06 fevereiro, 2010

0 Cristo - A exata expressão do Pai - João Calvino



Sendo ele o resplendor da sua glória e a expressa imagem do seu Ser, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo ele mesmo feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade nas alturas,(Hb 1.3).


Que sendo o fulgor de sua glória. - Essa expressão tem referência em parte à natureza divina de Cristo, e em parte ao seu revestir-se de nossa carne. O que é descrito como "o fulgor de sua glória e a própria imagem de sua substância" pertence propriamente dito à sua divindade; o restante tem referência à sua natureza humana. Tudo, porém, se acha registrado com o fim de proclamar a dignidade de Cristo.

Justamente por isso, o Filho é denominado "o fulgor de sua glória e a própria imagem de sua substância". Ambos os termos pertencem à linguagem comum. Em questões tão imensas e tão profundas nada se pode dizer senão por meio de analogia [=similitudine] extraída das coisas pertencentes à esfera do que é concreto. Também não há necessidade de discutirmos com demasiada sutileza como o Filho, que é de uma mesma essência com o Pai, é a glória fulgurante de seu esplendor. Devemos admitir que há certa medida de impropriedade [-irnpropriwn quodammodo] no que é extraído das coisas terrenas e aplicado à majestade oculta de Deus. Ao mesmo tempo, as coisas que são perceptíveis pelos nossos sentidos são apropriadamente aplicadas a Deus, para que possamos discernir o que deve ser encontrado em Cristo e quais os benefícios que isso nos traz. Deve-se também observar que esse não é um ensino de fúteis especulações, e, sim, a exposição de uma inabalável doutrina de fé. Devemos, portanto, aplicar esses títulos de Cristo para o nosso próprio benefício, visto que eles têm relação direta conosco. Quando você ouve que o Filho é a glória da glória do Pai, tenha em mente que a glória do Pai lhe é invisível até que ela resplandeça em Cristo. E essa é a razão por que ele é chamado a própria imagem da substância divina, porque a majestade do Pai é oculta, até que ela se revele como uma expressão da própria imagem divina. Os que ignoram essa relação, e especulam a esmo, se apoquentam sem nenhum propósito, só porque não atentam para o argumento do apóstolo. Sua intenção não era descrever a semelhança do Pai com o Filho dentro da Deidade, mas, como tenho dito, edificar de maneira frutífera nossa fé, a fim de sabermos que Deus não nos é revelado de outra maneira senão em Cristo. O fulgor da substância de Deus é tão forte que fere nossos olhos, até que ela se nos projete na Pessoa de Cristo. Segue-se disso que somos cegos para a luz de Deus, a menos que ela nos ilumine em Cristo. Eis aqui, deveras, uma filosofia mui útil, para que nos apercebamos da excelência de Cristo por meio de um genuíno senso de fé e por meio de nossa experiência pessoal. Como já disse, devemos ter similar entendimento dessa imagem: Deus, em si e por si mesmo, nos será incompreensível, até que sua forma nos seja revelada no Filho.

Pelo termo usado ele não quer dizer outra coisa senão a luz ou radiância visível, a qual é perceptível aos nossos olhos; a forma viva de uma substância oculta. O primeiro termo nos lembra que à parte de Cristo não há luz alguma, senão trevas ininterruptas. Visto que Deus é a única luz pela qual devemos todos ser iluminados, então tal luz só é projetada sobre nós (por assim dizer) por meio dessa irradiação. O último termo nos lembra que Deus só é conhecido verdadeira e solidamente em Cristo. Sua semelhança não é apenas velada e secreta, senão que é uma imagem expressa que representa Deus mesmo, assim como uma moeda traz a imagem do sinete daquele que a mandou cunhar. Aliás, o apóstolo vai mais longe e afirma que a substância do Pai se acha de alguma forma gravada em Cristo. O termo substância denota (em minha opinião) não o ser ou a essência do Pai, e, sim, a sua Pessoa. Seria absurdo dizer que a essência de Deus é impressa em Cristo, visto que uma e a mesma é a essência de ambos. Entretanto, é correto e apropriado dizer que tudo quanto é peculiar ao Pai é igualmente expresso em Cristo, de modo que, quem o conhece, também conhece tudo quanto está no Pai. Os pais ortodoxos também tomaram hypostasis nesse sentido, como sendo tríplice em Deus, enquanto que (oúaía), como sendo una. Hilário, do começo ao fim, considera o termo latino, substantia, como equivalente pessoa. Além do mais, embora nãó seja o propósito do apóstolo, aqui, discutir a natureza de Cristo propriamente dita, mas sua natureza como nos é revelada, não obstante ele refuta suficientemente os arianos e os sabelianos, atribuindo a Cristo o que pertence exclusivamente a Deus, e distinguindo, ao mesmo tempo, as duas pessoas separadamente - o Pai e o Filho. Conseqüentemente, inferimos que o Filho é um só Deus com o Pai, ainda que seja, não obstante, apropriadamente de tal maneira distinto que cada um mantém sua própria substância.

