09 fevereiro, 2010

0 Não me Envergonho do Evangelho - João Calvino

(Rm.1.16,17). O apóstolo antecipa uma objeção, aqui, declarando de antemão que não se deixava intimidar pelos escárnios dos ímpios. Ao proceder assim, no entanto, ele aproveita a oportunidade para enaltecer os méritos do evangelho, a fim de que ele não viesse a ser desdenhado pelos romanos. Ao afirmar que não se sentia envergonhado em relação ao evangelho, ele insinua que o mesmo era de fato desprezível aos olhos do mundo. Desta forma os prepara para suportarem os sofrimentos provenientes da cruz de Cristo, para que não viessem a subestimar o evangelho ao verem-no exposto à cólera e ao menosprezo dos ímpios. Contudo, em contrapartida o expõe aos crentes como sendo ele de supremo valor. Se acima de tudo o poder de Deus tem de ser sublimemente considerado, então que se saiba que este poder emana do evangelho. Se é indispensável que busquemos e amemos a benevolência [divina], então que se saiba que o evangelho é o instrumento dessa benevolência, e é indispensável que a mesma seja honrada e valorizada, visto que todo respeito é devido ao poder de Deus, e que devemos amá-lo à medida que a nossa salvação vai sendo assegurada.
Notemos bem quanto valor Paulo atribui ao ministério da Palavra, ao declarar que Deus exerce seu poder nela para nossa salvação. Ele aqui não está falando de alguma revelação secreta, e, sim, da pregação por meio da expressão verbal que vem dos lábios. Segue-se disto que aqueles que se retraem de ouvir a Palavra proclamada estão premeditadamente rejeitando o poder de Deus e repelindo de si a mão divina que pode libertá-los.
Visto que Deus não opera eficazmente em todos os homens, mas só quando o Espírito ilumina os nossos corações como seu Mestre, ele adiciona todo aquele que crê. O evangelho é deveras oferecido a todos para sua salvação, mas o seu poder não é universalmente manifestado. O fato de que o evangelho é aroma de morte para os ímpios não vem tanto de sua própria natureza, mas da própria perversidade humana. Ao determinar um caminho de salvação, ele elimina a confiança em quaisquer outros caminhos. Quando os homens se retraem desta salvação singular, eles encontram no evangelho uma segura evidência da própria ruína deles. Quando, pois, o evangelho convida a todos a participarem da salvação, sem qualquer distinção, ele é corretamente designado m doutrina da salvação, Pois Cristo é nele oferecido, cujo ofício particular é salvar aquele que se acha perdido, e aqueles que recusam ser salvos por Cristo encontrarão nele o seu próprio Juiz. Na Escritura, a palavra salvação é estabelecida em oposição à palavra morte; e quando ela ocorre, devemos considerar qual é o tema em discussão. Portanto, visto que o evangelho livra da ruína e da maldição da morte eterna, a salvação que ele assegura não é outra coisa senão a vida eterna.
Do judeu primeiro, e também do grego. Ao termo grego, aqui, Paulo inclui todos os gentios, como prova a comparação, pois sua intenção era incluir nas duas classes toda a raça humana. E provável que sua escolha desta nação em particular foi com o intuito de designar outras nações, porque, primeiramente, os gregos foram, depois dos judeus, os primeiros a serem admitidos na participação do evangelho do [novo] pacto; e, segundo, porque os gregos tinham melhor conhecimento que os judeus, em virtude de sua proximidade geográfica e do difundido conhecimento de sua língua. Usando uma figura de linguagem, ele, pois, une gentios e judeus na participação do evangelho, sem privar os judeus de sua eminência e posição, visto que gozavam de primazia nas promessas e vocação. Paulo, pois, mantém os judeus em suas prerrogativas, mas imediatamente inclui os gentios como sendo participantes com os judeus nas bênçãos do evangelho, embora em grau inferior.
17. Pois nele é revelada a justiça de Deus de fé em fé.
Esta é uma explicação e confirmação da cláusula precedente, a qual afirma que o evangelho é "o poder de Deus para a salvação.55 Se porventura buscarmos a salvação, ou seja, a vida com Deus, devemos antes buscar a justiça, por meio da qual possamos reconciliá-lo conosco, e tomar posse dessa vida que consiste exclusivamente em sua munificência, a saber, em ser-nos ele favorável. Para sermos amados por Deus, devemos an­tes ser justos diante de seus olhos, porquanto ele odeia a injustiça. Significa, pois, que não podemos obter a salvação de nenhuma outra fonte senão do evangelho, visto que Deus de nenhuma outra parte nos revelou sua justiça, a qual é a única que nos livra da morte. Esta justiça, a base de nossa salvação, é revelada no evangelho, daí dizer-se que o evangelho ê o poder de Deus para a salvação! Desta forma, o nosso argumento se move da causa para o efeito.
