28 agosto, 2010

0 Somente Pela Graça - João Calvino



- A CONSONÂNCIA DAS PROMESSAS DA LEI E DO EVANGELHO -


AS PROMESSAS DA LEI NÃO INDUZEM À SALVAÇÃO ATRAVÉS DO MÉRITO DAS OBRAS, O QUAL SOMENTE À CONDENAÇÃO PODERIA CONDUZIR


Prossigamos agora também com outros argumentos mercê dos quais Satanás se empenha, através de seus satélites, ou em demolir ou enfraquecer a justificação pela fé. Julgo que já subtraímos a nossos caluniadores a possibilidade de acusar-nos de sermos inimigos das boas obras; porque negamos que as obras justifiquem, não para que não se faça nenhuma boa obra, nem tampouco para negar que as boas obras sejam boas, mas para que não nos fiemos nelas, nem nelas nos gloriemos, nem lhes atribuamos a salvação. Pois esta é nossa confiança, esta nossa glória, a única âncora de nossa salvação: que Cristo, o Filho de Deus, é nosso, e nós, por nossa vez, nele somos filhos de Deus e herdeiros do reino celeste, chamados à esperança da bem-aventurança eterna pela benignidade de Deus, não por nossa dignidade.

Mas, visto que, como foi dito, contra nós investem ainda com outras máquinas de guerra, então avancemos também a rebatê-los. Em primeiro lugar, volvem-se para as promessas legais que o Senhor promulgou visando aos cultores de sua lei, e perguntam se porventura queremos que elas sejam inteiramente sem préstimo ou eficazes. Uma vez que teria soado mal e seria ridículo dizer que são sem préstimo, assumem como reconhecido que elas são de alguma eficácia. Daqui arrazoam que não somos justificados pela fé somente. Pois assim fala o Senhor: “Será, pois, que, se ouvindo estes juízos, os guardardes e cumprirdes, o Senhor teu Deus te guardará a aliança e a misericórdia que jurou a teus pais; e amar-te-á, e abençoar-te-á, e te fará multiplicar” etc. [Dt 7.12, 13]. Igualmente: “Mas, se deveras melhorardes vos¬sos caminhos e vossas obras; se deveras praticardes o juízo entre um homem e seu próximo; se não oprimirdes o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, nem derramardes sangue inocente neste lugar, nem andardes após outros deuses, para vosso mal, eu vos farei habitar neste lugar” etc. [Jr 7.5-7]. Não desejo recitar inutilmente mil passagens do mesmo teor, porque, uma vez que nada diferem de sentido, serão explicadas pela solução destas. Em síntese, Moisés testifica que na lei se propõem a bênção e a maldição [Dt 11.26], a morte e a vida [Dt 30.15]. Portanto, assim concluem que, ou esta bênção se torna ociosa e infrutífera, ou a justificação não é somente pela fé.

Já mostramos acima como, se nos apegamos à lei, somos destituídos de toda bênção, somente maldição paira ameaçadora, a qual foi ordenada para todos os transgressores [Dt 27.26]. Ora, o Senhor não promete coisa alguma, senão aos perfeitos cultores de sua lei, os quais nenhum se acha. Permanece, pois, que toda a raça humana é indiciada mediante a lei como sujeita à maldição e à ira de Deus, das quais, para que se livrem, necessário se faz escapar ao poder da lei, e como que de sua servidão guindar-se à liberdade, na verdade não àquela liberdade carnal que nos afasta da observância da lei, nos incita à conspurcação de todas as coisas, permite que nossa concupiscência se exceda como se as barreiras fossem rompidas ou as rédeas, soltas; ao contrário, aquela liberdade espiritual que conforta e soergue a consciência perturbada e consternada, mostrando-a livre da maldição e da condenação com que a lei a premia, amarrada e constrita. Esta liberação e, por assim dizer, alforria da sujeição à lei conseguimos quando, mediante a fé, apreendemos a misericórdia de Deus em Cristo, pela qual somos feitos seguros e convictos da remissão dos pecados, de cujo senso a lei nos pungia e remordia.
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27 agosto, 2010

0 Calvino - Pastor e Pregador



Portanto, o primeiro arranjo a ser feito foi.o de que ele deveria começar a trabalhar em Genebra simplesmente como um professor. "Naquela igreja...", ele explicou mais tarde, "assumi primeiramente o ofício de doutor." Eles rapidamente descobriram, entretanto, que ninguém poderia se equiparar a ele como pregador e, num determinado momento, foi chamado para se tornar o pastor ou o bispo da congregação local. Esse, segundo ele pensava, era o mais elevado e mais abrangente ofício que Deus poderia dar a alguém dentro da Igreja. Ele envolvia responsabilidade pelo cuidado e disciplina do rebanho, a manutenção dos membros em unidade, e também a pregação e o ensino. Calvino sempre acreditou que ninguém poderia jamais obter ou reter o título pastoral sem ter uma comunidade própria para pregar regularmente. Isso porque, em sua visão, um papa que cuidava meramente da administração geral da Igreja não tinha o direito de se autodenominar bispo.

Possivelmente ele também tenha descoberto, graças à sua eficácia como mestre ou teólogo, que precisava da comunhão da paróquia. Apenas na liderança ativa do povo de Deus, e em relacionamento íntimo com ele, Calvino poderia averiguar a fidelidade de seu ensino à palavra de Deus, e sua eficácia, enquanto tentava trabalhar as implicações da Reforma para a vida cristã e para o bem cristão da comunidade. Seu ensino teria perdido sua alma se ele tivesse partido para a erudição isolada da vida inteiramente acadêmica. Ter um trabalho especial perto da linha de frente salvou-o de se transformar meramente num burocrata eclesiástico de palavrório teórico, com inevitáveis iluminações parciais, capaz de alimentar mais a imprensa que o próprio rebanho.

A tarefa de pregar regularmente a Palavra levou-o enfim ao coração do movimento da Reforma em sua batalha pela alma da Europa, pois, foi mais por meio de sua pregação, que por meio de qualquer outro aspecto de sua obra, que ele exerceu a extraordinária influência que todos reconhecem que ele teve.

De maneira alguma tem sido incomum na história da Igreja que a pregação tenha se tornado um fator poderoso na conversão de pessoas e comunidades, na mudança de costumes sociais e na condução de homens para a ação política. Podemos pensar, por exemplo, no marcante relato de Agostinho sobre como sua pregação em Cesaréia, na Mauritânia, subjugou os homens de uma comu¬nidade selvagem e moveu-os a abandonar para sempre seus costumeiros períodos anuais de assassinatos intrafamiliar. Além disso, a Idade Média não se ressentia da falta de pregadores de poder e influência excepcionais. Porém, na época da Reforma, o que havia sido anteriormente ocasional, e até mesmo raro, pareceu transformar-se por um tempo numa experiência comum dentro da vida normal da Igreja.

