30 julho, 2010

0 Conhecimento próprio embotado pela Autoglorificação - Calvino


A verdade de Deus, indubitavelmente, prescreve que devemos examinar-nos a nós mesmos, isto é, ela requer conhecimento de tal molde que não só nos afaste para longe de toda confiança de capacidade pessoal, mas ainda, destituídos de toda razão de gloriar-nos, nos conduza à submissão. Esta regra convém manter, caso queiramos atingir à justa meta, seja do saber, seja do agir.

Nem me é oculto o quanto se deve aplaudir esse parecer, seja que nos convida antes a considerar o que haja de bom em nós, ou a atentar para nossa deplorável miséria, juntamente com nossa indignidade, a qual nos deve esmagar de vergonha.

Com efeito, nada há que a natureza humana mais cobice que ser afagada por lisonjas. E por isso onde ouve que seus predicados se revestem de grande realce, para esse rumo propende com extrema credulidade. Portanto, não é de admirar que, neste ponto, se haja transviado, de maneira profundamente danosa, a maioria esmagadora dos homens. Ora, uma vez que é ingênito a todos os mortais que sintam um cego amor por si mesmos, de muito bom grado se persuadem de que nada neles existe que, com justiça, deva ser abominado. Dessa forma, mesmo sem influência de fora, por toda parte obtém crédito esta opinião totalmente fútil: que o homem é a si amplamente suficiente para viver bem e venturosamente. Porque, se alguns há que se revelam possuidores de mais modéstia, a tal ponto que concedam algo a Deus para não parecer que atribuem tudo a si mesmos, de tal maneira repartem entre Deus e eles, que a principal parte da glória, e toda a presunção, sempre fica para eles.

Ora, se uma palavra ocorre que, com seus afagos, lisonjeie o orgulho que faz espontâneo comichão nas entranhas do homem, nada há que mais o deleite. Daí, ao ser acolhido com grande aplauso de quase todos os séculos, cada um, com seu encômio, sente que foi exaltada mui favoravelmente a excelência da natureza humana. Mas, na verdade, qualquer que seja tal enaltecimento da excelência humana que ensine o homem a estar satisfeito em seu íntimo, com nenhuma outra coisa mais se encanta do que com essa afabilidade própria; e de fato tanto o engana, que todos quantos concordam com isso, na mais deplorável ruína os perde. Pois, a que leva, estribados em toda fútil confiança pessoal, deliberar, planejar, tentar, empreender aquilo que julgamos pertinente à condição, e já em nossos primeiros esforços de fato nos quedamos deficientes e carentes, seja de são entendimento, seja da verdadeira virtude, contudo prosseguirmos, obstinadamente, até que nos precipitemos à ruína? E, no entanto, aos que confiam poder fazer algo de sua própria capacidade não pode suceder de outra maneira.

Portanto, se alguém dá ouvidos a tais mestres que nos incitam a tão-somente mirarmos nossas boas qualidades, não avançará no conhecimento de si próprio; ao contrário, se precipitará na mais ruinosa ignorância.

As Duas Facetas do real Conhecimento de nós mesmos – João Calvino

Daí, embora a verdade de Deus nisto concorde com o consenso geral de todos os mortais, a saber, que o segundo aspecto da sabedoria reside no conhecimento de nós mesmos, entretanto é grande a divergência na própria maneira de alcançar esse conhecimento. Ora, segundo o método da carne em seu julgar, o homem parece ter aprofundado conhecimento de si até que, arrimado tanto em seu entendimento, quanto em sua integridade, se deixa dominar pela ousadia e se incita aos reclamos da virtude, e declarada guerra aos vícios tenta aplicar-se com todo empenho àquilo que é nobre e honroso.

Quem, no entanto, se mira e examina segundo a norma do juízo divino, nada encontra que eleve seu ânimo à genuína confiança pessoal. E quanto mais penetrantemente a si perscruta, tanto mais se deprime, até que, havendo abdicado inteiramente a toda confiança pessoal, nada deixa a si mesmo para regular a vida retamente.

Contudo, tampouco quer Deus que nos esqueçamos de nossa nobreza primeva, nobreza que conferira a nosso pai Adão, nobreza que por certo deve, com razão, despertar nosso zelo pela justiça e pela bondade. Pois não podemos sequer pensar, seja em nossa própria condição original, seja para quê fomos criados, que não sejamos acicatados a meditar na imortalidade e a anelar pelo reino de Deus. Tão longe está, porém, este reconhecimento de fomentar-nos a presunção, ao contrário, subjugada esta, à humildade nos prostra.

Ora, que condição original é essa? Evidentemente, aquela da qual decaímos. Qual é o propósito de nossa criação? Aquele do qual estamos de todo alienados. Por isso, enfastiados de nossa mísera situação, gemamos; e, gemendo, suspiremos por aquela dignidade perdida. Quando, porém, dizemos que ao homem importa nada ver em si próprio que o torne presunçoso, queremos dizer que nada existe nele cujo arrimo se deva tomar como motivo de orgulho.

Portanto, se assim se prefere, dividamos o conhecimento de si próprio que o homem deve ter, de tal modo que, em primeiro lugar, considere para que fim foi criado e provido de dotes que não se deve desprezar, mercê de cuja reflexão se desperte à meditação do culto divino e da vida futura; em segundo lugar, pondere suas capacidades; ou, de fato, sua carência de capacidades, a qual, uma vez percebida, se prostre em extrema confusão, como que reduzido a nada. 
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28 julho, 2010

0 Falsos Profetas – João Calvino



Espíritos sedutores... (1Tm 4.1) Ele está se referindo a profetas ou mestres, aplicando-lhes esse título porque se vangloriavam de possuir o Espírito, e ao procederem assim estavam causando impressão sobre o povo. Em geral, é deveras verdade que todas as classes de pessoas falam da inspiração de um espírito, mas não o mesmo espírito que inspira a todos. Pois às vezes Satanás passa por espírito mentiroso na boca dos falsos profetas, com o fim de iludir os incrédulos que merecem ser enganados [1 Rs 22.21-23]. Mas todos quantos atribuem a Cristo a devida honra falam pelo Espírito de Deus, no dizer de Paulo [1 Co 12.3]. Esse modo de expressar-se teve sua origem na reivindicação feita pelos servos de Deus, a saber, que todos os seus pronun¬ciamentos públicos lhes vieram por revelação do Espírito; e, visto que eram os instrumentos do Espírito, lhes foi atribuído o nome do Espírito. Mais tarde, porém, os ministros de Satanás, através de uma falsa imitação, como fazem os símios, começaram a fazer a mesma reivindicação em seu favor, e da mesma forma falsamente assumiram o mesmo nome. Eis a razão por que João diz: "provai os espíritos, se realmente procedem de Deus" [1 Jo 4.1].

Além do mais, Paulo explica o que quis dizer, acrescentando: e doutrinas de demônios, o que equivale dizer: "atentando para os falsos profetas e suas doutrinas diabólicas". Uma vez mais digamos que isso não constitui um erro de somenos importância ou algo que deva ser dissimulado, quando as consciências dos homens são constrangidas por invenções humanas, ao mesmo tempo que o culto divino é pervertido.

Pela hipocrisia, falam mentiras.(v.2)  Se esta frase for considerada como uma referência aos demônios, então falar mentiras será uma referência aos seres humanos que falam falsamente pela inspiração do diabo. Mas é possível substituí-la por: "através da hipocrisia dos homens que falam mentiras". Evocando um exemplo particular, ele diz que falam mentiras hipocritamente, e são marcados com ferretes em sua consciência. E devemos observar que essas duas coisas se relacionam intimamente, e que a primeira flui da segunda. As más consciências que são marcadas com o ferrete de seus maus feitos lançam mão da hipocrisia como um refúgio seguro, a saber, engendram pretensões hipócritas com o fim de embaralhar os olhos de Deus. Aliás, esse é o mesmo expediente usado por aqueles que tentam agradar a Deus com ilusórias observâncias externas.

E assim, a palavra hipocrisia deve ser entendida em relação ao presente contexto. Ela deve ser considerada primeiramente em relação à doutrina, e significando que gênero de doutrina é esse que substitui o culto espiritual de Deus por gesticulações corporais, e assim adultera sua genuína pureza, e então inclui todos os métodos inventados pelos homens para apaziguar a Deus ou obter seu favor. Seu significado pode ser assim sumariado: em primeiro lugar, que todos os que introduzem uma santidade forjada estão agindo em imitação ao diabo, porquanto Deus jamais é adorado corretamente através de meros ritos externos. Os verdadeiros adoradores "o adorarão em espírito e em verdade" [Jo 4.24]. E, em segundo lugar, que esse culto externo é uma medicina inútil por meio da qual os hipócritas tentam mitigar suas dores, ou, melhor, um curativo sob o qual as más consciências ocultam suas feridas sem qualquer valia, a não ser para agravar ainda mais sua própria ruína.

