente o dito do Apóstolo, de que o conhecimento do pecado é mediante a lei [Rm 3.20]. Pois ele aí está apenas a assinalar-lhe a primeira função, que é experimentada nos pecadores ainda não regenerados. A esta passagem são anexas estas: “Sobreveio a lei para que o pecado abundasse” [Rm 5.20]; e por isso “é a dispensação da morte” [2Co 3.7], que “produz a ira” [Rm 4.15] e mata. Ora, quanto mais claramente é a consciência espicaçada pelo conhecimento do pecado, com muito mais firmeza cresce a iniqüidade, pois juntamente com a transgressão da lei acresce, então, a contumácia contra o Legislador. Resta-lhe, portanto, que acenda a ira de Deus para a ruína do pecador, porquanto de si a lei nada pode senão acusar, condenar e perder. E, como escreve Agostinho: “Se o Espírito da Graça está ausente, a lei não serve para outra coisa senão para acusar-nos e condenar-nos à morte.”

Quando, porém, se diz isso, não se afeta a lei de ignomínia, na verdade nem mesmo derroga-se-lhe algo da excelência. Com efeito, se toda nossa vontade fosse conformada e ajustada à obediência, evidentemente seu conhecimento seria suficiente para a salvação. Quando, porém, nossa natureza carnal e corrupta contende hostilmente com a lei espiritual de Deus, nem se deixa corrigir por sua disciplina, segue-se que a lei, que fora dada para a salvação, se encontrasse ouvintes idôneos, se converteria em ocasião de pecado e de morte. Portanto, uma vez que somos todos comprovadamente transgressores, quanto mais claramente revela ela a justiça de Deus, tanto mais desvenda, em contrário, nossa iniqüidade; quanto mais explicitamente confirma o galardão da vida e da salvação como dependente da justiça, tanto mais confirma a perdição dos iníquos.

Portanto, estas ponderações longe estão de ser injuriosas à lei; ao contrário, são valiosas para uma recomendação mais excelente da beneficência divina. Ora, daí se evidencia cabalmente que por nossa corrupção e perversidade somos impedidos de fruir da bem-aventurança de vida revelada mediante a lei. Donde se torna mais dulçorosa a graça de Deus que nos socorre sem o subsídio da lei e mais aprazível sua misericórdia que no-la confere, mediante a qual aprendemos que ele jamais se cansa de continuamente conceder-nos benefícios e cumular-nos de novas dádivas.
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26 setembro, 2010

0 A Vida Cristã deve ser Ativa - João Calvino



Paulo diz: “Na diligência, não sejais remissos” – (Rm 12.11) – Este preceito nos é comunicado não só porque a vida cristã deve ser ativa, mas também porque é próprio que às vezes desconsideremos nossas próprias vantagens e dediquemos nossos labores em prol de nossos irmãos; e nem sempre em prol daqueles que são bons, mas também em prol daqueles que se nos revelam ingratos e indignos. Em resumo, visto que devemos esquecer de nós mesmos na execução de muitos de nossos deveres, jamais estaremos adequadamente preparados para a obediência a Cristo, a menos que instemos conosco mesmos, esforçando-nos diligentemente por desprender-nos de toda a nossa indolência.

Ao acrescentar “fervoroso de espírito”, ele nos mostra como devemos firmar-nos ao preceito anterior. Nossa carne, à semelhança dos asnos, é perenemente indolente, e por isso carecemos de ser esporeados. Não há outro corretivo mais eficaz para nossa indolência do que o fervor do espírito. Portanto, a diligência em fazer o bem requer aquele zelo que o Espírito de Deus acendeu um nossos corações. Por que, pois, diria alguém, Paulo nos exorta a cultivar este fervor? Eis minha resposta: embora este zelo seja um do divino, estes deveres são destinados aos crentes a fim de que destruam sua indiferença e fomentem aquela chama que Deus lhes acendeu. Pois geralmente sucede que, ou abafamos, ou mesmos extinguimos o Espírito em razão de nossas próprias mazelas.

O terceiro conselho, “servindo ao tempo”, tem a mesma referência. Visto que o curso de nossa vida é por demais breve, nossa chance de fazer o bem tão logo passa. Devemos, pois, ser mais solícitos na realização de nossos deveres. Assim, Paulo, em outra passagem, nos convida a “remir o tempo”, visto que os dias são maus (Ef 5.16). O significado pode ser também que devemos saber como administrar nosso tempo, porquanto há grande necessidade de assim fazermos. Não obstante, Paulo, creio eu, está contrastando seu preceito entre servir o tempo e (servir) o ócio. A tradução em muitos manuscritos antigos é (kvpíw) – Hesito em rejeitar esta tradução completamente, embora à primeira vista não pareça relacionar-se ao contexto. Contudo, se ela é aceitável, creio que Paulo desejava relacionar o culto divino com os deveres que desempenhamos em favor de nossos irmãos e tudo quanto serve para fortalecer o amor, a fim de transmitir maior encorajamento aos crentes.
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21 setembro, 2010

0 O Homem é só concupiscência - João Calvino



E, para que as coisas ditas acerca desta matéria não sejam incertas e obscuras, definamos pecado original. Entretanto, nem tenho a intenção de perscrutar, uma a uma, as definições que têm sido propostas pelos escritores. Ao contrário, oferecerei apenas uma, definição esta que a mim me parece perfeitamente consistente com a verdade. O pecado original representa, portanto, a depravação e corrupção hereditárias de nossa natureza, difundidas por todas as partes da alma, que, em primeiro lugar, nos fazem condenáveis à ira de Deus; em segundo lugar, também produzem em nós aquelas obras que a Escritura chama de “obras da carne” [Gl 5.19]. E é propriamente isto o que por Paulo, com bastante freqüência, designa apenas de pecado. As obras que de fato daí resultam, quais são: adultérios, fornicações, furtos, ódios, homicídios, glutonarias, Paulo chama, segundo esta maneira de ver, “frutos do pecado” [Gl. 5.19-21], ainda que, como a cada passo nas Escrituras, sejam também por ele referidas simplesmente pelo termo “pecados”.

Portanto, estas duas coisas devem ser consideradas distintamente. Isto é, em primeiro lugar, que estamos a tal ponto corrompidos e depravados em todas as partes de nossa natureza, que já por causa de apenas tal corrupção, somos, merecidamente, tidos como condenados e incriminados diante de Deus, a quem nada é aceito senão a justiça, a inocência, a pureza. Nem é esta a imputação de um delito alheio.

