10 março, 2010

0 Morrendo uma única vez - João Calvino



E, como aos homens está ordenado (Hb 9.26-28). O significado dessa cláusula é como segue: visto que após a morte de alguém aguardamos pacientemente o dia do juízo, já que essa é a lei comum da natureza contra a qual não há que lutar, por que deveria haver menos paciência em aguardar a segunda vinda de Cristo? Se um longo intervalo de tempo não subtrai nada, em relação aos homens, da esperança de uma ditosa ressurreição, quão desditoso seria conceder a Cristo uma honra menor! Essa honra seria ainda menor, se lhe solicitássemos que suportasse a morte segunda vez, depois de tê-la suportado uma vez para sempre. Se alguém contestar, dizendo que alguns morreram duas vezes, como sucedeu a Lázaro e outros, a resposta é simplesmente esta: o apóstolo está falando, aqui, da condição ordinária dos homens, mas que isenta dessa condição os que, por uma súbita mudança, foram poupados da corrupção [1 Co 15.51], já que o apóstolo inclui somente aqueles que se encontram no pó por um longo período de tempo, aguardando a redenção de seus corpos.

Aparecerá segunda vez, sem pecado. O apóstolo recomenda uma única coisa, ou seja: que não nos perturbemos por desejos irracionais e equivocados, esperando novas modalidades de expiação, uma vez que a morte única de Cristo nos é plenamente suficiente. Diz ainda que Cristo apareceu uma vez por todas e ofereceu sacrifício para tirar o pecado; e que em sua segunda vinda manifestará de forma gloriosa a eficácia de sua morte, a fim de que o pecado não mais tenha o poder de nos ferir.

Para levar os pecados de muitos significa livrar da culpa os que pecaram, através da satisfação de Cristo. Ao dizer muitos, ele quer dizer todos, como em Romanos 5.15. Naturalmente que nem todos desfrutam dos resultados da morte de Cristo; isso, porém, sucede em decorrência de sua incredulidade, que os impede de crer. Essa questão não tem que ser tratada aqui, porquanto o apóstolo não está discutindo sobre os poucos ou sobre os muitos que desfrutam dos benefícios da morte de Cristo, mas simplesmente implica que ele morreu em favor de outros, e não de si próprio. Portanto, o seu contraste é traçado entre muitos e um.

O que ele tinha em mente quando diz que ele [Cristo] aparecerá sem pecado? Há quem o explique como sendo propiciação ou a vítima fazendo expiação pelo pecado, como em Romanos 8.3 e 2 Coríntios 5.21, bem como em tantas outras passagens em Moisés. Em minha opinião, sua intenção era expressar algo mais específico, ou seja: que Cristo, em sua segunda vinda, dará a conhecer plenamente quão realmente ele destruiu os pecados, de modo que já não haverá necessidade de outro sacrifício para satisfazer a Deus. E como se ele estivesse dizendo que quando nos aproximarmos do tribunal de Cristo, descobriremos que em sua morte nada foi deficitário.

Essa é a essência da frase que vem imediatamente: aos que o esperam para a salvação. Outros a traduzem diferentemente, assim: aos que confiam nele para a salvação. Mas o significado anterior é mais adequado, visto que o apóstolo tem em mente que aqueles que confiam com um espírito tranqüilo encontrarão plena salvação na morte de Cristo. Esse gênero de expectativa se adequa às circunstâncias do presente tema. Em outra parte [1 Ts 1.10], a Escritura tem atribuído aos crentes uma expectação comum em relação à vinda do Senhor, com o fim de distingui-los dos incrédulos, para quem a simples menção dela é algo terrível. Como o apóstolo agora mantém que devemos achar descanso no único sacrifício de Cristo, ele o chama a expectativa de Cristo, visto que quando nos sentimos satisfeitos com sua singular redenção, não iremos após novos antídotos ou suportes.




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