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27 julho, 2010

0 Nem o Acaso e nem a Sorte – João Calvino



A providência de Deus, como ensinada na Escritura, é o oposto de sorte e dos acontecimentos atribuídos ao acaso. Ora, uma vez que, em todos os tempos, geralmente se deu a crer, e ainda hoje a mesma opinião avassala a quase todos os mortais, a saber, que tudo acontece por obra do acaso, aquilo que se devera crer acerca da providência, certo é que não só é empanado por esta depravada opinião, mas inclusive é quase sepultado em trevas.

Se alguém cai nas garras de assaltantes, ou de animais ferozes; se do vento a surgir de repente sofre naufrágio no mar; se é soterrado pela queda da casa ou de uma árvore; se outro, vagando por lugares desertos, encontra provisão para sua fome; arrastado pelas ondas, chega ao porto; escapa milagrosamente à morte pela distância de apenas um dedo; todas essas ocorrências, tanto prósperas, quanto adversas, a razão carnal as atribui à sorte. Contudo, todo aquele que foi ensinado pelos lábios de Cristo de que todos os cabelos da cabeça lhe estão contados [Mt 10.30], buscará causa mais remota e terá por certo que todo e qualquer evento é governado pelo conselho secreto de Deus.

E quanto às coisas inanimadas, por certo assim se deve pensar: embora a cada uma, individualmente, lhe seja por natureza infundida sua propriedade específica, entretanto não exercem sua força senão até onde são dirigidas pela mão sempre presente de Deus. Portanto, nada mais são do que instrumentos aos quais Deus instila continuamente quanto quer de eficiência e inclina e dirige para esta ou aquela ação, conforme seu arbítrio. De nenhuma criatura é a força mais admirável ou mais destacada do que a do sol. Pois, além de iluminar com seu fulgor a todo o orbe, quão ingente é que, com seu calor, nutre e vitaliza a todos os seres animados; com seus raios insufla fecundidade à terra; acalentadas no seio desta são as sementes; daí retira herbescente verdura, a qual, mantida por novos elementos, faz crescer e fortalece, até que se eleve em hastes; que nutre de contínuo e tépido alento, até que a flor cresça, e da flor o fruto; que ainda então, sazonando, conduz ao amadurecimento; que, de igual modo, árvores e vides, por ele acalentadas, primeiro despontam em brotos e se cobrem de folhas, depois emitem floração, e de floração geram o fruto?

Mas o Senhor, para que a si reivindicasse o pleno louvor de tudo isso, não só quis que, antes que criasse o sol, existisse a luz; mais ainda: que a terra fosse repleta de toda espécie de ervas e frutos (Gn 1.3, 11, 14). Portanto, o homem piedoso não fará do sol a causa quer principal ou necessária destas coisas que existiram antes da criação do sol, mas apenas o instrumento de que Deus se serve, porque assim o quer, já que pode, deixado este lado, agir por si mesmo com nenhuma dificuldade. Quando, além disso, lemos em duas ocasiões, que às preces de Josué o sol se deteve em um grau (Js 10.13), e que, em atenção ao rei Ezequias, sua sombra retrocedeu dez graus (2Rs 20.11; Is 38.8), com estes poucos milagres Deus testificou que não é por cego instinto da natureza que o sol nasce e se põe diariamente, mas porque ele próprio, para renovar a lembrança de seu paterno favor para conosco, governa seu curso.

Nada é mais natural do que sucedam, cada um por sua vez, a primavera ao inverno, o verão à primavera, o outono ao verão. Com efeito, nesta seqüência observa-se diversidade tão grande e tão desigual, que transparece facilmente que os anos, os meses e os dias, um a um, são governados por nova e especial providência de Deus.

DEUS, CAUSA PRIMEIRA, TAMBÉM A TUDO REGE EM SUA PROVIDÊNCIA

E de fato Deus reivindica para si onipotência, e quer que reconheçamos que ela lhe é inerente, não como a imaginam os sofistas, indiferente, ociosa e semi-entorpecida; mas, ao contrário, vigorosa, eficaz, operosa e continuamente voltada à ação; tampouco uma onipotência que seja apenas um princípio geral de movimento indistinto, como se a um rio ordenasse que flua por leito uma vez preestabelecido; mas, antes, de modo que se ajuste a movimentos individuais e distintos. Por isso, pois, ele é tido por Onipotente, não porque de fato possa agir, contudo às vezes cesse e permaneça inativo; ou, por um impulso geral de continuidade ao curso da natureza que prefixou, mas porque, governando céu e terra por sua providência, a tudo regula de tal modo que nada ocorra senão por sua determinação. Pois, quando se diz no Salmo [115.3] que “Ele faz tudo quanto quer”, trata-se de uma vontade definida e liberada.
Ora, seria insipiente interpretar estas palavras do Profeta à maneira dos filósofos, ou, seja, que Deus é o agente primário, visto ser o princípio e a causa de todo movimento, quando, antes, nas coisas adversas, os fiéis se confortam neste alento: que, já que estão debaixo de sua mão, nada sofrem senão pela ordenação e mandado de Deus. Pois, se o governo de Deus assim se estende a todas as suas obras, é pueril cavilação limitá-lo ao influxo da natureza.

Evidentemente, quantos limitam a providência de Deus em tão estreitos limites, como se desejasse que as criaturas sigam o curso ordinário de sua natureza, roubam a Deus de sua glória e se privam de uma doutrina mui útil; pois não haveria nada mais desventuroso do que estar o homem sujeito a todos os movimentos do céu, da atmosfera, da terra e das águas. Acresce que, desse modo, é minimizada de uma forma em extremo aviltante a bondade singular de Deus em relação a todos nós.

Davi exclama [Sl 8.2] que crianças ainda a penderem dos seios das mães são bastante eloqüentes para celebrarem a glória de Deus, visto que, imediatamente após saídas da madre, acham para si alimento preparado pelo cuidado celeste. Isso é certamente verdadeiro, em geral, desde que não nos escape aos olhos e aos sentidos o que a experiência evidencia amplamente: que certas mães têm mamas e seis abundantes, outras os têm quase secos, conforme Deus quer alimentar mais generosamente a este, porém a outro o quer mais parcamente.

Aqueles, porém, que tributam justo louvor à onipotência de Deus, daí percebem duplo proveito. Primeiro, que poder mui amplo de fazer o bem há com aquele em cuja posse estão o céu e aterra e a cujo arbítrio as criaturas todas voltam os olhos, de sorte a devotar-se à sua obediência. Em segundo lugar, podem descansar em segurança na proteção desse a cujo arbítrio se sujeitam todas as coisas que poderiam fazer-lhes dano; sob cuja autoridade, não menos que de um freio, Satanás é coibido, juntamente com todas as suas fúrias e todo o seu aparato; de cujo arbítrio pende tudo quanto se opõe ao nosso bem-estar. Nem de outra sorte podem ser corrigidos ou amenizados os temores imoderados e supersticiosos que, de vez em quando, concebemos à vista de perigos. Digo que somos supersticiosamente medrosos, se cada vez que as criaturas nos ameacem ou nos infundem algum receio, tememos como se elas tivessem força e poder suficientes para fazer-nos mal, ou nos ferissem ao acaso e inopinadamente, ou contra seus malefícios não houvesse em Deus auxílio suficiente. Por exemplo, o Profeta [Jr 10.2] proíbe que os filhos de Deus temam as estrelas e sinais do céu, como fazem os incrédulos. Por certo que ele não condena a todo e qualquer temor. Quando, porém, os infiéis transferem de Deus para os astros o governo do universo, imaginam depender dos decretos e presságios dos astros, contudo não da vontade de Deus, seja sua felicidade, seja sua desgraça.

Assim, em vez de temer a Deus, a quem unicamente deveriam temer, temem as estrelas e os cometas. Portanto, quem quiser guardar-se desta infidelidade, tenha sempre em lembrança que não há nas criaturas nem poder, nem ação, nem movimento aleatórios; ao contrário, são de tal modo governados pelo conselho secreto de Deus, que nada acontece senão o que ele, consciente e deliberadamente, o tenha decretado.