Muitas vezes, a influência do pregador sobre sua comunidade é uma força profundamente difusa, difícil de ser investigada em seus resultados precisos. Porém, também muitas vezes, a pregação é uma causa imediata óbvia de importantes mudanças de atitudes e atmosferas em períodos críticos na luta como um todo — como, por exemplo, nos sermões de Lutero em Wittemberg, em 1532, ou os sermões de John Knox, em Perth, no momento crítico da Reforma na Escócia. Os próprios reformadores eram conscientes da poderosa e ampla influência que eles exerciam por meio da pregação. Lutero estava muito confi¬ante de que poderia resistir aos "ásperos lordes e aos raivosos nobres e superá-los", como ele tinha resistido "ao ídolo deles, o papa e superado-o", apenas com palavras.6 John Knox escreve numa carta datada de 23 de junho de 1559 de como "por mais de quarenta dias meu Deus tem usado minha língua no meu país de origem para a manifestação de sua glória",7 estando confiante o suficiente para contar a Cecil no mesmo ano que "Cristo Jesus crucificado, agora começou a ser pregado", poderia juntar os corações daqueles há tempo prejudicados por Satanás e trazer "perpétua concórdia" entre os dois reinos da Escócia e da Inglaterra.

Além disso, os relatos dessa época indicam que havia um anseio incomum da parte do povo em geral para ouvir a pregação da Palavra de Deus. Já observamos que a experiência inicial de Calvino de encontrar-se constantemente cercado por aqueles que tinham "sede por ensino relevante", e a despeito de todas as suas diferenças e tensões, o povo e as autoridades de Genebra precisavam de Calvino tanto quanto Calvino precisava deles também. A demanda por pastores que poderiam pregar a Palavra era intensa em todo o mundo reformado. Quando lemos que em Genebra em 1549 o concílio ordenou aos pregadores que pregassem um sermão a cada manhã da semana em vez de em manhãs alternadas,9 e que o primeiro livro de disciplina na Escócia, em 1560, ordenava que "em cada cidade notável, um dia, além dos domingos, deveria ser escolhido para sermão e oração", não devemos imaginar que por trás dessas ordenanças existisse um clérigo agressivo e presunçoso assegurando por ele mesmo e por seus pontos de vista uma posição dominante de influência na comunidade. A iniciativa tinha partido de leigos que queriam até mesmo mais do que muitos de seus pastores poderiam dar. A "multidão de pessoas" que foi registrada pelo Concílio em Genebra para assistir aos sermões de Viret e Calvino não estava lá como vítima de uma disciplina de ferro. As pessoas queriam ouvir a Palavra. A carta de John Knox de St. Andrews, datada de 23 de junho de 1559, pode ser citada: "A sede do povo pobre tanto quanto da herança nobre, é maravilhosamente grande, o que me deu o conforto de que Cristo Jesus triunfará no Norte e nas partes extremas da terra".

                         
 Ronald Wallace
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25 agosto, 2010

0 1534-1536 - Um Doutor da Igreja – João Calvino



- Chamado e Início do Ministério -

Paris, Poitiers, Orleans, Estrasburgo, Basiléia, Itália - esses são os pontos principais no itinerário de Calvino durante esses dois anos ou mais. Ele mesmo se confessa "um tanto quanto inculto e retraído". Sua timidez fez com que ele buscasse "algum canto recluso" onde pudesse ter paz para estudar. Mas seus retiros transformaram-se "em escolas públicas" pois, "antes que houvesse pas¬sado um ano, todos os que tinham qualquer desejo por pura doutrina estavam continuamente vindo até mim para aprender, ainda que eu mesmo me sentisse como um mero noviço e um principiante".1 Sua permanência em Orleans deve ser conectada com a redação da sua primeira obra teológica, Psychopannychia - um livro contra um aspecto do ensino anabatista de então. O subtítulo explica isso. "Uma refutação do erro cometido por algumas pessoas despreparadas que ignorantemente imaginam que, no intervalo entre a morte e o julgamento, a alma entra em sono profundo, junto com uma explicação da condição e da vida da alma depois desta presente vida." O livro foi publicado posteriormente em 1542.

Em seu caminho para a Basiléia, aonde chegou em 1535, ele passou por Estrasburgo. Lá ele trabalhou em parcial reclusão, tendo publicado, em março de 1535, a primeira edição das Instituías da Religião Cristã. Tratava-se, então, de uma obra comparativamente curta de tamanho reduzido. A fé reformada estava, na França, sendo confundida tanto com os ensinos grosseiros dos anabatistas quanto com as doutrinas sediciosas e revolucionárias. Seus seguidores estavam sendo perseguidos indiscriminadamente, como se suas crenças devessem ser identificadas com esses "delírios perversos e falsas opiniões". Calvino queria, portanto, oferecer um relato justo disso. Ele introduziu seu livro com uma carta ao rei da França, apelando por justiça e clemência nos julgamentos. "Se o monarca tivesse lido essa carta", diz Beza, "eu estaria muito enganado se uma profunda ferida não tivesse sido infligida até mesmo à prostituta da Babilônia." A carta revela que o objetivo de Calvino em escrever era também pastoral. Ele havia encontrado muitos de seus compatriotas em vários lugares "famintos e sedentos por Cristo", ainda que completamente sem instrução alguma. Ele, portanto, ofe¬receu a eles um manual para ajudá-los a entender.

Na primavera de 1536, ele partiu novamente para suas viagens, dessa vez indo para a Itália sob o nome de Charles d'Espeville (um nome que ele freqüentemente usou em correspondências posteriores). Ele fez essa viagem para encontrar-se com Renée, a Duquesa de Ferrara, uma das filhas de Luís XII, que havia dado abrigo em sua corte para vários refugiados importantes da fé reformada. Calvino "confirmou-a em seu zelo pela verdadeira religião", diz Beza. Mais tarde ela procurou a ajuda e o conselho dele por meio de cartas. Na casa dela, o futuro reformador encontrou-se com Clement Marot, o poeta e escritor de hinos francês.

Há pouca dúvida de que, nessa época, a publicação das Instituías tivesse dado a ele uma certa reputação entre os reformadores, e que ele tivesse se lançado decisivamente na luta da Igreja ao lado deles. De fato, sua vida de trabalho dentro da Igreja já havia começado. Ele acreditava que, dos dois ofícios principais apontados por Cristo para um lugar permanente na Igreja, o mais próximo ao pastorado ou ao episcopado devia ser o de doutor - isto é, um professor de Teologia - que tinha a responsabilidade de manter a "sã doutrina" na Igreja em geral. Nessa época ele achava que estava cumprindo esse ofício, mesmo que a incerteza dos tempos não permitisse a ele gozar de uma ordenação regular para esse ministério.

Ronald Wallace
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23 agosto, 2010

0 Piedade com Contentamento – João Calvino


Mas a piedade é grande lucro (1Tm 6.6,7). De uma forma elegante, e com uma mudança irônica, o apóstolo repentinamente arremessa contra seus oponentes as mesmas palavras com significado oposto, como se quisesse dizer: "Eles agem errônea e impiamente em fazer comércio da doutrina de Cristo, como se a piedade fosse [fonte de] lucro; e no entanto entenderam corretamente que a piedade é de fato um grande e riquíssimo lucro." Ele a qualifica assim porque ela nos traz plena e perfeita bem-aventurança. Aqueles que se aferram à aquisição de dinheiro, e que usam a piedade para granjearem lucros, tornam-se culpados de sacrilégio. Mas a piedade é por si só suficientemente um imensurável lucro para nós, visto que é através dela que nos tornamos não só os herdeiros do mundo, mas também [é através dela] que somos capacitados para o desfruto de Cristo e de todas as suas riquezas.

