27 fevereiro, 2010

0 Novas Revelações? - João Calvino



Aqueles que negligenciam as Escrituras, e procuram revelações novas, transtornam todos os princípios da piedade.

Certos homens tolos surgiram recentemente, os quais orgulhosamente fingem ser guiados pelo Espírito e desprezam a simplicidade daqueles que ainda se apegam à “letra morta – letra que mata”. Gostaria que me dissessem qual é o espírito cujo sopro os leva a uma altura tão estonteante para que ousem menosprezar a doutrina das Escrituras como sendo infantil e desprezível.

Se responderem que é o Espírito de Cristo, quão absurda é a presunção! Eles mesmos devem reconhecer que os apóstolos e os crentes primitivos foram iluminados por aquele Espírito; no entanto, nenhum deles aprendeu dEle a desprezar a Palavra de Deus; mas todos a consideravam com a mais profunda reverência. E isto concorda com a predição de Isaías: “O meu Espírito, que está sobre Ti e as minhas palavras, que pus na tua boca, não se desviarão da tua boca nem da boca da tua posteridade, nem da boca posteridade da tua posteridade, diz o Senhor, desde agora e para todo o sempre” (Is 59.21).

O profeta predisse, portanto, que no reino de Cristo seria a mais alta felicidade da Sua Igreja ser guiada tanto pela Palavra quanto pelo Espírito de Deus. Logo, concluímos que estes zombadores ímpios separam aquilo que o profeta juntara por um vínculo sagrado. Além disso, embora Paulo tenha sido arrebatado até o terceiro céu, não cessou de fazer uso proveitoso da lei e dos profetas, e exortou a Timóteo a dar a atenção à leitura. Ademais, ele atribui honra singular às Escrituras ao dizer que são úteis: “para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16-17).

Certamente é o máximo da maldade e da loucura atribuir um uso rápido e temporário àquelas Escrituras que guiam os filhos de Deus até o fim da sua viagem. Aqueles fanáticos teriam bebido de um espírito diferente daquele que o Senhor prometeu aos Seus próprios discípulos? Um que não falaria de Si mesmo, mas sim relembraria o que o próprio Cristo ensinara verbalmente. Portanto, não é papel do Espírito prometido dar revelações estranhas e esquisitas, ou fabricar algum novo tipo de doutrina para nos desviar do evangelho que recebemos; pelo contrário, a função do Espírito é selar em nossos corações aquela mesma doutrina que o evangelho de Cristo nos entregou.

É claro, portanto, que os que desejam receber proveito e bênção do Espírito de Deus devem ser diligentes em ler as Escrituras e em ouvir sua voz. Assim sendo, Pedro recomenda o zelo daqueles que prestam atenção à palavra da profecia, embora os escritos dos profetas pudessem ter sido considerados ultrapassados, ‘pela nova luz do evangelho’ (2Pe 1.19). Se, por outro lado, alguém descarta a sabedoria da Palavra de Deus e impinge sobre nós uma outra doutrina, podemos suspeita-lo, com justiça, de ser vaidoso e falso. O próprio Satanás se transforma em anjo de luz; como, pois, podemos curvar-nos diante da autoridade de qualquer espírito, a não ser que seja evidenciado por algum sinal como sendo o Espírito de Deus? Este sinal se manifesta na medida em que concorda com a Palavra do Senhor. Todavia, estes infelizes deliberadamente se desviam para sua própria ruína, procurando orientação do seu próprio espírito ao invés do Espírito do Senhor.
Argumentam que é uma indignidade ao Espírito de Deus que Ele – Ele que está acima de todas as coisas – seja sujeito às Escrituras. Mas, pergunto, é um desonra ao Espírito Santo ser em todas as instâncias o que Ele é – sempre consistente, sempre imutável? Se, na realidade, procurássemos testar o Espírito por qualquer regra estabelecida pelos homens ou pelos anjos, haveria certa força nesta acusação para desonra-lo; mas se O compararmos com Ele mesmo, como se pode dizer que O estamos desonrando? A verdade é que o Espírito se alegra em ser reconhecido pela semelhança que tem com Sua própria imagem imprimida por Ele sobre as Escrituras. Ele é o Autor das Escrituras e não pode mudar; logo, sempre deve permanecer tal qual Se revelou ali.