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26 julho, 2010

0 Concepções Errôneas quanto a Natureza da Igreja – João Calvino



Com seu dilema, não tão prementemente nos arrocham que nos forcem a confessar, ou que a Igreja esteve por algum tempo semimorta, ou que agora estejamos nós em conflito com a  greja. A Igreja de Cristo certamente tem estado viva, e viva continuará por quanto tempo Cristo reinar à destra do Pai, por cuja mão é ela sustentada, por cuja proteção é guardada, por cujo poder ela retém sua intangibilidade.

Pois ele cumprirá, indubitavelmente, o que uma vez prometera, a saber, que haverá de estar com os seus até a consumação do mundo [Mt 28.20]. No momento não sustentamos contra ela nenhuma luta, uma vez que, em pleno consenso com todo o corpo dos fiéis, cultuamos e adoramos ao Deus único e a Cristo, o Senhor [1Co 8.6], nos moldes em que tem sido sempre adorado por todos os piedosos. Entretanto, eles não se desviam pouco da verdade, quando não reconhecem nenhuma Igreja senão aquela que descortinam pela visão natural e a tentam circunscrever aos limites a que, de modo algum, foi ela confinada.

A controvérsia gira nestes gonzos: primeiro, que eles contendem dizendo que a forma da Igreja é sempre concreta e visível; segundo, que identificam a própria forma com a sé da igreja romana e a ordem de seus prelados. Nós afirmamos, em contrário, não só que a Igreja pode subsistir sem nenhuma expressão visível, nem que ela contém a forma nesse esplendor externo que estultamente admiram, mas, em marca bem diferente, a saber, na pregação pura da Palavra de Deus e na legítima administração dos sacramentos.

Eles se exasperam quando nem sempre podem apontar a Igreja com o dedo. Quão freqüentemente, porém, aconteceu de ela deformar-se ante o povo judeu a tal ponto que não podia ser distinguida por nenhuma aparência? Que forma pensamos haver ela refulgido, quando Elias deplorava por ter ficado sozinho? [1Rs 19.14]. Quanto tempo, desde a vinda de Cristo, ela ficou obscura e sem forma? Quantas vezes, desde essa época, ela foi de tal modo oprimida por guerras, por revoltas, por heresias, que em parte alguma fosse contemplada com esplendor? Se porventura tivessem vivido nesse tempo, teriam crido existir então alguma Igreja? Elias, porém, ouviu que foram conservados sete mil homens que não tinham dobrado os joelhos diante de Baal [1Rs 19.18]. Tampouco nos deve pairar alguma dúvida de que Cristo sempre reinou na terra, desde que subiu ao céu. Com efeito, se então os piedosos houvessem requerido alguma forma perceptível aos olhos, porventura não teriam prontamente cedido ao desânimo?
Aliás, já em seu século, Hilário havia considerado ser um mal superlativo que, tomados de estulta admiração pela dignidade episcopal, não se apercebiam que se ocultava por debaixo dessa máscara mortífera e sinistra, porque assim fala contra Auxêncio: “De uma coisa vos advirto: Guardai-vos do Anticristo! Pois é mal que de vós se haja apoderado o amor às paredes, mal que venerais a Igreja de Deus em tetos e edifícios, mal que sob essas coisas introduzis o nome de paz. Porventura é passível de dúvida que nestes o Anticristo haverá de assentar-se? A mim mais seguros são as montanhas, as florestas, os lagos, os cárceres e as furnas. Pois nestes, profetiza o Profeta, ou habitam, ou são lançados.”

Entretanto, o que hoje o mundo venera em seus bispos cornudos, senão que presume serem santos prelados da religião aqueles a quem vê presidirem às cidades de maior renome? Fora, portanto, com tão estulta admiração! Antes, pelo contrário, uma vez que só ele sabe quem são os seus [2Tm 2.19], permitamos ao Senhor isto: às vezes ele até mesmo priva a visão dos homens da percepção exterior de sua Igreja. Confesso que isso é o que merece a impiedade dos homens; por que porfiamos nós em opornos à justa vingança de Deus? Em moldes como esses, o Senhor puniu em tempos idos a ingratidão dos homens. Ora, visto que não quiseram obedecer-lhe à verdade, e sua luz extinguiram, quis ele que, tornando-se cegos em seu entendimento, não só fossem enganados por falsidades absurdas, mas ainda imersos em trevas profundas, de tal sorte que não se evidenciasse nenhuma expressão exterior da verdadeira Igreja.

Contudo, em todo o tempo em que ela foi extinta, ele preservou os seus, ainda que não só dispersos, mas até mesmo submersos em meio aos erros e às trevas. Nem é de admirar, pois, que soube preservá-los tanto na própria confusão de Babilônia, quanto na chama da fornalha ardente. Entretanto, o fato de quererem julgar a forma da Igreja em função de não sei que vã pompa, o quanto isso é perigoso, e para que a exposição não se prolongue desmedidamente, o indicarei em poucas palavras, em vez de tecer-lhe longa consideração.

O pontífice, insistem, que ocupa a sé apostólica, e quantos foram por ele ungidos e consagrados sacerdotes, uma vez que sejam assinalados por suas mitras e báculos, representam a Igreja e devem ser tidos como a Igreja. Por isso eles não podem errar. Por quê? Porque são pastores da Igreja e consagrados ao Senhor. E porventura Arão e os demais guias de Israel não eram pastores? Contudo Arão e seus filhos, já investidos sacerdotes, no entanto erraram quando forjaram o bezerro [Ex 32.4]. Segundo este raciocínio, por que não teriam representado a Igreja aqueles quatrocentos profetas que mentiam a Acabe? [1Rs 22.11, 12]. A Igreja, porém, estava do lado de Micaías, por certo um homem sozinho e desprezível, de cuja boca, entretanto, procedia a verdade.

Porventura os profetas não levavam diante de si não só o nome, como também a forma da Igreja, quando à uma se insurgiram contra Jeremias e, ameaçadores, se jactavam de que não era possível que a lei perecesse ao sacerdote, o conselho ao sábio, a palavra ao profeta? [Jr 18.18]. Jeremias é enviado sozinho contra toda essa horda de profetas, para que da parte do Senhor denunciasse que acontecerá que a lei perecerá ao sacerdote, o conselho ao sábio, a palavra ao profeta! [Jr 4.9].

Por acaso não refulgia tal esplendor naquela assembléia que os sacerdotes, os escribas e os fariseus reuniram a fim de captar pareceres acerca de como tirariam a vida a Cristo? [Mt 26.3, 4; Jo 11.47-53; 12.10]. Que se vão agora e se apeguem à máscara exterior, e assim se façam cismáticos a Cristo e a todos os profetas de Deus; por outro lado, que façam dos ministros de Satanás órgãos do Espírito Santo! Ora, se estão falando a sério, respondam-me em boa fé: entre que agentes e lugares pensam que a Igreja residia depois que, por decreto do Concílio de Basiléia, Eugênio foi deposto e alijado do pontificado e Amadeu investido em seu lugar?

Ainda que se arrebentem, não podem negar que, no que tange à exterioridade, esse Concílio foi legítimo, além de tudo convocado não apenas por um pontífice, mas por dois. Eugênio foi ali condenado de cisma, rebelião e contumácia, juntamente com todo o bando de cardeais e bispos que haviam com ele maquinado a dissolução do Concílio. Entretanto, mais tarde apoiado no favor dos príncipes, recuperou integralmente o pontificado. Em fumaça se desfez essa eleição de Amadeu, solenemente consumada que fora pela autoridade de um sínodo geral e sacrossanto, exceto que o supracitado Amadeu foi aplacado em virtude de um chapéu cardinalício, como um cão a ladrar se cala quando lhe é tirado naco de carne. Do grêmio desses hereges rebeldes e contumazes procedeu tudo quanto em seguida tem havido de papas, cardeais, bispos, abades, padres.

Neste ponto, impõe-se agarrá-los e imobiliza-los. Pois, a qual das duas facções conferirão o nome de Igreja? Porventura negarão que foi esse um Concílio Geral, de nada carecendo quanto à majestade exterior, já que, em verdade, foi solenemente convocado por duas bulas, consagrado mediante o legado da sé romana a presidi-lo, em todas as coisas devidamente conformado às normas regulamentares, a conservar-se sempre na mesma dignidade até o fim? Declararão Eugênio cismáticos com toda sua coorte, pela qual foram todos consagrados?

Portanto, ou definam a forma da Igreja em outros termos, ou, por mais numerosos que sejam, serão por nós tidos como cismáticos quantos, cônscia e deliberadamente, foram ordenados por hereges.