E sustentando todas as coisas. Sustentar é usado no sentido de cuidar e de conservar toda a criação em seu próprio estado. Ele percebe que tudo se desintegraria instantaneamente se não fosse sustentado por sua munificência. O pronome demonstrativo 'seu' pode ser aplicado em referência tanto ao Pai quanto ao Filho: pode ser traduzido como [poder] 'do Pai' ou 'seu próprio' [poder]. Sinto-me inclinado a aceitar a última tradução, visto que ela é mais amplamente aceita e melhor se adequa ao contexto. Literalmente, lê-se "pela Palavra de seu poder", mas o genitivo tem a força de um adjetivo em concordância com o idioma hebreu. Não há nenhum apoio para a tortuosa explicação de alguns sobre o fato de Cristo sustentar todas as coisas pela Palavra do Pai, quando ele mesmo é a Palavra. Não há qualquer necessidade de uma exposição tão forçada, pois Cristo não é chamado (pnua), e, sim, (yoyc). Palavra, aqui, significa simplesmente vontade, e a essência de tudo consiste em que Cristo é quem sustenta o mundo inteiro tão-somente pela instrumentalidade de sua vontade, ainda que não tenha recusado a tarefa de efetuar nossa purificação.

Essa é a segunda seção da doutrina que é tratada nesta Epístola. Toda a discussão se acha expressa dentro desses dois tópicos - que Cristo, a quem é dada a suprema autoridade, deve ser ouvido antes de todos os demais; e assim como por meio de sua morte nos reconciliou com o Pai ele pôs fim aos antigos sacrifícios. Eis a razão por que essa primeira sentença, que se encontra na forma de uma proposição geral, contém duas partes. Quando o escritor diz: por si mesmo, que entender-se que existe aqui uma antítese implícita, ou seja: que ele não foi auxiliado, em seu propósito, pelas sombras da lei mosaica. Ele mostra uma nítida diferença entre Cristo e os sacerdotes levíticos. Na verdade lhes foi dito que perdoassem os pecados, mas esse poder lhes foi concedido de uma outra fonte. Em resumo, sua intenção é excluir todos os demais meios ou intermediários, colocando tanto o valor quanto o poder de nossa purificação em Cristo.

Assentou-se à direita. E como se estivesse dizendo: Quando conferiu salvação aos homens neste mundo, ele foi recebido na glória celestial, para que pudesse governar todas as coisas. Ele adicionou esta cláusula para mostrar que não foi uma salvação temporária a que ele conquistou para nós, pois em outros aspectos somos inclinados a medir seu poder segundo sua aparência no tempo presente. Ele nos acautela a que não devamos fazer pouco de Cristo só porque não o vemos com nossos olhos nus. Tal coisa, ao contrário, é o clímax de sua glória, ou seja: ele recebeu e assumiu o mais elevado píncaro de seu império. A direita é aplicado metaforicamente [=per similitudinem] a Deus, que nem se restringe a um lugar nem tampouco possui esquerda ou direita. O fato de Cristo achar-se assentado significa nada mais nada menos que o reino que o Pai lhe conferiu, e o poder a que Paulo se refere outra coisa não é senão que em seu Nome todo joelho se dobrará [Fp 2.10]. Assentar-se à direita do Pai significa simplesmente governar no interesse do Pai, justamente o que fazem os vice-reis a quem é concedido plenos poderes sobre todas as coisas. A isso adiciona-se a descrição - da majestade; em seguida - nas alturas - para mostrar que Cristo se acha colocado no mais sublime trono donde a majestade de Deus irradia. Quando ele for amado em virtude de sua redenção, também será adorado nessa majestade. 



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