01 fevereiro, 2010

0 Quem Morreu Justificado Está - J. Calvino

7. Porquanto, quem morreu, justificado está do pecado. (Rm 6.7-11).
Este é um argumento derivado da natureza inerente ou efeito da morte. Se a morte destrói todas as ações da vida, então nós, que já morremos para o pecado, devemos cessar com aquelas ações que o pecado exerce durante a trajetória de sua existência [terrena]. O termo justificados, aqui, significa libertados ou recuperados da escravidão. Assim como o prisioneiro que é absolvido da sentença do juiz, se vê livre do vínculo de sua acusação, também a morte, livrando-nos desta presente vida, nos faz livres de todas as nossas responsabilidades.
Além do mais, embora este seja um exemplo que não pode ser encontrado em parte alguma entre os homens, contudo não há razão para considerar esta afirmação como uma especulação fútil, nem razão para desespero por não nos acharmos no número daqueles que crucificaram completamente sua carne. Esta obra divina não se completou no momento em que teve início em nós, mas se desenvolve gradualmente, e diariamente avança um pouco mais até chegar à sua plena * consolidação. Podemos sumariar este ensino de Paulo da seguinte forma: "Se porventura és cristão, então deves revelar em ti mesmo pelo menos um sinal de tua comunhão na morte de Cristo [communionis cum morte Christi]; e o fruto disto consiste em que tua carne será crucificada juntamente com todos os desejos dela. Não deves presumir, contudo, que esta comunhão não é real só porque ainda encontras em ti traços de carnalidade em plena atividade. Mas é forçoso que continuamente encontres também traços de crescimento em tua comunhão na morte de Cristo, até que alcances o alvo final." Já é suficiente que o crente sinta que sua carne está sendo continuamente mortificada, e ela não avança mais enquanto o Espírito Santo tem sob seu controle o miserável reinado exercido por ela [carne]. Há ainda outra comunhão [-communicatio] na morte de Cristo, da qual o apóstolo fala com freqüência, como em 2 Coríntios 4.10-18, a saber: o suportar a cruz, ação esta seguida de nossa participação [ -consortium] na vida eterna.
8. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos. Seu único propósito em reiterar esta afirmação consiste em adicionar a declaração que vem em seguida, ou seja: que havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre, Com isto ele deseja ensinar-nos o dever imposto aos cristãos de perseguirem esta nova forma de vida ao longo de toda a sua vida. Se têm de levar em si a imagem de Cristo, seja por meio da mortificação da carne, seja por meio do viver no Espírito, esta mortificação da carne deve ser concretizada de uma vez por todas, enquanto a vida no Espírito jamais deve cessar. Isto não acontece, como já declaramos, porque nossa carne é mortificada em nós em um momento, mas porque não podemos retroceder de conduzi-la à destruição até à morte. Se porventura voltarmos às nossas próprias imundícias, então negamos a Cristo, pois a condição para termos comunhão com ele é tão-somente pelo caminho da novidade de vida, assim como ele mesmo vive uma vida incorruptível.
9.  A morte não mais tem domínio sobre ele. Paulo parece dar a entender que a morte uma vez exerceu domínio sobre Cristo. E deveras, quando entregou-se à morte em nosso fa­vor, em certa medida ele entregou-se e sujeitou-se ao seu poder, na condição, contudo, de que era-lhe impossível ser detido ou vencido pelas dores mortais ao ponto de sucumbir ou ser totalmente absorvido por ela [At 2.24]. Portanto, ao submeter-se ao seu domínio por um leve momento, ele a destruiu para sempre. Entretanto, traduzindo em termos mais simples, o domínio da morte é uma referência à condição voluntária da morte de Cristo, o qual terminou com a ressurreição dele [Cristo]. O significado aponta para o fato de que Cristo, que agora comunica vida aos crentes por meio de seu Espírito, ou inspira sua própria vida neles pelo seu secreto poder que promana do céu, ficou livre do domínio da morte quando ressuscitou dentre os mortos, a fim de libertar todo o seu povo desse mesmo domínio.
10.   Ele morreu uma vez por todas. O apóstolo afirmara que, em conseqüência do exemplo de Cristo, ficamos para sempre livres do jugo da morte. Ele agora aplica sua afirmação, declarando que não estamos mais sujeitos à tirania do pecado [2 Tm 1.10]. Ele prova isto a partir da causa final da morte de Cristo, pois ele morreu com o fim de destruir o pecado.