E se nunca antes se fizesse evidente que a Igreja não se prende a pompas externas, eles próprios podem dizer-nos que disso constitui prova abundante, visto que, sob esse pomposo nome de Igreja, por tanto tempo orgulhosamente se apregoaram ao mundo, quando, entretanto, não passavam de pestes mortíferas à Igreja. Não estou me referindo a seus costumes e àqueles atos hediondos de que empanturra o viver de todos, quando, como os fariseus, dizem que devem ser ouvidos, não imitados [Mt 23.3]. Se devotares um pouco de teu lazer a ler estas nossas ponderações, sem sombra de dúvida reconhecerás que a própria, sim, a própria doutrina, à base da qual argúem que devem ser tidos como sendo a Igreja, não passa de mortífero matadouro de almas, tocha incendiária, ruína e destruição da Igreja.
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23 julho, 2010

0 O Pecado Original - João Calvino





Com muita razão o antigo provérbio conclama o homem a busca o conhecimento de si mesmo. Mas quanto mais importante seja este conselho, tanto mais diligentemente devemos guardar-nos contra o uso errôneo dele.

Certos filósofos o promoveram com a finalidade de levar o homem ao conhecimento da sua própria dignidade e excelência, de modo que possa ser enchido com vã confiança e orgulho; ao passo que o verdadeiro conhecimento de si mesmo consiste em conhecer os poderes e privilégios que Deus nos deu na Criação, como também a condição miserável à qual fomos reduzidos pela queda de Adão. Tal é o conhecimento próprio que a verdade de Deus recomenda e requer, cujo conhecimento nos despojará de toda a confiança em nosso poderes, e nos fará humildes, mostrando-nos que nada temos do que jactar-nos.

Tenho plena consciência que o esquema de doutrina que nos leva a pensar em nossas próprias excelências é mais popular do que aquele que nos mostra nossa pobreza vergonhosa e miserável. Nada é mais bem-vindo à mente humana do que a lisonja; e, portanto, quando o homem ouvi os louvores dos seus poderes naturais, está por demais pronto a escutar e crer. Tal é a cegueira do amor-próprio que facilmente nos persuadimos que nada há de odioso na natureza humana. Mas se prestarmos atenção a mestres que dirigem nossos pensamentos às nossas próprias excelências, ficaremos envolvidos na ignorância mais grosseira, e nunca poderemos chegar a um verdadeiro conhecimento de nós mesmos.

Segundo o julgamento da carne, o homem pensa que se conhece bem quando se anima como seus próprios poderes mentais e integridade de coração e se estimula à prática da virtude, à fuga do vício e à busca ardente de tudo quanto é honroso e de boa fama. Mas a pessoa que se examina conforme a regra da retidão divina não acha nada em si mesmo para encorajá-lo, e quanto mais agudamente olha para dentro de si, tanto mais desanimado fica, até perder toda a confiança em si mesmo.

No entanto, não é da vontade de Deus que nos esqueçamos da nobreza original da natureza implantada em nosso pai Adão. Não podemos, pois, considerar nosso estado original, ou o objetivo para o qual fomos criados, sem sermos impulsionados a pensamentos sobre a imortalidade e o reino de Deus. Mas tais lembranças tendem a nos humilhar mais do que exaltar. Qual, pois, foi nosso estado original? Aquele do qual caímos. Para que finalidade fomos criados? Aquela que agora carecemos totalmente?

Consideremos então a natureza do pecado cometido por Adão; pois não deve ter sido nenhuma falha leva, mas sim uma iniqüidade detestável que acendeu a terrível ira de Deus contra a raça humana inteira. É infantil considerá-la, como muitos têm feito, como se fosse um mero ato de glutonaria.

Devemos olhar mais profundamente, A proibição contra o comer da árvore do conhecimento do bem e do mal era um teste de obediência, de modo que Adão, ao obedecer, pudesse demonstrar que estava disposto a sujeitar-se à autoridade de Deus. O próprio nome da árvore evidencia qual era o objetivo do mandamento, ou seja, que Adão estivesse satisfeito com sua situação, e não aspirasse afrontosamente erguer-se acima dela. Promessa de vida eterna enquanto comesse da árvore da vida, e terrível ameaça de morte se provasse da árvore do conhecimento do bem e do mal, tinham o desígnio de provar e exercitar sua fé. Daí, não é difícil perceber como foi que Adão atraiu sobre si a ira de Deus. Agostinho disse muito bem que o orgulho foi o início de todo o mal, visto que o homem poderia ter resistido se a ambição não atiçasse a procurar a exaltação ilícita. Mas recebemos mais luz sobre a questão por meio do relato que Moisés faz da tentação. Visto que a mulher foi levada pelo engano da serpente a descrer da Palavra de Deus e a desobedecê-la, fica evidente que o próprio início da queda era a desobediência, e isto é confirmado pelo ensino de Paulo quando nos diz que, pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores. E devemos observar que o primeiro homem revoltou-se contra o governo de Deus por desprezar a verdade e desviar-se para a falsidade; porque certamente quando desprezamos a Palavra de Deus lançamos de nós toda a reverência por Ele. Finalmente, a descrença abriu a porta à ambição, e a ambição deu à luz a rebelião.

Não é de se admirar que Adão arruinasse toda a sua posteridade pela sua queda, queda esta que perverteu o curso inteiro da natureza na terra e no céu. Todas as criaturas gemem, diz Paulo, estando sujeitas à corrupção, mas não voluntariamente. Elas sustentam parte do castigo oriundo do demérito do homem, para o uso de quem foram criadas. Se, portanto, Adão trouxe uma maldição sobre a criação inteira, nada há de contrário à razão sadia na declaração de que seu pecado é transmitido a toda a sua posteridade.

Esta é a doutrina da corrupção hereditária que os pais antigos chamavam de pecado original, sendo que por “pecado” queriam dizer a depravação da nossa natureza que era originalmente boa e pura. Negando esta verdade, Pelágio inventou o erro profano de que Adão, mediante seu pecado, danificou a si mesmo somente, e não lesou sua posteridade. Dessa forma Satanás astutamente esforçou-se para tornar a enfermidade incurável por meio de ocultá-la.

Mesmo assim, Davi confessa com clareza: “Eu nasci na iniqüidade, e em pecado, me concebeu minha mãe” (Sl 51.5) – E visto que é evidente que este fato não era peculiar a Davi, segue-se que todos nós nascemos no mundo infectados com o contágio do pecado; além disso, somos todos impuros e contaminados à vista de Deus antes de vermos a luz desta vida.

Na realidade, devemos sustentar que Adão não era somente o progenitor da natureza humana mas, num certo sentido era a raiz dela, e que, portanto, a humanidade inteira é considerada, com justiça, enfraquecida pela corrupção dele. Isto o apóstolo torna claro ao comparar Adão com Cristo. “... assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” – assim também pela graça de Cristo a justiça e a vida nos são restauradas. Desse modo, como Cristo é a nossa salvação pela comunicação da justiça, semelhantemente Adão foi nossa reina pela comunicação da justiça, semelhantemente Adão foi nossa ruína pela comunicação do pecado. Doutra forma, que verdade poderia haver naquele dito de Paulo, de que éramos por natureza filhos da ira como os demais? Por natureza, não conforme criada por Deus, mas segundo a corrompida por Adão; porque seria absurdo fazer de Deus o autor da morte.

E agora, a fim de que não haja ambigüidade em nosso ensino, definamos o pecado original. Não tentarei discutir as várias definições que foram dadas por outros escritores, e sim simplesmente proporei uma que me parece ser a mais consentânea com a verdade. O pecado original, portanto, é a depravação hereditária e corrupção da nossa natureza, o qual se estendem a todas as partes da alma, tornando-nos em primeiro lugar merecedores da ira de Deus, e em segundo lugar produtores daquelas obras que as Escrituras chamam de “obras da carne” (Gl 5.19).

