23 julho, 2010

0 O Pecado Original - João Calvino





Com muita razão o antigo provérbio conclama o homem a busca o conhecimento de si mesmo. Mas quanto mais importante seja este conselho, tanto mais diligentemente devemos guardar-nos contra o uso errôneo dele.

Certos filósofos o promoveram com a finalidade de levar o homem ao conhecimento da sua própria dignidade e excelência, de modo que possa ser enchido com vã confiança e orgulho; ao passo que o verdadeiro conhecimento de si mesmo consiste em conhecer os poderes e privilégios que Deus nos deu na Criação, como também a condição miserável à qual fomos reduzidos pela queda de Adão. Tal é o conhecimento próprio que a verdade de Deus recomenda e requer, cujo conhecimento nos despojará de toda a confiança em nosso poderes, e nos fará humildes, mostrando-nos que nada temos do que jactar-nos.

Tenho plena consciência que o esquema de doutrina que nos leva a pensar em nossas próprias excelências é mais popular do que aquele que nos mostra nossa pobreza vergonhosa e miserável. Nada é mais bem-vindo à mente humana do que a lisonja; e, portanto, quando o homem ouvi os louvores dos seus poderes naturais, está por demais pronto a escutar e crer. Tal é a cegueira do amor-próprio que facilmente nos persuadimos que nada há de odioso na natureza humana. Mas se prestarmos atenção a mestres que dirigem nossos pensamentos às nossas próprias excelências, ficaremos envolvidos na ignorância mais grosseira, e nunca poderemos chegar a um verdadeiro conhecimento de nós mesmos.

Segundo o julgamento da carne, o homem pensa que se conhece bem quando se anima como seus próprios poderes mentais e integridade de coração e se estimula à prática da virtude, à fuga do vício e à busca ardente de tudo quanto é honroso e de boa fama. Mas a pessoa que se examina conforme a regra da retidão divina não acha nada em si mesmo para encorajá-lo, e quanto mais agudamente olha para dentro de si, tanto mais desanimado fica, até perder toda a confiança em si mesmo.

No entanto, não é da vontade de Deus que nos esqueçamos da nobreza original da natureza implantada em nosso pai Adão. Não podemos, pois, considerar nosso estado original, ou o objetivo para o qual fomos criados, sem sermos impulsionados a pensamentos sobre a imortalidade e o reino de Deus. Mas tais lembranças tendem a nos humilhar mais do que exaltar. Qual, pois, foi nosso estado original? Aquele do qual caímos. Para que finalidade fomos criados? Aquela que agora carecemos totalmente?

Consideremos então a natureza do pecado cometido por Adão; pois não deve ter sido nenhuma falha leva, mas sim uma iniqüidade detestável que acendeu a terrível ira de Deus contra a raça humana inteira. É infantil considerá-la, como muitos têm feito, como se fosse um mero ato de glutonaria.

Devemos olhar mais profundamente, A proibição contra o comer da árvore do conhecimento do bem e do mal era um teste de obediência, de modo que Adão, ao obedecer, pudesse demonstrar que estava disposto a sujeitar-se à autoridade de Deus. O próprio nome da árvore evidencia qual era o objetivo do mandamento, ou seja, que Adão estivesse satisfeito com sua situação, e não aspirasse afrontosamente erguer-se acima dela. Promessa de vida eterna enquanto comesse da árvore da vida, e terrível ameaça de morte se provasse da árvore do conhecimento do bem e do mal, tinham o desígnio de provar e exercitar sua fé. Daí, não é difícil perceber como foi que Adão atraiu sobre si a ira de Deus. Agostinho disse muito bem que o orgulho foi o início de todo o mal, visto que o homem poderia ter resistido se a ambição não atiçasse a procurar a exaltação ilícita. Mas recebemos mais luz sobre a questão por meio do relato que Moisés faz da tentação. Visto que a mulher foi levada pelo engano da serpente a descrer da Palavra de Deus e a desobedecê-la, fica evidente que o próprio início da queda era a desobediência, e isto é confirmado pelo ensino de Paulo quando nos diz que, pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores. E devemos observar que o primeiro homem revoltou-se contra o governo de Deus por desprezar a verdade e desviar-se para a falsidade; porque certamente quando desprezamos a Palavra de Deus lançamos de nós toda a reverência por Ele. Finalmente, a descrença abriu a porta à ambição, e a ambição deu à luz a rebelião.

Não é de se admirar que Adão arruinasse toda a sua posteridade pela sua queda, queda esta que perverteu o curso inteiro da natureza na terra e no céu. Todas as criaturas gemem, diz Paulo, estando sujeitas à corrupção, mas não voluntariamente. Elas sustentam parte do castigo oriundo do demérito do homem, para o uso de quem foram criadas. Se, portanto, Adão trouxe uma maldição sobre a criação inteira, nada há de contrário à razão sadia na declaração de que seu pecado é transmitido a toda a sua posteridade.

Esta é a doutrina da corrupção hereditária que os pais antigos chamavam de pecado original, sendo que por “pecado” queriam dizer a depravação da nossa natureza que era originalmente boa e pura. Negando esta verdade, Pelágio inventou o erro profano de que Adão, mediante seu pecado, danificou a si mesmo somente, e não lesou sua posteridade. Dessa forma Satanás astutamente esforçou-se para tornar a enfermidade incurável por meio de ocultá-la.

Mesmo assim, Davi confessa com clareza: “Eu nasci na iniqüidade, e em pecado, me concebeu minha mãe” (Sl 51.5) – E visto que é evidente que este fato não era peculiar a Davi, segue-se que todos nós nascemos no mundo infectados com o contágio do pecado; além disso, somos todos impuros e contaminados à vista de Deus antes de vermos a luz desta vida.

Na realidade, devemos sustentar que Adão não era somente o progenitor da natureza humana mas, num certo sentido era a raiz dela, e que, portanto, a humanidade inteira é considerada, com justiça, enfraquecida pela corrupção dele. Isto o apóstolo torna claro ao comparar Adão com Cristo. “... assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” – assim também pela graça de Cristo a justiça e a vida nos são restauradas. Desse modo, como Cristo é a nossa salvação pela comunicação da justiça, semelhantemente Adão foi nossa reina pela comunicação da justiça, semelhantemente Adão foi nossa ruína pela comunicação do pecado. Doutra forma, que verdade poderia haver naquele dito de Paulo, de que éramos por natureza filhos da ira como os demais? Por natureza, não conforme criada por Deus, mas segundo a corrompida por Adão; porque seria absurdo fazer de Deus o autor da morte.

E agora, a fim de que não haja ambigüidade em nosso ensino, definamos o pecado original. Não tentarei discutir as várias definições que foram dadas por outros escritores, e sim simplesmente proporei uma que me parece ser a mais consentânea com a verdade. O pecado original, portanto, é a depravação hereditária e corrupção da nossa natureza, o qual se estendem a todas as partes da alma, tornando-nos em primeiro lugar merecedores da ira de Deus, e em segundo lugar produtores daquelas obras que as Escrituras chamam de “obras da carne” (Gl 5.19).

Somos tão corrompidos e pervertidos em toda parte da nossa natureza que, por causa dessa corrupção, estamos incriminados e condenados diante de Deus, a quem nada é aceitável senão justiça, inocência e pureza. Essa condenação não pode ser atribuída a falta de outro homem. Porque quando é dito que fomos feitos sujeitos ao julgamento divino pelo pecado de Adão, não devemos entender que isto significa que nós, sendo pessoalmente inocentes, temos de carregar a culpa da transgressão dele, pois a poluição do pecado, tendo procedido de Adão para a sua posteridade, reside em nós, e com justiça exige castigo. E por conseguinte, até mesmo as crianças pequenas, trazendo com elas sua própria condenação deste o ventre materno, estão culpadas diante de Deus com uma culpa que não é de outra pessoa, mas sim delas mesmas. O terceiro capítulo da Epístola aos Romanos nada mais é senão uma descrição do pecado original.


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