22 fevereiro, 2010

0 Como interpretar as Escrituras - (Int. Romanos ) Calvino

Strasburgo, 18 de outubro de 1539
Lembro-me de que há três anos atrás tivemos uma agradável discussão sobre a melhor maneira de se interpretar a Escritura. E o método que particularmente aprováveis coincidiu ser também o mesmo que, naquele tempo, eu preferia a qualquer outro. Ambos sentíamos que a lúcida brevidade constituía a peculiar virtude de um bom intérprete. Visto que quase a única tarefa do intérprete é penetrar fundo a mente do escritor a quem deseja interpretar, o mesmo erra seu alvo, ou, no mínimo, ultrapassa seus limites, se leva seus leitores para além do significado original do autor. Nosso desejo, pois, é que se possa achar alguém, do número daqueles que na presente época se propõem a promover a causa da teologia, nesta área, que não só se esforce por ser compreensível, mas que também não tente deter seus leitores com comentários demasiadamente prolixos. Este ponto de vista, estou bem consciente, não é universalmente aceito, e aqueles que não o aceitam têm suas razões para assumirem tal posição. Eu, particularmente, confesso que sou incapaz de me demover do amor à sucintez.
Mas, visto que a variação do pensamento, a qual percebemos existir na mente humana, faz certas coisas mais aprazíveis a uns do que a outros, que cada um de meus leitores formule aqui seu próprio juízo, contanto que ninguém queira forçar a todos os mais a obedecerem suas próprias regras. Assim, aqueles que dentre nós preferirem a sucintez, não rejeitarão nem desprezarão os esforços daqueles cujas exposições dos livros sacros são mais prolixas e mais extensas; por outro lado, nos suportarão, ainda quando entendam que somos demasiadamente lacônicos e comprimidos.
No que se refere a mim, não pude impedir-me de tentar descobrir o que de positivo meus esforços, neste campo, poderiam realizar em favor da Igreja de Deus. No momento, não me sinto convencido de ter alcançado o que naquele tempo aos olhos de ambos parecia ser o melhor, nem esperava que o alcançaria quando comecei. Mas tenho tentado modificar meu estilo, de modo que não transparecesse que deixei de prestar atenção a esse exemplo. Deixo a vós, bem como aos que fazem parte, como vós, da tarefa de julgar, que alcance teve o meu êxito, visto que não me pertence julgar a mim mesmo. O próprio fato de enfrentar o risco de interpretar esta Epístola de Paulo, em particular, segundo o vejo, exporá meu plano ao criticismo já bastante difuso. Visto que tantos eruditos de proeminente cultura têm devotado seus esforços na exposição desta Epístola, pareceu-me improvável que ainda haja algum espaço deixado por eles para que se produza algo melhor. Confesso que, embora tenha prometido a mim mesmo algum prêmio pelos meus esforços, este pensamento a princípio me fez recuar. Fiquei temeroso de incorrer na fama de presunçoso ou aventureiro, fosse eu lançar mão desta tarefa depois de havê-la encetado obreiros de tão excelente reputação. Existem muitos comentários antigos que tratam desta Epístola, e outros tantos de autores modernos. Eles não poderiam ter um objetivo mais oportuno para preencher seu tempo e ministério, pois se tivermos um bom entendimento desta Epístola, teremos exposta diante de nós uma porta amplamente aberta para a sólida compreensão de todo o restante da Escritura.
Nada direi dos comentaristas antigos, cuja piedade, cultura, santidade e experiência lhes têm granjeado tão proeminente autoridade, que não seria sensato menosprezar o que eles já produziram. Com referência aos que vivem ainda conosco, hoje, não há como mencioná-los todos nominalmente. Expressarei, contudo, minha opinião sobre aqueles que têm realizado uma obra muitíssimo proeminente.
Filipe Melanchthon nos tem transmitido muita luz em razão de seu excelente caráter, tanto em erudição, em dinâmica, quanto também em sua habilidade, em todos os campos do conhecimento, nas quais ele excede a todos quantos publicaram comentários antes dele. Seu único objetivo, entretanto, pareceu-me ater-se à discussão de pontos que nada possuíam de concreto ou de especial. Ele, pois, se deteve quase que somente nisso, e deliberadamente passa por alto muitas questões que geralmente trazem grande ansiedade àquelas pessoas de cultura mediana.
Após Melanchthon surgiu Bullinger que, com justa razão, conquistou grande aprovação. Bullinger expôs questões doutrinais com facilidade de expressão, e daí ser ele tão amplamente recomendado.
Finalmente, vem Bucer, o qual proferiu a palavra final sobre o assunto, com a publicação de seus escritos. Além de sua profunda erudição, seu rico conhecimento, sua perspicácia intelectual, seu aguçado tino interpretativo, bem como muitas outras e variadas excelências nas quais ele se sobressaiu, quase como nenhum outro, no campo da erudição moderna; como sabemos, ele foi imitado por poucos e sobrepujou a grande maioria. O crédito é seu, se nenhum outro, em nosso tempo, conseguiu ser mais preciso nem mais diligente na interpretação da Escritura.
Confesso, pois, que seria um lamentável sinal de rematada arrogância pretender competir com eruditos de tal estirpe, e jamais me ocorreu em detrair um mínimo sequer de seu mérito. Que retenham, pois, tanto o favor como a autoridade que, pela franca confissão de todos os homens de bem, com justiça conquistaram. Entretanto, espero que me seja dado admitir que nada jamais foi tão perfeitamente elaborado pelos homens que não tenha ficado espaço algum para aqueles que os queiram imitar, aprimorando, adornando ou ilustrando suas obras. Não ouso dizer nada de mim mesmo, exceto que acredito que a presente obra deverá ser de algum proveito, e que não fui levado a efetuá-la por outra razão senão aquela que visa ao bem comum da Igreja. Além do mais, esperava que, ao usar um tipo distinto de escrito, não viesse a expor-me à acusação de inveja. Nisto consistia o meu particular temor.