Somos tão corrompidos e pervertidos em toda parte da nossa natureza que, por causa dessa corrupção, estamos incriminados e condenados diante de Deus, a quem nada é aceitável senão justiça, inocência e pureza. Essa condenação não pode ser atribuída a falta de outro homem. Porque quando é dito que fomos feitos sujeitos ao julgamento divino pelo pecado de Adão, não devemos entender que isto significa que nós, sendo pessoalmente inocentes, temos de carregar a culpa da transgressão dele, pois a poluição do pecado, tendo procedido de Adão para a sua posteridade, reside em nós, e com justiça exige castigo. E por conseguinte, até mesmo as crianças pequenas, trazendo com elas sua própria condenação deste o ventre materno, estão culpadas diante de Deus com uma culpa que não é de outra pessoa, mas sim delas mesmas. O terceiro capítulo da Epístola aos Romanos nada mais é senão uma descrição do pecado original.
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22 julho, 2010

0 Foge das Paixões da Mocidade – João Calvino


Foge, porém, das paixões da mocidade e vai após a justiça, a fé, o amor, a paz com aqueles que, com um coração puro, invocam o Senhor. (2 Tm 2.22)

Foge, porém, das paixões da mocidade. Isso se deduz  do que acabara de dizer sobre as questões tolas e de sua repreensão dirigida a Himeneu e Fileto, cuja ambição e vã curiosidade os haviam desviado da fé genuína. Portanto, ele agora continua a exortar Timóteo para que fugisse de uma praga extremamente perigosa. E com esse propósito em vista, ele o aconselha a evitar as paixões da mocidade, querendo dizer com isso, não os pecados sexuais, ou outros desejos infames, ou algum daqueles hábitos licenciosos a que os jovens às vezes se entregam; mas, ao contrário, são aqueles sentimentos e impulsos impetuosos aos quais o excessivo entusiasmo juvenil faz os jovens se inclinarem.

Os jovens, em meio às controvérsias, se irritam muito mais depressa do que os de mais idade, se iram mais facilmente, cometem mais equívocos por falta de experiência e se precipitam com mais ousadia e temeridade. Daí ter Paulo boas razões para aconselhar a um jovem a precaver-se contra os erros próprios de sua idade, os quais, de outra forma, poderiam facilmente envolvê-lo em disputas inúteis.

Vai após a justiça. O apóstolo recomenda qualidades opostas com o fim de salvaguardar a mente de Timóteo de se deixar levar pelos excessos juvenis. E como se dissesse: "Eis aqui as coisas para as quais deves pôr toda a tua atenção e sobre as quais deves aplicar toda a tua diligência." Primeiro, ele menciona a justiça, ou seja, um correto modo de viver; e a seguir ele adiciona a fét o amor, dos quais consiste tal modo de viver. A pazé em extremo relevante para o presente tema, pois aqueles que se deleitam nos questionamentos que o apóstolo proíbe são forçados a ser contenciosos e violentos.

Com aqueles que invocam o Senhor. Aqui, 'invocar o Senhor' é expresso através de sinédoque [a parte pelo todo] para o culto em geral; ou, é possível considerá-lo no sentido de "fazer profissão de fé". Visto, porém, que a invocação a Deus é a parte principal do culto divino, às vezes ela é expressa como sendo toda a religião ou todo o culto devido a Deus. Mas   quando o apóstolo diz a Timóteo que buscasse a paz com todos os que invocam o Senhor, não fica claro se ele está incluindo todos os crentes como um exemplo a Timóteo, e dizendo-lhe que fosse em busca da paz como o fazem todos os verdadeiros adoradores de Deus, ou se ele está ordenando a Timóteo que cultivasse relações pacíficas com eles. A última interpretação me parece a mais adequada.
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21 julho, 2010

0 O Senhor conhece os que são seus - João Calvino



Todavia, o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus; e: Qualquer que profere o nome do Senhor, então que se aparte da injustiça. (2 Tm 2.19)

Todavia, o firme fundamento de Deus permanece.

Sabemos sobejamente bem quantos escândalos têm procedido da apostasia daqueles que uma vez professaram a mesma fé que nós. E isso é especialmente verdade no caso de homens que são muito populares e de extraordinária reputação. Se alguém dentre o vulgo apóstata, não nos sentimos muito sensibilizados. Mas aqueles a quem os homens têm em alta estima, os quais se tornam colunas na Igreja, não podem fracassar sem envolver outros em sua ruína, principalmente se sua fé não contar com outro apoio. Essa é a preocupação de Paulo aqui, e ele diz que essa não é razão para as pessoas piedosas perderem o ânimo, ainda quando assistem o fracasso daqueles que acreditavam ser firmes na fé.

Com o fim de confortá-los, ele realça que a leviandade ou a perfídia dos homens não pode impedir a Deus de preservar sua Igreja até ao fim. Primeiro, ele nos traz à memória a eleição divina, à qual ele chama figuradamente de fundamento, significando com isso sua firmeza e constância perene. Tudo isso visa a provar a certeza de nossa salvação, contanto que façamos parte dos eleitos de Deus. E como se dissesse: "Os eleitos de Deus não dependem de eventos mutáveis, senão que repousam num sólido e inamovível fundamento, já que sua salvação está nas mãos de Deus. Assim como 'Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada' [Mt 15.13], também uma raiz que foi fixada por sua mão não pode ser arrancada pelos ventos ou tempestades."

Portanto, lembremo-nos, antes de tudo, que, a despeito de toda a fraqueza da carne, os eleitos, não obstante, não correm esse risco, porque não estão firmados em sua própria capacidade, mas estão fundados em Deus. E se os alicerces que os homens lançam são firmes, quanto mais aquele que é lançado por Deus mesmo! Estou cônscio de que alguns tomam isso como uma referência à doutrina: "Que ninguém julgue a verdade da doutrina pela infidelidade daqueles que a professam"; mas é fácil de se inferir do contexto que Paulo está falando da Igreja de Deus e dos eleitos.

Tendo este selo. A palavra signaculum tem provocado muito mal-entendido, porquanto há quem a tome no sentido de marca ou impressão; eu, contudo, usei a palavra sigillum, um selo, que é menos ambígua. Pois, evidentemente, o significado de Paulo é que a salvação do eleito está sob a proteção secreta de Deus, como um sinete [selo], pois a Escritura declara que eles estão "inscritos no livro da vida" [SI 69.28; Fp 4.3].

O Senhor conhece os que são seus.. Tanto a palavra selo quanto a cláusula seguinte nos lembram que não devemos julgar segundo nossa opinião pessoal se o número dos eleitos é grande ou pequeno. Porque o que Deus selou ele deseja que seja mantido como um livro fechado para nós; também, se pertence a Deus saber quem são seus, não deve causar estranheza que às vezes um grande número deles se mantenha ignoto a nós, ou se ainda chegarmos a equivocar-nos na tentativa de fazer uma seleção. E preciso que atentemos bem para a razão do apóstolo em falar de um selo; é para que, ao nos depararmos com tais casos, nos lembremos do que João disse: "Saíram de nós, mas não eram dos nossos" [1 Jo 2.19]. Disto procedem duas vantagens: que a nossa própria fé não será abalada, e, se as coisas sucedem de forma inesperada, não desfaleceremos, como às vezes sucede. Em segundo lugar, estando certos de que, apesar de tudo, a Igreja estará a salvo, suportaremos mais pacientemente que os réprobos tomem o seu próprio destino para o qual foram destinados, pois o número com o qual Deus se apraz permanece intacto. Portanto, sempre que suceder alguma mudança súbita, contrariando nossa expectativa e esperança, lembremo-nos uma vez mais de que "o Senhor conhece os que são seus".

Então que se aparte da injustiça. Ele havia encarado o escândalo provocado pela apostasia, dizendo que o mesmo não devia causar excessivo susto entre os crentes; e agora continua usando tais hipócritas como exemplo para ensinar-nos a não escarnecermos de Deus por uma profissão simulada do Cristianismo. E como se ele dissesse: "Visto que Deus pune os hipócritas por exporem sua perversidade dessa forma, aprendamos a temê-lo com consciência sincera, para que o mesmo não nos suceda." E assim, qualquer um que invoque o nome de Deus, ou seja, que professe pertencer ao povo de Deus e queira ser reconhecido como um membro seu, que se mantenha longe de toda e qualquer impiedade. Pois aqui, invocar o nome de Cristo significa gloriar-se em seu título e em pertencer ao seu rebanho, assim como em Isaías 4.1 invocar o nome de um homem sobre uma mulher significa que a mulher deve ser reconhecida como sua legítima esposa, e em Gênesis 48.16 invocar o nome de Jacó sobre toda a sua posteridade significa que o nome da família está sendo preservado em sucessão ininterrupta, visto que ela [a posteridade] descende dele.
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19 julho, 2010

0 Incorruptível, invisível, o Deus único – João Calvino



Salvar os pecadores... (1Tm 1.15-17) O vocábulo, 'pecadores', é enfático. Mesmo aqueles que reconhecem que a obra de Cristo é salvar, admitem que é muito difícil crer que essa salvação pertença a pecadores. Nossa mente sempre se inclina a fixar-se em nossa própria dignidade; e assim que essa dignidade se concretiza, nossa confiança fracassa. Por isso, quanto mais uma pessoa sente o peso de seus pecados, mais deve, com a maior coragem, recorrer a Cristo, confiando no que aqui é ensinado, ou seja, que ele veio para trazer salvação, não aos justos, e, sim, aos pecadores. Também merece atenção que neste versículo Paulo baseia o que disse acerca de si próprio nesta verdade geral sobre a obra de Cristo, de modo que, o que acaba de dizer sobre si próprio, não pareça absurdo por ser algo inusitado.

