19 julho, 2010

0 Incorruptível, invisível, o Deus único – João Calvino



Salvar os pecadores... (1Tm 1.15-17) O vocábulo, 'pecadores', é enfático. Mesmo aqueles que reconhecem que a obra de Cristo é salvar, admitem que é muito difícil crer que essa salvação pertença a pecadores. Nossa mente sempre se inclina a fixar-se em nossa própria dignidade; e assim que essa dignidade se concretiza, nossa confiança fracassa. Por isso, quanto mais uma pessoa sente o peso de seus pecados, mais deve, com a maior coragem, recorrer a Cristo, confiando no que aqui é ensinado, ou seja, que ele veio para trazer salvação, não aos justos, e, sim, aos pecadores. Também merece atenção que neste versículo Paulo baseia o que disse acerca de si próprio nesta verdade geral sobre a obra de Cristo, de modo que, o que acaba de dizer sobre si próprio, não pareça absurdo por ser algo inusitado.

Dos quais eu sou o principal. Não devemos imaginar que o apóstolo esteja, aqui, expressando uma falsa modéstia. Sua intenção era fazer confissão de que ele era não apenas humilde, mas expressar também uma verdade que fluísse do âmago de seu ser. Mas é possível que alguém pergunte por que ele se considera o principal [primum] dos pecadores, sendo que seu mal foi unicamente em relação à sua ignorância da sã doutrina, e quanto aos demais aspectos do viver era ele irrepreensível aos olhos humanos. Nessas palavras, porém, somos advertidos sobre quão grave e sério é o pecado da incredulidade aos olhos de Deus, especialmente quando seguido de obstinação e desenfreada crueldade. É fácil para os homens dissimularem tudo o que Paulo confessou acerca de si próprio em decorrência de zelo irrefletido; mas Deus dá um valor tão elevado à obediência proveniente da fé, que não o deixa considerar como pecado de pouca monta a incredulidade obstinadamente renitente. Observemos com muita atenção o ensino desta passagem, ou seja, que um homem, que aos olhos do mundo pode ser não só irrepreensível, mas também extraor¬dinariamente de excelentes virtudes e de uma vida merecedora de encômios, pode, não obstante, ser considerado um dos maiores pecadores por causa de sua oposição à doutrina do evangelho e à obstinação de sua incredulidade. Daqui podemos facilmente entender o valor que aos olhos de Deus têm todas as exibições bombásticas dos hipócritas, enquanto, obstinadamente, resistem a Cristo.

Para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo toda a sua longanimidade. Ao dizer, 'o principal' [primo], aqui, Paulo está uma vez mais dizendo que ele é o principal dos pecadores, de modo que o termo tem o mesmo sentido de principalmente, ou acima de todos. Ele quer dizer que desde o início Deus exibiu este exemplo de sua graça para que a mesma fosse contemplada clara e amplamente, de modo tal que ninguém alimentasse dúvida de que o único modo de se obter o perdão é indo a Cristo pela fé. Toda a nossa falta de confiança é removida quando vemos em Paulo um tipo visível daquela graça que buscamos.

Ora, ao Rei eterno. Seu entusiasmo prorrompe nesta exclamação, já que não lhe era possível encontrar palavras adequadas para expressar sua gratidão. Essas explosões súbitas brotam de Paulo principalmente quando a imensidão do tema o subjuga e o faz interromper o que estava dizendo. Pois o que haveria de mais grandioso do que a conversão de Paulo? Ao mesmo tempo, ele admoesta a todos nós, à luz de seu exemplo pessoal, para que jamais visualizemos a graça demonstrada no chamamento divino sem mergulharmos em extasiante admiração. Esse sublime louvor dirigido à graça de Deus absorve toda a memória de sua vida anterior.

Incorruptível, invisível, o Deus único. Que infinita amplidão é a glória de Deus! Os atributos aqui atribuídos a Deus, ainda que sempre lhe pertencessem, não obstante se adequam perfeitamente bem ao presente contexto. Ele denomina Deus de eterno, ou Rei das eras, o qual jamais muda [incorruptível]. Denomina-o de invisível, visto que ele habita em luz inacessível, como o expressa por último, ou seja: o Deus único, o único sábio, visto que ele considera insensatez, e condena como vaidade, toda a sabedoria humana. Tudo isso se harmoniza com sua conclusão em Romanos 11.33: "O profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus!" Seu intuito é levar-nos a contemplar a imensa e incompreensível sabedoria de Deus com uma reverência tal que, caso suas obras inundem nossas mentes, devemos ainda sentir-nos arrebatados pelo perplexidade.

Há certa dúvida se com o termo 'único' ele quis reivindicar toda a glória exclusivamente para Deus ou intitulá-lo único sábio ou único Deus. O segundo sentido parece-me o melhor, pois se adequa bem ao seu presente tema, pondo em realce como o entendimento humano deve curvar-se diante do conselho secreto de Deus. Não que eu negue que o apóstolo esteja dizendo que Deus é o único digno de toda glória; pois, enquanto ele espalha fagulhas de sua glória diante de suas criaturas, ela ainda permanece sua em toda a plenitude e inteireza. Ambas as interpretações, porém, evidenciam plenamente que não há glória real senão em Deus.


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