08 março, 2010

0 Nosso Sumo-Sacerdote - João Calvino



Tendo, pois... (Hb 4.14,15). O autor até agora esteve falando do apostolado de Cristo; e aqui ele volta ao seu segundo ofício. Afirmamos acima que quando o Filho de Deus nos foi enviado, lhe foi atribuído um duplo caráter, a saber: de Mestre e de Sacerdote. Uma vez tendo exortado os judeus a abraçarem a doutrina de Cristo e a obedecê-la, o apóstolo mostra os benefícios que seu sacerdócio trouxe. Esta é a segunda das duas partes do argumento com o qual ele está tratando. Ele conecta seu sacerdócio ao seu apostolado de forma muito hábil, quando diz que o alvo de ambos é conduzir-nos a Deus. Ele usa um termo inferencial, pois, porque antes havia tocado esta verdade: que Cristo é nosso Sumo Sacerdote. Mas, visto que o poder de seu sacerdócio só pode ser visto dentro de sua doutrina, fazia-se necessário que nos abrisse esse caminho a fim de preparar nossa mente para dispô-la a ouvir a Cristo. Àqueles que o reconhecem como Mestre, que se entregaram a ele como seus discípulos voluntários, resta-lhes aprender de seus lábios ou em sua escola quais são os benefícios, a utilidade e o propósito de seu sacerdócio.
Ele começa, dizendo: Tendo, pois, um grande sumo sacerdote que penetrou o céu, Jesus, o Filho de Deus, conservemos firme a nossa confissão. Confissão, aqui, como também acima, é usada metonimicamente para/e. Visto que seu sacerdócio deve servir como confirmação de sua doutrina, o apóstolo conclui que não há nenhuma razão para pôr em dúvida ou vacilar na fé do evangelho, o qual o Filho de Deus já aprovou e ratificou. Aqueles que consideram esta doutrina como algo não confirmado, desonram o Filho de Deus, bem como o privam de sua honra na qualidade de Sacerdote. Um penhor de tal gênero e de tal extensão deve servir para aumentar nossa confiança, ao pormos, sem hesitação, nossa fé no evangelho.
15. Porque não temos... etc. Ao nome do Filho de Deus, o qual o autor tem mencionado, pertence essa majestade que nos impele ao temor e à obediência. Porém, se não divisássemos nada mais em Cristo, nossas consciências não ficariam pacificadas. Quem dentre nós não se espantaria à vista do Filho de Deus, especialmente quando lembramos de nossa própria condição e nossos pecados vêm à nossa mente? Além disso, poderia haver outro obstáculo para os judeus, visto que estavam habituados ao sacerdócio levítico. Nele vimos um singular mortal escolhido dentre todos os demais que entrava no Santo dos Santos para reconciliar seus irmãos com Deus, através de suas orações. E algo incomensurável que o mediador, que pode desviar a ira divina contra nós, seja ele mesmo um dentre nós. Esse engodo poderia ter enganado os judeus, perpetuando seu apego ao sacerdócio levítico, se o apóstolo não o antecipasse e não tivesse mostrado que o Filho de Deus não só excedeu em glória, mas que também estava investido de semelhante benevolência e compaixão para conosco.
Ele se preocupa com essa verdade quando diz que Cristo pode condoer-se de nossas fraquezas a fim de ser-nos solidário. Com referência à palavra grega traduzida [simpatia, condolência], não me sinto disposto a argumentar com demasiado rigor. A pergunta se Cristo está agora sujeito às nossas dores é frívola e não menos revestida de curiosidade. O apóstolo não tinha a intenção de aborrecer-nos com tais argumentos e vãs especulações, e, sim, simplesmente ensinar-nos que, já que Cristo tem suas mãos estendidas para nós, não temos necessidade de buscar um mediador muito longe. Não há razão alguma para temermos a majestade de Cristo, já que ele é nosso Irmão; e não há razão alguma para vivermos amedrontados, imaginando que ele não percebe nossos males e não é tocado por algum sentimento de humanidade para oferecer-nos seu auxílio, visto que ele já tomou sobre si nossas enfermidades ou fraquezas, a fim de estar melhor habilitado a socorrer.
Todo o teor do argumento do apóstolo consiste em que o mesmo deve ser considerado à luz do contexto do significado da fé, porque ele não discute a natureza de Cristo em si mesma, mas de sua natureza como ele se nos revela. Ele toma semelhança no sentido daquela parte de nossa natureza pela qual significa que Cristo se vestiu de nossos sentimentos mais do que de nossa carne, não só para revelar-nos ser ele genuinamente homem, mas para aprender, através da própria experiência, a socorrer-nos em nossa miséria, e não porque como Filho de Deus necessitasse de tal instrução, mas porque só assim poderíamos compreender a preocupação que ele sente por nossa salvação. Sempre que labutarmos sob as fragilidades de nossa carne, tenhamos em mente que o Filho de Deus as experienciou também, para que nos encorajemos por seu poder, no caso de nos sentirmos esmagados por elas.
É possível que alguém pergunte aqui qual o significado de enfermidades [=fraquezas]. Esse termo pode ser tomado em diversos sentidos. Alguns o tomam no sentido de frio e calor, fome e outras necessidades corporais, bem como desprezo, pobreza e outras coisas desse gênero, como vemos em muitas passagens paulinas, especialmente 2 Coríntios 12.10. Entretanto, há uma opinião mais acurada que inclui muito mais que esses males externos, ou seja: as emoções da alma, tais como preocupação, aflição, medo da morte e outras sensações semelhantes.
Certamente que não haveria necessidade de adicionar o qualificativo sem pecado, não estivesse o autor falando de sentimentos que são sempre pecaminosos em nós, em razão de nossa natureza decaída. Em Cristo, em quem habitou a plenitude de justiça e absoluta pureza, essas emoções estavam isentas de todo o pecado. Seguramente que pobreza e morte, bem como esses males externos, não devem ser incluídos entre os elementos pecaminosos. Assim, pois, quando o autor fala de enfermidades [-fraquezas] que se acham conectadas com o pecado, sem a mais leve sombra de dúvida, ele está se referindo às emoções da alma às quais a natureza humana se acha sujeita, e isso em razão de sua enfermidade [pecaminosa]. A esse respeito, a condição dos anjos é preferível à nossa, porquanto não se afligem, não sentem medo, não se torturam por alguma sorte de preocupação e não sofrem o pavor da morte. Cristo levou sobre si essas enfermidades e espontaneamente lutou, não só para obter-nos vitória contra elas, mas também para que nos sentíssemos seguros ao sermos tentados por elas, de que ele está infalivelmente ao nosso lado. Ele não só se fez homem, senão que assumiu as qualidades de nossa natureza humana. O qualificativo sem pecado é adicionado em razão do fato de que devemos sempre fazer essa distinção entre os sentimentos de Cristo e os nossos, ou seja: suas emoções foram sempre reguladas por um estrito princípio de justiça, enquanto que as nossas fluem sempre de uma fonte agitada e sempre levam o sabor de sua natureza original, porque são impetuosas e incontroláveis. 


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