Dos quais eu sou o principal. Não devemos imaginar que o apóstolo esteja, aqui, expressando uma falsa modéstia. Sua intenção era fazer confissão de que ele era não apenas humilde, mas expressar também uma verdade que fluísse do âmago de seu ser. Mas é possível que alguém pergunte por que ele se considera o principal [primum] dos pecadores, sendo que seu mal foi unicamente em relação à sua ignorância da sã doutrina, e quanto aos demais aspectos do viver era ele irrepreensível aos olhos humanos. Nessas palavras, porém, somos advertidos sobre quão grave e sério é o pecado da incredulidade aos olhos de Deus, especialmente quando seguido de obstinação e desenfreada crueldade. É fácil para os homens dissimularem tudo o que Paulo confessou acerca de si próprio em decorrência de zelo irrefletido; mas Deus dá um valor tão elevado à obediência proveniente da fé, que não o deixa considerar como pecado de pouca monta a incredulidade obstinadamente renitente. Observemos com muita atenção o ensino desta passagem, ou seja, que um homem, que aos olhos do mundo pode ser não só irrepreensível, mas também extraor¬dinariamente de excelentes virtudes e de uma vida merecedora de encômios, pode, não obstante, ser considerado um dos maiores pecadores por causa de sua oposição à doutrina do evangelho e à obstinação de sua incredulidade. Daqui podemos facilmente entender o valor que aos olhos de Deus têm todas as exibições bombásticas dos hipócritas, enquanto, obstinadamente, resistem a Cristo.

Para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo toda a sua longanimidade. Ao dizer, 'o principal' [primo], aqui, Paulo está uma vez mais dizendo que ele é o principal dos pecadores, de modo que o termo tem o mesmo sentido de principalmente, ou acima de todos. Ele quer dizer que desde o início Deus exibiu este exemplo de sua graça para que a mesma fosse contemplada clara e amplamente, de modo tal que ninguém alimentasse dúvida de que o único modo de se obter o perdão é indo a Cristo pela fé. Toda a nossa falta de confiança é removida quando vemos em Paulo um tipo visível daquela graça que buscamos.

Ora, ao Rei eterno. Seu entusiasmo prorrompe nesta exclamação, já que não lhe era possível encontrar palavras adequadas para expressar sua gratidão. Essas explosões súbitas brotam de Paulo principalmente quando a imensidão do tema o subjuga e o faz interromper o que estava dizendo. Pois o que haveria de mais grandioso do que a conversão de Paulo? Ao mesmo tempo, ele admoesta a todos nós, à luz de seu exemplo pessoal, para que jamais visualizemos a graça demonstrada no chamamento divino sem mergulharmos em extasiante admiração. Esse sublime louvor dirigido à graça de Deus absorve toda a memória de sua vida anterior.

Incorruptível, invisível, o Deus único. Que infinita amplidão é a glória de Deus! Os atributos aqui atribuídos a Deus, ainda que sempre lhe pertencessem, não obstante se adequam perfeitamente bem ao presente contexto. Ele denomina Deus de eterno, ou Rei das eras, o qual jamais muda [incorruptível]. Denomina-o de invisível, visto que ele habita em luz inacessível, como o expressa por último, ou seja: o Deus único, o único sábio, visto que ele considera insensatez, e condena como vaidade, toda a sabedoria humana. Tudo isso se harmoniza com sua conclusão em Romanos 11.33: "O profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus!" Seu intuito é levar-nos a contemplar a imensa e incompreensível sabedoria de Deus com uma reverência tal que, caso suas obras inundem nossas mentes, devemos ainda sentir-nos arrebatados pelo perplexidade.

Há certa dúvida se com o termo 'único' ele quis reivindicar toda a glória exclusivamente para Deus ou intitulá-lo único sábio ou único Deus. O segundo sentido parece-me o melhor, pois se adequa bem ao seu presente tema, pondo em realce como o entendimento humano deve curvar-se diante do conselho secreto de Deus. Não que eu negue que o apóstolo esteja dizendo que Deus é o único digno de toda glória; pois, enquanto ele espalha fagulhas de sua glória diante de suas criaturas, ela ainda permanece sua em toda a plenitude e inteireza. Ambas as interpretações, porém, evidenciam plenamente que não há glória real senão em Deus.
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15 julho, 2010

0 Ingratidão – João Calvino


- Assim fala o SENHOR dos Exércitos: Este povo diz: Não veio ainda o tempo, o tempo em que a Casa do SENHOR deve ser edificada. Ageu 1.2

Podemos ver aqui, como modelo, quão grande é a ingratidão dos homens. A bondade de Deus, cuja glória deveria ser inesquecível até o fim dos tempos, merecia ser especialmente lembrada. Os judeus tinham sido restaurados do exílio de maneira totalmente inesperada para eles. O que deveriam fazer, senão se consagrarem exclusivamente ao serviço do seu libertador? Mas, não, não construíram sequer uma tenda para Deus e ofereciam sacrifícios ao ar livre. Assim, não levaram Deus a sério intencionalmente. Mas ao mesmo tempo habitavam confortavelmente em casas elegantemente ornadas. Não menos vergonhoso é o exemplo testemunhado hoje entre nós.

Por isso, podemos ver quão bondosamente Deus tem suprido a sua Igreja. Pois seu propósito era que essa censura permanecesse, para que ele pudesse neste dia estimular-nos e despertar tanto o nosso temor como a nossa vergonha. Porque da mesma maneira, sempre buscamos nossos próprios benefícios, também temos nos tornado cada vez mais apáticos na promoção do culto a Deus. Podemos ainda acrescentar que, como o templo de Deus é espiritual, nosso erro é ainda mais atroz se nos tornamos indolentes assim, porque Deus não nos intima a acumular madeira, pedras nem argamassa, manda-nos, porém, edificar um templo celestial no qual ele seja adorado em verdade.

Oração

Concede, ó Deus onipotente, uma vez que temos de estar em guerra neste mundo e que é da tua vontade provar-nos com muitas lutas, — ó concede que nunca esmoreçamos, por mas extremas que sejam as provações que precisemos enfrentar; e assim como nos tens favorecido com a honra grandiosa de sermos os modeladores e edificadores do teu templo espiritual, que todos nos apresentemos e nos consagremos santamente a ti; e visto que cada um de nós recebeu algum dom peculiar, que nos esforcemos em empregá-lo na edificação do teu templo, para que sejas adorado entre nós perpetuamente; e, especialmente, que cada um de nós nos ofereçamos totalmente como sacrifício a ti, até que ao final sejamos renovados à tua imagem e recebidos na participação plena da glória obtida para nós pelo sangue do teu Filho unigênito. Amém.

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14 julho, 2010

0 O Ministro da Ira Divina – João Calvino



A impiedade é um mal secreto, ( “por isso Deus os entregou...” Rm 1.24) daí o apóstolo fazer uma demonstração muito enfática a fim de patentear que eles não podem escapar sem justa condenação, visto que esta impiedade era seguida dos efeitos que provam a manifesta evidência da IRA do Senhor. Entretanto, se a ira do Senhor é sempre justa, segue-se que tem havido algo neles que era digno de condenação. Paulo, portanto, agora usa estes sinais para provar a apostasia e deserção dos homens, benevolência ao lançá-los de cabeça para baixo na destruição e ruína de todo gênero. Ao comparar os vícios de que eram culpados com a impiedade de que os acusara anteriormente, ele mostra que estavam sofrendo castigo proveniente do justo juízo de Deus. Visto que nada nos é mais precioso do que nossa própria honra, é o cúmulo da cegueira não hesitarmos em atrair desgraça sobre nós mesmos. Portanto, é um castigo muitíssimo justo para a desonra praticada contra a Majestade divina.

Este é o tema que o apóstolo desenvolve no fim do capítulo, porém lida com ele de várias formas, pois o requeria considerável de ampliação.

