23 agosto, 2010

0 Piedade com Contentamento – João Calvino


Mas a piedade é grande lucro (1Tm 6.6,7). De uma forma elegante, e com uma mudança irônica, o apóstolo repentinamente arremessa contra seus oponentes as mesmas palavras com significado oposto, como se quisesse dizer: "Eles agem errônea e impiamente em fazer comércio da doutrina de Cristo, como se a piedade fosse [fonte de] lucro; e no entanto entenderam corretamente que a piedade é de fato um grande e riquíssimo lucro." Ele a qualifica assim porque ela nos traz plena e perfeita bem-aventurança. Aqueles que se aferram à aquisição de dinheiro, e que usam a piedade para granjearem lucros, tornam-se culpados de sacrilégio. Mas a piedade é por si só suficientemente um imensurável lucro para nós, visto que é através dela que nos tornamos não só os herdeiros do mundo, mas também [é através dela] que somos capacitados para o desfruto de Cristo e de todas as suas riquezas.

Com contentamento. Esta pode ser uma referência ou a uma disposição íntima ou a uma suficiência de riqueza. Se porventura for subentendida como uma disposição, o significado será: os piedosos que nada desejam, mas que vivem contentes com sua pobreza, esses têm granjeado um grande lucro. Mas se for tomada no sentido de suficiência âe possessões - interpretação esta que no momento me agrada -, será uma promessa como aquela do Salmo 34.10: "Os filhos dos leões passam necessidade e sofrem fome, mas àqueles que buscam ao Senhor bem nenhum faltará." O Senhor está sempre presente com seu povo; e, segundo a demanda de nossas necessidades, ele concede a cada um de nós uma porção de sua própria plenitude. Portanto, a genuína bem-aventurança consiste na piedade, e essa suficiência é tão boa quanto um razoável aumento de lucro.

 Porque nada trouxemos para o mundo. Ele acrescenta esta cláusula a fim de definir o limite do que nos é suficiente. Nossa cobiça é um abismo insaciável, a menos que seja ela restringida; e a melhor forma de mantê-la sob controle é não desejarmos nada além do necessário imposto pela presente vida; pois a razão pela qual não aceitamos esse limite está no fato de nossa ansiedade abarcar mil e uma existências, as quais debalde sonhamos só para nós. Nada é mais comum e nada mais geralmente aceito do que essa afirmação de Paulo; mas tão pronto tenhamos concordado com ela - vemos isso acontecendo todos os dias -, cada um de nós prevê que suas necessidades absorverão vastas fortunas, como se possuíssemos um estômago bastante grande para comportar metade da terra. Eis o que diz o Salmo 49.13: "Ainda que pareça loucura que os pais esperem habitar aqui para sempre, todavia sua posteridade aprova o seu caminho." Para assegurarmos que a suficiência [divina] nos satisfaça, aprendamos a controlar nossos desejos de modo a não querermos mais do que é necessário para a manutenção de nossa vida. Ao qualificar de alimento e cobertura, ele exclui o luxo e a superabundância. Pois a natureza vive contente com um pouco, e tudo quanto extrapola o uso natural é supérfluo. Não que algum uso mais liberal de possessões seja condenado como um mal em si mesmo, mas a ansiedade em torno delas é sempre pecaminosa.


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