Notemos ainda mais quão raro e valioso é o tesouro que Deus nos concede em seu evangelho, a saber: a comunicação de sua justiça. Pela expressão justiça de Deus entendo aquela justiça que é aprovada em seu tribunal, ao contrário daquela que é atribuída e contada como justiça no conceito dos homens; embora seja esta uma mera trivialidade, é geralmente referida como a justiça dos homens. Paulo, entretanto, indu­bitavelmente está aludindo às tantas profecias nas quais o Espírito está do começo ao fim estabelecendo a justiça divina no futuro reino de Cristo. Alguns comentaristas explicam o significado como sendo a justiça que nos é dada por Deus. Certamente concordo que as palavras nos conduzem a este significado, visto que Deus nos justifica por meio de seu evangelho, e assim nos salva. Não obstante, o primeiro sentido parece-me mais ajustável, embora não pretenda gastar demasiado tempo com esta questão. E da maior importância o fato de que alguns eruditos acreditam que esta justiça consiste não só na livre remissão de pecados, mas, em parte, também na graça da regeneração. Eu creio, contudo, que somos restaurados à vida porque Deus gratuitamente nos reconcilia consigo, como mais tarde mostraremos mais amplamente em seu devido lugar.
Em lugar da expressão, a todo aquele que crê à qual tinha usado antes, ele, acima, agora diz pela fé. A justiça é oferecida por meio do evangelho e recebida por meio da fé. Ele adiciona em fé, pois enquanto nossa fé prossegue e o nosso conhecimento progride, a justiça de Deus cresce em nós e sua possessão é em certo grau confirmada. Desde o primeiro momento em que provamos o evangelho, contemplamos já o semblante de Deus voltado para nós favoravelmente, ainda que a certa distância. Quanto mais aumenta nosso conhecimento da genuína religião, mais vemos a graça divina com maior nitidez e mais familiaridade, como se ele se achegasse para mais perto de nós. A sugestão de que há aqui uma comparação implícita entre o Velho e o Novo Testamentos é mais sutil do que sólida, porquanto Paulo não está aqui comparando conosco os pais que viveram sob a Lei, senão que está caracterizando o progresso diário de cada crente.
Como está escrito: Mas o justo viverá pela fé. Ele prova a justiça da fé pela autoridade do profeta Habacuque que, ao predizer a destruição dos soberbos, acrescenta concomitantemente que o justo vivem pela fé. A única maneira de vivermos na presença de Deus é por meio da justiça. Portanto, segue-se que a nossa justiça depende da fé. O verbo no tempo futuro designa a perpetuidade ininterrupta da vida de que ele está se referindo, como se dissesse: Ela não continuará por algum tempo, mas durará para sempre. Os ímpios são também inflados com a ilusão de que têm vida, mas enquanto dizem: Paz e segurança, lhes sobrevirá repentina destruição [1 Ts 5.3]. O que lhes toca, portanto, é uma sombra que dura só por algum tempo, enquanto que a fé dos justos é a única que traz vida perene. Qual é a fonte dessa vida senão a fé que nos conduz a Deus e faz nossa vida depender dele? A referência que Paulo faz desta passagem de Habacuque seria irrelevante, a menos que o profeta intencionasse que só nos mantemos firmes quando descansamos em Deus, pela fé. Ele atribui a vida dos ímpios à fé somente até ao ponto em que renunciam a soberba do mundo e se mantêm reunidos exclusivamente sob a proteção divina. É verdade que Habacuque não trata explicitamente só desta questão, e nem faz qualquer menção da justificação gratuita, mas é suficientemente evidente, à luz da natureza da fé, que esta passagem é corretamente aplicável ao nosso presente tema. De seu argumento, necessariamente inferimos também a mútua relação entre a fé e o evangelho, porque, visto que é dito que o justo vive por sua fé, é-nos dito também que tal vida só pode ser recebida por meio do evangelho.
Veremos agora o ponto principal ou cardinal da primeira parte desta Epístola, a saber: que esta idéia não se acha ainda literalmente expressa por Paulo, mas, pela dedução que se segue, se vê facilmente que a justiça tem seu fundamento na fé, se a mesma se acha apoiada totalmente na misericórdia de Deus. 



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