Ora, o que se diz de nos tornarmos passíveis ao juízo de Deus através do pecado de Adão, não se deve assim tomar como se portássemos a culpa de seu delito, sendo nós próprios inculpáveis e imerecedores. Pelo contrário, visto que, por sua transgressão, fomos todos engolfados na maldição, lemos que aquele nos fez culposos. Todavia, sobre nós não caiu somente o castigo, mas, dele instilado, uma contaminação reside em nós, à qual, de direito, se deve punição. Razão por que Agostinho, embora para mostrar mais claramente que ele nos é transmitido por propagação, freqüentes vezes o chame pecado alheio, ao mesmo tempo, contudo, também afirma ser ele inerente a cada um. E mui eloqüentemente o atesta o próprio Apóstolo que, por isso, a morte se propagou a todos, porque todos pecaram; isto é, estão enredilhados no pecado original e tisnados de sua nódoa [Rm 5.12].

E por isso também as próprias crianças, enquanto trazem consigo sua condenação desde o ventre materno, são tidas como culposas não por falta alheia, mas pela falta de si próprias. Ora, embora ainda não tenham trazido à tona os frutos de sua iniqüidade, no entanto têm encerrada dentro de si a semente. Com efeito, sua natureza toda é uma como que sementeira de pecado. Por isso, não pode ela deixar de ser odiosa e abominável a Deus. Do quê se segue que, com propriedade, esse estado é considerado como pecado diante de Deus, pois não haveria incriminação sem a culpabilidade.

Acode, em segundo lugar, esta outra consideração: que esta depravação jamais cessa em nós; pelo contrário, produz continuamente novos frutos, a saber, essas obras da carne que referimos antes, exatamente como uma fornalha acesa expele chama e centelhas, ou uma fonte mana água sem parar. Por essa razão, aqueles que definiram o pecado original como a falta de retidão original que devia subsistir em nós, ainda que incluam nessa definição a plena acepção do conceito, não expressaram, contudo, bastante significativamente sua força e energia. Ora, nossa natureza não é apenas carente e vazia do bem; ao contrário, a tal ponto fértil e fecunda em todas as coisas ruins, que não pode nunca deixar de estar produzindo o que é mau.

Aqueles que o declaram ser concupiscência, não fazem uso de termo de todo impróprio se meramente se adicionasse, o que da maioria de modo algum se admite, que tudo quanto há no homem, desde o intelecto até a vontade, desde a alma até a carne, foi poluído e saturado por essa concupiscência. Ou, para expressar-se mais sucintamente, o homem todo, de si mesmo, outra coisa não é senão concupiscência.
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17 setembro, 2010

0 Ensine Primeiro a Você Mesmo – João Calvino




Então tu, que ensinas a outrem, não ensinas a ti mesmo?  (Rm 2. 21-22) Ainda que os termos elogiosos por ele expressos até agora sejam numerosos, de tal modo que os judeus podiam com justiça tomá-los como uma grande honra, uma vez admitido que as marcas do caráter genuíno não estavam ausentes. Entretanto, visto que todas essas marcas outra coisa não eram senão meios, ou graças, as quais até mesmo os ímpios podem possuir e corromper pelo abuso, nunca são suficientes para que sejam constituídas em verdadeira glória. Porém Paulo, não satisfeito com simplesmente censurar e repreender sua arrogância em confiar tão-somente em tais qualificações, converte suas palavras de louvor em reprovação. Aquele que não só torna inúteis os dons divinos, os quais, por outro lado, são de grande valor e dignidade, mas também os vicia e conspurca por meio de sua depravação, na verdade merece a reprovação máxima. Tal indivíduo é um conselheiro perverso que não atina com o seu próprio bem, e é sábio somente em benefício de outrem. Paulo, portanto, mostra que o louvor que eles [judeus] apropriaram para si mesmos comprovou a própria desgraça deles.

Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Parece que a alusão do apóstolo, aqui, é ao Salmo 50.16-18, onde Deus diz:

"Mas ao ímpio, diz Deus:
Que fazes tu em recitar os meus estatutos,
e em tomar a minha aliança em tua boca?
Visto que odeias a correção,
e lanças as minhas palavras para detrás de ti.
Quando vês o ladrão, consentes com ele,
e tens a tua parte com adúlteros."

Esta reprimenda era aplicada aos judeus nos dias de outrora, que confiavam no mero conhecimento da lei e viviam não melhor do que se não tivessem lei alguma. A não ser que tomemos muito cuidado, a lei se voltará contra nós, neste presente tempo. De fato, o mesmo pode-se aplicar a muitos que se gabam de algum conhecimento extraordinário do evangelho, e todavia se entregam a toda sorte de devassidão, como se o evangelho não fosse a norma de vida. Portanto, sejamos precavidos em relação a uma atitude de descuido em relação ao Senhor, tendo em mente o gênero de juízo que ameaça esses charlatães palradores, os quais ostentam a Palavra de Deus esgrimindo-a com sua língua bigúmea.


Tu, que detestas os ídolos, roubas-lhes os templos?

Paulo, habilidosamente, compara sacrilégio e idolatria como sendo virtualmente a mesma coisa. Sacrilégio é simplesmente a profanação da majestade divina, um pecado não ignorado pelos poetas pagãos. Por esta razão, Ovídio [Metamor. III] acusa Licurgo de sacrilégio, por desprezar os ritos de Baco; e, em seu Faustos, ele se refere às mãos que violaram a majestade de Vênus como sendo um ato sacrílego. Entretanto, visto que os gentios atribuíam aos ídolos a majestade de seus deuses, eles consideravam um ato sacrílego somente quando alguém saqueava o que era dedicado em seus templos, nos quais, segundo criam, toda a religião estava centrada. Assim, no tempo presente, quando a superstição prevalece em detrimento da Palavra de Deus, o único gênero de sacrilégio que se reconhece é o furto daquilo que pertence às igrejas, visto que seu único deus está nos ídolos, e sua única religião consiste no fausto e na abundância.

