07 março, 2010

0 Nos Gloriamos na Tribulação - João Calvino


E não somente isto, mas também nos gloriemos (Rm 5.3-5).
apóstolo antecipa possíveis escárnios dirigidos aos cristãos que, devido à sua exultação, são inusitadamente molestados e afligidos nesta vida, parecendo que longe estão de uma condição abençoada. Ele declara que suas calamidades, longe de impedirem sua felicidade, até mesmo promovem sua glória. Com o fim de provar sua tese, ele argumenta a partir dos efeitos. Emprega um admirável clímax, no qual, finalmente, conclui que todas as aflições que sofremos contribuem para nossa salvação e felicidade última.
Sua afirmação de que os santos se gloriam em suas tribulações não deve ser entendida como se não temessem nem fugissem da adversidade, ou não sentissem a dor das aflições e amarguras quando elas lhes ocorrem (pois a paciência não resultaria de suas dificuldades, caso não vivessem conscientes de suas amarguras). Entretanto, o apóstolo diz corretamente que eles se gloriam, visto que em sua tristeza e dor são profusamente consolados p^ela antevisão de que todos os seus sofrimentos são-lhes destinados para que se transformem num grande bem pelas mãos do mais indulgente de todos os pais -o Pai celestial. Os crentes têm sempre suficientes razões para se gloriarem quando sua salvação é promovida.
Daqui aprendemos, pois, qual é o propósito de nossas tribulações, se porventura almejamos mostrar que somos filhos de Deus. Estes devem exercitar-se na paciência, do contrário nossa depravaçao tornaria a obra do Senhor vazia e ineficiente. Como prova de que a adversidade não constitui obstáculo para a glorificação dos crentes, ele evoca o fato de que eles experimentam o socorro divino, o qual nutre e confirma sua esperança, quando pacientemente suportam suas adversidades. E verdade, pois, que aqueles que não aprendem a paciência também não fazem bom progresso. Não há contradição quando a Escritura registra as murmurações dos santos quando dominados pelo desespero. Em tais ocasiões o Senhor acossa e esmaga a seu povo de tal modo que, por algum tempo, mal lhes permite respirar ou lembrar-se da sua fonte de consolação. Porém, de repente ele restaura à vida aqueles a quem quase submergira nas densas trevas da morte. Então a afirmação de Paulo é sempre cumprida neles: "Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos" [2 Co 4.8,9].
A tribulação produz a paciência. Este não é o efeito natu­ral da tribulação, a qual, como vemos, leva uma grande porção do gênero humano a murmurar contra Deus, e até mesmo a amaldiçoá-lo. Mas quando aquela submissão interior que é infundida pelo Espírito de Deus; e aquela consolação que é comunicada pelo mesmo Espírito, assume o lugar de nossa obstinação, então as tribulações, as quais, na teimosia, só podem produzir indignação e descontamento, tornam-se meios de gerar a paciência.
4. E a paciência, a experiência. Num clímax similar, Tiago aparentemente segue uma ordem invertida, pois ele diz que a experiência produz a paciência. Entretanto, conciliaremos as duas se entendermos que o significado dos termos é diferente. Paulo quer dizer pelo termo provação, a experiência que os cristãos têm da proteção garantida de Deus, quando, confiando em seu auxílio, suplantam todas as dificuldades. Mantendo-se firmes e suportando tudo pacientemente, experimentam a resistência do poder do Senhor que prometeu que sempre estaria presente no meio de seu povo. Tiago usa o mesmo termo no sentido de tributação propriamente dita, segundo o uso comum da Escritura, visto que, por meio das tribulações, Deus prova e julga seus servos - por isso, tribulações são também com freqüência chamadas tentações.
A luz da presente passagem, portanto, fazemos adequado progresso na paciência quando a consideramos como havendo sido estabelecida para nós, pelo poder de Deus, e assim, quanto ao futuro, nutre a esperança de que jamais estaremos sem a graça de Deus, a qual nos tem sempre socorrido em nossas necessidades. Paulo, portanto, adiciona que a esperança emana da experiência, porquanto seríamos ingratos diante dos benefícios que temos recebido se porventura não confirmássemos nossa esperança no futuro, evocando-os em nossa lembrança.
5. Ora, a esperança não confunde. Ou seja, ela tem a nossa salvação como um fato garantido. Isto mostra claramente que a aflição é usada pelo Senhor para provar-nos, de modo que a nossa salvação possa, por isso, progredir gradualmente. Portanto, aquelas misérias, que a seu próprio modo são os suportes de nossa felicidade, não podem transformar-nos em miseráveis. E assim a tese de Paulo fica provada, ou seja: que os piedosos contam com bases sólidas para gloriar-se no meio de suas aflições.
Porque o amor de Deus é derramado em nossos corações. Não refiro isto só à última frase, mas ao todo dos dois versículos precedentes. Somos estimulados à paciência pela instrumentalidade da tribulação, e a paciência é para nós a prova do auxílio divino. Este fato robustece um tanto mais a nossa esperança; pois, por mais que sejamos acossados, e nos pareçamos desgastados, não cessamos de sentir a munificência divina para conosco. Esta é a mais rica consolação, e muito mais abundante do que quando tudo parecia ir-nos bem. Uma vez que o que se nos afigura como felicidade não passa de miséria, quando Deus nos hostiliza e se revela descontente conosco, assim também, quando ele se mostra favoravelmente disposto para conosco, nossas próprias calamidades indubitavelmente nos resultarão em prosperidade e alegria. Todas as coisas devem servir a vontade do Criador, porque, segundo o seu paternal favor para conosco (conforme Paulo o reiterará no capítulo 8), ele direciona todas as provações oriundas da cruz para nossa salvação. Este conhecimento do amor divino para conosco é instilado em nossos corações pelo Espírito de Deus, pois as boas coisas que Deus preparou para aqueles que o adoram estão ocultas dos ouvidos, dos olhos e das mentes dos homens, e tão-somente o Espírito é quem pode revelá-las. O particípio derramado é bastante enfático, e significa que a revelação do amor divino para conosco é tão copiosa que enche os nossos corações. Sendo assim derramado, e permeando cada parte de nós, não só mitiga nosso sofrimento na adversidade, mas também age como um agradável condimento a transmitir graça às nossas tribulações.
Ele diz mais que o Espírito é outorgado, ou seja, ele nos é concedido pela munificência divina, cuja motivação não se acha em nós, e nem nos foi conferida com base em nossos méritos, conforme a feliz observação de Agostinho. Contudo, o mesmo Agostinho equivocou-se em sua interpretação do amor de Deus. Eis sua explicação: visto que suportamos as adversidades com persistência, então somos confirmados em nossa esperança; e visto que fomos regenerados pelo Espírito Santo, então amamos a Deus. Este pode ser um sentimento piedoso, mas não justifica a intenção de Paulo. O amor não pode ser considerado aqui em sentido ativo, mas passivo. E certo também que o que Paulo nos ensina aqui consiste em que a genuína fonte de todo o amor está na convicção que os crentes têm do amor divino por eles. Esta não é uma leve persuasão a imprimir-lhes certos matizes [à vida], senão que suas mentes são completamente permeadas por ele. 


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