Devemos notar também a referência a Cristo nesta forma de expressão. Ele não afirma estar morto para o pecado com o propósito de não mais cometê-lo - como diríamos em nosso próprio caso -, mas porque ele morreu em relação ao pecado, de modo que, ao constituir-se um resgate, ele aniquilou o poder e autoridade do pecado. O apóstolo diz que Cristo morreu uma única vez [Hb 10.14], não só porque tenha ele santificado os crentes para sempre pela redenção eterna que granjeou por sua única oblação, e porque consumou a purificação dos pecados deles por meio de seu sangue, mas
também com o propósito de estabelecer a semelhança comum entre nós e o Redentor [ut in nobis quoque mutua similitudo respondeat]. Ainda que a morte espiritual faça contínuo progresso dentro de nós, todavia pode-se propriamente dizer que morremos uma vez, a saber: quando Cristo nos reconcilia com seu Pai por meio de seu sangue, e também nos regenera concomitantemente pelo poder de seu Espírito.
Mas, quanto a viver, vive para Deus. Quer leiamos com Deus ou em Deus, o sentido permanece o mesmo. Paulo está mostrando que Cristo agora possui, no reino imortal e incorruptível de Deus, uma vida não mais sujeita à mortalidade. Um tipo desta vida imortal evidencia-se na regeneração dos piedosos. Devemos reter em nossa mente, aqui, a palavra semelhança. Paulo não diz que vivemos no céu, como Cristo vive, mas ele faz com que a nova vida que vivemos na terra, em conseqüência de nossa regeneração, sejzijfual [=conformem] à sua vida celestial. Sua afirmação de que morremos para o pecado em conseqüência do exemplo de Cristo, não significa que nossa morte seja exatamente como a dele, pois morremos para o pecado quando o pecado morre em nós. No caso de Cristo, existe uma diferença, pois foi através de sua morte que ele destruiu o pecado. O apóstolo declarou anteriormente que cremos que seremos participantes da vida de Cristo. A palavra crer claramente mostra que ele está falando da graça de Cristo. Estivesse ele apenas nos advertindo em relação ao nosso dever, então teria expressado assim: "Visto que morremos com Cristo, devemos, então, viver uma vida semelhante à dele." O verbo crer denota que o apóstolo está aqui tratando da doutrina da fé, que é encontrada nas promessas, como se dissesse: Os crentes devem estar seguros de que sua mortificação na carne, através dos benefícios de Cristo, é tal que ele mesmo manterá a novidade de vida deles até ao fim." O tempo futuro do verbo viver não se refere à ressurreição final, mas simplesmente denota o curso contínuo de nossa nova vida em Cristo, enquanto formos peregrinos na terra.
11. Assim também vós, considerai-vos mortos para o pecado. Ele agora adiciona a definição de sua analogia [-analogiae definitio] a que tenho referido. Ele nos aplica as duas afirmações concernentes ao fato de Cristo morrer para o pecado uma vez por todas e viver eternamente para Deus, e nos instrui em como devemos agora morrer enquanto vivemos, ou seja: pela renúncia do pecado. Entretanto, ele não omite a outra parte da analogia, isto é, como vamos viver depois de termos uma vez para sempre abraçado a graça de Cristo mediante a fé. Embora a mortificação de nossa carne esteja apenas começando em nós, todavia a vida de pecado está destruída por este mesmo expediente, de modo que a nossa renovação espiritual, a qual é de caráter divino, venha a continuar para sempre. Se Cristo por fim não destruísse o pecado em nós, então sua graça seria carente de estabilidade e continuidade.
Portanto, o significado desta passagem é o seguinte: "Eis a posição que deves assumir, em teu caso: assim como Cristo, uma vez por todas, morreu para destruir o pecado, também deves morrer uma vez por todas a fim de que, no futuro, cesses de pecar. De fato, deves progredir diariamente na mortificação de tua carne, a qual já teve início em ti, até que o pecado seja de vez erradicado. Assim como Cristo ressuscitou para uma vida incorruptível, também deves ser regenerado pela graça de Deus, a fim de seres guiado por toda a tua vida em santidade e justiça, visto que o poder do Espírito Santo, por meio do qual foste renovado, é eterno, e florescerá para sempre." Prefiro, contudo, reter as palavras de Paulo, em Cristo Jesus, em vez da tradução de Erasmo, por Cristo Jesus, visto que aquela comunica mais claramente o ato de enxertar, pelo qual somos feitos um com Cristo. 


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