Aqui somos advertidos, primeiramente, a não incensar a nós mesmos e a menosprezar a outrem quando nada mais fizemos senão observar apenas uma parte da lei; e, em segundo lugar, a não blasonarmos em remover apenas a idolatria externa, enquanto não nos esforçamos em escorraçar e erradicar a impiedade que se aninha nos recessos de nossos corações.
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16 setembro, 2010

0 Abnegação – João Calvino



A abnegação requer diligente empenho

Quão difícil é cumprir o dever de trabalhar pelo proveito do próximo! Se não deixarmos de lado a consideração de nós mesmos e não nos despojarmos de todo afeto ou interesse carnal, não conseguiremos fazer nada nessa esfera. Porque como havemos de cumprir os deveres que o apostolo quer que cumpramos com amor, se não renunciarmos a nós mesmos para dedicar-nos de coração aos nossos semelhantes? “O amor é paciente”, diz ele, “é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses”, etc. Ainda que ele só nos ordenasse que não busquemos nosso próprio proveito, ainda teríamos que forçar a nossa natureza, que de tal modo nos leva a amar a nós mesmos que não permite com facilidade que deixemos de procurar benefício próprio para atender diligentemente ao nosso próximo. Ou melhor, não nos deixa perder nossos direitos para cedê-los ao nosso próximo.

Ora, a Escritura, para nos persuadir a respeito, lembra-nos que tudo o que recebemos da graça do Senhor nos foi entregue sob esta condição: que o tornemos parte do bem comum da igreja. E, portanto, que o uso legítimo dos bens recebidos consiste em compartilhá-los fraternal e liberalmente, visando ao bem do nosso próximo. Para levar a efeito esse compartilhar, não se pode achar melhor regra nem mais certa do que quando se diz: tudo o que temos de bom nos foi confiado em depósito por Deus, e, nessas condições, deve ser distribuído para o bem dos demais.

E a Escritura vai além, comparando as graças e dons que cada um de nós tem com as qualidades ou funções próprias de cada membro do corpo humano. Nenhum membro tem sua faculdade independentemente, e não a aplica para seu beneficio particular, mas para proveito comum, e não recebe nenhum beneficio que não proceda do beneficio distribuído e partilhado por todo o corpo. Dessa maneira, o crente deve pôr tudo quanto é do seu poder à disposição dos irmãos, não fazendo uso disso unicamente para si, mas sempre com a nobre a clara intenção de que propicie o bem comum da igreja.

Portanto, para nos orientarmos na prática do bem e das ações humanitárias, adotemos esta norma: de tudo o que o Senhor nos deu com o que podemos ajudar o nosso próximo, somos despenseiros ou mordomos, sendo que teremos que prestar contas de como nos desincumbimos da nossa responsabilidade. E mais: não há outra maneira recomendável de administrar o que recebemos senão a de seguir a norma do amor. Em decorrência disso, não somente juntaremos os esforços para beneficiar o nosso próximo à solicitude que aplicamos com vistas ao nosso próprio proveito, mas também sujeitaremos o nosso proveito ao dos demais.

E realmente, para nos mostrar que essa é a maneira de administrar bem e devidamente o que ele nos dá, Deus a recomendou antigamente ao povo de Israel, mesmo com referencia aos menores beneficio que ele lhe fazia. Recordemos que ele ordenou que fossem ofertadas as primícias, ou seja, os primeiros frutos das colheitas, para que desse modo o povo testificasse que não lhe era lícito desfrutar nenhuma espécie de bens antes de lhe serem consagrados. Ora, se os dons de Deus nos são finalmente santificados, após os havermos consagrado de nossas mãos, certamente se vê que é um abuso condenável negligenciar a referida consagração. Por outro lado, seria uma verdadeira loucura tentar enriquecer a Deus dando-lhes as coisas que temos em mãos. Visto, pois, que o bem que podemos fazer não pode subir a Deus, como diz o profeta, devemos praticá-lo em favor dos seus servos que vivem neste mundo.
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14 setembro, 2010

0 Justificação - João Calvino


Necessidade e Importância de uma Exposição Completa da Doutrina da Justificação


Da Justificação


Parece-me haver já exposto acima com bastante prudência como aos homens resta o único recurso de recuperar-se da maldição da lei pela fé na salvação. Também, por outro lado, o que é a fé, que benefícios ela confere ao homem de Deus e quais frutos nele produz. Mas esta é a suma do que foi dito: que Cristo, que nos foi dado pela benignidade de Deus, nos é apreendido e possuído pela fé, mercê de cuja participação recebemos acima de tudo dupla raça, a saber, primeiro que, reconciliados com Deus por sua inculpabilidade, já temos nos céus em vez de um Juiz, um Pai propício; então que, santificados por seu Espírito, exercitamos inocência e pureza de vida,; e da regeneração, com efeito, que é a segunda graça dessas duas, já foi dito o que me parecia ser suficiente.
O tema da justificação foi por isso abordado mais ligeiramente, porque era mais relevante ao caso primeiro compreender não somente quanto a fé, pela qual unicamente, mercê da misericórdia de Deus, obtemos a justiça graciosa, não é improdutiva de boas obras, mas também de que natureza são as boas obras dos santos, acerca das quais versa parte desta questão. Portanto, agora importa discutir esta doutrina exaustivamente; e eis por que se impõe discuti-la, para que nos lembremos de que este é o ponto principal sobre o qual a religião se sustém, razão por que devemos devotar-lhe maior atenção e cuidado. Ora, como não tens nenhum fundamento sobre o qual a salvação te seja firmada, salvo se antes de tudo apreendas em que posição estejas diante de Deus e de que natureza seu juízo é em relação a ti, assim também não tens fundamento sobre o qual possas erigir a piedade para com Deus. Mas sobre a necessidade de se conhecer isso transparecerá melhor do próprio conhecimento.


Natureza e Sentido da Justificação

Contudo, para que não tropecemos no próprio limiar, o que aconteceria se entrássemos em uma discussão acerca de coisa desconhecida, expliquemos primeiramente que significam estas expressões: o homem é justificado diante de Deus e a justificação é pela fé ou pelas obras.

Lemos que justificado diante de Deus é aquele que, ao juízo de Deus, não só é considerado justo, mas que também foi aceito em razão de sua justiça, porque, como a iniqüidade é abominável à vista de Deus, assim o pecador não pode achar graça a seus olhos, na qualidade de pecador e por quanto tempo for tido como tal. Conseqüentemente, onde quer que haja pecado, aí também se manifesta a ira e vingança de Deus.

Portanto, justificado é aquele que não é tido na conta de pecador, mas de justo, e por esse titulo se posta firme diante do tribunal de Deus, onde todos os pecadores se prostram abatidos. Da mesma forma, se um inocente acusado for levado perante o tribunal de um juiz imparcial, depois de ser julgado segundo sua inocência, se diz que foi justificado diante do juiz; assim é justificado diante de Deus aquele que, excluído do número dos pecadores, tem a Deus por testemunha e arauto de sua justiça.