Meianchthon atingiu seu intuito, aclarando os pontos principais. Enquanto se ocupava desta tarefa inicial, negligenciava muitas questões que exigem atenção. No entanto, não criou obstáculo àqueles que desejam examinar também tais questões.
Bucer é por demais prolixo para ser lido com rapidez por aqueles que têm outras questões em vista, e também muito profundo para ser facilmente compreendido pelos leitores de inteligência mediana e com mais dificuldade de introspecção. Pois tão pronto começa a tratar de alguma matéria, qualquer que seja ela, a incrível e vigorosa fertilidade de sua mente lhe sugere tantas outras coisas que não lhe permite concluir o que começara a escrever. Portanto, enquanto que o primeiro não chega a entrar em muitos detalhes, o segundo avança numa extensão tão ampla, que não pode ser lido num curto espaço de tempo. E assim não acredito que o que propus fazer ostente alguma aparência de rivalidade. Não obstante, fiquei em dúvida, por algum tempo, se seria vantajoso seguir a estes ou a outros eruditos ao respigar certas passagens nas quais pudesse trazer auxílio às mentes mais humildes, ou se comporia um comentário contínuo onde tivesse que repetir muito daquilo que já havia sido expresso por todos estes comentaristas, ou no mínimo por alguns deles. Todavia, estes escritores, com muita freqüência, não concordam entre si, e tal fato cria muita dificuldade àqueles leitores de menos capacidade assimilativa, os quais hesitam sobre qual opinião adotarão. Portanto, concluí que me sentiria pesaroso no desempenho desta tarefa se porventura, ao primar pela melhor interpretação, não propiciasse a esses leitores a condição de formar um critério justo. Seu critério em si mesmo, creio eu, é um tanto irregu­lar, mas, particularmente, decidi tratar cada questão com tal sucintez, que meus leitores não perderiam muito tempo em ler na presente obra o que já se acha contido em outros escritos.
Resumindo, esforcei-me por evitar alguma reclamação de que a presente obra é supérflua em muitos detalhes. No tocante à sua utilidade, não tenho nada a dizer. Os que são dotados de um espírito mais disposto, talvez admitirão, quando a tiverem lido, que descobriram em meu comentário mais do que em minha modéstia ousei prometer. Ainda que com freqüência discordo de outros escritores, ou, pelo menos, difiro deles em alguns aspectos, é justo que eu seja escusado nesta matéria. Devemos cultivar tal respeito pela Palavra de Deus, que qualquer diferença de interpretação haja de nossa parte a altere o mínimo possível. Sua majestade será consideravelmente diminuída, especialmente se não a interpretarmos com a devida discrição e moderação. Porque, se é um fato axiomático que é ilícito contaminar algo que se acha dedicado a Deus, indubitavelmente não podemos tolerar que alguém manuseie o que há de mais sagrado entre todas as demais coisas sobre a terra sem que antes se lavem bem as mãos.
Portanto, é pretensão, e quase mesmo uma blasfêmia, alterar o significado da Escritura, manipulando-a sem o devido critério, como se ela fosse um gênero de jogo com o qual pudéssemos nos divertir. No entanto, é precisamente isso o que muitos estudiosos têm feito o tempo todo. Não obstante, percebemos com freqüência que não é possível existir concordância universal, mesmo entre aqueles que não são achados carentes de zelo, nem de piedade, nem de devoção e nem de moderação quando se discutem os mistérios de Deus. Este jamais abençoou a seus servos numa medida tal que nenhum deles chegasse a possuir pleno e perfeito conhecimento de todas as áreas do saber humano. E evidente que o propósito divino em limitar assim nosso conhecimento foi, antes de tudo, para que nos conservemos humildes, bem como para que continuemos a cultivar a fraternidade de nossos semelhantes. Ainda quando, sob outros aspectos, é algo extremamente desejável, não devemos esperar que haja na presente vida concordância durável entre nós na exposição de passagens da Escritura. Quando, pois, dissentimos dos pontos de vista de nossos predecessores, não devemos, contudo, deixar-nos estimular por algum forte desejo a inovação, nem impelidos por algum intuito de difamar outros, nem despertados por algum ódio, nem induzidos por alguma fortuita ambição. A nossa única necessidade é a de não ter em vista nenhum outro objetivo além do desejo sincero de só fazer o bem. Assim devemos também proceder no tocante à exposição da Escritura. Mas, quanto ao doutrinamento na santa religião, sobre a qual Deus particularmente deseja que a mente de seu povo esteja em concordância, devemos ter menos liberdade. Meus leitores não terão dificuldade alguma em perceber que tenho procurado enfocar ambos estes pontos. Mas, visto que não me é próprio fazer algum juízo ou pronunciamento sobre mim mesmo, espontaneamente deixo convosco este veredicto. Se todos os homens têm justo motivo de submeter-se em grande parte ao vosso juízo, então devo também submeter-me a ele em todos os pontos sobre os quais estais ainda mais informado do que eu, visto que os mesmos vos são bem mais relacionados. Tal conhecimento geralmente diminui em alguma extensão o conceito que temos dos demais; mas, em vosso caso, como é do conhecimento de todos os eruditos, tal conhecimento se agiganta ainda mais. Adeus.

João Calvino
a
Simon Grynaeus,
Um homem digno de toda honra,
Saudações

Strasburgo, 18 de outubro de 1539 



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