Em resumo, pois, o que o apóstolo está dizendo significa que a ingratidão humana para com Deus é injustificável. O próprio exemplo deles prova sem rodeios que a ira de Deus contra eles é sem misericórdia. Porque jamais teriam se precipitado, como bestas, em tão detestáveis atos de luxúria, se porventura não tivessem incorrido no ódio e inimizade de Deus em sua Majestade. Portanto, visto que o vício mais flagrantes é praticado em todos os lugares, ele conclui que as provas indubitáveis da vingança divina são evidentes na raça humana. Ora, se esta vingança divina nunca age sem motivo ou de forma injusta, Paulo nos afirma que é evidente deste fato que essa destruição, não menos certa do que justa, ameaça a humanidade toda.

É totalmente desnecessário, aqui, entrar numa infindável discussão sobre como Deus entrega os homens à vida de iniqüidade. É deveras certo que ele não só PERMITE que os homens caiam em pecado, aprovando que vivem assim, fingindo não ver sua queda, mas também ORDENA por seu justo juízo, de modo que são forçosamente conduzidos a tal loucura, não só por seus desejos maus, mas também pelo Diabo.

Paulo, pois, adota o termo ENTREGAR em concordância com o constante uso da Escritura. Aqueles que acreditam que somos levados a pecar tão-somente pela PERMISSÃO divina provocam forte violência contra esta palavra, pois Satanás é o MINISTRO DA IRA DIVINA, bem como seu ‘EXECUTOR’, ele também se acha fortemente armado contra nós, não simplesmente na aparência, mas segundo as ordens do JUIZ.

Deus, contudo, não deveria ser tido na conta de cruel, nem somos nós inocentes, visto que o apóstolo claramente mostra que somos entregues ao seu poder somente quando merecemos tal punição. Só uma exceção se deve fazer, a saber: que a CAUSA do pecado, as raízes do que sempre reside no próprio pecador; não tem origem em Deus, pois resulta sempre verdadeiro que “A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim o teu socorro” (Os 13.9).

Ao conectar os desejos perversos do coração humano com a IMPUREZA, o apóstolo indiretamente nos dá a entender o fruto que o nosso coração produzirá ao ser entregue a si mesmo. A expressão “entre eles mesmos” – é enfática, pois de modo significativo expressa quão profundas e indeléveis são as marcas da conduta depravada que trazem impureza a seus corpos.
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12 julho, 2010

0 Oração e Súplica – João Calvino



Tendo oferecido orações e súplicas (Hb 5.7). O segundo elemento que o autor menciona de Cristo é que, quando chegou o tempo, ele buscou um meio de escape para livrar-se do mal. Ele diz isso para que ninguém concluísse que Cristo possuía um espírito férreo, que nada sentisse. Devemos sempre procurar ver a razão por que algo é expresso. Se Cristo houvera sido intocável por qualquer dor, então nenhuma consolação, provinda de seus sofrimentos, nos atingiria. Mas quando ouvimos que ele igualmente suportou as mais amargas agonias em seu espírito, torna-se evidente sua semelhança conosco. Cristo, diz ele, não suportou a morte e todas as demais tribulações, de tal sorte, como se desdenhasse delas, ou por não sentir-se oprimido por algum sentimento de angústia. Ele orou com lágrimas, dando assim testemunho da suprema angústia de seu espírito. Por lágrimas e forte clamor, SL intenção do apóstolo é expressar a intensidade de sua tristeza, em consonância com o costume normal de fazer algo mediante sinais. Não tenho dúvida de que ele está falando da oração contida nos evangelhos [Mt 26.39]: Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice. E também daquela outra oração [Mt 27.46]: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? No segundo dos casos mencionados nos Evangelhos, há um forte clamor. Enquanto que no primeiro, não é possível crer que seus olhos hajam secado, visto que na imensidade de sua agonia grossas gotas de sangue emanavam de todo o seu corpo. E verdade que ele se achava reduzido a uma condição extrema. Achando-se oprimido por dores reais, deveras orava ardentemente ao Pai para que fosse socorrido.

Qual é o ponto prático de tudo isso? Consiste nisto: sempre que nossos males nos oprimem e nos torturam, retrocedamos nossa mente para o Filho de Deus que suportou o mesmo fardo. Enquanto ele marchar diante de nós, não temos motivo algum para desespero. Ao mesmo tempo, somos advertidos a não buscar nossa salvação, em tempo de angústia, em nenhum outro senão unicamente em Deus. Que melhor guia poderemos encontrar para oração além do exemplo do próprio Cristo? Ele se dirigiu diretamente ao Pai. O apóstolo nos mostra o que devemos fazer, quando diz que ele endereçou suas orações Aquele que era capaz de livrá-lo da morte. Com isso ele quer dizer que Cristo orou corretamente, visto que recorreu ao Deus que é o único Libertador. Lágrimas e clamor nos recomendam fervor e sinceridade na oração. Não devemos orar a Deus seguindo um formalismo sem vida, mas com ardentes desejos espirituais.

E tendo sido ouvido. Há quem o traduza assim: seu santo temor, do que discordo incisivamente. Primeiramente, o apóstolo usa simplesmente euàápeia, sem o pronome 'seu'. Em segundo lugar, a preposição é órró [= desde], e não utrép [= por causa de], ou qualquer outro termo que denote causa. Visto que em grego euaapeia geralmente significa temor ou ansiedade, não tenho dúvida de que o apóstolo quis dizer que Cristo foi ouvido naquilo que ele temia, de modo que, não vencido por esses males, não lhes deu lugar, nem sucumbiu em face da morte. O Filho de Deus condescendeu-se a essa luta, não porque laborava sob a descrença, a fonte de todos os temores, mas porque ele suportava na carne mortal o juízo divino, o terror que não se pode vencer sem extremado esforço. Crisóstomo o interpreta como sendo a dignidade de Cristo que o Pai, de certa forma, reverenciava. Tal coisa, porém, é absurda. Outros o traduzem como piedade. Mas a exposição que já apresentei é muito mais adequada, e não necessita de alguma confirmação adicional.

Ele prossegue adicionando uma terceira cláusula, no caso de alguém concluir que, visto que ele não foi imediatamente libertado de suas tribulações, a oração de Cristo foi rejeitada. Em tempo algum foi ele privado da misericórdia e socorro divinos. E desse fato podemos deduzir que Deus com freqüência ouve nossas orações, mesmo quando não nos pareça. Assim como não é de nossa competência delinear-lhe alguma norma rígida e rápida, tampouco Deus se vê na obrigação de responder nossas petições que lhe façamos mentalmente ou expressas com nossos lábios, todavia ele demonstra ter cuidado de nossas orações em tudo o que nos é necessário para nossa salvação. E assim, quando parecer-nos que somos repelidos de diante de sua face, obteremos muito mais do que se ele nos tivesse concedido tudo quanto lhe pedimos.

De que forma foi Cristo ouvido naquilo que ele temia, quando enfrentamos aquela morte da qual ele tanto se esquivava? Minha resposta é que devemos atentar para aquilo que constituía seu temor. Por que ele tremia diante da morte, senão porque via nela a maldição divina, e o fato de que Deus era contra a soma total da culpabilidade humana, e contra os próprios poderes das trevas? Daí seu temor e ansiedade, visto que o juízo de Deus é de tudo o que mais terrifica. Então ele obteve o que desejava, uma vez que emergiu das dores da morte como Vencedor, foi sustentado pela mão salvífica do Pai, e após um breve conflito conquistou gloriosa vitória sobre Satanás, o pecado e os poderes do inferno. As vezes sucede que pedimos por isto, por aquilo, ou por alguma outra coisa, mas com um propósito bem distinto. E enquanto Deus não nos concede o que pedimos, ele encontra uma maneira de socorrer-nos.
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09 julho, 2010

0 O Sofrimento de Paulo - João Calvino



Por isso sofro dificuldades (2Tm 2.9-11). Aqui, ele antecipa uma possível objeção, visto que aos olhos dos ignorantes sua prisão denegria a credibilidade de seu evangelho. Ele reconhece que, diante de todas as aparências externas, outra coisa não é senão um criminoso, mas acrescenta que isso não impedia o evangelho de continuar sua livre trajetória. Ao contrário, o que ele sofre é para o bem-estar dos eleitos, porquanto seu propósito era confirmá-los. Tal é a inabalável coragem dos mártires de Cristo, quando se sentem tão enobrecidos pelo conhecimento da boa causa a que servem, que são capazes de suplantar não só dores e torturas corporais, mas até mesmo todo e qualquer gênero de desgraça. Além do mais, todos os piedosos devem tomar alento ao verem os ministros do evangelho sendo assaltados e insultados pelos adversários, de modo que nem por isso reverenciem menos o seu ensinamento; ao contrário, dêem glória a Deus ao verem como, pelo divino poder, o evangelho despedaça todos os obstáculos que o mundo põe em seu curso.