Portanto, por isso se dirá ser justificado pelas obras aquele em cuja vida se haverá de achar essa pureza e santidade que mereça o testemunho de justiça ante o trono de Deus, ou aquele que, em razão da integridade de suas obras, possa responder e satisfazer-lhe ao juízo. Em contraposição, será justificado pela fé aquele que, excluído da justiça das obras, apreende pela fé a justiça de Cristo,revestido da qual aparece perante Deus não como pecador, mas, pelo contrário, como justo. Portanto, interpretamos a justificação simplesmente como a aceitação mercê da qual, recebidos à sua graça, Deus nos tem por justos. E dizemos que ela consiste na remissão dos pecados e na imputação da justiça de Cristo.
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11 setembro, 2010

0 Nossa Dependência de Deus - João Calvino



-O SENSO DE NOSSA DEPENDÊNCIA DE DEUS É O CAMINHO DA VITÓRIA-

Todo aquele que se vê profundamente acabrunhado e consternado pela consciência de sua miséria, pobreza, nudez, ignomínia, tem assim avançado extraordinariamente no conhecimento de si próprio. Ora, não há perigo de que o homem prive a si mesmo excessivamente, desde que aprenda que se deve recobrar em Deus o que em si mesmo falta. Com efeito, na verdade nem pode o homem a si presumir um tantinho de nada além de seu direito, sem que não só se perca em vã confiança pessoal, mas ainda, transferindo a si a honra divina, se faça réu de monstruoso sacrilégio. Evidentemente, sempre que nos vem à mente essa ânsia de apetecer alguma coisa que nos pertença e não a Deus, temos de compreender que tal pensamento nos é inspirado pelo que induziu nossos primeiros pais a quererem ser semelhantes a Deus, conhecendo o bem e o mal [Gn 15].

Caso seja a palavra do Diabo que exalta o homem em si mesmo, não lhe demos lugar, a não ser que queiramos receber conselho do inimigo. Sem dúvida é grato possuir tanto de poder próprio que hajas de confiar em ti mesmo. Mas, para que não sejamos seduzidos a esta vã confiança pessoal, que sejamos atemorizados por tantas declarações graves da Escritura pelas quais somos severamente consternados, a saber: “Maldito é aquele que confia no homem e põe a carne por seu braço” [Jr 17.5]; igualmente: “Deus não se deleita na força do cavalo e não lhe comprazem as pernas do homem, mas se afeiçoa nos que o temem, nos que se entregam à sua bondade” [Sl 147.10, 11]; também: “É ele que dá alento ao cansado e ao sem forças aumenta o vigor, que faz com que os jovens se fatiguem e se abatam, os moços de exaustão tombem, porém os que só nele esperam renovem suas forças” [Is 40.29-31].

Todas estas referências conduzem a isto: que não nos apoiemos na convicção de nossa própria força, por mínima que seja tal convicção, se queremos que Deus nos seja propício, o qual resiste aos soberbos, porém dá graça aos humildes [Tg 4.6; 1Pe 5.5; Pv 3.34]. Então, em seguida venham à memória estas promessas: “Derramarei água sobre o solo sedento, e rios sobre a terra seca” [Is 44.3]; de igual modo: “Vinde às águas todos os que tendes sede” [Is 55.1], as quais atestam que, para receber as bênçãos de Deus, a ninguém se admite, senão os que se consomem sob o senso de sua pobreza. Com isso não se pretere promessa tal como esta de Isaías: “O sol já não ser-te-á para iluminar durante o dia, nem a lua para iluminar durante a noite; ao contrário, o Senhor ser-te-á por luz sempiterna” [Is 60.19]. Certamente, o Senhor não subtrai de seus servos o fulgor do sol ou da lua; mas, visto que somente ele quer ser glorioso neles, afasta para longe deles a confiança mesmo posta naquelas coisas que em sua opinião são mui excelentes.
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10 setembro, 2010

0 Apostasia – (1Tm 4.1) – João Calvino


Mas o Espírito expressamente diz. O apóstolo tem transmitido a Timóteo conselhos criteriosos sobre muitos temas, e agora mostra por que tal cuidado era necessário, visto ser sensato tomar medidas contra um perigo que o Espírito Santo declara estar chegando, a saber, que viriam falsos mestres oferecendo suas próprias invenções fúteis como se as mesmas fossem o ensino da fé, e que, ao transformar a santidade em observâncias externas, obscureceriam aquele culto espiritual devido a Deus, o qual é o único legítimo. E nesse ponto tem-se realmente travado constante batalha entre os servos de Deus e os homens tais como os descritos por Paulo aqui. Pois, visto que os homens são naturalmente inclinados à hipocrisia,

Satanás facilmente os persuade, dizendo que Deus pode ser corretamente cultuado através de cerimônias, disciplinas e coisas externas. Realmente, sem necessidade de mestre, quase todos têm esta convicção profundamente arraigada em seus corações. Afinal, a astúcia de Satanás é adicionada para completar o erro, e o resultado é que em todas as épocas tem existido impostores que recomendam o falso culto, através do qual a verdadeira piedade é levada à ruína. Afinal, essa praga traz outra em seu comboio, pela qual usa a compulsão para sobrecarregar os homens em relação a questões que são indiferentes. Pois o mundo facilmente permite a proibição de coisas que Deus tem declarado lícitas, a fim de que seja permitido transgredir as leis de Deus impunemente. Aqui, pois, Paulo adverte não só a igreja de Efeso através de Timóteo, mas também a todas as igrejas, em todos os lugares, contra os falsos mestres que, introduzindo o falso culto e emaranhando as consciências com novas leis, adulteram o verdadeiro culto divino e corrompem a genuína doutrina da fé. Eis o propósito real desta passagem, o qual devemos especialmente conservar em nossas mentes.

Além do mais, para que todos recebessem o que ele está para dizer, com atenção mais atilada, primeiramente declara que essa é uma profecia do Espírito Santo, inequívoca e perfeitamente luminosa. Naturalmente, não há razão para se duvidar que tudo quanto o apóstolo diz é também inspirado pelo Espírito; mas ainda que devamos ouvi-lo sempre como o próprio instrumento de Cristo, todavia aqui, num assunto de imensa relevância, ele particularmente desejava declarar com explicitude que nada prescreveu que não fosse pela operação do Espírito de profecia. Por conseguinte, mediante esta solene certeza, ele nos recomenda esta profecia; e não satisfeito ainda, acrescenta que ela é clara e isenta de toda e qualquer ambigüidade.

