03 março, 2010

0 Não Reine o Pecado em Vós - João Calvino


“Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mor­tal”(Rm 6.12,13). Ele agora dá início à sua exortação, a qual é a conseqüência natural da doutrina que pronunciara com referência à nossa comunhão com Cristo. Embora o pecado ainda resida em nós, seria algo ridículo se porventura viesse a exercer domínio sobre nós, porquanto o poder de santificação tem de ser superior ao pecado, de modo que nossa vida tenha como comprovar que verdadeiramente somos membros de Cristo.
O vocábulo corpo, como já afirmamos antes, não deve ser considerado no sentido de carne, pele e ossos, mas no sentido de todo o corpo da existencialidade humana. Certamente que podemos, com segurança, inferir isto da presente passagem, pois a outra cláusula, a qual ele resumidamente acrescentará concernente às partes do corpo, estende-se também à alma. Paulo, portanto, está a referir-se depreciativamente ao homem terreno, pois a corrupção de nossa natureza nos embaraça em nossas aspirações de tudo quanto é digno de nossa origem. Assim também em Gênesis 6.3, Deus, quando se queixa que o homem, à semelhança dos brutos, se tornou carnal, e nele nada mais resta senão uma natureza terrena. A afirmação de Cristo de que o que é nascido da carne é carne [Jo 3.6] nos leva à mesma idéia. A objeção de que há diferença no caso da alma é facilmente respondida pela afirmação de que, em nosso presente estado de degenerecência, nossas almas estão voltadas para a terra, e se acham tão escravizadas aos nossos corpos, que perdeu de vista sua própria excelência. Numa palavra, a natureza do homem é chamada corpórea [ou material], visto que ele tem sido privado da graça celestial [=privatus codestigratia\ e não passa de uma sombra ou imagem ilusória [=fallax tantum umbra vel imago\ Existe o fato adicional de que este corpo é desdenhosamente referido por Paulo como mortal, com o propósito de ensinar-nos que toda a natureza humana é entregue à morte e destruição. Ele agora denomina o pecado como sendo aquela depravação original que habita em nossos corações, e o qual nos impele a pecar e do qual propriamente fluem todas as nossas ações negativas e ímpias. O apóstolo situa a concupiscência entre o pecado e nós, de modo que o pecado, por assim dizer, se assenhoreia de nós, enquanto nossos desejos desordenados são éditos e mandamentos do pecado.
13. Nem ofereçais ao pecado os membros de vosso corpo. Uma vez que o pecado haja adquirido o domínio de nossa mente, todas as nossas faculdades são imediatamente aplicadas ao seu serviço. O apóstolo, pois, descreve aqui o reinado do pecado através de suas conseqüências, a fim de enfatizar mais nitidamente que curso devemos seguir, caso desejemos desvencilhar-nos de seu jugo. Ao referir-se aos nossos membros como instrumentos, o apóstolo está usando uma metáfora militar, como se quisesse dizer que assim como um soldado tem seus braços sempre em prontidão para fazer uso deles sempre que seu general lhe ordene, mas que jamais os usa a não ser que receba ordem de assim o fazer, também os cristãos devem considerar todos os seus membros como armas de guerra espiritual. Se, pois, impedem o uso apropriado de qualquer de seus membros, então se acharão engajados no serviço do pecado. Todavia, eles fizeram um voto de servir a Deus e a Cristo, e se vêem atados ao mesmo. Acham-se, pois, sob a obrigação de refrear toda a sua conduta nas esferas do pecado. Então, que todos aqueles, cujos membros se acham plenamente dispostos a cometer todo gênero de abominação, como se fossem eles prostitutas de Satanás, considerem aqui com que direito reivindicarão ainda o nome de cristãos.
Ao contrário disto, o apóstolo nos convida a dedicarmo-nos totalmente a Deus, de modo a podermos refrear nossos corações e mentes de vaguearem por onde as luxúrias da carne queiram conduzir-nos. A nossa busca deve ser direcionada unicamente para a vontade de Deus, sendo solícitos em receber seus mandamentos e estando sempre preparados a obedecer às suas ordens. Nossos membros, igualmente, devem ser dedicados e consagrados à sua vontade, de modo que todas as nossas faculdades, tanto da nossa alma como do corpo, aspirem tão-somente a sua glória. E há razão para tal atitude, ou seja: visto que nossa vida anterior foi destruída, não foi em vão que o Senhor nos criou outra, para que nossas ações estejam em harmonia com ela.



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