27 abril, 2010

0 A “Sabedoria” do Mundo é Fútil – João Calvino


Porque a sabedoria deste mundo...(1Co 3.19-23) Este é um argumento do lado oposto. A confirmação de um significa a destruição do outro. Portanto, visto que a sabedoria deste mundo é loucura aos olhos de Deus, segue-se que a única maneira de podermos ser sábios aos olhos de Deus é tornarmo-nos loucos aos olhos do mundo. Já expusemos o que Paulo quis dizer com a expressão "sabedoria deste mundo": porque a percepção natural é um dom de Deus. As artes que os homens naturalmente procuram cultivar, e todas as disciplinas pelas quais a sabedoria é adquirida, são também dons de Deus. Porém, tudo isso tem seus limites definidos, porque não podem penetrar no reino celestial de Deus. Conseqüentemente, todas elas devem ser servas, não senhoras. Além disso, eles devem ser olhados como inúteis e indignos até que estejam completamente subordinados à Palavra e ao Espírito de Deus. Mas se porventura se levantarem contra Cristo, que sejam considerados uma injuriosa peste. E se se mantêm acreditando que são capazes de algo, por si mesmos, então que sejam considerados como o pior dos obstáculos.

Portanto, a sabedoria deste mundo é, segundo Paulo, aquilo que energicamente assume o senhorio de si mesmo e se recusa a deixar-se dirigir pela Palavra de Deus, e tampouco se deixa humilhar para que seja completamente sujeito a Deus. Portanto, até que suceda que uma pessoa reconheça que nada sabe exceto o que aprendera de Deus e, tendo rejeitado seu próprio entendimento, se ponha sob a direção exclusiva de Cristo, tal pessoa é sabia pelos padrões do mundo, no entanto é tola aos olhos de Deus.

Pois está escrito: Ele apanha os sábios em sua própria astúcia. Paulo apoia o que acaba de afirmar em dois textos da Escritura. O primeiro é tomado de Jó 5.13. Aí a sabedoria de Deus é exaltada porque em sua presença nenhuma sabedoria terrena pode se estabelecer. Não há dúvida de que nesse contexto o profeta está a falar sobre o astuto e o insidioso. Porém, visto que a sabedoria do homem é sempre da mesma qualidade quando se acha divorciada de Deus, Paulo corretamente a adapta para significar que, em¬bora os homens adquiram muita sabedoria por seus próprios esforços, tal coisa não tem o menor valor aos olhos de Deus. O segundo é do Salmo 94.11, onde, após atribuir a Deus a função e a autoridade para ensinar a todos, Davi acrescenta que "O Senhor conhece os pensamentos do homem, que são pensamentos vãos". Portanto, não importa quão altamente sejam valorizados por nós, segundo o juízo divino são fúteis. Esta é uma excelente passagem para realçar a confiança carnal, pois aqui Deus declara de cima que tudo o que a mente humana concebe e propõe é simples nulidade.

Por isso, ninguém se glorie nos homens. Visto que nada é mais indigno do que o homem, quão pouca segurança há em depender-se de uma sombra inconsistente! Daí, ele faz uma válida inferência da oração precedente ao dizer que não se deve gloriar nos homens visto que ali vemos como o Senhor despe a todos os homens das bases para a ostentação. Contudo, esta conclusão depende de tudo o que ensinou no argumento precedente, como logo veremos. Pois visto que pertencemos exclusivamente a Cristo, Paulo está plenamente certo em ensinar-nos que qualquer preeminência que seja atribuída ao homem, que envolva o detrimento da glória de Cristo, é sacrílega.

