05 agosto, 2010

0 Honrando os Pais – O 5º Mandamento – João Calvino



“Honra a teu pai e a tua mãe, para que tenhas longa vida sobre a terra que o Senhor teu Deus te dá” (Ex 20.12)

Teor e Aplicação do Quinto Mandamento

A finalidade deste mandamento é: uma vez que ao Senhor Deus apraz a manutenção do que dispôs, importa que nos sejam invioláveis os graus de eminência por ele ordenados. A síntese, portanto, será: que usemos de deferência para com aqueles que o Senhor nos fez superiores e os tenhamos em honra, em obediência e em grato reconhecimento. Donde se segue a proibição: que não denigremos nada de sua dignidade, quer por desdém, quer por contumácia, ou por ingratidão.

Ora, o termo honra assim se patenteia amplamente na Escritura. Por exemplo,quando o Apóstolo diz [1Tm 5.17] que os presbíteros que presidem bem sejam dignos de dobrada honra, entende que se lhes deve não somente reverência, mas ainda a remuneração que seu ministério merece. Mas, visto que este mandamento referente a nossa sujeição aos superiores se põe fortemente em conflito com a depravação do espírito humano, que por isso é ele intumescido do anseio de exaltação, a contragosto se deixa sujeitar, foi proposta por exemplo essa forma de superioridade a qual, por natureza, é mais para estimar-se e menos para invejar-se, porque assim podia mais facilmente abrandar e dobrar nosso ânimo ao hábito de submissão. Logo, o Senhor gradualmente nos acostuma a toda legítima sujeição mediante essa forma que é a mais fácil de tolerar-se, uma vez que, de todas, a razão é a mesma.

Com efeito, compartilha seu nome com aqueles a quem atribui eminência, até onde se faz necessário para que ela seja preservada. A ele tão-somente convém, segundo a Escritura, os títulos Pai, Deus e Senhor, de modo que, sempre que ouvirmos qualquer um deles, nosso entendimento seja tocado com o senso de sua majestade.

Portanto, aqueles a quem faz participantes desses títulos ilumina-os como que com uma centelha de seu fulgor, de sorte que sejam, cada um, dignos de honra em conformidade com sua posição de eminência. Desse modo, aquele que nos é pai, é próprio reconhecer nele algo divinal, porquanto não sem causa é portador do título divino. De igual modo, aquele que é um príncipe, ou aquele que é um senhor, tem com Deus alguma comunhão de honra.

O PRINCÍPIO GERAL, ILUSTRADO NA REVERÊNCIA PARA COM OS PAIS

Em vista desse fato, não deve ser ambíguo que o Senhor aqui estatui uma regra universal, isto é, conforme tomamos conhecimento de que, por sua ordenação, alguém nos foi posto como superior, que o honremos com reverência, obediência e reconhecimento, e com quantas formas de servi-lo pudermos. Nem vem ao caso se aqueles a quem esta honra se defere são dignos ou indignos, porquanto, não importa o que sejam, afinal não alcançaram esta posição, entretanto, sem a providência de Deus, em função da qual o próprio Legislador quis que fossem honrados. Contudo, preceituou expressamente acerca da reverência de nossos pais, que  nos trouxeram a esta vida, com o que nos deve ensinar, de certa maneira, a própria natureza. Pois são monstros, não seres humanos, os que infringirem o poder paterno por desrespeito ou insubordinação! Por isso, o Senhor ordena que sejam mortos todos os insubmissos aos pais, como indignos do benefício da luz, já que não reconhecem àqueles por cuja obra a têm alcançado.

E, de fato, de variadas complementações da lei se evidencia ser verdadeiro o que acabamos de assinalar, ou, seja: que há três expressões da honra de que aqui se fala, a saber: reverência, obediência e reconhecimento. A primeira dessas, a reverência, o Senhor a sanciona quando preceitua que seja entregue à morte aquele que maldisser ao pai ou à mãe [Ex 21.17; Lv 20.9; Pv 20.20], uma vez que aí castiga o menosprezo e a insolência. A segunda, a obediência, sanciona-a quando decreta a pena de morte contra os filhos contumazes e rebeldes [Dt 21.18-21]. Diz respeito à terceira a gratidão ou reconhecimento, o que Cristo diz: que é do mandamento de Deus que façamos o bem a nossos pais [Mt 15.4-6]. E quantas vezes Paulo faz menção deste mandamento, entende que nele se requerer obediência [Ef 6.1-3; Cl 3.20].


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