Com contentamento. Esta pode ser uma referência ou a uma disposição íntima ou a uma suficiência de riqueza. Se porventura for subentendida como uma disposição, o significado será: os piedosos que nada desejam, mas que vivem contentes com sua pobreza, esses têm granjeado um grande lucro. Mas se for tomada no sentido de suficiência âe possessões - interpretação esta que no momento me agrada -, será uma promessa como aquela do Salmo 34.10: "Os filhos dos leões passam necessidade e sofrem fome, mas àqueles que buscam ao Senhor bem nenhum faltará." O Senhor está sempre presente com seu povo; e, segundo a demanda de nossas necessidades, ele concede a cada um de nós uma porção de sua própria plenitude. Portanto, a genuína bem-aventurança consiste na piedade, e essa suficiência é tão boa quanto um razoável aumento de lucro.

 Porque nada trouxemos para o mundo. Ele acrescenta esta cláusula a fim de definir o limite do que nos é suficiente. Nossa cobiça é um abismo insaciável, a menos que seja ela restringida; e a melhor forma de mantê-la sob controle é não desejarmos nada além do necessário imposto pela presente vida; pois a razão pela qual não aceitamos esse limite está no fato de nossa ansiedade abarcar mil e uma existências, as quais debalde sonhamos só para nós. Nada é mais comum e nada mais geralmente aceito do que essa afirmação de Paulo; mas tão pronto tenhamos concordado com ela - vemos isso acontecendo todos os dias -, cada um de nós prevê que suas necessidades absorverão vastas fortunas, como se possuíssemos um estômago bastante grande para comportar metade da terra. Eis o que diz o Salmo 49.13: "Ainda que pareça loucura que os pais esperem habitar aqui para sempre, todavia sua posteridade aprova o seu caminho." Para assegurarmos que a suficiência [divina] nos satisfaça, aprendamos a controlar nossos desejos de modo a não querermos mais do que é necessário para a manutenção de nossa vida. Ao qualificar de alimento e cobertura, ele exclui o luxo e a superabundância. Pois a natureza vive contente com um pouco, e tudo quanto extrapola o uso natural é supérfluo. Não que algum uso mais liberal de possessões seja condenado como um mal em si mesmo, mas a ansiedade em torno delas é sempre pecaminosa.
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20 agosto, 2010

0 Aos Ricos deste Mundo – João Calvino



Ordena aos que são ricos (1 Tm 6.17). Visto que muitos dos cristãos eram pobres e oprimidos, é provável que, como geralmente sucede, fossem desprezados pelos ricos; e esse poderia especialmente ser o caso em Éfeso, que era uma cidade opulenta; pois, em tais regiões, o orgulho costuma ser ainda pior. Aprendamos, pois, desse fato quão perigosa é a abundância das coisas materiais. Paulo tem boas razões para dirigir especialmente aos ricos uma advertência tão severa; seu intuito é remediar os erros que quase sempre acompanham as riquezas, precisamente como nossa sombra acompanha nosso corpo; e tal coisa se dá pela depravação de nossa mente que faz dos dons divinos ocasião para o pecado. Ele menciona especificamente duas coisas das quais os ricos devem precaver-se, ou seja: o orgulho e a falsa segurança - a primeira oriunda da segunda. Nem depositem sua esperança na instabilidade das riquezas foi adicionado para que Paulo atraísse a atenção deles para a fonte de seu orgulho. A única razão pela qual os ricos se tornam insolentes e se deleitam tão acentuadamente em cultivar o desprezo pelos demais é que se imaginam especial e supremamente ditosos. A vã confiança vem primeiro, e a arrogância vem logo a seguir.

Quando Paulo desejava corrigir esses erros, primeiramente ele fala desdenhosamente das riquezas, pois a frase, do presente mundo, tem o intuito de rebaixá-las em nossa estima. Pois tudo o que pertence a este mundo participa de sua natureza, por isso ser o mesmo tão transitório e passar tão depressa. Ele mostra a falsidade e a fatuidade da confiança que é posta nas riquezas, lembrando-nos que nossa posse delas é algo tão transitório que se assemelha a uma coisa desconhecida. Pois quando imaginamos tê-las, como um relâmpago escapam de nossas mãos. Quão estulto é colocarmos nelas nossa esperança!

Mas no Deus vivo. A pessoa que chega a compreender isso não encontrará dificuldade em desvencilhar sua confiança das riquezas. Porquanto é unicamente Deus quem provê todas as coisas para os propósitos necessários de nossa vida, e quando depositamos nossa confiança nas riquezas, na verdade estamos transferindo para elas as prerrogativas que pertencem exclusivamente a Deus. Note-se o contraste implícito ao dizer que Deus distribui liberalmente com todos. O significado é o seguinte: mesmo que possuamos plena e rica abundância de todas as coisas, na verdade tudo quanto possuímos procede da mercê divina. E tão-somente sua generosidade que nos supre de tudo quanto carecemos. Segue-se que é um terrível equívoco confiar nas riquezas e não depender completamente da mercê divina, na qual há para nós suficiência, alimento e tudo mais. Portanto, concluímos que somos proibidos de confiar nas riquezas, não apenas com base no fato de que pertençam só a esta vida mortal, mas também porque não passam de fumaça. Nossa nutrição não procede apenas do pão [material], mas de toda a munificência divina [Dt 8.3].

Ao dizer, ricamente, ele, [eisapolausin], ele está descrevendo a imensa liberalidade divina em nosso favor, em favor de toda a humanidade e em favor de todos os seres irracionais; sua mercê se estende para muito além de nossas necessidades [SI 36.6].
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17 agosto, 2010

0 Morrendo e Ressuscitando com Cristo - João Calvino



A MORTIFICAÇÃO DA CARNE E A VIVIFICAÇÃO DO ESPÍRITO RESULTAM DA PARTICIPAÇÃO DA MORTE E DA RESSURREIÇÃO DE CRISTO, A REGENERAÇÃO REAL OU ARREPENDIMENTO

Uma e outra, isto é, a mortificação da carne e a vivificação do Espírito, nos é comunicada em virtude da participação de Cristo. Ora, se de sua morte compartilhamos verdadeiramente, “nosso velho homem é crucificado por seu poder e morre o corpo do pecado” [Rm 6.6], para que não floresça por mais tempo a corrupção da primeira natureza. Se somos participantes de sua ressurreição, por ela somos despertados para a novidade de vida que corresponda à justiça de Deus. Portanto, interpreto o arrependimento com uma palavra: regeneração, cujo objetivo não é outro senão que em nós seja restaurada a imagem de Deus, a qual fora empanada e quase apagada pela transgressão de Adão.

