07 maio, 2010

0 Cristo à Direita do Pai - João Calvino


E o fez sentar-se à sua direita (Ef 1.20). Esta passagem revela mais que qualquer outra o que "a mão direita de Deus" significa. Não quer dizer algum lugar em particular, mas, sim, o poder que o Pai delegou a Cristo para que seu Nome pudesse administrar o governo do céu e da terra. E inútil, pois, sofismar, como fazem alguns, dizendo que Estêvão o viu em pé, enquanto que Paulo, aqui, o descreve como que sentado. A referência não é a uma postura física, senão que denota o mais elevado poder de governar, com o qual Cristo foi investido. Isso concorda com as palavras de Paulo: "Acima de todo principado, etc", porquanto essa descrição como um todo foi adicionada em termos explicativos, para expressar o significado de "mão direita".

Diz-se que Deus elevou Cristo à sua direita no sentido em que o fez partícipe de seu governo; pois é por meio de Cristo que Deus exerce todo o seu poder. A metáfora é tomada por empréstimo dos príncipes terrenos, os quais conferem aos seus generais a honra de sentarem-se ao lado deles. Visto que a mão direita de Deus enche céu e terra, segue-se que o reino e o poder de Cristo se encontram difusos por toda parte. Portanto, é errônea a tentativa de provar-se que o ato de sentar-se à mão direita de Deus significa que Cristo habita somente o céu. Sua humanidade, dizem, a qual prossegue sendo genuína, está no céu e não na terra; o argumento, porém, está fora de pauta. Pois o que se segue -nos lugares celestiais - não significa que a direita de Deus esteja restrita ao céu. O que ele deseja é que saibamos que Cristo ascendeu às alturas, à glória celestial de Deus, para que alcançasse o mais elevado cume na bem-aventurada imortalidade entre os anjos.

Muito acima de todo principado (v. 21). Não fica dúvida alguma de que por todos esses títulos o apóstolo quisesse referir-se aos anjos, os quais são assim nomeados em razão de ser por meio de sua agência que Deus exerce seu poder, autoridade e domínio. Pois ainda quando comunica às criaturas o que pertence a si próprio, ele quis atribuir-lhes o seu próprio nome; eis a razão por que eles são chamados deuses. Ora, ainda que da diversidade de nomes concluímos que há várias ordens, todavia, investigá-los mais minuciosamente, fixar seu número e determinar suas hierarquias, não seria mera curiosidade, e, sim, também temeridade ímpia e perigosa.

Mas, por que o apóstolo não os denominou simplesmente de anjos -  Minha resposta consiste em que Paulo adicionou esses títulos com o fim de magnificar a glória de Cristo; como se dissesse: "Não há nada que tão sublime ou excelente venha ser, seja qual for o nome venha chamar-se, que não esteja sujeito à majestade de Cristo." Houve uma antiga superstição, comum entre judeus e gentios, que era a de atribuir aos anjos muitas coisas, a qual desviava as mentes humanas da pessoa de Deus e do verdadeiro Mediador. Por isso é que Paulo se mostra precavido, em todas as suas epístolas, a fim de impedir que essa glória imaginária dos anjos ofusque os olhos dos homens, obscurecendo assim o resplendor de Cristo; no entanto sua extrema diligência não conseguiu impedir que a astúcia do diabo tivesse êxito nesta questão. Pois vemos como o mundo afastou-se de Cristo por cultivar uma preocupação errônea acerca dos anjos. Foi inevitável que a correta concepção acerca de Cristo desaparecesse em meio às invenções acerca dos anjos.

Acima de todo nome. Nome, aqui, é tomado no sentido de 'grandeza' ou 'excelência'; e 'ser nomeado' significa desfrutar de celebridade e exaltação.

Mas também no [mundo] vindouro é expressamente mencionado para indicar que a excelência de Cristo não é temporária, e, sim, eterna; e que não se limita a este mundo, mas também viceja no reino de Deus. É por essa razão que também Isaías o chama de "o Pai da eternidade" [Is 9.6]. Em suma, todas as glórias dos homens e dos anjos, colocadas em seu devido lugar, abrem caminho à glória de Cristo, para que somente ela venha a brilhar acima de todos eles incomparavelmente e sem impedimento algum.




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