14 fevereiro, 2010

0 Tu És meu Filho - João Calvino

4. Tendo se tornado muito mais excelente que os anjos. (Hb 1.4-6).
Após promover a Cristo acima de Moisés e acima de todos os demais, o escritor agora enaltece sua glória ainda mais ao compará-lo com os anjos. Havia uma tradição comum entre os judeus de que a lei fora dada por meio de anjos. Ouviam as menções honrosas que se diziam sobre os anjos por toda a Escritura; e, assim como o mundo é fantasticamente inclinado a entregar-se à superstição, obscureceram a glória de Deus mediante uma exagerada exaltação aos anjos. No entanto, eles devem ser mantidos dentro de sua própria categoria a fim de não estorvarem a glória de Cristo. O primeiro argumento consiste em que o Nome de Cristo é muitíssimo superior ao deles, visto ser ele chamado o Filho de Deus. O escritor prova, a partir de duas evidências escriturísticas, que Cristo foi distinguido por esse título. E preciso que examinemos a ambas, e assim chegaremos à súmula da questão.
5. Tu és meu Filho. É inegável que isso se refira a Davi, até onde foi ele uma figura de Cristo [=Christi personam sustinuit]. O que está contido nesse salmo teria sido prefigurado em Davi; no entanto, acha-se expresso em Cristo. O fato de o primeiro ter estendido as fronteiras de seu reino, subjugando muitos inimigos ao redor, tornou-se um prenuncio dessa promessa - "eu te darei os povos por herança". Quão pequeno, porém, era tal fato comparado com a plenitude do reino de Cristo, que se estendeu desde o oriente até ao ocidente! Justamente por isso foi Davi chamado o filho de Deus, ou seja: particularmente escolhido por Deus para fazer grandes coisas. Mas isso não passava de uma modesta fagulha daquela glória que se manifestou em Cristo, em quem o Pai imprimiu sua própria imagem. O título Filho pertence exclusivamente a Cristo por uma singular prerrogativa, e não pode ser transferido a algum outro sem que o mesmo seja profanado. E a ele, e a nenhum outro, que o Pai selou. Em contrapartida, esse argumento do apóstolo parece estar insuficientemente fundamentado. Sobre que base ele sustenta que Cristo é superior aos anjos, exceto em ter ele o nome de Filho? E como se tal título não tivesse nada em comum com príncipes e com outros potentados detentores de eminente autoridade, de quem está escrito: Sois deuses, e todos vós sois filhos do Altíssimo; é como se o profeta não estivesse falando com o maior respeito de todo o Israel quando o chamou de primogênito de Deus [Jr 31.9). O título -filho -é atribuído a Israel por toda parte; mesmo sem contar que alhures Davi chama os anjos de filhos de Deus [SI 89.6]. "Pois quem nos céus é comparável ao Senhor? Entre os seres celestiais [filhos dos deuses], quem é semelhante ao Senhor?"
A resposta é simples. É que os príncipes eram chamados por esse nome somente em alguns aspectos; no caso de Israel, denota a graça comum da eleição; no caso dos anjos, são eles chamados filhos de Deus figurativamente, em razão de serem eles espíritos celestiais, e serem aqueles que, em sua bem-aventurada imortalidade, possuem alguns traços da divindade. Quando Davi, sem qualquer qualificação, chama a si mesmo de o filho de Deus, na pessoa de Cristo, ele denota algo muitíssimo distinto e excelente em honra tanto aos anjos quanto aos príncipes, bem como, deveras, a todo o Israel. De outra forma, seria uma maneira imprópria e estranha de falar se ele fosse chamado o filho de Deus com base em mérito, e no entanto não possuísse nada mais que os outros; ele de fato foi separado do rebanho comum e impedido de ser incluído nas coisas gerais. Já que isso é expresso exclusivamente em referência a Cristo - tu és meu Filho -, deduz-se que nenhum anjo está qualificado para tal honra. Se alguém contesta dizendo que dizer isso é dar a Davi superioridade aos anjos, respondo que não há nada de estranho em promovê-lo acima dos anjos, porquanto ele é tipo de Cristo, da mesma forma como não há qualquer injustiça feita aos anjos quando o sumo sacerdote, que fazia expiação pelos pecados, era comumente chamado o mediador. Com certeza não assumiram tal prerrogativa com base em seu próprio direito, senão que, quando representavam o governo de Cristo, também se revestiam da autoridade dele. Os próprios sacramentos, ainda que em si mesmos eram coisas mortas, todavia são distinguidos com nomes que os anjos jamais reivindicariam para si próprios sem cometer sacrilégio. Portanto, tudo indica que o argumento em relação ao termo Filho se acha bem fundamentado.