Assim o ensina o Apóstolo, quando diz: “Nós, porém, de face descoberta, refletindo como em um espelho a glória do Senhor, somos transformados à mesma imagem, de glória a glória, como pelo Espírito do Senhor” [2Co 3.18]. Igualmente: “Sede renovados no espírito de vosso entendimento e revesti-vos do novo homem que foi criado, segundo Deus, na justiça e santidade da verdade” [Ef 4.23, 24]. Também, em outro lugar: “Revestindo-vos do novo homem que se renova segundo o conhecimento e a imagem daquele que o criou” [Cl 3.10]. Portanto, mediante esta regeneração, somos pela mercê de Cristo restaurados à justiça de Deus, da qual havíamos decaído através de Adão, modo pelo qual ao Senhor agrada restaurar integralmente a todos quantos adota para a herança da vida. E esta restauração, na verdade, não se consuma em um momento, ou em um dia, ou em um ano; antes, através de avanços contínuos, ainda que amiúde de fato lentos, Deus destrói em seus eleitos as corrupções da carne, os limpa de sua imundície e a si os consagra por templos, renovando-lhes todos os sentimentos à verdadeira pureza, para que se exercitem no arrependimento toda sua vida e saibam que não há nenhum fim para esta luta senão na morte.

Quão maior é a improbidade de certo paroleiro e apóstata impuro, Estáfilo, que vocifera dizendo que o estado da presente vida é por mim confundido com a glória celeste, enquanto de Paulo interpreto a imagem de Deus como sendo “verdadeira santidade e justiça” (Ef 4.24). Como se, realmente, ao definir-se alguma coisa não se deva buscar sua própria inteireza e perfeição. Ao afirmar que Deus restaura em nós sua imagem, não nego que o faça progressivamente; mas que, à medida que cada um avança, se aproxima mais da semelhança de Deus, e que tanto mais resplandece nele essa imagem de Deus23 [2Co 4.16]. Para que os fiéis cheguem a este ponto, Deus lhes assinala o caminho do arrependimento pelo qual percorram pela vida inteira.
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13 agosto, 2010

0 O Domínio do Pecado – João Calvino


O PECADO INFESTA E DOMINA A TODO O SER HUMANO

Por essa razão eu disse que, desde que Adão se apartou da fonte da justiça, todas as partes da alma vieram a ser possuídas pelo pecado. Pois não só o seduziu um desejo inferior; ao contrário, a nefanda impiedade ocupou a própria cidadela da mente, e o orgulho penetrou ao mais recôndito do coração, de sorte que é improcedente e estulto restringir a corrupção que daí emanou apenas ao que chamam impulsos sensuais, ou chamar “foco de fogo” que atrai, excita e arrasta o pecado somente a parte que compreende a sensualidade.

Nisto Pedro Lombardo pôs à mostra crassa ignorância, ou, seja, buscando e investigando a sede do pecado, afirma que ela está na carne, o que, a seu ver, Paulo atesta, ainda que não de forma estrita, mas porque o pecado se faz ainda patente na carne. Aliás, é como se Paulo tivesse em mira apenas uma parcela da alma e não a natureza toda, a qual se opõe à graça supernatural! E Paulo remove toda dúvida, ensinando que a corrupção não reside apenas em uma parte; ao contrário, que nada há incontaminado ou inafetado por sua mortífera peçonha. Ora, discorrendo a respeito da natureza corrupta, Paulo não só condena os desordenados impulsos dos  apetites, que se fazem explícitos, mas sobretudo insiste em que a mente está entregue à cegueira e o coração, à depravação [Ef 4.17, 18]. E esse terceiro capítulo da Epístola aos Romanos outra coisa não é senão uma descrição do pecado original.

Isto se mostra mais claramente à luz da renovação regeneracional. Ora, o termo espírito, que se contrapõe a velho homem e carne, não denota simplesmente a graça pela qual é retificada a parte inferior ou sensória da alma; pelo contrário, abrange a plena reforma de todas as partes. E por isso Paulo prescreve não apenas que se reduzam a nada os apetites vis, mas ainda que sejamos renovados no espírito de nosso entendimento [Ef 4.23], assim como também, em outra passagem [Rm 12.2], insta a que sejamos transformados em novidade da mente. Do quê se segue que aquela parte em que refulge sobremaneira a excelência e nobreza da alma foi não só ferida, mas até corrompida, a tal ponto que tem necessidade não apenas de ser curada, mas também de revestir-se de natureza quase que nova.

Até onde o pecado domina, não só à mente, mas ainda ao coração, veremos de imediato. Aqui tive o propósito de apenas sumariamente abordar o fato de que o homem inteiro, da cabeça aos pés, foi, como por um dilúvio, de tal modo assolado, que nenhuma parte ficou isenta de pecado, e em conseqüência tudo quanto dele procede deve ser imputado ao pecado. Como Paulo diz [Rm 8.6, 7]: todos os afetos ou cogitações da carne são inimizades contra Deus; e por isso, morte.

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12 agosto, 2010

0 A Natureza Humana é totalmente Depravada – João Calvino



O homem, porém, não se pode melhor conhecer, em uma e outra parte da alma, a não ser que se se ponha à vista com seus títulos, pelos quais é caracterizado pela Escritura. Se todos forem descritos com estas palavras de Cristo: “O que é nascido da carne é carne” [Jo 3.6], como é fácil comprovar, o homem é convencido de ser uma criatura mui miserável. Ora, o Apóstolo atesta que a inclinação da carne é morte, uma vez que é inimizade contra Deus, e por isso não se sujeita à lei de Deus, nem pode sujeitar-se [Rm 8.6, 7].

Porventura a carne está a tal ponto pervertida, que com toda sua inclinação exerça inimizade contra Deus, que não possa conformar-se à justiça da lei divina, que nada, afinal, possa exibir senão ocasião de morte? Pressupõe-se, então, que nada há na natureza humana senão carne, e que daí não se pode extrair algo de bom. Mas dirás que o termo carne se refere apenas à parte sensória, não à parte superior da alma. Isto, porém, se refuta plenamente à luz das palavras não só de Cristo, como também do Apóstolo. O postulado do Senhor é: ao homem importa nascer de novo [Jo 3.3], porque ele é carne [Jo 3.6]. Não está preceituando nascer de novo em relação ao corpo. Mas, na alma nada nasce de novo, se apenas alguma porção lhe for reformada; ao contrário, toda ela se renova. E isto é confirmado pela antítese estabelecida em uma e outra destas duas passagens, pois de tal modo o Espírito é contrastado com carne, que nada é deixado entre ambos. Logo, tudo que no homem não é espiritual, segundo este arrazoado, diz-se ser carnal. Nada, porém, temos do Espírito senão pela regeneração. Portanto, tudo quanto temos da natureza é carne.

Na verdade, tanto quanto em outras circunstâncias, se pudesse haver dúvida acerca desta matéria, a mesma nos é dirimida por Paulo, onde, descrito o velho homem, que dissera ter sido corrompido pelas concupiscências do erro, ordena que sejamos renovados no espírito de nossa mente [Ef 4.22, 23]. Vês que ele não situa os desejos ilícitos e depravados apenas na parte sensorial, mas também na própria mente, e por isso requer que lhe haja renovação. E de fato, pouco antes pintara esta imagem da natureza humana, que mostra que estamos corrompidos e depravados em todas as nossas faculdades.

