23 fevereiro, 2010

0 O Evangelho de Seu Filho – João Calvino

Antes de tudo, sou grato a meu Deus.(Rm 1.8). A introdução à presente passagem é a mais adequada ao caso que Paulo queria apresentar, visto que ele aproveita a oportunidade de prepará-los para receberem seu ensinamento por razões relacionadas tanto com ele como com eles próprios. Seu argumento tinha por base o que sabia sobre eles. Assim evoca a notória fama da fé deles, insinuando que, se são honrados com a pública aprovação das igrejas, então não podem rejeitar o apóstolo do Senhor sem frustrar o bom nome de que desfrutavam universalmente. Tal conduta seria uma descortesia e de certa forma uma violação da confiança. Como essa reputação [dos romanos] deve, pois, com boas razões, ter induzido o apóstolo, que formara um conceito positivo acerca de sua obediência, a empreender o ensino e a instrução deles de acordo com o seu ofício, assim se viram obrigados a não desdenhar de sua autoridade. Ele os dispôs a assumirem uma atitude receptiva de acordo com um exame de seu próprio caráter, ao testificar sua sincera afeição para com eles. Não há nada mais eficaz em garantir a confiança num conselheiro do que a impressão que fica de que ele está sinceramente solícito por nós, e que se põe a investigar nossos interesses.
E digno de nota, acima de tudo, o fato de que Paulo exalta a fé deles, de tal maneira, que deixa subentendido que a haviam recebido de Deus mesmo. Daqui aprendemos que a fé ê um dom de Deus. Se ação de graça é o reconhecimento de um benefício, todo aquele que agradece a Deus por sua fé reconhece que ela é irai dom [provindo] dele. Ao descobrirmos que o apóstolo sempre inicia suas congratulações com ação de graça, descobrimos que a lição que nos é transmitida consiste em que todas as nossas bênçãos são também dons divinos. Devemos igualmente habituar-nos a tais formas de expressão, e as mesmas nos despertam sempre mais ardentemente a fim de reconhecermos a Deus como o Doador de todas as boas dádivas, e estimularmos a outrem para, ao mesmo tempo, cultivarem atitude similar. Se é correto proceder assim em relação às pequenas bênçãos, quanto mais em se tratando da fé, a qual nem é uma banalidade nem um dom indiscriminado de Deus. Além do mais, temos aqui uma ilustração de como a ação de graça deve ser oferecida através de Jesus Cristo, segundo o mandamento do apóstolo em Hebreus 13.15, o qual nos mostra que é em Seu nome que devemos buscar e achar misericórdia da parte do Pai. Finalmente, Paulo se refere a Deus como meu Deus. Este é um privilégio especial de que o fiel desfruta, a quem Deus, exclusivamente, concede tal honra. Há implícita aqui uma mútua relação, a qual é expressa na promessa: "E sereis o meu povo, e eu serei o vosso Deus" [Jr 30.22], ainda que prefira restringir a frase ao caráter que Paulo portava como marca da aprovação divina à obediência que ele prestava ao Senhor na pregação do evangelho. Daí Ezequias denominá-lo de o Deus de Isaias, quando deseja declarar que este era um genuíno e fiel profeta [Is 37.4]. Assim também Deus é chamado par excellence [=por excelência'] o Deus de Daniel, visto que Daniel havia conservado a pureza do culto divino [Dn 6.20].
Porque em todo o mundo está sendo proclamada a vossa
fé. A aprovação por parte de homens honrados era para Paulo equivalente à apreciação que o mundo todo fazia em relação à fé dos romanos, já que o testemunho de incrédulos, que detestavam a fé, não podia ser sincero e creditável. Devemos, pois, entender que a fé dos romanos estava ecoando por todo o mundo, por parte de todos os fiéis que eram capazes de formar seu próprio juízo sobre ela e transmitir um juízo justo dela. O fato de que este pequeno grupo de homens desprezíveis ser desconhecido dos incrédulos, mesmo em Roma, não significava nada, visto que seu veredito não tinha a menor importância para Paulo.
9. Pois Deus é minha testemunha. Ele demonstra seu amor através de seus efeitos. Não houvesse Paulo se lhes afeiçoado tanto, não os teria recomendado ao Senhor com tanta solicitude. Ele não teria, particularmente, desejado tão ardentemente promover a salvação deles através de seus próprios esforços. Seu desvelo e desejo, pois, eram provas inequívocas de sua afeição por eles, pois estas atitudes não podem jamais existir a menos que sua fonte esteja radicada no amor. Contudo, visto que Paulo tinha consciência de que era indispensável convencer os romanos de sua sinceridade para com eles, a fim de estabelecer a confiança em sua pregação, ele acrescenta um juramento - caminho inevitável de toda e qualquer assertiva que precisa ser estabelecida com isenção de qualquer dúvida, a fim de ser aceita. Se um juramento é um mero apelo a Deus para a confirmação do que vamos dizer, devemos atribuir sabedoria ao juramento do apóstolo, o qual ele assumiu sem com isso infringir o mandamento de Cristo.