Deve-se registrar uma breve palavra sobre o termo gerado, com o fim de exclarecer que ele deve ser considerado, aqui, num sentido relativo. A sutileza de Agostinho, aqui, é completamente frívola, imaginando ele que o termo hoje significa eternidade ou para todo o sempre. Cristo é certamente o eterno Filho de Deus, visto ser ele a Sabedoria de Deus existente antes que existisse o tempo. Mas tal coisa não tem conexão alguma com a presente passagem, a qual se refere aos homens, por meio de quem Cristo foi reconhecido como o Filho de Deus somente depois que o Pai assim o revelou. Daí que a declaração que Paulo faz em Romanos 1.4 tinha, por assim dizer, uma forma externa de eternidade. A primeira declaração, que precedera a esta, era oculta e interna, bem como desconhecida dos homens. Aliás, nenhuma consideração poderia ter sido exigida a esse respeito se o Pai não o provasse por meio de revelação visível.
Eu lhe serei Pai. No tocante a essa segunda citação, a observação anterior é igualmente válida, não obstante a referência aqui ser a Salomão, que era em outros aspectos inferior aos anjos; quando Deus lhe prometeu que seria seu Pai, ele foi elevado acima do nível comum dos homens. Deus não seria Pai para ele como um dos filhos de Abraão, ou um dos patriarcas, mas como aquele que possui preeminência sobre todos os demais. Por esse mesmo privilégio, por meio do qual ele se tornou filho, todos os demais são excluídos de igual honra. E evidente, à luz do contexto da passagem, que isso se diz de Salomão só até onde ele era tipo de Cristo; pois o reino do mundo inteiro se acha estabelecido sobre o Filho que é ali mencionado, e que o seu reino é proclamado como sendo para sempre. Por outro lado, todos concordam que o reino de Salomão esteve circunscrito dentro de estreitas fronteiras, e foi de tão pouca duração que imediatamente após sua morte foi o mesmo dividido, e então, depois de algum tempo, desmoronou-se completamente. No salmo, o sol e a lua são citados como testemunhas, e o Senhor jura que, enquanto brilharem no céu, esse reino permanecerá incólume. Em contrapartida, o reino de Davi desmoronou-se depois de um curto espaço de tempo, e por fim desintegrou-se completamente. Demais, é evidente, à luz de várias passagens nos profetas, que essa promessa não foi considerada em qualquer outro sentido senão como a referir-se a Cristo, de modo que ninguém pode contestar, afirmando que esse comentário é uma novidade. É à luz dessa passagem que o costume comum dos judeus, de denominar Cristo de Filho de Davi, recebeu seu incentivo.
6. E novamente, ao introduzir o primogênito no mundo. Ele agora adiciona outro argumento em torno do fato de Cristo achar-se acima dos anjos, a saber: porque aos anjos é ordenado que o adorem. Segue-se, portanto, que ele é seu Cabeça e Príncipe. Mas pode parecer que seja errôneo, e mesmo uma adulteração, atribuir a Cristo o que é aplicado única e exclusivamente a Deus. Se respondermos que Cristo é Deus eterno, e que o que é próprio de Deus é perfeitamente aplicável a ele, nem todos ficarão satisfeitos. Pois não valeria muito apresentar provas de uma proposição duvidosa, apoiando-se em argumentos extraídos dos atributos comuns de Deus. O apóstolo está tratando da manifestação de Cristo na carne, e afirma expressamente que o Espírito assim falou quando ele foi introduzido no mundo, o que não teria sido dito com propriedade caso o salmo não estivesse falando realmente da manifestação de Cristo. E esse deveras é o caso. O início do salmo é um convite ao regozijo. Davi dirige-se não aos judeus, mas a toda a terra, às ilhas mais longínquas, ou seja, às terras para além dos mares. E a razão apresentada consiste em que o Senhor reinará. Se você transitar por todo o salmo, não encontrará nada senão o reino de Cristo, o qual começa com a proclamação do evangelho. O tema do salmo é simplesmente a solene missão para a qual Cristo é enviado com o fim de tomar posse de seu reino. Por que haveria algum regozijo oriundo de seu governo, senão que todo mundo se salvaria, ou seja, tanto gentios quanto judeus? Portanto, o apóstolo fala apropriadamente, quando diz que ele é introduzido no mundo, porquanto o que é descrito aqui é seu advento ao seio da humanidade. O termo hebraico, aqui traduzido para 'anjos', é Elohim, que significa 'deuses'. Não há a menor sombra de dúvida de que o profeta esteja falando de anjos, porque o significado consiste em que não há poder tão exaltado que não esteja sujeito ao governo desse Rei, em cuja vinda o mundo inteiro se regozijará. 


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