26 Março, 2010
0 Deus deseja Salvar todos? J. Calvino
“Pois
isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, o qual deseja que todos
os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm 2.3,4).
Isso é bom e aceitável. Havendo
demonstrado que o mandamento que ele promulgara é excelente, agora apela para
um argumento mais enérgico, a saber: que é agradável a Deus. Pois quando
sabemos que essa é a vontade de Deus, cumpri-la é a melhor que todas as demais
razões. Pelo termo, 'bom', ele tem
em mente o que é certo e lícito; e, visto que a vontade de Deus é a regra pela
qual devemos regulamentar todos os nossos deveres, ele prova que ela é justa,
porque é aceitável a Deus.
Esta passagem merece detida
atenção, pois dela podemos extrair o princípio geral de que a única norma
genuína para agir bem e com propriedade é acatar a e esperar na vontade de
Deus, e não empreender nada senão aquilo que ele aprova. E essa é também a
regra da oração piedosa, a saber: que tomemos a Deus por nosso Líder, de modo
que todas as nossas oração sejam regulamentadas por sua vontade e comando. Se
essa regra não houvera sido suprimida, as orações dos papistas, hoje, não
seriam tão saturadas de corrupções. Pois, como poderão provar que detêm a
autoridade divina para se dedicarem à intercessão dos santos falecidos, ou eles
mesmos praticarem a intercessão em favor dos mortos? Em suma, em toda a sua
forma de orar, o que poderão apresentar que seja do agrado de Deus?
Daqui
se deduz uma confirmação do segundo argumento, o fato de que Deus
deseja que todos os homens sejam salvos.
Pois, que seria mais razoável
do que todas as nossas orações se conformarem a este decreto divino?
Concluindo, ele demonstra que Deus tem no coração a salvação de todos os
homens, porquanto ele chama a todos os homens para o conhecimento de sua
verdade. Este é um argumento que parte de um efeito observado em direção à sua
causa. Pois se "o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo
aquele que crê" [Rm 1.16], então é justo que todos aqueles a quem o
evangelho é proclamado sejam convidados a nutrir a esperança da vida eterna. Em
suma, visto que a vocação [do evangelho] é uma prova concreta da eleição
secreta, então Deus admite à posse da salvação aqueles a quem ele concedeu a
bênção de participarem de seu evangelho, já que o evangelho nos revela a
justiça de Deus que garante o ingresso na vida.
A luz desse fato, fica em evidência a pueril ilusão daqueles que
crêem que esta passagem contradiz a predestinação. Argumentam: "Se Deus
quer que todos os homens, sem distinção alguma, sejam salvos, então não pode
ser verdade que, mediante seu eterno conselho, alguns hajam sido predestinados
para a salvação e outros, para a perdição." Poderia haver alguma base para
tal argumento, se nesta passagem Paulo estivesse preocupado com indivíduos; e
mesmo que assim fosse, ainda teríamos uma boa resposta. Porque, ainda que a
vontade de Deus não deva ser julgada à luz de seus decretos secretos, quando
ele no-los revela por meio de sinais externos, contudo não significa que ele
não haja determinado secretamente, em seu íntimo, o que se propõe fazer com
cada pessoa individualmente.
Mas não acrescentarei a este
tema nada mais, visto o assunto não ser relevante ao presente contexto, pois a
intenção do apóstolo, aqui, é simplesmente dizer que nenhuma nação da terra e
nenhuma classe social são excluídas da salvação, visto que Deus quer oferecer o
evangelho a todos sem exceção. Visto que a pregação do evangelho traz vida, o
apóstolo corretamente conclui que Deus considera a todos os homens como sendo
igualmente dignos de participar da salvação. Ele, porém, está falando de
classes, e não de indivíduos; e sua única preocupação é incluir em seu número
príncipes e nações estrangeiros. Que a vontade de Deus é que eles também
participem do ensinamento do evangelho é por demais óbvio à luz das passagens
já citadas e de outras afins. Não é sem razão que se disse: "Pede-me, e eu
te darei as nações por herança, e as extremidades da terra por tua
possessão" [SI 2.8]. A intenção de Paulo era mostrar que devemos ter em
consideração, não que tipo de homens são os príncipes, mas, antes, o que Deus
queria o que fossem. Há um dever de amor que se preocupa com a salvação de
todos aqueles a quem Deus estende seu chamamento e testifica acerca desse amor
através das orações piedosas.
E nessa mesma conexão que ele
chama Deus nosso Salvador, pois de qual fonte obtemos a salvação senão da
imerecida munificência divina? O mesmo Deus que já nos conduziu à sua salvação
pode, ao mesmo tempo, estender a mesma graça também a eles. Aquele que já nos
atraiu a si pode uni-los também a nós. O apóstolo considera como um argumento
indiscutível o fato de Deus agir assim entre todas as classes e todas as
nações, porque isso foi predito pelos profetas.
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