Nos últimos tempos. Naquele tempo, ninguém poderia esperar que, com a meridiana luz do evangelho, fosse possível que alguém caísse. Mas isso é precisamente o que Pedro diz [2 Pe 3.3], ou seja, que assim como falsos mestres uma vez perturbaram o povo de Israel, também perturbarão sempre a Igreja de Cristo. E como se Paulo dissesse: 'Agora o ensino do evangelho floresce, mas não passará muito tempo sem que Satanás tente sufocar a boa semente com as ervas daninhas." Tal advertência era útil no próprio tempo de Paulo, para que os pastores e os demais prestassem cuidadosa atenção à sã doutrina se guardassem de ser enganados. Ela não nos é menos útil hoje quando vemos tudo acontecer segundo a expressa profecia do Espírito. Notemos especialmente a grande solicitude de Deus por sua Igreja, prevenindo-a em tempo hábil sobre os perigos que se aproximam. Satanás possui muitos artifícios pelos quais nos conduz ao erro e nos assalta com estratagemas extraordinários; Deus, porém, nos fornece uma armadura eficaz, porquanto nós mesmos não pretendemos deixar-nos enganar. Não temos, pois, razão alguma para queixar-nos de que as trevas são mais fortes que a luz, ou que a verdade é vencida pela falsidade; antes, porém, quando somos desviados do correto caminho da salvação, estamos recebendo o castigo por nossa própria displicência e indolência.

Mas aqueles que condescendem com seus próprios erros, alegam que dificilmente é possível decidir que gênero de pessoa Paulo está descrevendo aqui. Como se houvesse qualquer propósito na mente do Espírito para pronunciar esta profecia e publicá-la com tanta antecedência. Pois se não houvesse nenhuma indicação infalível do que era pretendido por ela, a presente advertência seria tanto supérflua quanto ridícula. Não ousamos, porém, concluir que o Espírito de Deus nos assuste sem causa, ou que, quando preanuncia algum perigo, também não nos mostre como precaver-nos dele. As próprias palavras de Paulo são por si mesmas plenamente suficientes para refutar essa falsa censura, pois ele põe o seu dedo naquele mal, contra o qual nos adverte para que o evitemos. Ele não fala simplesmente, em termos gerais, sobre os falsos profetas, senão que também nos dá um expresso exemplo do falso ensino, ensino esse que, ao fazer a piedade consistir de exercícios externos, perverte e profana o culto espiritual de Deus, segundo afirmei acima.

Alguns apostatarão da fé. Não fica muito claro se ele está falando dos mestres ou dos ouvintes, mas prefiro tomá-lo como uma aplicação aos últimos, visto que prossegue tratando dos mestres quando os chama de espíritos sedutores. E mais enfático dizer que não só haverá quem divulgue os ensinos ímpios e corrompa a pureza da fé, mas também dizer que não faltarão alunos que sejam atraídos para suas seitas. E quando uma mentira aumenta sua influência, ela avoluma as dificuldades. Mas ele não está falando de um erro trivial, e, sim, de um mal terrível, a apostasia da fé, embora à primeira vista não pareceria ser tão mal assim à luz do ensino que ele menciona. Pois como é possível ser a fé completamente subvertida pela proibição de certos alimentos ou do matrimônio? Devemos, porém, levar em conta uma razão mais ampla, ou seja, que aqui os homens estão inventando um culto divino pervertido para a satisfação de seu ego; e ao ousarem proibir o uso de coisas saudáveis que Deus permitiu, estão alegando que são os mestres de suas próprias consciências. E tão logo a pureza do culto é pervertida, não permanece nada íntegro e saudável, e a fé é completamente subvertida. Por isso, ainda que os papistas debochem de nós, ao criticarmos suas leis tirânicas acerca de observâncias externas, temos consciência de que estamos lidando com um assunto seríssimo e importantíssimo; porque, assim que o culto divino é contaminado com tais corrupções, a doutrina da fé é também subvertida. A controvérsia não é acerca de carne e peixe, ou acerca das cores preto ou cinza, acerca de quarta-feira ou sexta-feira, e, sim, acerca das más superstições dos homens que desejam obter o favor divino por meio de tais futilidades e pela invenção de um culto carnal, fabricando para si ídolos no lugar de Deus. Quem ousaria negar que fazer isso é apostatar da fé?

Espíritos sedutores. Ele está se referindo a profetas ou mestres, aplicando-lhes esse título porque se vangloriavam de possuir o Espírito, e ao procederem assim estavam causando impressão sobre o povo. Em geral, é deveras verdade que todas as classes de pessoas falam da inspiração de um espírito, mas não o mesmo espírito que inspira a todos. Pois às vezes Satanás passa por espírito mentiroso na boca dos falsos profetas, com o fim de iludir os incrédulos que merecem ser enganados [1 Rs 22.21-23]. Mas todos quantos atribuem a Cristo a devida honra falam pelo Espírito de Deus, no dizer de Paulo [1 Co 12.3]. Esse modo de expressar-se teve sua origem na reivindicação feita pelos servos de Deus, a saber, que todos os seus pronunciamentos públicos lhes vieram por revelação do Espírito; e, visto que eram os instrumentos do Espírito, lhes foi atribuído o nome do Espírito. Mais tarde, porém, os ministros de Satanás, através de uma falsa imitação, como fazem os símios, começaram a fazer a mesma reivindicação em seu favor, e da mesma forma falsamente assumiram o mesmo nome. Eis a razão por que João diz: "provai os espíritos, se realmente procedem de Deus" [1 Jo 4.1].

Além do mais, Paulo explica o que quis dizer, acrescentando: e doutrinas de demônios, o que equivale dizer: "atentando para os falsos profetas e suas doutrinas diabólicas". Uma vez mais digamos que isso não constitui um erro de somenos importância ou algo que deva ser dissimulado, quando as consciências dos homens são constrangidas por invenções humanas, ao mesmo tempo que o culto divino é pervertido.