Todas as coisas são vossas. Ele adiciona uma referência à posição e situação que aos mestres devem ser concedidas, a saber: que não denigram o singular ofício de Mestre que pertence a Cristo. Portanto, visto que Cristo é de fato o único Mestre da Igreja; visto que ele só e em todas as circunstâncias deve ser ouvido, é necessário fazer distinção entre ele e os demais. Cristo mesmo tabém deu testemunho a seu próprio respeito em termos similares, em Mateus 23.8, e o Pai não está recomendando qualquer outra pessoa, nesta palavra: A ele ouvi (Mt 17.5). Portanto, visto que somente ele é investido de autoridade para governar-nos por meio de sua Palavra, Paulo diz que os demais homens são nossos; em outras palavras, que Deus os designou a fim de que pudéssemos usufruir do benefício deles; porém, não para que sejam os dominadores de nossas consciências. Portanto, ele mostra, por um lado, que não são inúteis; e, por outro, que ele os mantém em seu espaço, para que não sejam convencidos e se ponham em oposição a Cristo.

Pelo que toca à presente passagem, Paulo está usando hipérbole no que ele adiciona sobre a morte, a vida e assim por diante. Entretanto, ele queria argumentar do maior para o menor, por assim dizer, como segue: "Visto que Cristo colocou a vida, a morte e tudo o mais subordinado a nós, pode haver alguma dúvida de que ele fizesse os homens também sujeitos a nós, a fim de auxiliar-nos por meio do que fazem em nosso favor; certamente, não para que venham a ser dominadores e déspotas."

Além do mais, à luz disto alguém pode objetar, dizendo que os escritos de Paulo e Pedro também estão sujeitos ao nosso juízo, visto que ambos eram homens, e que não estão isentos da sorte comum dos demais. Minha resposta é que, enquanto Paulo de modo algum poupa a si mesmo nem a Pedro, ele aconselha os coríntios a distinguirem entre o homem, em si mesmo, e a dignidade e caráter do ofício. E como se dissesse: "Quanto a mim mesmo, visto que sou homem, desejo ser julgado somente como homem, a fim de que Cristo somente venha a ser o único a ter preeminência em meu ministério." Entretanto, devemos em conjunto manter que todos quantos exercem o ofício do ministério, do maior ao menor, são nossos, de modo que somos livres, não para aceitar o que ensinam até que evidenciem que é derivado de Cristo. Pois todos eles de- vem ser provados, e obediência só deve ser-lhes prestada quando tiverem demonstrado que são genuínos servos de Cristo. Porém, no que diz respeito a Pedro e Paulo, o Senhor deu sobejas evidências, de modo que não fica qualquer sombra de dúvida de que o seu ensino tem sua fonte nele. Em conseqüência, quando apreciamos e respeitamos, como declaração do céu, tudo o que fizeram conhecido, damos ouvidos, não propriamente a eles, mas como Cristo falando neles.

Cristo é de Deus. Esta sujeição (de Cristo a Deus) tem referência à humanidade de Cristo; pois, ao vestir-se com a nossa carne, ele tomou para si a forma e condição de escravo, de modo que se fez obediente ao Pai em todos os aspectos (Fp 2.7,8). E para que pudéssemos aderir a Deus através dele, é certo que ele deve ter o Pai por Cabeça. Todavia, é preciso que prestemos aten¬ção no propósito que Paulo tinha em mente quando adicionou isto. Pois ele nos cientifica que a nossa mais plena felicidade consiste em nossa união com Deus, que é o principal bem. Isto é concretamente efetuado quando somos reunidos sob a Cabeça a quem o Pai celestial estabeleceu sobre nós. Em termos similares, Cristo disse a seus discípulos (Jo 14.28): "Regozijai-vos, porque vou para o Pai, porque o Pai é maior do que eu." Pois ele o levantou como o Mediador através de quem os crentes podem ir a fonte original de todas as bênçãos. E verdade que aqueles que abandonam esta única Cabeça são privados desse grande benefício. Eis a razão para este plano, ou seja: aqueles que desejam permanecer sob o governo de Deus, então que se sujeitem somente a Cristo - o que se adequa bem com o teor deste texto.


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