Ora, ele escreve que todos os gentios andam na vaidade de sua mente, estão entenebrecidos no entendimento, alienados da vida de Deus por causa da ignorância que neles há, e da cegueira de seu coração [Ef 4.17, 18], não havendo a mínima dúvida de que isso se aplica a todos aqueles a quem o Senhor ainda não reformou para a retidão, seja de sua sabedoria, seja de sua justiça. O que se faz ainda mais claro da comparação adjunta logo em seguida, onde adverte aos fiéis de que não haviam assim aprendido a Cristo [Ef 4.20]. Seguramente concluímos destas palavras que a graça de Cristo é o único remédio pelo qual somos libertados dessa cegueira e dos males daí resultantes.

Ora, também assim havia Isaías vaticinado acerca do reino de Cristo, quando o Senhor prometia que haveria de ser por luz sempiterna à sua Igreja [Is 60.19], enquanto, a esse mesmo tempo, trevas cobririam a terra e escuridão cobriria os povos [Is 60.2]. Quando testifica haver de despontar na Igreja a luz de Deus, fora da Igreja certamente nada deixa, a não ser trevas e cegueira. Não mencionarei, uma a uma, as passagens que a respeito da vacuidade do homem se contam por toda parte, especialmente nos Salmos e nos Profetas. Incisivo é o que Davi escreve: “Certamente os homens de classe baixa são vaidade, e os homens de ordem elevada são mentira” [Sl 62.9]. Traspassado de pesado dardo lhe é o entendimento, quando todos os pensamentos que daí procedem são escarnecidos como estultos, frívolos, insanos, pervertidos.
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11 agosto, 2010

0 A Única Atitude que Convém – João Calvino



O SENSO DE NOSSA DEPENDÊNCIA DE DEUS É O CAMINHO DA VITÓRIA

Todo aquele que se vê profundamente acabrunhado e consternado pela consciência de sua miséria, pobreza, nudez, ignomínia, tem assim avançado extraordinariamente no conhecimento de si próprio. Ora, não há perigo de que o homem prive a si mesmo excessivamente, desde que aprenda que se deve recobrar em Deus o que em si mesmo falta. Com efeito, na verdade nem pode o homem a si presumir um tantinho de nada além de seu direito, sem que não só se perca em vã confiança pessoal, mas ainda, transferindo a si a honra divina, se faça réu de monstruoso sacrilégio. Evidentemente, sempre que nos vem à mente essa ânsia de apetecer alguma coisa que nos pertença e não a Deus, temos de compreender que tal pensamento nos é inspirado pelo que induziu nossos primeiros pais a quererem ser semelhantes a Deus, conhecendo o bem e o mal [Gn 15].
Caso seja a palavra do Diabo que exalta o homem em si mesmo, não lhe demos lugar, a não ser que queiramos receber conselho do inimigo. Sem dúvida é grato possuir tanto de poder próprio que hajas de confiar em ti mesmo. Mas, para que não sejamos seduzidos a esta vã confiança pessoal, que sejamos atemorizados por tantas declarações graves da Escritura pelas quais somos severamente consternados, a saber: “Maldito é aquele que confia no homem e põe a carne por seu braço” [Jr 17.5]; igualmente: “Deus não se deleita na força do cavalo e não lhe comprazem as pernas do homem, mas se afeiçoa nos que o temem, nos que se entregam à sua bondade” [Sl 147.10, 11]; também: “É ele que dá alento ao cansado e ao sem forças aumenta o vigor, que faz com que os jovens se fatiguem e se abatam, os moços de exaustão tombem, porém os que só nele esperam renovem suas forças” [Is 40.29-31].
Todas estas referências conduzem a isto: que não nos apoiemos na convicção de nossa própria força, por mínima que seja tal convicção, se queremos que Deus nos seja propício, o qual resiste aos soberbos, porém dá graça aos humildes [Tg 4.6; 1Pe 5.5; Pv 3.34]. Então, em seguida venham à memória estas promessas: “Derramarei água sobre o solo sedento, e rios sobre a terra seca” [Is 44.3]; de igual modo: “Vinde às águas todos os que tendes sede” [Is 55.1], as quais atestam que, para receber as bênçãos de Deus, a ninguém se admite, senão os que se consomem sob o senso de sua pobreza. Com isso não se pretere promessa tal como esta de Isaías: “O sol já não ser-te-á para iluminar durante o dia, nem a lua para iluminar durante a noite; ao contrário, o Senhor ser-te-á por luz sempiterna” [Is 60.19]. Certamente, o Senhor não subtrai de seus servos o fulgor do sol ou da lua; mas, visto que somente ele quer ser glorioso neles, afasta para longe deles a confiança mesmo posta naquelas coisas que em sua opinião são mui excelentes.


VERDADEIRA HUMILDADE: A ÚNICA ATITUDE QUE NOS CONVÉM

Sempre me agradou sobremaneira esta ponderação de Crisóstomo: “A humildade é o fundamento de nossa filosofia.”40 Contudo, mais ainda esta de Agostinho: “Da mesma forma”, diz ele, “que aquele orador, indagado qual seria o primeiro entre os preceitos da eloqüência, respondeu: a elocução; como o segundo: a elocução; também o terceiro: a elocução; assim, se me interrogas acerca dos preceitos da religião cristã, primeiro, segundo e terceiro, me agradaria responder sempre: a humildade.”
Todavia, como o declara em outro lugar, não considera como humildade quando, cônscio de alguma porção de virtude em si próprio, o homem não cede ao orgulho; mas, ao contrário, quando ele se sente verdadeiramente que nenhum refúgio possui senão na humildade. “Ninguém”, diz ele, “se lisonjeie. Por si mesmo não passa de um satanás. Do que é aquinhoado, isso ele o tem somente de Deus. Pois, que tens de teu senão o pecado? Toma para ti o pecado, porque é teu, já que a retidão é de Deus.”42 Ainda: “Por que tanto se presume da possibilidade de nossa natureza?
Está chagada, dilacerada, arruinada, perdida. Tem ela necessidade de verdadeira confissão, não de falsa defesa.”43 De novo: “Quando alguém reconhece que em si mesmo nada é e nenhuma ajuda tem de si próprio, dentro de si estão quebradas as armas, serenados estão os embates. Mas, é indispensável que todas as armas da impiedade sejam despedaçadas, sejam esmigalhadas, sejam consumidas pelo fogo, e permaneças inerme, nenhum recurso tenhas em ti mesmo. Quanto mais fraco és em ti, tanto mais te sustém o Senhor.”  Assim, na consideração do Salmo 70, proíbe que nos lembremos de nossa justiça pessoal, para que conheçamos a justiça de Deus; e mostra que Deus nos recomenda sua graça de tal modo que saibamos que nós nada somos, que nos mantemos firmes apenas pela misericórdia de Deus, já que de nós mesmos nada somos senão maus.
Portanto, neste ponto não contendamos com Deus acerca de nosso direito, como se perdêssemos em nosso proveito tudo quanto a ele atribuímos. Ora, se nossa humildade é sua exaltação, assim a confissão de nossa humildade tem sua misericórdia como remédio preparado. Contudo, nem pretendo que um homem que não se deixa assim persuadir ceda espontaneamente; e se tem alguma capacidade, que dela desvie a mente para que se sujeite à verdadeira humildade. Pelo contrário, pretendo que, debelada a enfermidade – do amor de si mesmo e do prazer por contenciosidade], obcecado pela qual pensa em si mais do que convém [G1 6.3], se contemple honestamente no veraz espelho da Escritura [Tg 1.22-25].

