11 agosto, 2010

0 A Única Atitude que Convém – João Calvino



O SENSO DE NOSSA DEPENDÊNCIA DE DEUS É O CAMINHO DA VITÓRIA

Todo aquele que se vê profundamente acabrunhado e consternado pela consciência de sua miséria, pobreza, nudez, ignomínia, tem assim avançado extraordinariamente no conhecimento de si próprio. Ora, não há perigo de que o homem prive a si mesmo excessivamente, desde que aprenda que se deve recobrar em Deus o que em si mesmo falta. Com efeito, na verdade nem pode o homem a si presumir um tantinho de nada além de seu direito, sem que não só se perca em vã confiança pessoal, mas ainda, transferindo a si a honra divina, se faça réu de monstruoso sacrilégio. Evidentemente, sempre que nos vem à mente essa ânsia de apetecer alguma coisa que nos pertença e não a Deus, temos de compreender que tal pensamento nos é inspirado pelo que induziu nossos primeiros pais a quererem ser semelhantes a Deus, conhecendo o bem e o mal [Gn 15].
Caso seja a palavra do Diabo que exalta o homem em si mesmo, não lhe demos lugar, a não ser que queiramos receber conselho do inimigo. Sem dúvida é grato possuir tanto de poder próprio que hajas de confiar em ti mesmo. Mas, para que não sejamos seduzidos a esta vã confiança pessoal, que sejamos atemorizados por tantas declarações graves da Escritura pelas quais somos severamente consternados, a saber: “Maldito é aquele que confia no homem e põe a carne por seu braço” [Jr 17.5]; igualmente: “Deus não se deleita na força do cavalo e não lhe comprazem as pernas do homem, mas se afeiçoa nos que o temem, nos que se entregam à sua bondade” [Sl 147.10, 11]; também: “É ele que dá alento ao cansado e ao sem forças aumenta o vigor, que faz com que os jovens se fatiguem e se abatam, os moços de exaustão tombem, porém os que só nele esperam renovem suas forças” [Is 40.29-31].
Todas estas referências conduzem a isto: que não nos apoiemos na convicção de nossa própria força, por mínima que seja tal convicção, se queremos que Deus nos seja propício, o qual resiste aos soberbos, porém dá graça aos humildes [Tg 4.6; 1Pe 5.5; Pv 3.34]. Então, em seguida venham à memória estas promessas: “Derramarei água sobre o solo sedento, e rios sobre a terra seca” [Is 44.3]; de igual modo: “Vinde às águas todos os que tendes sede” [Is 55.1], as quais atestam que, para receber as bênçãos de Deus, a ninguém se admite, senão os que se consomem sob o senso de sua pobreza. Com isso não se pretere promessa tal como esta de Isaías: “O sol já não ser-te-á para iluminar durante o dia, nem a lua para iluminar durante a noite; ao contrário, o Senhor ser-te-á por luz sempiterna” [Is 60.19]. Certamente, o Senhor não subtrai de seus servos o fulgor do sol ou da lua; mas, visto que somente ele quer ser glorioso neles, afasta para longe deles a confiança mesmo posta naquelas coisas que em sua opinião são mui excelentes.


VERDADEIRA HUMILDADE: A ÚNICA ATITUDE QUE NOS CONVÉM

Sempre me agradou sobremaneira esta ponderação de Crisóstomo: “A humildade é o fundamento de nossa filosofia.”40 Contudo, mais ainda esta de Agostinho: “Da mesma forma”, diz ele, “que aquele orador, indagado qual seria o primeiro entre os preceitos da eloqüência, respondeu: a elocução; como o segundo: a elocução; também o terceiro: a elocução; assim, se me interrogas acerca dos preceitos da religião cristã, primeiro, segundo e terceiro, me agradaria responder sempre: a humildade.”
Todavia, como o declara em outro lugar, não considera como humildade quando, cônscio de alguma porção de virtude em si próprio, o homem não cede ao orgulho; mas, ao contrário, quando ele se sente verdadeiramente que nenhum refúgio possui senão na humildade. “Ninguém”, diz ele, “se lisonjeie. Por si mesmo não passa de um satanás. Do que é aquinhoado, isso ele o tem somente de Deus. Pois, que tens de teu senão o pecado? Toma para ti o pecado, porque é teu, já que a retidão é de Deus.”42 Ainda: “Por que tanto se presume da possibilidade de nossa natureza?
Está chagada, dilacerada, arruinada, perdida. Tem ela necessidade de verdadeira confissão, não de falsa defesa.”43 De novo: “Quando alguém reconhece que em si mesmo nada é e nenhuma ajuda tem de si próprio, dentro de si estão quebradas as armas, serenados estão os embates. Mas, é indispensável que todas as armas da impiedade sejam despedaçadas, sejam esmigalhadas, sejam consumidas pelo fogo, e permaneças inerme, nenhum recurso tenhas em ti mesmo. Quanto mais fraco és em ti, tanto mais te sustém o Senhor.”  Assim, na consideração do Salmo 70, proíbe que nos lembremos de nossa justiça pessoal, para que conheçamos a justiça de Deus; e mostra que Deus nos recomenda sua graça de tal modo que saibamos que nós nada somos, que nos mantemos firmes apenas pela misericórdia de Deus, já que de nós mesmos nada somos senão maus.
Portanto, neste ponto não contendamos com Deus acerca de nosso direito, como se perdêssemos em nosso proveito tudo quanto a ele atribuímos. Ora, se nossa humildade é sua exaltação, assim a confissão de nossa humildade tem sua misericórdia como remédio preparado. Contudo, nem pretendo que um homem que não se deixa assim persuadir ceda espontaneamente; e se tem alguma capacidade, que dela desvie a mente para que se sujeite à verdadeira humildade. Pelo contrário, pretendo que, debelada a enfermidade – do amor de si mesmo e do prazer por contenciosidade], obcecado pela qual pensa em si mais do que convém [G1 6.3], se contemple honestamente no veraz espelho da Escritura [Tg 1.22-25].



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