09 agosto, 2010

0 Este é o meu Sangue – João Calvino



Quando, porém, dizemos que pelo mérito de Cristo nos foi alcançada a graça, entendemos isto: fomos purificados por seu sangue e sua morte foi uma expiação pelos pecados. “Seu sangue nos purifica do pecado” [1Jo 1.7]. “Este é meu sangue derramado para remissão dos pecados” [Mt 26.28]. Se este é o efeito de seu sangue derramado, que nossos pecados não nos sejam imputados, segue-se que, com este preço, fez-se satisfação ao juízo de Deus. Ao que é pertinente esta afirmação de João Batista: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” [Jo 1.29]. Ora, ele está contrapondo Cristo a todos os sacrifícios da lei, de sorte que só nele se ensina estar cumprido o que aquelas figuras representaram.

Sabemos, porém, o que Moisés disse repetidas vezes: a iniqüidade será expiada, o pecado será apagado e remitido. Afinal, somos excelentemente ensinados nas velhas figuras qual é a força e eficácia da morte de Cristo. E, na Epístola aos Hebreus, o Apóstolo explica esta matéria, assumindo habilmente este princípio, a saber: que “não há remissão de pecados à parte de derramamento de sangue” [Hb 9.22]. Do que conclui que “Cristo apareceu, uma vez por todas, para o cancelamento do pecado através de seu sacrifício” [Hb 9.26]. De igual modo: “Cristo foi imolado para que levasse os pecados de muitos” [Hb 9.28]. Dissera, porém, antes que “não mediante sangue de bodes ou de novilhos, mas através de seu próprio sangue, entrara ele, uma vez para sempre, nos lugares santos, alcançando assim eterna redenção” [Hb 9.12].

Entretanto, de imediato arrazoa desta maneira: “Se o sangue de uma novilha santifica, segundo a pureza da carne, muito mais, pelo sangue de Cristo, são purificadas as consciências de obras mortas” [Hb 9.13, 14]. E assim prontamente se patenteia que se reduz, demasiadamente, a graça de Cristo, se não concedemos a seu sacrifício o poder de expiar, de aplacar e de propiciar, como acrescenta pouco depois: “Este é Mediador de um Novo Testamento, de sorte que, intervinda a morte para redenção dos delitos precedentes, que persistiam sob a lei, recebam os que foram chamados a promessa de uma herança eterna” [Hb 9.15].

Entretanto, é conveniente ponderar, especialmente, o símile que é descrito por Paulo, de que Cristo se fez maldição por nós etc. [G1 3.13]. Ora, foi supérfluo, tanto quanto absurdo, que Cristo fosse onerado de maldição, a não ser que, pagando integralmente o que outros deviam, ele assim estava lhes adquirindo justiça. Claro é também o testemunho de Isaías, de que “o castigo de nossa paz foi posto sobre ele e por sua pisadura resultou-nos em cura” [Is 53.5]. Pois, a não ser que Cristo fizesse propiciação por nossos pecados, não se diria ter ele aplacado a Deus, recebido em si o castigo a que estávamos sujeitos. A que se conforma o que no mesmo lugar se lê:
“Por causa da transgressão de meu povo, eu o feri” [Is 53.8]. Acrescenta-se também a interpretação de Pedro, que nada deixa ambíguo: que “no madeiro ele carregou nossos pecados” [1Pe 2.24]. Pois ele está afirmando que foi lançado sobre Cristo o peso da condenação de que fomos aliviados.


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