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10 agosto, 2010

2 A Inconveniência da Expressão Livre-Arbítrio




Graça Operante e Graça Cooperante e o Livre-Arbítrio.

Caso se admita isto, estará fora de questão que o livre-arbítrio não é bastante ao homem para as boas obras, a não ser que seja ajudado pela graça, e na verdade pela graça especial, graça esta de que os eleitos só são dotados mediante a regeneração.

Logo, deixo de levar em conta os fanáticos que bradam que a graça é distribuída a todos de modo igual e de forma indistinta. Isto, entretanto, ainda não está claro: se porventura o homem esteja de todo privado da capacidade de fazer o bem, ou tenha para isso alguma capacidade, ainda que diminuta e precária, que certamente nada possa de si, todavia, em auxiliando-a a graça, desempenhe também ela mesma sua função. Tendo em mira decidir isto, o Mestre das Sentenças ensina que nos é necessária dupla graça para que nos tornemos capazes para uma boa obra. A uma ele chama de graça operante, mercê da qual resulta que queiramos o bem eficazmente; cooperante, a outra, que acompanha a boa vontade, coadjuvando-a.

Nesta divisão desagrada-me isto: que, enquanto atribui à graça de Deus o eficaz desejo do bem, dá a entender que, já de sua própria natureza, de certo modo, ainda que ineficazmente, o homem deseja o bem. Assim Bernardo, asseverando que de fato a boa vontade é obra de Deus, no entanto concede isto ao homem: que ele deseja, de moto próprio, esta espécie de boa vontade. Isto, entretanto, está longe da mente de Agostinho, de
quem, todavia, Lombardo deseja parecer haver tomado essa distinção entre graça operante e graça cooperante.

No segundo membro desse binômio distincional ofende-me a ambigüidade, a qual tem gerado interpretação pervertida. Pois pensaram que cooperamos com a segunda dessas modalidades da graça de Deus, visto ser nosso direito ou de tornar inútil a primeira graça, rejeitando-a, ou de confirmá-la, seguindo-a obedientemente.

Isto o autor da obra A Vocação dos Gentios exprime desta forma: os que fazem uso do juízo da razão são livres para apartar-se da graça, de sorte a ser mérito o não haver-se apartado; e de sorte que, o que não se pode fazer, senão mediante a assistência do Espírito, se credita aos merecimentos daqueles de cuja vontade isto não pôde ser feito.

Pareceu-me bem abordar, de passagem, estes dois pontos, para que o leitor já veja quanto discordo dos escolásticos mais sóbrios. Ora, dos sofistas mais recentes difiro em extensão ainda maior, a saber, quanto estão distanciado da antigüidade. Como quer que seja, desta divisão, contudo, compreendemos em que medida eles têm conferido o livre-arbítrio ao homem. Pois Lombardo sentencia, afinal, que temos o livre-arbítrio não que, em relação ao bem e ao mal, estejamos capacitados para ou fazer ou pensar de modo igual, mas apenas que somos liberados de compulsão, liberdade que, segundo ele, não é impedida, ainda que sejamos depravados, e servos do pecado, e nada possamos senão pecar.
A Inconveniência da Expressão Livre-Arbítrio
Desse modo, pois, dir-se-á que o homem é dotado de livre-arbítrio: não porque tenha livre escolha do bem e do mal, igualmente; ao contrário, porque age mal por vontade, não por efeito de coação. Por certo que isto soa muito bem. Mas, a que servia etiquetar com título tão pomposo coisa de tão reduzida importância? Excelente liberdade, sem dúvida, seria se com efeito o homem não fosse compelido pelo pecado a servi-lo; se, no entanto, é ( – escravo por querer; escravo por vontade], de sorte que a vontade lhe é mantida amarrada pelas peias do pecado! Certamente que abomino (machías) – contendas de palavras -  com as quais a Igreja em vão se afadiga, porém julgo ser religiosamente preciso evitar estas palavras que soam algo absurdo, principalmente quando induzem perniciosamente ao erro. Indago, porém, quão poucos são os que, em ouvindo atribuir-se livre-arbítrio ao homem, imediatamente não o concebam ser senhor tanto de sua mente quanto da vontade, tanto que possa de si mesmo vergar-se para uma e outra dessas duas partes?

Contudo, alguém dirá que é preciso afastar perigo desta natureza, se cuidadosamente o povo em geral for informado quanto ao exato sentido desta expressão. Na realidade, porém, como o coração humano propende espontaneamente para a falsidade, de uma palavrinha só o erro sorverá mais depressa do que faz extenso discurso em prol da verdade. Nesta própria expressão temos deste fato mais indisputável experiência do que seria de se almejar. Ora, enquanto se apega à etimologia do termo, deixada de lado aquela interpretação dos escritores antigos, quase toda a posteridade tem sido arrastada à ruinosa confiança pessoal.

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09 agosto, 2010

0 Este é o meu Sangue – João Calvino



Quando, porém, dizemos que pelo mérito de Cristo nos foi alcançada a graça, entendemos isto: fomos purificados por seu sangue e sua morte foi uma expiação pelos pecados. “Seu sangue nos purifica do pecado” [1Jo 1.7]. “Este é meu sangue derramado para remissão dos pecados” [Mt 26.28]. Se este é o efeito de seu sangue derramado, que nossos pecados não nos sejam imputados, segue-se que, com este preço, fez-se satisfação ao juízo de Deus. Ao que é pertinente esta afirmação de João Batista: “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” [Jo 1.29]. Ora, ele está contrapondo Cristo a todos os sacrifícios da lei, de sorte que só nele se ensina estar cumprido o que aquelas figuras representaram.

Sabemos, porém, o que Moisés disse repetidas vezes: a iniqüidade será expiada, o pecado será apagado e remitido. Afinal, somos excelentemente ensinados nas velhas figuras qual é a força e eficácia da morte de Cristo. E, na Epístola aos Hebreus, o Apóstolo explica esta matéria, assumindo habilmente este princípio, a saber: que “não há remissão de pecados à parte de derramamento de sangue” [Hb 9.22]. Do que conclui que “Cristo apareceu, uma vez por todas, para o cancelamento do pecado através de seu sacrifício” [Hb 9.26]. De igual modo: “Cristo foi imolado para que levasse os pecados de muitos” [Hb 9.28]. Dissera, porém, antes que “não mediante sangue de bodes ou de novilhos, mas através de seu próprio sangue, entrara ele, uma vez para sempre, nos lugares santos, alcançando assim eterna redenção” [Hb 9.12].

