28 agosto, 2010

0 Somente Pela Graça - João Calvino



- A CONSONÂNCIA DAS PROMESSAS DA LEI E DO EVANGELHO -


AS PROMESSAS DA LEI NÃO INDUZEM À SALVAÇÃO ATRAVÉS DO MÉRITO DAS OBRAS, O QUAL SOMENTE À CONDENAÇÃO PODERIA CONDUZIR


Prossigamos agora também com outros argumentos mercê dos quais Satanás se empenha, através de seus satélites, ou em demolir ou enfraquecer a justificação pela fé. Julgo que já subtraímos a nossos caluniadores a possibilidade de acusar-nos de sermos inimigos das boas obras; porque negamos que as obras justifiquem, não para que não se faça nenhuma boa obra, nem tampouco para negar que as boas obras sejam boas, mas para que não nos fiemos nelas, nem nelas nos gloriemos, nem lhes atribuamos a salvação. Pois esta é nossa confiança, esta nossa glória, a única âncora de nossa salvação: que Cristo, o Filho de Deus, é nosso, e nós, por nossa vez, nele somos filhos de Deus e herdeiros do reino celeste, chamados à esperança da bem-aventurança eterna pela benignidade de Deus, não por nossa dignidade.

Mas, visto que, como foi dito, contra nós investem ainda com outras máquinas de guerra, então avancemos também a rebatê-los. Em primeiro lugar, volvem-se para as promessas legais que o Senhor promulgou visando aos cultores de sua lei, e perguntam se porventura queremos que elas sejam inteiramente sem préstimo ou eficazes. Uma vez que teria soado mal e seria ridículo dizer que são sem préstimo, assumem como reconhecido que elas são de alguma eficácia. Daqui arrazoam que não somos justificados pela fé somente. Pois assim fala o Senhor: “Será, pois, que, se ouvindo estes juízos, os guardardes e cumprirdes, o Senhor teu Deus te guardará a aliança e a misericórdia que jurou a teus pais; e amar-te-á, e abençoar-te-á, e te fará multiplicar” etc. [Dt 7.12, 13]. Igualmente: “Mas, se deveras melhorardes vos¬sos caminhos e vossas obras; se deveras praticardes o juízo entre um homem e seu próximo; se não oprimirdes o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, nem derramardes sangue inocente neste lugar, nem andardes após outros deuses, para vosso mal, eu vos farei habitar neste lugar” etc. [Jr 7.5-7]. Não desejo recitar inutilmente mil passagens do mesmo teor, porque, uma vez que nada diferem de sentido, serão explicadas pela solução destas. Em síntese, Moisés testifica que na lei se propõem a bênção e a maldição [Dt 11.26], a morte e a vida [Dt 30.15]. Portanto, assim concluem que, ou esta bênção se torna ociosa e infrutífera, ou a justificação não é somente pela fé.

Já mostramos acima como, se nos apegamos à lei, somos destituídos de toda bênção, somente maldição paira ameaçadora, a qual foi ordenada para todos os transgressores [Dt 27.26]. Ora, o Senhor não promete coisa alguma, senão aos perfeitos cultores de sua lei, os quais nenhum se acha. Permanece, pois, que toda a raça humana é indiciada mediante a lei como sujeita à maldição e à ira de Deus, das quais, para que se livrem, necessário se faz escapar ao poder da lei, e como que de sua servidão guindar-se à liberdade, na verdade não àquela liberdade carnal que nos afasta da observância da lei, nos incita à conspurcação de todas as coisas, permite que nossa concupiscência se exceda como se as barreiras fossem rompidas ou as rédeas, soltas; ao contrário, aquela liberdade espiritual que conforta e soergue a consciência perturbada e consternada, mostrando-a livre da maldição e da condenação com que a lei a premia, amarrada e constrita. Esta liberação e, por assim dizer, alforria da sujeição à lei conseguimos quando, mediante a fé, apreendemos a misericórdia de Deus em Cristo, pela qual somos feitos seguros e convictos da remissão dos pecados, de cujo senso a lei nos pungia e remordia.


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