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08 setembro, 2010

0 O único que possui a imortalidade – João Calvino



Paulo, aqui (1 Tm 6.16), está preocupado em demonstrar que à parte de Deus não há felicidade alguma, nem dignidade, nem excelência, nem vida. Ele agora afirma que Deus é o único imortal, que devemos saber que nós, bem como todas as criaturas, não possuímos vida inerente em nós mesmos, senão que a recebemos dele. Daqui se deduz que quando buscamos a Deus como a fonte da imortalidade, devemos mirar esta presente vida como algo de nenhum valor. No entanto, pode suscitar-se a seguinte objeção: a imortalidade pertence às almas humanas e aos anjos, e assim não se pode dizer que ela pertença exclusivamente a Deus. Minha resposta é que Paulo não está negando que Deus confira imortalidade a algumas de suas criaturas como lhe apraz; mas é ainda verdade que unicamente ele a possui. E como se o apóstolo dissesse que Deus não só é o único ser inerentemente e por sua própria natureza imortal, mas também que ele tem a imortalidade em seu poder, de modo que ela não pertence às criaturas, senão até ao ponto em ele lhes comunica energia e poder. Pois se o leitor afastar a energia divina que é instilada na alma humana, ela imediatamente se desvanecerá; e o mesmo se dá no tocante aos anjos. Portanto, estritamente falando, a imortalidade não tem sua sede nas almas, quer dos homens, quer dos anjos, senão que é procedente de outra fonte - a secreta inspiração de Deus, como se acha expressa em Atos 17.28: "Nele vivemos, nos movemos e existimos." Se alguém desejar uma abordagem mais completa e mais detalhada desse tema, recomendo que leia o décimo segundo capítulo de A Cidade de Deus, de Agostinho.

E habita em luz inacessível. Ele tem em mente duas coisas: que Deus está oculto de nós, e no entanto a causa de sua obscuridade não está nele, como se estivesse envolto em trevas, mas em nós, que não podemos ter acesso à sua luz em virtude da debilidade de nossa percepção, ou, melhor, do embotamento de nossas mentes. Devemos entender que a luz é inacessível àquele que tenta aproximar-se dela através de sua própria força. Pois se Deus, em sua graça, não nos houvera aberto um caminho de acesso, o profeta não nos haveria dito: "Contemplai-o e sereis iluminados, e o vosso rosto jamais sofrerá vexame" [SI 34.5]. Não obstante, é verdade que, enquanto estivermos circunscritos por esta carne mortal, jamais penetraremos o coração das profundezas mais secretas de Deus, tão completamente que nada nos ficasse oculto. Pois conhecemos em parte, e vemos através de um espelho embaçado [1 Co 13.9-12]. Pela fé, pois, nos introduzimos na luz de Deus, mas somente em parte, de modo que ainda é correto dizer que ela é uma luz inacessível ao homem.

A quem homem algum jamais viu. Esta cláusula é adicionada com o fim explicar o mesmo ponto mais claramente, para que os homens aprendam a contemplar, pela fé, Aquele cuja face eles não podem ver com seus olhos carnais, ou mesmo com o discernimento de suas mentes. Pois entendo isso como uma referência não só aos nossos olhos físicos, mas também à faculdade discernitiva da mente. Devemos ter sempre em mente qual era o propósito do apóstolo. E difícil para nós omitir e desconsiderar todas aquelas coisas que visualizamos de perto, para que nos esforcemos em atentar para Deus, a quem jamais vimos. Pois este pensamento sempre nos vem à mente: "Como você sabe que há algum Deus, quando só ouve a respeito dele, mas não pode vê-lo?" O apóstolo nos previne de antemão con¬tra esse perigo, afirmando que não devemos julgar de acordo com nossos sentidos, visto que tal coisa excede nossa capacidade. Não o vemos porque nossa visão não é suficientemente penetrante para alcançar uma altura tal. Agostinho entra fundo numa abordagem desta afirmação, visto que, aparentemente, ela se choca com 1 João 3.2: "Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é," Essa é uma questão que ele discute em muitas passagens, mas creio que sua melhor resposta à questão se encontra em sua carta à viúva Paulina. No tocante ao significado da presente passagem, a resposta é simples, ou seja, que não podemos ver a Deus em nossa presente natureza, como ele mesmo diz em outra parte: "Carne e sangue não podem herdar o reino de Deus" [1 Co 15.50]. Pois teremos que ser renovados e feitos semelhantes a Deus antes que nos seja dado vê-lo. Portanto, para que nossa curiosidade seja mantida dentro de certos limites, lembremo-nos sempre de que, ao buscarmos uma resposta a esta questão, nosso modo de viver é de mais importância do que nosso modo de falar. E lembremo-nos ainda da sábia advertência que Agostinho nos dirige, ou seja: vigiemos para que, enquanto discutimos sobre como Deus pode ser visto, não percamos de vista a paz nem a santidade, sem as quais ninguém jamais o verá.
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07 setembro, 2010

0 Oração na Adeversidade – João Calvino



Até quando, ó Deus? esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando ocultarás de mim teu rosto? Até quando consultarei minha alma, tendo tristeza em meu coração cada dia? Até quando meu inimigo se exaltará sobre mim? (Sal 13 1,2).


1. Até quando, ó Deus? É plenamente indiscutível que Davi era grandemente odiado pela maioria do povo, em razão das calamidades e más notícias que circulavam contra ele, ao ponto de quase todos os homens julgarem que Deus não nutria menos hostilidade por ele do que Saul e seus outros inimigos.