Entretanto, de imediato arrazoa desta maneira: “Se o sangue de uma novilha santifica, segundo a pureza da carne, muito mais, pelo sangue de Cristo, são purificadas as consciências de obras mortas” [Hb 9.13, 14]. E assim prontamente se patenteia que se reduz, demasiadamente, a graça de Cristo, se não concedemos a seu sacrifício o poder de expiar, de aplacar e de propiciar, como acrescenta pouco depois: “Este é Mediador de um Novo Testamento, de sorte que, intervinda a morte para redenção dos delitos precedentes, que persistiam sob a lei, recebam os que foram chamados a promessa de uma herança eterna” [Hb 9.15].

Entretanto, é conveniente ponderar, especialmente, o símile que é descrito por Paulo, de que Cristo se fez maldição por nós etc. [G1 3.13]. Ora, foi supérfluo, tanto quanto absurdo, que Cristo fosse onerado de maldição, a não ser que, pagando integralmente o que outros deviam, ele assim estava lhes adquirindo justiça. Claro é também o testemunho de Isaías, de que “o castigo de nossa paz foi posto sobre ele e por sua pisadura resultou-nos em cura” [Is 53.5]. Pois, a não ser que Cristo fizesse propiciação por nossos pecados, não se diria ter ele aplacado a Deus, recebido em si o castigo a que estávamos sujeitos. A que se conforma o que no mesmo lugar se lê:
“Por causa da transgressão de meu povo, eu o feri” [Is 53.8]. Acrescenta-se também a interpretação de Pedro, que nada deixa ambíguo: que “no madeiro ele carregou nossos pecados” [1Pe 2.24]. Pois ele está afirmando que foi lançado sobre Cristo o peso da condenação de que fomos aliviados.
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05 agosto, 2010

0 Honrando os Pais – O 5º Mandamento – João Calvino



“Honra a teu pai e a tua mãe, para que tenhas longa vida sobre a terra que o Senhor teu Deus te dá” (Ex 20.12)

Teor e Aplicação do Quinto Mandamento

A finalidade deste mandamento é: uma vez que ao Senhor Deus apraz a manutenção do que dispôs, importa que nos sejam invioláveis os graus de eminência por ele ordenados. A síntese, portanto, será: que usemos de deferência para com aqueles que o Senhor nos fez superiores e os tenhamos em honra, em obediência e em grato reconhecimento. Donde se segue a proibição: que não denigremos nada de sua dignidade, quer por desdém, quer por contumácia, ou por ingratidão.

Ora, o termo honra assim se patenteia amplamente na Escritura. Por exemplo,quando o Apóstolo diz [1Tm 5.17] que os presbíteros que presidem bem sejam dignos de dobrada honra, entende que se lhes deve não somente reverência, mas ainda a remuneração que seu ministério merece. Mas, visto que este mandamento referente a nossa sujeição aos superiores se põe fortemente em conflito com a depravação do espírito humano, que por isso é ele intumescido do anseio de exaltação, a contragosto se deixa sujeitar, foi proposta por exemplo essa forma de superioridade a qual, por natureza, é mais para estimar-se e menos para invejar-se, porque assim podia mais facilmente abrandar e dobrar nosso ânimo ao hábito de submissão. Logo, o Senhor gradualmente nos acostuma a toda legítima sujeição mediante essa forma que é a mais fácil de tolerar-se, uma vez que, de todas, a razão é a mesma.

Com efeito, compartilha seu nome com aqueles a quem atribui eminência, até onde se faz necessário para que ela seja preservada. A ele tão-somente convém, segundo a Escritura, os títulos Pai, Deus e Senhor, de modo que, sempre que ouvirmos qualquer um deles, nosso entendimento seja tocado com o senso de sua majestade.

Portanto, aqueles a quem faz participantes desses títulos ilumina-os como que com uma centelha de seu fulgor, de sorte que sejam, cada um, dignos de honra em conformidade com sua posição de eminência. Desse modo, aquele que nos é pai, é próprio reconhecer nele algo divinal, porquanto não sem causa é portador do título divino. De igual modo, aquele que é um príncipe, ou aquele que é um senhor, tem com Deus alguma comunhão de honra.

O PRINCÍPIO GERAL, ILUSTRADO NA REVERÊNCIA PARA COM OS PAIS

Em vista desse fato, não deve ser ambíguo que o Senhor aqui estatui uma regra universal, isto é, conforme tomamos conhecimento de que, por sua ordenação, alguém nos foi posto como superior, que o honremos com reverência, obediência e reconhecimento, e com quantas formas de servi-lo pudermos. Nem vem ao caso se aqueles a quem esta honra se defere são dignos ou indignos, porquanto, não importa o que sejam, afinal não alcançaram esta posição, entretanto, sem a providência de Deus, em função da qual o próprio Legislador quis que fossem honrados. Contudo, preceituou expressamente acerca da reverência de nossos pais, que  nos trouxeram a esta vida, com o que nos deve ensinar, de certa maneira, a própria natureza. Pois são monstros, não seres humanos, os que infringirem o poder paterno por desrespeito ou insubordinação! Por isso, o Senhor ordena que sejam mortos todos os insubmissos aos pais, como indignos do benefício da luz, já que não reconhecem àqueles por cuja obra a têm alcançado.

E, de fato, de variadas complementações da lei se evidencia ser verdadeiro o que acabamos de assinalar, ou, seja: que há três expressões da honra de que aqui se fala, a saber: reverência, obediência e reconhecimento. A primeira dessas, a reverência, o Senhor a sanciona quando preceitua que seja entregue à morte aquele que maldisser ao pai ou à mãe [Ex 21.17; Lv 20.9; Pv 20.20], uma vez que aí castiga o menosprezo e a insolência. A segunda, a obediência, sanciona-a quando decreta a pena de morte contra os filhos contumazes e rebeldes [Dt 21.18-21]. Diz respeito à terceira a gratidão ou reconhecimento, o que Cristo diz: que é do mandamento de Deus que façamos o bem a nossos pais [Mt 15.4-6]. E quantas vezes Paulo faz menção deste mandamento, entende que nele se requerer obediência [Ef 6.1-3; Cl 3.20].
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03 agosto, 2010

0 O Pecado de Adão e sua Posteridade – João Calvino



Como a vida espiritual de Adão era permanecer ele unido e ligado a seu Criador, assim também, ao alienar-se dele veio-lhe a morte da alma. Portanto, não surpreende se, por sua defecção, afundou na ruína sua posteridade aquele que perverteu, no céu e na terra, toda a ordem da própria natureza. “Gemem todas as criaturas”, diz 5. Primeira edição: “Se vil e execrável ofensa é a apostasia, pela qual o homem se Paulo, “não por sua própria vontade, sujeitas à corrupção” [Rm 8.20, 22]. Caso se busque a causa disso, não há dúvida de que estão a sofrer parte daquele castigo que o homem mereceu, para cujo proveito elas foram criadas. Portanto, quando, de alto a baixo, por sua culpa atraiu a maldição que grassa por todos os recantos do mundo, nada há de ilógico se ela foi propagada a toda sua descendência. Logo, depois que a imagem celeste foi nele obliterada, não sofreu sozinho esta punição que, em lugar de sabedoria, poder, santidade, verdade, justiça, ornamentos de que fora ataviado, lhe sobreviessem as mais abomináveis pragas: cegueira, fraqueza, impureza, fatuidade, iniqüidade, mas ainda nas mesmas misérias enredilhou e submergiu sua progênie.

