16 abril, 2010

0 Baluarte da Verdade - João Calvino



Como os homens devem portar-se na casa de Deus (1Tm 3.15).

Nessas palavras, ele enaltece a importância e a dignidade do ofício pastoral, pois os pastores são como que despenseiros a quem Deus tem confiado a incumbência de governar sua casa. Se um homem é responsável por uma grande família, então deve ele trabalhar dia e noite com grande solicitude para que nada saia errado em função de algum descuido, inexperiência ou negligência. Se tal cuidado é indispensável em relação a meros seres humanos, quanto mais em relação ao Criador deles. Má boas razões para Deus chamar a Igreja de minha Casa, pois ele não só nos tem recebido como seus filhos mediante a graça da adoção, mas também, ele mesmo, habita pessoalmente entre nós.

Ao ser denominada, coluna e fundamento da verdade, tal dignidade atribuída à Igreja não é algo ordinário. Ora, que termos mais sublimes poderia ele ter usado para descrevê-la? Porquanto não existe nada mais venerável e santo do que aquela verdade que abrange tanto a glória de Deus quanto a salvação do homem. Fossem todos os louvores que os admiradores esbanjam em referência à filosofia paga reunidos num montão, o que seria isso comparado com a excelência dessa sabedoria celestial, a única que leva o título de a luz e a verdade e a instrução para a vida e o caminho e o reino de Deus? Esta verdade, porém, só é preservada no mundo através do ministério da Igreja. Daí, que peso de responsabilidade repousa sobre os pastores, a quem se tem confiado o encargo de um tesouro tão inestimável! Quão cínicas são as bagatelas dos papistas extraídas das palavras de Paulo, de que todos os seus absurdos devam ser considerados oráculos de Deus, visto que são colunas da verdade e, portanto, infalíveis!

Em primeiro lugar, porém, temos de examinar por que Paulo honra a Igreja com um título tão proeminente. Evidentemente, ele desejava, ao realçar aos pastores a grandeza de seu ofício, lembrá-los com que fidelidade, diligência e reverência devem desempenhá-lo, e ao mesmo tempo quão terrível é a retribuição que os aguarda, caso, por sua culpa, esta verdade, que é a imagem da glória de Deus, a luz do mundo e a salvação dos homens, seja prejudicada. Certamente, esse pensamento deve imbuir os pastores da terribilidade de sua tarefa; não para desencorajá-los, mas para compeli-los a uma vigilância mais intensa. Daqui se torna fácil deduzir o sentido que tinham as palavras de Paulo. A Igreja é a coluna da verdade porque, através de seu ministério, a verdade é preservada e difundida. Deus mesmo não desce do céu para nós, nem diariamente nos envia mensageiros angelicais para que publiquem sua verdade, senão que usa as atividades dos pastores, a quem destinou para esse propósito. Ou, expondo-o de maneira mais simples: não é a Igreja a mãe de todos os crentes, visto que ela os conduz ao novo nascimento pela Palavra de Deus, educa e nutre toda a sua vida, os fortalece e finalmente os guia à plenitude de sua perfeição? A Igreja é chamada coluna da verdade pela mesma razão, pois o ofício de ministrar a doutrina que Deus pôs em suas mãos é o único meio para a preservação da verdade, a qual não pode desaparecer da memória dos homens. Em conseqüência, essa recomendação se aplica ao ministério da Palavra, pois se ela for removida, a verdade de Deus desvanecerá. Não é que ela seja menos infalível se os homens não lhe prestam seu apoio, como alguns papistas ociosamente alegam. E chocante blasfêmia afirmar que a Palavra de Deus é falível até que obtenha da parte dos homens uma certeza emprestada. O "sentido que Paulo dá é o mesmo de Romanos 10.17: "E assim, a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Deus." Sem ouvir a pregação não pode haver fé. Portanto, em relação aos homens, a Igreja mantém a verdade porque, por meio da pregação, a Igreja a proclama, a conserva pura e íntegra, a transmite à posteridade. Se não houver ensino público do evangelho, se não houver ministros piedosos que, por sua pregação, resgatem a verdade das trevas e do olvido, as falsidades, os erros, as imposturas, as superstições e a corrupção de toda sorte assumirão imediatamente o controle. Em suma, o silêncio da Igreja significa o afastamento e a supressão da verdade. Não há nada absolutamente forçado nesta exposição da passagem.

Agora que descobrimos a intenção de Paulo, volvamo-nos para os papistas. Seu primeiro erro é o de transferir este enaltecimento da Igreja para si próprios, porquanto eles se cobrem com plumas emprestadas. Presumamos que a Igreja fosse exaltada acima do terceiro céu, tal coisa não tem nada a ver com eles. Pois se a Igreja é a coluna da verdade, segue-se que ela não está entre eles, onde a verdade não só se encontra sepultada, mas também horrivelmente destruída e pisoteada sob seus pés. Paulo não reconhece a existência da Igreja exceto onde a verdade de Deus é exaltada e esclarecida. No papado não há qualquer evidência de tal procedimento, senão unicamente desolação e ruína. Não se encontra entre eles a genuína marca da Igreja. A fonte de sua ilusão consiste em que não ponderam que o essencial é que a verdade de Deus seja mantida pela pura proclamação do evangelho, e que seu apoio não depende das faculdades e emoções humanas, e, sim, em algo muito mais exaltado, o qual não deve dissociar-se da Palavra de Deus em sua pureza.


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