É evidente disto que não era o propósito de Cristo (como os anabatistas supersticiosamente concluem) abolir sumariamente os juramentos, senão que, ao contrário, restaura a legítima observância da Lei. Esta, ao permitir um juramento, condena tão-somente o perjúrio e a promessa desnecessária no juramento. Portanto, se vamos fazer um juramento de maneira apropriada, devemos imitar a seriedade e atitude reverente que foram demonstradas pelos apóstolos. Entretanto, para entendermos esta forma de juramento, é necessário que entendamos que, ao evocarmos a Deus como testemunha, evoquemo-lo como Aquele que comuta uma falta se juramos dolosamente, como Paulo afirma alhures, nestas palavras: "Eu, porém, por minha alma, tomo a Deus por testemunha... [2 Co 1.23].
A quem sirvo em meu espírito. Já que indivíduos irreverentes e zombadores de Deus cultivam o hábito de escudar-se em Seu Nome como mero pretexto, tanto em busca de segurança como para dissimular sua pretensão, Paulo aqui recomenda sua própria devoção a fim de assegurar-se da confiança dos romanos. Aqueles que se revestem do temor do Senhor e de reverência para com ele se retrairão de assumir qualquer falso juramento. Paulo, igualmente, firma seu espírito contra qualquer aparência externa de religião. Visto que muitos gostam de passar por adoradores de Deus, e conservam a aparência externa como tais, ele testifica que adora a Deus desde os recessos de seu coração. E possível também que ele esteja fazendo alusão às cerimônias antigas, nas quais os judeus baseavam o culto divino. O que ele pretende dizer, portanto, é que, embora não estivesse preparado para sua prática, não obstante era um sincero adorador de Deus, como afirma em Filipenses 3.3: "Porque nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne. Ele, pois, se gloria no fato de que servia a Deus com um coração sinceramente devotado, o que consiste na religião genuína e no culto legítimo.
Como já mencionei acima, era também de suma importância para Paulo que declarasse sua devoção a Deus, a fim de que o seu juramento viesse a ser prontamente crido» O perjúrio, para os ímpios, é objeto de escárnio, enquanto que, para o crente piedoso, ele é muito mais temido do que mil mortes. Onde existe um real temor de Deus, deve igualmente existir um real respeito por seu Nome. Portanto, é como se Paulo estivesse dizendo que estava bem cônscio da sacralidade do juramento e da reverência requerida ao pronunciá-lo, e que não estava levianamente evocando a Deus como testemunha, como os irreverentes costumam fazer. Seu exemplo pessoal, pois, nos ensina que, ao fazermos um juramento, devemos evidenciar profundo respeito pelo Nome de Deus, o qual usamos em nossa conversação, para que o mesmo conserve sua devida autoridade. Ele, pois, prova, a partir de seu próprio ministério, que sua adoração dedicada a Deus não emana de mera pretensão. A mais plena evidência de sua devoção à glória de Deus foi a própria negação que ele fez de si mesmo, e o fato de não hesitar a encarar todas as misérias traduzidas nas reprovações, na pobreza, na morte e no ódio, ao promover o reino de Deus.
Alguns interpretam esta cláusula como se Paulo quisesse enaltecer o culto que declarou prestar a Deus porque estava em harmonia com o mandamento do evangelho, no qual um culto espiritual nos é imposto. A primeira interpretação é de todas a melhor, ou seja: ele dedicava seu serviço a Deus na pregação do evangelho. Nesse ínterim, contudo, ele se distingue dos hipócritas que ocultavam outros motivos além do culto devido a Deus, visto que a maioria deles era dominada pela ambição ou algo parecido, e se achavam longe de desincumbir-se de seu ministério fiel e devotadamente. A conclusão consiste em que Paulo é sincero em seu ofício magisterial, pois falar de sua própria devoção é algo bem apropriado para o caso par­ticular em mãos. Deduzimos disto alguns pontos úteis, os quais devem somar não pouco encorajamento aos ministros do evangelho, quando ouvem que ao pregar o evangelho estão prestando um aceitável e valioso serviço a Deus. Há porventura algo que deve impedi-los de procederem assim quando sabem que seu labor é muitíssimo agradável e aprovado por Deus, e deve ser considerado como um sublime culto? Paulo, finalmente, chama-o o evangelho de seu Filho. E por meio dele que Cristo se faz conhecido, e este é designado pelo Pai para o glorificar, quando, em contrapartida, ele mesmo é glorificado. 



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