14 junho, 2010

0 A Ilusória Honra Humana – João Calvino


Não temas quando alguém se enriquece, quando a glória de sua casa se engrandece. Porque, quando morrer, nada levará consigo, nem sua glória descerá com ele. Pois abençoará sua alma em sua vida, e te louvarão quando fizeres bem a ti mesmo. Ele chegará a idade de seus pais, e não verá a luz para sempre. O homem está em honra e não entenderá; ele é como os irracionais; eles perecerão.(Sal 49.16-20)

Não temas. O salmista reitera, na forma de exortação, que os filhos de Deus não tem razão alguma para temerem a riqueza e o poder de seus inimigos, ou para invejarem sua evanescente prosperidade; e o melhor preservativo contra o desespero é que volvam habitualmente seus olhos para o fim da vida. O efeito de tal contemplação será prontamente o de refrear qualquer impa-ciência que porventura sintamos em nossas misérias brevemente vividas, e a seguir elevando nossas mentes em santo desdém, acima da ostentosa, porém ilusória, grandeza dos perversos. Para que isso não impressione nossas mentes, o profeta nos desperta para a consideração do tema da morte - evento este que se acha imediatamente à mão, e que, tão logo chegue, os despe de sua falsa glória e os encaminha ao túmulo. Há muito implícito nas palavras: Ele nada levará quando morrer. Sendo suas vidas sempre tão ilustres aos olhos de seus semelhantes, tal glória é necessariamente limitada pelo presente mundo. A mesma verdade é ainda mais asseverada na próxima cláusula do versículo: Sua glória não descerá com ele. Os homens enfatuados podem chegar à exaustão, desafiando as próprias leis da natureza, a fim de perpetuar sua glória após a morte, mas nunca poderão escapar à deterioração e nudez do túmulo, segundo a linguagem do poeta Juvenal:

"Mors sola fatetur
Quantula sint hominum corpuscula" –

"É a morte que nos constrange a confessar quão imprestáveis são os corpos dos homens."

Porque ele abençoará sua alma em sua vida. Diversos significados têm se aventado para este versículo. Há quem o leia assim: Ele deveria ter abençoado sua alma durante sua vida. Outros aplicam a primeira cláusula do versículo aos perversos, enquanto que aplicam a segunda aos crentes, os quais têm o hábito de louvar a Deus por todos os seus benefícios. Outros entendem todo o versículo como descritivo dos crentes, embora sem qualquer base consistente. Pode haver leve dúvida de que a referência seja aos filhos do mundo. Na primeira parte do versículo, diz-se que abençoam sua própria alma enquanto vivem sobre a terra, pelo quê se pretende dizer que se entregam aos prazeres terrenos e se empanturram deles, dando vazão aos excessos de uma intemperança animalesca, como o homem rico de quem Cristo faz menção na parábola, o qual disse: "Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te" [Lc 12.19]; ou que buscam sua felicidade inteiramente neste mundo, sem acalentar o menor desejo pela vida por vir. Há quem traduza o verbo hebraico, ele fará bem, traduzindo a frase assim: Ele fará bem a sua própria alma em sua vida. Contudo concebo a frase como sendo sinônima em sua significação com aquela empregada por Moisés [Dt 29.19]: "E aconteça que, alguém ouvindo as palavras desta maldição, se abençoe em seu coração"; ou seja, se gabe como se pudesse desdenhar de Deus impunemente. O escritor inspirado representa aqui a estupidez de tais pessoas como a agradar-se a si próprias com um falaz sonho de felicidade. Na última parte do versículo, muda-se a pessoa, e os adeptos dos prazeres são interrompidos; o profeta insinua, mediante as palavras que usa, que o orgulho contumaz com que os ímpios se inflamam é em parte a conseqüência do ilusório aplauso do mundo que os aclamam como sendo venturo-sos e faz ecoar seus louvores até que saciem suas mais injustificadas paixões.

Ele chegará à idade de seus pais. Ele prossegue mostrando quão falsas são as lisonjas pelas quais os ímpios se iludem e são por outros iludidos. Vivem intoxicados com os louvores do mundo ou com suas próprias vãs imaginações, no entanto não podem viver além da idade de seus pais; e, concedendo que suas vidas se estendam a um termo mais distante, jamais alcançarão a eternidade. Outros entendem a expressão como sinônima de no túmulo se juntarão a seus pais que já foram antes deles; visto que na Escritura a morte é usualmente chamada "o caminho de toda a terra". O salmista, um pouco acima, falara de se reunirem eles na sepultura como ovelhas num aprisco. Segundo esse modo de ver, o significado da passagem consiste em que, jamais havendo aspirado o céu, senão que, precipitando-se nas mais vis perseguições deste mundo, por fim se viram envolvidos no mesmo destino de seus pais. Ao acrescentar: não verão a luz para sempre, temos de entender que seu destino são as trevas eternas. Em minha opinião, ambas as cláusulas do versículo são combinadas para expres¬sarem a mesma verdade, a saber: por mais que se bajulem e se enganem, não podem prolongar sua vida além do termo comum da mortalidade. Entretanto, visto que ambas as interpretações se harmonizam com o escopo geral do Salmo, o leitor pode tomar uma decisão pessoal. Se a última for adotada, as palavras no final do versículo serão consideradas como a asseverar que os ímpios só podem desfrutar da luz da vida por um curto período, visto que não têm qualquer esperança de outra existência além da sepultura. Somos instruídos pelo salmista, nas palavras que têm estado ante nossa consideração, a precaver-nos de não nos gloriarmos nas possessões deste mundo e vivermos primordialmente solícitos pela posse daquela felicidade que nos está reservada no céu. Somos igualmente advertidos a não permitir que sejamos arrebatados pela nociva influência dos aplausos mundanos. Mesmo os autores pagãos nos têm comunicado a mesma lição. Por exemplo, o poeta Pérsio diz:

"Non si quid turbida Roma
Elcvct, accedas, cxamenvc improbum in illa
Castigcs tratina: nec te quaesiveris extra" –

"Se Roma, cidade cheia de comoções, exalta ou despreza al-guma coisa, sejas precavido para não te satisfazeres com seu peso ou balança; ou seja, não rejeitando seu juízo e não olhando para o que os outros dizem a teu respeito, mas entra em ti mesmo e examina o que tu és."

Mas a disposição para se deixar enganar pela lisonja é estigma forte demais em nossa natureza, ao ponto de requerer-se que atentemos para a mais pesada admoestação de alguém que é inspirado.

O homem está em honra e não entenderá. Aqui o profeta, para que não seja entendido como a representar a vida, que em si mesma é uma singular bênção de Deus, como totalmente desprezível, se corrige ou qualifica suas afirmações anteriores com uma palavra singular, significando que aqueles a quem repreende se reduziram ao nível dos animais que perecem, devorando insensivelmente as bênçãos que lhes concedera e despindo-se daquela honra com a qual Deus os revestira. E contra o mau uso deste mundo que o profeta tem direcionado suas censuras. Elas se direcionam para aqueles que transtornam as belezas divinas sem qualquer reconhecimento de Deus mesmo, e se devotam de uma maneira enfatuada à glória transitória deste mundo, em vez de erguer-se dela para a contemplação das coisas que estão acima.






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