Esta é a corrupção hereditária que os antigos designaram de “pecado original”, entendendo pelo termo pecado a depravação de uma natureza antes disso boa e pura, matéria a respeito da qual muita lhes foi a contenção, uma vez que nada seja mais remoto do consenso geral que pela culpa de um só todos se façam culpados e, assim, o pecado se torne comum a todos. Esta parece ter sido a razão por que os doutores mais antigos da Igreja abordaram este assunto de forma tão obscura, pelo menos por que o explanaram menos lucidamente do que se fazia necessário.

Contudo, esta relutância não pôde impedir que Pelágio entrasse em cena, cuja profana invenção foi haver Adão pecado tão-somente para seu próprio dano, mas que aos descendentes nada afetou. Naturalmente, com esta artimanha de encobrir a enfermidade, Satanás tentou torná-la incurável. Como, porém, pelo claro testemunho da Escritura se mostrasse que o pecado foi transmitido do primeiro homem a toda a posteridade [Rm 5.12], sofismavam haver-se transmitido por imitação, não por geração. Portanto, bons homens, e acima dos demais Agostinho, nisto laboraram afincadamente para mostrar que não somos corrompidos mediante impiedade adquirida; ao contrário, trazemos depravação ingênita desde o ventre materno.

O não reconhecimento desse fato foi o supremo descaramento. Mas ninguém se surpreenderá da temeridade dos pelagianos e dos celestianos quem, pela leitura dos escritos daquele santo varão, Agostinho, tenha percebido que monstros de perversa catadura foram eles em todos os demais pontos.

Por certo que não é ambíguo o que Davi confessa, a saber, ter sido gerado em iniqüidades e de sua mãe concebido em pecado [Sl 51.5]. Não está ele aí a censurar as faltas do pai ou da mãe; antes, para que melhor enalteça a bondade de Deus para consigo, faz remontar a confissão de sua iniqüidade à própria concepção. Uma vez ser evidente não ter sido isso peculiar a Davi, segue-se que sob seu exemplo se denota a sorte comum do gênero humano.

Portanto, todos que descendemos de uma semente impura, nascemos infeccionados pelo contágio do pecado. Na verdade, antes que contemplemos esta luz da vida, à vista de Deus já estamos manchados e poluídos. Pois, “quem do imundo tirará o puro?” Certamente, como está no livro de Jó [14.4], ninguém!




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02 agosto, 2010

0 Desobediência, o Fator da Queda do Homem - João Calvino



Uma vez que não é um delito leve, mas um crime abominável, aquele que Deus puniu com tanta severidade, somos levados a considerar a própria natureza do pecado na queda de Adão, a qual transmitiu a todo o gênero humano horrível punição de Deus.

É pueril o que tem sido vulgarmente admitido quanto à intemperança da gula. Como se de fato, na abstinência de apenas uma única espécie de fruta, tenha residido a suma e essência de todas as virtudes, quando por toda parte sobejavam todas e quantas delícias apetecíveis, e naquela abençoada fecundidade da terra lhe estava à mão a fartar, não apenas abundância, como também variedade! Deve-se, portanto, mirar mais alto, visto que a proibição da árvore do conhecimento do bem e do mal foi um teste de obediência; de modo que, ao obedecer, Adão podia provar que se sujeitava à autoridade de Deus, de livre e deliberada vontade. Com efeito, o próprio nome da árvore evidencia que o propósito do preceito não era outro senão que, contente com sua sorte, o homem não se alçasse mais alto, movido de ímpia cobiça.

Mas a promessa mediante a qual ele poderia fazer jus à vida eterna por todo tempo em que comesse da árvore da vida, bem como, em contrário, o horrendo anúncio de morte, assim que provasse da árvore do conhecimento do bem e do mal, visava a testar-lhe e a exercitar-lhe a fé. Daqui, não é difícil concluir de que maneiras Adão provocou a ira de Deus contra si.

Na verdade, não de forma improcedente, pronuncia-se Agostinho,quando diz que o orgulho foi o princípio de todos os males, porque, não houvesse a ambição impelido o homem acima do que era próprio e justo, poderia ele permanecer em sua condição original. Contudo, da própria natureza da tentação que Moisés descreve deve buscar-se definição mais completa. Ora, uma vez que, por sua falta de fidelidade, a mulher é afastada da Palavra de Deus pela sutileza da serpente, já se comprova que o princípio da queda foi a desobediência. É o que também Paulo confirma, ensinando que, pela desobediência de um só homem, todos se tornaram perdidos [Rm 5.19].

Entretanto, ao mesmo tempo é preciso notar que o primeiro homem se alijou da soberania de Deus, porque não só se fez presa aos engodos de Satanás, mas ainda, desprezando a verdade, se desviou para a mentira. E de fato, desprezada a palavra de Deus, quebrantada lhe é toda reverência, pois não se preserva de outra maneira sua majestade entre nós, nem seu culto é mantido íntegro, a não ser enquanto atenciosamente ouvirmos sua voz. Conseqüentemente, a raiz da queda foi a falta de fidelidade.

Mas, daqui emergiram ambição e orgulho, aos quais foi adicionada ingratidão, porquanto, ao desejar mais do que lhe fora concedido, ignobilmente Adão desdenhou a tão grande liberalidade de Deus pela qual havia sido enriquecido. Na verdade, esta foi uma impiedade monstruosa, a saber, a um filho da terra parecer pouco que fosse criado à semelhança de Deus, se também não lhe fosse acrescentada a igualdade.

Se a apostasia, pela qual o homem se subtrai ao mando de seu Criador, é uma vil e execrável ofensa, ou, melhor dizendo, insolentemente lança de si o jugo, é debalde tentar atenuar o pecado de Adão.5 Se bem que não foi simples apostasia; ao contrário, apostasia associada com vis impropérios contra Deus, já que Adão e Eva subscrevem às caluniosas insinuações de Satanás, com que acusa falsamente a Deus de mentira, de inveja e de maldade.

Por fim, a falta de fidelidade abriu a porta à ambição; a ambição, porém, foi a mãe da obstinação, de sorte que os homens, alijando o temor de Deus, se arrojaram aonde quer que os levava a cupidez. E assim corretamente ensina Bernardo, que a porta da salvação nos está aberta quando, hoje, recebemos pelos ouvidos o evangelho, exatamente como, quando se escancararam a Satanás, foi por essas janelas introduzida a morte. Ora, jamais teria Adão ousado repudiar o imperativo de Deus, a não ser que não lhe desse crédito à palavra. Era este, de fato, o melhor freio para adequadamente regular-lhe todas as inclinações: que nada é melhor do que, mercê de estrita obediência aos preceitos de Deus, amar a justiça; em seguida, que a meta final da vida feliz é ser por ele amado. Portanto, arrebatado pelas blasfêmias do Diabo, Adão aniquilou, quanto estava a seu alcance, toda a glória de Deus.


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