15 fevereiro, 2010

0 As Pressupostas Faculdades da alma e sua função - J. Calvino


Visto que já dissemos pouco antes que as faculdades da alma estão sediadas na mente e no coração, consideremos agora de que poder se reveste uma e outra dessas partes do ser. Na verdade os filósofos imaginam com avultado consenso que é na mente que se radica a Razão, a qual, à semelhança de uma lâmpada, ilumina a todas as decisões, e à  maneira de uma rainha governa a vontade. Pois, a tal ponto supõem ter sido a mesma banhada da luz divina para que possa decidir com muito acerto, e nesse poder exceler a tal ponto que possa reger com muita eficiência. Em contraposição, imaginam que a sensibilidade está tão embotada e tão eivada de obtusidade de visão, que sempre rasteje ao solo e se revolva nos mais vis objetos, nem jamais se
alce ao verdadeiro discernimento; o apetite, se porventura consegue obedecer à razão, nem se deixa sujeitar à sensibilidade, é levado ao cultivo das virtudes, a reta via conserva e em vontade se conforma; se entretanto se entrega à servidão da sensibilidade, é por ela a tal ponto corrompido e depravado, que degenera em concupiscência.

E como, segundo a opinião deles, dentro em nós subsistem plenamente essas faculdades da alma que acima referi – intelecto, sensibilidade e apetite ou vontade –, sendo esta última designação já agora recebida em uso mais vulgarizado, postulam esses filósofos que o intelecto é dotado da razão, a mais sublimada gestora para se viver bem e afortunadamente, contanto que o próprio intelecto se sustenha em sua excelência e dê vazão à força de natureza a si conferida. Seu impulso inferior, porém, que se denomina sensibilidade, mercê da qual o homem é arrastado ao erro e ao engano, é tal que pode ser domado e aos poucos quebrantado pela palmatória da razão. Além disso, a meio caminho entre a razão e a sensibilidade colocam a vontade, naturalmente senhora de seu direito e de sua liberdade, seja que lhe apraza obedecer à razão, seja prostituir-se à sensibilidade, para ser dela violentada.

A VONTADE HUMANA, NA OPINIÃO DOS FILÓSOFOS, É LIVRE E SOBERANA

Com efeito, convencidos pela própria experiência, é verdade que os filósofos de vez em quando não negam com quão grande dificuldade o homem firma em si o reinado à razão, enquanto ora é afagado pelos engodos dos prazeres, ora é iludido pela aparência de coisas boas, ora é violentamente combatido por impulsos imoderados e, como o diz Platão, como que por cordas ou correias puxado em direções diversas.8 Pela mesma razão, também diz Cícero que aquelas fagulhas dadas pela natureza são, dentro em pouco, extintas pelas opiniões corruptas e pelos maus costumes.

Quando, realmente, enfermidades desta natureza uma vez se assenhorearam das mentes dos homens, confessam grassarem elas mais virulentamente do que seja possível facilmente debelá-las; nem hesitam em compará-las a cavalos bravios que, alijada a razão, qual um cocheiro atirado fora da carruagem, se entregam, desenfreada e desmedidamente, à licenciosidade.
Isto, contudo, determinam além de controvérsia: as virtudes e os vícios estão em nosso poder. Ora, dizem eles, se é de nossa escolha fazer isto ou aquilo, logo também o não fazê-lo. Por outro lado, se é de nossa escolha o não fazê-lo, logo é também fazê-lo. Mas parecemos fazer de livre escolha as coisas que fazemos e absternos daquelas das quais nos abstemos.10 Portanto, se algo de bom fazemos quando nos apraza, podemos igualmente deixar de fazê-lo; se algo de mau perpetramos, podemos também evitá-lo. E alguns deles se têm arrojado até ao ponto de desbragamento: se jactam de que é certamente obra dos deuses que vivemos; nossa, entretanto,
que vivemos bem e santamente. Donde também essa observação de Cícero, na pessoa de Cotta, de que, porquanto cada um adquire a virtude para si, ninguém dentre os sábios jamais rendeu graças a Deus a respeito dela. “Pois somos louvados em razão de nossa virtude”, diz ele, “e em nossa virtude nos gloriamos, o que não aconteceria, se ela fosse dádiva de Deus, e não procedesse de nós mesmos.” E, pouco depois: “Este é o parecer de todos os mortais: que a Deus se deve pedir sorte, e que sabedoria se deve obter de si próprio.”  
Portanto, esta é a suma da opinião de todos os filósofos: que para a reta direção do ser basta a razão do intelecto humano; que a vontade a ela subjacente é, com efeito, pela sensibilidade solicitada às coisas más. Entretanto, visto que tem livre escolha 
de modo algum pode ser impedida de por tudo seguir a razão como guia.





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