Se não fôssemos excessivamente devotados à carne, tal fato, por si só, seria suficiente para consolar-nos em meio às perseguições, ou seja, o conhecimento de que, ainda quando somos oprimidos pela crueldade dos ímpios, não obstante o evangelho se estende e se difunde mais amplamente. Por mais que tentem, estão mui longe de obscurecer ou de extinguir a luz do evangelho; o máximo que podem é fazê-la brilhar ainda mais claramente. Portanto, suportemos com alegria; ou, ao menos, com uma mente tranqüila; não importa se o nosso corpo e o nosso bom nome estejam encarcerados, contanto que a verdade de Deus se irrompa e seja difundida livremente por todo o mundo.

Portanto, suporta todas as coisas. Ele mostra, à luz de seus resultados, que sua prisão, longe de ser motivo de reprovação, é na verdade muitíssimo proveitosa para os eleitos. Ao dizer que Timóteo devia suportar todas as coisaspox causa dos eleitos, com isso ele demonstra que se preocupava mais com a edificação da Igreja do que com seu próprio bem-estar. Pois está pronto não só a morrer, mas ainda a ser tido no número dos criminosos, se porventura tal coisa promovesse o bem-estar da Igreja. Nesta passagem, o ensino é o mesmo que em Colossenses 1.24, onde ele diz que "cumpro na minha carne o que resta das aflições de Cristo, por amor do seu corpo, que é a Igreja". Os papistas interpretam audaciosamente este texto, afirmando que a morte de Paulo foi uma satisfação por nossos pecados; o próprio texto, porém, refuta completamente tal idéia. Como se Paulo reivindicasse mais para sua morte do que para a confirmação dos piedosos na fé, pois ali imediatamente se deduz, à guisa de explicação, que a salvação dos crentes se acha fundada exclusivamente em Cristo. Uma abordagem mais completa de sua intenção se encontra na passagem que acabo de citar.

Com eterna glória. Eis o propósito da salvação que obtemos em Cristo. Pois o alvo de nossa salvação consiste em vivermos para Deus, e isso começa com nossa regeneração e se plenifica com nossa total libertação das misérias desta vida mortal, quando Deus nos tomar e nos reunir em seu reino. A esta salvação acrescenta-se a participação na glória celestial, glória esta de caráter divinal; e assim, para magnificar a graça de Cristo, ele chama nossa salvação de glória eterna.

Fiel é a palavra. Ele usa esta frase como prefácio ao que vem a seguir, porquanto nada há mais estranho à sabedoria da carne do que crer que devemos morrer a fim de vivermos, e que a morte é o pórtico de entrada para a vida. Deduzimos de outras passagens que era o costume de Paulo usar este prefácio antes de algo especialmente importante ou difícil de se crer. O significado é que a única forma de participarmos da vida e glória de Cristo é antes participando de sua morte e humilhação; como diz em Romanos 8.29, todos os eleitos foram "predestinados para serem conformados à imagem de seu Filho". Isso foi escrito tanto para exortar quanto para consolar os crentes. Quem poderia fracassar ao ser estimulado por esta exortação de que não devemos desesperar-nos por causa de nossas aflições, visto que teremos um feliz livramento delas? O mesmo pensamento abate e ameniza todas as amarguras geradas pela cruz, visto que nem dores, nem tormentos, nem reprovações, nem morte nos podem apavorar, uma vez que as compartilhamos com Cristo; e, especialmente, porque todas essas coisas são precursoras de nosso triunfo. Portanto, através de seu exemplo pessoal, Paulo injeta ânimo em todos os crentes para que, com o coração iluminado, pudessem suportar as aflições nas quais já têm uma prelibação da glória futura. Mas, se porventura isso for demais para crermos movidos por nossa própria iniciativa, e se a cruz nos subjugar e toldar nossa visão, nos impedindo de discernir a Cristo, lembremo-nos de empunhar este escudo: "Fiel é a palavra." Onde Cristo se faz presente, também presente está a vida e a bem-aventurança. Devemos manter-nos firmes a esta comunhão que temos com Cristo, para que não morramos em nós mesmos, mas com ele, para que sejamos companheiros de sua glória. Morte, aqui, significa a mortificação externa de que fala em 2 Coríntios 4.10.
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07 julho, 2010

0 Quem Acusará os Eleitos? - João Calvino



- Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? (Rm 8.33) -


A primeira e principal consolação dos santos, nas adversidades, é serem eles persuadidos da munificência paternal de Deus. Daqui procede tanto a certeza da salvação quanto a tranqüila segurança da alma, pelas quais as adversidades são suavizadas, ou, pelo menos, a crueza da dor é mitigada. Portanto, dificilmente existe uma exortação à paciência mais apropriada do que quando entendemos que Deus nos é propício. E é por isso que Paulo faz desta confiança o princípio da consolação, por meio do qual os crentes devem ser fortalecidos contra todos os males. Visto que a salvação do homem é assaltada, primeiramente por meio de acusações, e em seguida destruída por meio de condenação, Paulo antes remove o perigo que a acusação traz, pois só existe um Deus perante cujo tribunal devemos nos pôr. Portanto, visto que é ele quem nos justifica, então não há lugar para acusação.

Aparentemente, as cláusulas contrastadas não se acham dispostas com exatidão. As duas partes que Paulo deveria contrastar são: "Quem acusará?" e "é Cristo quem intercede". Ele deveria, pois, ter adicionado as outras duas cláusulas: "Quem nos condenará? E Deus quem justifica." A absolvição divina corresponde a condenação, e à defesa de Cristo corresponde a acusação. Mas Paulo tinha razão para fazer tal transposição, visto que queria armar os filhos de Deus com aquela sólida confiança que é capaz de guardá-los de quaisquer ansiedades e temores. Sua conclusão, pois, de que os filhos de Deus não estão sujeitos a acusações, visto que é Deus quem os justifica, é muito mais enfática do que se dissera que Cristo é o nosso Advogado; pois, ao proceder assim, ele expressa mais claramente que a via de acesso para o julgamento é completamente obstruída quando o juiz pronuncia estar o prisioneiro completamente isento de culpa, diante dos acusadores que exultariam em vê-lo definitivamente condenado.

O mesmo argumento se aplica igualmente à segunda cláusula. Paulo nos mostra que os crentes não mais estão sob o risco de sofrer condenação, visto que Cristo, ao expiar seus pecados, antecipou o julgamento divino; e, através de sua intercessão, não só aboliu a morte, mas também lançou nossos pecados ao olvido, de modo que não mais são levados em conta [contra o crente].

A substância do argumento consiste em que somos não só isentos do terror mediante a disponibilidade de antídotos, ao chegarmos diante do tribunal divino, mas que Deus mesmo vem antecipadamente em nosso socorro, a fim de poder munir-nos com uma confiança muito mais sólida.

Entretanto, é preciso notar aqui o que temos afirmado sempre, ou seja: que, segundo Paulo, ser justificado significa ser considerado justo mediante a absolvição da sentença divina. Não é difícil provar isto na passagem em apreço, na qual Paulo argúi com base em uma só proposição com o fim de anular a proposição oposta. Absolver e acusar são opostos entre si. Portanto, Deus não permitirá qualquer acusação que se levante contra nós, visto que já nos absolveu de toda culpa. O Diabo, certamente, vive a acusar todos os santos [Ap 12.10]; e a lei de Deus, por sua própria natureza, bem como a própria consciência humana, igualmente nos reprovam. Todavia, nenhum destes elementos tem qualquer influência sobre o Juiz que nos justifica. Nenhum adversário, pois, pode abalar, muito menos destruir, nossa salvação.

Paulo igualmente faz referência a eles como eleitos, de maneira tal que remove qualquer dúvida de fazer ele parte de seu número. Ele não possuía tal conhecimento com base como caluniam os sofistas - em uma salvação especial, e, sim, com base naquela percepção comum a todos os santos. Portanto, a afirmação, aqui, com referência ao eleito pode, segundo o exemplo de Paulo, ser aplicada por todos os santos a si mesmos. Outrossim, tivesse ele sepultado a eleição no secreto conselho de Deus, e seria ela uma doutrina não apenas carente de calor, mas também sem vida. Porém, visto que Paulo, aqui, está deliberadamente introduzindo algo que todos os santos devem aplicar a si próprios, não há dúvida de que todos nós somos levados a examinar nossa vocação, a fim de podermos determinar se de fato somos filhos de Deus.
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