28 abril, 2010

0 Edificando em Falso Fundamento - João Calvino



Porque ninguém pode lançar outro fundamento (1Co 3. 11,12). Esta sentença consiste de duas partes, a saber:

(1) que Cristo é o único fundamento da Igreja; e

(2) que os coríntios haviam sido apropriadamente fundados sobre Cristo através da pregação de Paulo.

Por isso, era necessário que fossem reconduzidos somente a Cristo, pois seus ouvidos se cocavam freneticamente por novidades. Era uma questão de grande importância que Paulo fosse conhecido como o principal e (se assim posso afirmar) fundamental arquiteto, de cujo ensino os coríntios não poderiam afastar-se, sob a pena de renunciar ao próprio Cristo. Resumindo: a Igreja deve estar total e definitivamente fundada exclusivamente sobre Cristo; e Paulo desempenhava seu papel, a este respeito, entre os coríntios tão fielmente que seu ministério não deixava nada a desejar.

Segue-se que, quem quer que viesse após ele não poderia servir ao Senhor conscienciosamente, ou ser ouvido como ministro de Cristo de algum outro modo além de esforçar-se em tornar o seu ensino como o dele, e manter o fundamento que ele lançara.

Daqui podemos chegar a certa conclusão sobre aqueles que, quando seguem os genuínos ministros, não se preocupam em adaptar-se ao seu doutrinamento e seguir de perto um bom princípio a fim de fazer perfeitamente claro que não se ocupavam com novidades. Podemos concluir, pois, que eles [coríntios] não estavam trabalhando fielmente para edificar a Igreja, senão que eram seus demolidores. Pois o que é mais destrutivo do que confundir os crentes bem fundamentados na sã doutrina com um novo gênero de doutrinamento, de modo que não sabem com certeza onde estão ou para onde vão? Por outro lado, a doutrina fundamental, que não pode ser subvertida, é aquela que aprendemos de Cristo. Porquanto Cristo é o único fundamento da Igreja. Mas são muitos os que usam o nome de Cristo como cegos, e reviram de ponta cabeça a verdade universal de Deus.

Portanto, observemos como a Igreja é adequadamente edificada sobre Cristo, a saber, se exclusivamente ele é posto como justiça, redenção, santificação, sabedoria, satisfação, purificação, em síntese, como vida e glória; ou, se se preferir de forma mais breve, se ele é pregado de tal forma que seu ofício e virtude são entendidos da forma como são apresentados no final do primeiro capítulo. Ora, se Cristo não é adequadamente conhecido e lhe é simplesmente atribuído o nome de Redentor, enquanto que, ao mesmo tempo, a justiça, a santificação e a salvação são buscadas em outras fontes, ele é lançado para fora do fundamento e pedras falsas são postas em seu lugar. Temos um exemplo disto no procedimento dos papistas, ou seja, ao despirem Cristo de quase todos os seus ornamentos, e não lhe deixam quase nada senão um simples nome. Tais pessoas, pois, não estão de forma alguma sendo fundamentadas em Cristo. Ora, visto que Cristo é o fundamento da Igreja em razão de ser ele a única fonte de salvação e vida eterna, em razão de que é nele que conhecemos Deus o Pai e em razão de se achar nele a fonte de todas as nossas bênçãos - então, se não é reconhecido como tal, ele, imediatamente, cessa de ser o fundamento.

Pode-se, porém, perguntar se Cristo é somente uma parte, ou é ele o originador da doutrina da salvação, porquanto o fundamento é apenas uma parte do edifício. Porque, se tal é o caso, os crentes fariam de Cristo só o ponto de partida, sendo levados à complementação sem qualquer conexão com ele, e de fato Paulo parece sugerir isto. Minha resposta é que este não é o significado do que ele diz, de outra sorte ele estaria se contradizendo ao dizer em Colossenses 2,3 que "todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos nele". Portanto, a pessoa que tem "aprendido Cristo" (Ef 4.20) já se acha plenificada de todo o ensino celestial. Porém, visto que o ministério de Paulo se preocupava mais em estabelecer os coríntios do que em erguer em seu meio a parte mais alta do corpo do edifício, ele apenas mostra aqui o que já fizera, a saber, que ele pregara Cristo, pura e simplesmente. Por esta razão, pensando no que fizera, Paulo chama Cristo de o fundamento, mas não significa que ele exclui Cristo do resto do edifício. Em outras palavras, ele não põe algum outro tipo de ensino em contraste com o conhecimento de Cristo; ele está, antes, realçando a relação existente entre ele [Cristo] e os outros ministros.

Mas se alguém edifica sobre este fundamento. Ele persiste no uso da metáfora. Não era suficiente - que o fundamento houvesse sido assentado, se toda a superestrutura não lhe correspondesse. Pois, visto que seria absurdo construir com material inferior sobre um fundamento de ouro, então é algo perverso sepultar Cristo sob outras doutrinas sobrepostas por homens. Portanto, Paulo quer dizer por "ouro, prata e jóias", o ensino que não só se harmoniza com Cristo, mas é também uma superestrutura em harmonia com esse fundamento. Além do mais, não imaginemos que esta doutrina é extraída de outras fontes e não de Cristo, senão que devemos, antes, entender que temos de continuar a ensinar Cristo, até que o edifício esteja completo. Contudo, temos de prestar atenção na ordem de fazer as coisas, de modo que pode-se iniciar com a doutrina geral e o mais essencial dos principais pontos, como o fundamento. Em seguida vem reprovação, exortações e tudo quanto é necessário para a perseverança, o encorajamento e o progresso.

Visto que há pleno acordo sobre o que Paulo quis dizer até aqui, segue-se, por outro lado, que o ensino que é descrito aqui como "madeira, restolho e feno" não se adequa ao fundamento; o ensino, isto é, o que é engendrado pela mente humana e nos é empurrado como se fosse [os próprios] oráculos de Deus. Pois Deus quer que sua Igreja seja edificada com base na genuína pregação de sua Palavra, não com base em ficções humanas; e isto é o que se pode descrever como tudo o que não faz nada na maneira de construir. Nesta categoria estão questões especulativas que geralmente fornecem mais para ostentação - ou algum louco desejo - do que para a salvação de homens.

Paulo faz notório que no fim a qualidade da obra de cada um se fará manifesta; mesmo que ela seja ocultada pelo tempo presente. É como se dissesse: "Pode ser que os maus obreiros vivam enganando, de modo que o mundo não consiga de forma alguma provar quão fielmente ou quão honestamente cada um tenha feito seu trabalho. Mas o que agora se acha, por assim dizer, submerso em trevas, deverá ser destruído diante da face de Deus, e será considerado como algo indigno.


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