Mas aqui ele fala não tanto segundo a opinião de outros, mas de acordo com a angústia de sua própria mente, queixando-se de ser negligenciado por Deus. Não que a persuasão da veracidade das promessas de Deus estivesse extinta de seu coração, ou que ele não descansasse em sua graça; mas quando nos vemos por muito tempo sobrecarregados com calamidades, e quando não mais divisamos qualquer sinal do auxílio divino, este pensamento inevitavelmente se nos impõe, ou seja: Deus se esqueceu de mim! Reconhecer em meio às nossas aflições que ele realmente se preocupa conosco não é muito próprio dos homens nem é o que a própria natureza nos induz a fazer; mas é pela fé que tomamos posse de sua providência invisível. Portanto, Davi, aparentemente, até onde possa ser julgado à luz do real estado de suas atividades, estava de fato esquecido por Deus. Ao mesmo tempo, contudo, os olhos de sua mente, guiados pela luz da fé, penetraram até mesmo a graça de Deus, ainda que estivesse ela envolta em trevas. Quando ele disse que nem sequer um único raio de esperança havia em qualquer direção para a qual se voltasse, até onde a razão humana pudesse julgar, constrangido pela tristeza, ele clama, dizendo que Deus não o levara em conta; e no entanto por sua própria queixa ele fornece evidência de que a fé o capacitara a pôr-se em lugar mais alto, e chega à conclusão de que, ao contrário do juízo da carne, seu bem-estar estava seguro nas mãos divinas. Do contrário, como era possível que tivesse dirigido a Deus seus gemidos e orações? Seguindo este exemplo, devemos então contender contra as tentações, protegidos pela certeza de fé, mesmo submersos no mais emaranhado dos conflitos [cotidianos], confessando que as calamidades que nos induzem ao desespero têm de ser vencidas; justamente como vemos que a fraqueza da carne não podia impedir Davi de recorrer a Deus e de encontrar nele seus recursos. E assim ele associa em seus exercícios, com muita beleza, os sentimentos que aparentemente são contraditórios. As palavras, Até quando, para sempre?, são uma forma defectiva de expressão; mas são muito mais enfáticas do que se ele houvera posto a pergunta segundo o modo usual de falar: Por que demoras tanto?Ao falar assim, ele nos dá a entender que, com o propósito de nutrir sua esperança e encorajar-se no exercício da paciência, ele estendeu sua vista para um horizonte longínquo, e portanto não se queixa de uma calamidade que durava apenas uns poucos dias, como os efeminados e os covardes costumam fazer, os quais só vêem o que está diante de seu nariz, e imediatamente sucumbem ao primeiro assalto. Davi nos ensina, pois, mediante seu exem¬plo, a estender nossa vista, o máximo possível, para o futuro, a fim de que nossa presente tristeza não consiga privar-nos in¬teiramente da visão da esperança.


2. Até quando consultarei minha alma? Sabemos que na adversidade os homens se entregam ao descontentamento, volvem seus olhos em torno de si, numa direção, noutra direção, em busca de remédios. Especialmente quando se vêem destituídos de todos os recursos, atormentam-se profundamente e sentem-se confusos ante a confusa multidão de seus pensamentos. E, em meio aos grandes perigos, ansiedade e temor, são compelidos a mudar seus propósitos com muita freqüência, quando não encontram plano algum sobre o qual possam firmar-se com segurança. Davi, portanto, se queixa de que, enquanto pondera sobre os diferentes métodos de obter lenitivo, deliberando consigo mesmo ora de um modo, ora de outro, sente-se exausto sem sequer alcançar um alvo concreto, entre a infinidade de sugestões que percorrem sua mente. E ao juntar a essa queixa a dor que sentia diariamente, ele põe em relevo a fonte de sua inquietude. Quanto mais severa é a indisposição que os enfermos sentem e desejam mudar de posição a cada momento, e quanto mais agudas são as dores que os atormentam, mais agitados e nervosos se tornam, procurando reverter a situação. Portanto, quando a dor se apodera dos corações dos homens, suas miseráveis vítimas são violentamente agitadas em seu íntimo, acham mais tolerável atormentar-se sem obter alívio do que suportar suas aflições com serenidade e com mentes tranqüilas. Na verdade o Senhor promete conceder ao fiel "o espírito de conselho" [Is 11.2]; mas nem sempre lhos dá bem no início de um problema em que se acham envolvidos, senão que os deixa por algum tempo embaraçados, deliberadamente, sem chegar a uma determinada decisão,  ou os mantém perplexos, como se estivessem emaranhados por espinheiros, sem saber se voltam,  ou que rumo tomam. Alguns explicam a palavra, yomam, como significando todos os longos dias. A meu ver, porém, ela significa, antes, outro tipo de prosseguimento, ou seja, que sua dor se revolvia e se renovava a cada dia. No final do versículo ele deplora outro mal, a saber, que seus adversários triunfam sobre ele de uma forma muito ousada, ao perceberem sua total debilidade e, por assim dizer, consumido por contínuo langor. Ora, esse é um argumento de muito valor em nossas orações; pois não há nada que desgoste mais a Deus, e que ele menos suportará, do que a cruel insolência que nossos inimigos demonstram, quando não só se alegram em nos ver em miséria, mas também se erguem acima de nós e nos ameaçam o mais desdenhosamente possível, à medida que vêem crescer nossa opressão e desespero.
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03 setembro, 2010

0 Fomos, pois, sepultados com Ele (Rm 6.4) – João Calvino



Ele então começa a mostrar o que está compreendido em nosso batismo na morte de Cristo, embora não nos apresente ainda uma explicação satisfatória. O batismo significa que, ao sermos mortos para nós mesmos, nos tornamos novas criaturas. Paulo corretamente passa da comunhão na morte de Cristo para a participação de sua vida. Visto que estas duas se acham inseparavelmente entrelaçadas, o nosso velho homem é destruído pela morte de Cristo, a fim de que sua ressurreição venha a restaurar nossa justiça e nos transforme em novas criaturas. E visto que Cristo nos foi dado para a vida, por que devemos morrer com ele, senão que ressuscitemos para uma vida muito melhor? Cristo, pois, expõe à morte o que é mortal em nós, a fim de verdadeiramente restaurar-nos à vida.


Notemos, além do mais, que o apóstolo, aqui, não nos exorta simplesmente a imitar a Cristo, como se nos quisesse dizer que a morte de Cristo é um exemplo apropriado para que todos os cristãos o sigam. Indubitavelmente, ele tem em mente algo muito mais elevado. Na verdade, ele está propondo uma doutrina que mais tarde usará como base hortativa. Sua doutrina, como podemos claramente ver, consiste em que a morte de Cristo é eficaz para destruir e subjugar a depravação de nossa carne; e sua ressurreição, para renovar em nós uma natureza muito superior. Também afirma que, por meio do batismo, somos admitidos à participação de sua graça. Tendo lançado esta proposição básica, Paulo pode mui apropriadamente exortar os cristãos a envidarem todo esforço para que vivam de uma forma que corresponda ao seu chamamento. E irrelevante argumentar se este poder não se evidencia em todos os que são batizados, porquanto Paulo, visto estar falando a crentes, conecta a realidade e o efeito com o sinal externo [—substantiam et effectum externo signo coniungit], segundo sua maneira usual de argumentar. Pois sabemos que pela fé é confirmado e ratificado neles tudo quanto o Senhor oferece por meio do símbolo visível. Em resumo, ele nos ensina em que consiste a verdade do batismo quando corretamente recebido. Assim testifica que todos os gálatas, os quais haviam sido batizados em Cristo, haviam se revestido dele [Gl 3.27]. Devemos usar sempre estes termos quando a instituição do Senhor e a fé dos crentes correspondem, pois jamais possuímos símbolos nus e vazios [=nuda et inania symbola], exceto quando nossa ingratidão e impiedade obstruem a operação da divina munificência.