Quanto à objeção capciosa de que estamos escravizados à letra que mata, os que empregam tal linguagem são culpados de desprezarem a Palavra de Deus. Quando Paulo disse que a letra mata (2Cor 3.6), estava se opondo a certos falsos apóstolos que ainda se apegavam alei e que teriam privado o povo do benefício da nova aliança, na qual Deus declara que colocará Sua lei nas mentes dos fiéis, e que a escreverá em seus corações. Segue-se, portanto, que a lei do Senhor é uma letra morta que mata quando ela é separada da graça de Cristo, e que simplesmente soa ao ouvido sem tocar o coração; por outro lado, se for poderosamente implantada no coração pelo Espírito e se proclama a Cristo, é a palavra da vida, a qual converte as almas dos homens e que dá sabedoria aos símplices. No mesmo capítulo, Paulo chama sua própria pregação de o ministério do Espírito, significando assim que o Espírito Santo permanece na verdade que revelou nas Escrituras, e somente revela Seu poder àqueles que tratam Sua Palavra com a reverência e honra a ela devida . E isto não está em desacordo com aquilo que eu disse antes, que a Palavra de Deus não ganha nossa confiança a não ser que seja confirmada pelo testemunho do Espírito; porque o Senhor ligou juntas, por um tipo de vínculo mútuo, a certeza da Sua Palavra e a autoridade do Seu Espírito.

Reverência verdadeira á Palavra domina nossos corações quando a luz do Espírito nos capacita a ver Deus nas Escrituras; e, por outro lado, damos boas-vindas sem temor de sermos enganados, àquele Espírito que reconhecemos pela Sua semelhança à Sua própria Palavra.


Os filhos de Deus sabem que Sua Palavra é o instrumento mediante o qual Ele comunica ao entendimento deles a luz do Seu Espírito; e não reconhecem nenhum outro espírito senão o Espírito que habitava nos apóstolos e falava através deles.


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26 fevereiro, 2010

0 Só a Bíblia protege do Erro - João Calvino




Para que alguém chegue a Deus o Criador é necessário que a Escritura seja seu guia e mestra. - Portanto, ainda que esse fulgor, que aos olhos de todos se projeta no céu e na terra, mais que suficientemente despoje de todo fundamento a ingratidão dos homens, serve também para envolver o gênero humano na mesma incriminação. Deus a todos, sem exceção, exibe sua divina majestade debuxada nas criaturas, contudo é necessário adicionar outro e melhor recurso que nos dirija retamente ao próprio Criador do universo. Portanto, Deus não acrescenta em vão a luz de sua Palavra para que a salvação se fizesse conhecida. E considerou dignos deste privilégio aqueles a quem quis atrair para mais perto e mais íntimo.

Ora, visto que ele via a mente de todos ser arrastada para cá e para lá em agitação errática e instável, depois que elegeu os judeus para si por povo peculiar, cercou-os de sebes, de todos os lados, para que não se extraviassem à maneira dos demais. Nem em vão nos retém ele, mediante o mesmo remédio, no puro conhecimento de si mesmo; pois, de outra sorte, bem depressa se diluiriam até mesmo aqueles que, acima dos demais, parecem manter-se firmes. Exatamente como se dá com pessoas idosas, ou enfermas dos olhos, e tantos quantos sofram de visão embaçada, se puseres diante delas mesmo um vistoso volume, ainda que reconheçam ser algo escrito, contudo mal poderão ajuntar duas palavras; ajudadas, porém, pela interposição de lentes, começarão a ler de forma distinta. