14 julho, 2010

0 O Ministro da Ira Divina – João Calvino



A impiedade é um mal secreto, ( “por isso Deus os entregou...” Rm 1.24) daí o apóstolo fazer uma demonstração muito enfática a fim de patentear que eles não podem escapar sem justa condenação, visto que esta impiedade era seguida dos efeitos que provam a manifesta evidência da IRA do Senhor. Entretanto, se a ira do Senhor é sempre justa, segue-se que tem havido algo neles que era digno de condenação. Paulo, portanto, agora usa estes sinais para provar a apostasia e deserção dos homens, benevolência ao lançá-los de cabeça para baixo na destruição e ruína de todo gênero. Ao comparar os vícios de que eram culpados com a impiedade de que os acusara anteriormente, ele mostra que estavam sofrendo castigo proveniente do justo juízo de Deus. Visto que nada nos é mais precioso do que nossa própria honra, é o cúmulo da cegueira não hesitarmos em atrair desgraça sobre nós mesmos. Portanto, é um castigo muitíssimo justo para a desonra praticada contra a Majestade divina.

Este é o tema que o apóstolo desenvolve no fim do capítulo, porém lida com ele de várias formas, pois o requeria considerável de ampliação.

Em resumo, pois, o que o apóstolo está dizendo significa que a ingratidão humana para com Deus é injustificável. O próprio exemplo deles prova sem rodeios que a ira de Deus contra eles é sem misericórdia. Porque jamais teriam se precipitado, como bestas, em tão detestáveis atos de luxúria, se porventura não tivessem incorrido no ódio e inimizade de Deus em sua Majestade. Portanto, visto que o vício mais flagrantes é praticado em todos os lugares, ele conclui que as provas indubitáveis da vingança divina são evidentes na raça humana. Ora, se esta vingança divina nunca age sem motivo ou de forma injusta, Paulo nos afirma que é evidente deste fato que essa destruição, não menos certa do que justa, ameaça a humanidade toda.

É totalmente desnecessário, aqui, entrar numa infindável discussão sobre como Deus entrega os homens à vida de iniqüidade. É deveras certo que ele não só PERMITE que os homens caiam em pecado, aprovando que vivem assim, fingindo não ver sua queda, mas também ORDENA por seu justo juízo, de modo que são forçosamente conduzidos a tal loucura, não só por seus desejos maus, mas também pelo Diabo.

Paulo, pois, adota o termo ENTREGAR em concordância com o constante uso da Escritura. Aqueles que acreditam que somos levados a pecar tão-somente pela PERMISSÃO divina provocam forte violência contra esta palavra, pois Satanás é o MINISTRO DA IRA DIVINA, bem como seu ‘EXECUTOR’, ele também se acha fortemente armado contra nós, não simplesmente na aparência, mas segundo as ordens do JUIZ.

Deus, contudo, não deveria ser tido na conta de cruel, nem somos nós inocentes, visto que o apóstolo claramente mostra que somos entregues ao seu poder somente quando merecemos tal punição. Só uma exceção se deve fazer, a saber: que a CAUSA do pecado, as raízes do que sempre reside no próprio pecador; não tem origem em Deus, pois resulta sempre verdadeiro que “A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim o teu socorro” (Os 13.9).

Ao conectar os desejos perversos do coração humano com a IMPUREZA, o apóstolo indiretamente nos dá a entender o fruto que o nosso coração produzirá ao ser entregue a si mesmo. A expressão “entre eles mesmos” – é enfática, pois de modo significativo expressa quão profundas e indeléveis são as marcas da conduta depravada que trazem impureza a seus corpos.


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