Pela glória do Pai. Ou seja: pelo esplêndido poder por meio do qual ele declarou-se verdadeiramente glorioso e exibiu a magnificência de sua glória. Por isso, o poder de Deus, na Escritura, que se fez ativo na ressurreição de Cristo, é às vezes apresentado em termos de muita sublimidade, e com sobejas razões. E de grande importância que enalteçamos a Deus, fazendo menção explícita de seu incomparável poder, não apenas por nossa fé na ressurreição final, a qual excede a toda e qualquer percepção da carne, mas também pelos demais benefícios que recebemos da ressurreição de Cristo.
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02 setembro, 2010

0 Não o glorificaram como Deus. – João Calvino



-(Rm 1.21b)-

Nenhuma concepção de Deus é possível ser formulada sem que se inclua eternidade, poder, sabedoria, bondade, verdade, justiça e misericórdia. Sua eternidade é evidenciada pelo fato de que ele mantém todas as coisas em suas mãos e faz que todas as coisas estejam em harmonia com ele. Sua sabedoria, é percebida no fato de que ele dispôs todas as coisas em perfeita ordem. Sua bondade consiste em que não há nenhuma outra causa para que ele criasse todas as coisas nem existe alguma outra razão que o induza a preservá-las, senão sua bondade. Sua justiça se evidencia no modo como ele governa o mundo, visto que pune os culpados e defende os inocentes. Sua misericórdia consiste em que ele suporta a perversidade dos homens com inusitada paciência. E sua verdade consiste no fato de que ele é imutável. Aqueles, pois, que pretendem formular alguma concepção de Deus, devem dar-lhe o devido louvor por sua eternidade, sabedoria, bondade, justiça, misericórdia e verdade.


Visto que os homens têm deixado de reconhecer estes atributos em Deus, ao contrário o têm retratado imaginariamente como se fosse um fantasma insubstancial, tem-se dito, com justiça, que eles o têm impiamente despido de sua glória. Não é sem razão que Paulo adicione que nem lhe deram graças, pois não há ninguém que não esteja individado para com a infinita munificência divina, e somente por esta razão ele nos põe na condição de eternos inadimplentes diante de sua condescendência em revelar-se a nós. Mas seus pensamentos tornaram-se fúteis, e seus corações insensatos se obscureceram, ou seja: renunciaram a verdade de Deus e se voltaram para a vaidade de seus próprios raciocínios, os quais são completamente indistinguíveis e impermanentes. Seu coração insensível, sendo assim entenebrecido, não pode entender nada corretamente, senão que se acha precipitado em erro e falsidade. Esta é a injustiça [da raça humana], ou seja: que a semente do genuíno conhecimento foi imediatamente sufocada por sua impiedade antes que pudesse medrar e amadurecer.
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01 setembro, 2010

0 Justificação - a Base da Paz - João Calvino



O assegura a plena paz de Consciência é tão-somente a Justificação com base nos méritos de Cristo, não em nós mesmos.

Ora, se indagarmos de que maneira nossa consciência possa tranqüilizar-se diante de Deus, outra resposta não acharemos senão que isso nos é assegurado pela graciosa justiça de Deus. Sempre nos vem à mente esta interpelação de Salomão: “Quem poderá dizer: Limpo fiz meu coração; purificado estou de meu pecado?” [Pv 20.9]. Certamente não há ninguém que não esteja submerso em infinita voragem de águas imundas. Portanto, que cada um desça à sua consciência, por muito perfeito que seja, e convoque seus feitos a prestar contas. Que resultado terá, afinal? Porventura descansará tranqüilamente, como se todas as coisas estivessem bem dispostas com Deus, e não se verá antes cercado de terríveis tormentos, quando, se for julgado à base de suas obras, haverá de sentir que em si reside causa de condenação? É inevitável que a consciência, se olha para Deus, ou sentirá tranqüila paz com seu juízo, ou se verá assediada dos horrores dos infernos. Portanto, ao discutir acerca da justiça, nada extraímos de proveito, a menos que tenhamos estabelecido essa em cuja solidez se pode suster nossa alma no juízo de Deus. Quando nossa alma tiver aquela justa mercê da qual não só compareça sem temor diante da face de Deus, mas também receba seu o juízo imperturbada; então poderemos pensar que já achamos uma justiça sem falsificação.


Portanto, não é sem motivo que o Apóstolo insiste com tanta veemência neste ponto, o que prefiro expressar com as palavras dele, antes que com as minhas. “Se a herança procede da lei”, diz ele, “então a fé está aniquilada e abolida a promessa” [Rm 4.14]. Antes do mais ele infere que a fé é aniquilada e anulada, caso a promessa de justiça tem em vista os méritos de nossas obras ou dependa da observância da lei. Pois ninguém jamais poderia descansar confiadamente nela, já que nunca acontecerá de alguém no mundo poder se assegurar de que satisfez à lei; e de fato jamais houve quem satisfizesse inteiramente através das obras. E para não buscar provas muito longe, cada um pode ser testemunha a si mesmo, se quiser contemplar atenta-mente. E daqui se põe à mostra em quão profundos e tenebrosos recessos a hipocrisia sepulta as mentes dos homens, enquanto se mimoseiam tão confiadamente que não hesitam em opor suas lisonjas ao juízo de Deus, como se quisessem, por assim dizer, impor-lhe que suspendesse sua ação legal. Mas os fiéis que a si mesmos sinceramente examinam, bem outra é a solicitude que os angustia e os crucia. Portanto, se deveria subir à mente de todos, primeiro a incerteza; depois, até mesmo a desesperança; enquanto cada um por si só consideraria de quão grande volume de dívida estaria ainda sobrecarregado, e quão longe distaria da condição que lhe foi imposta.


Eis aqui a fé já oprimida e aniquilada, porque ter fé não significa estar flutuante, permanecer mudando, ser levado de um lado para o outro, hesitar, manter-se suspenso, vacilar, finalmente ceder ao desespero; pelo contrário, o ânimo deve firmar-se de constante certeza e sólida confiança e ter onde apoiar e firmar o pé.
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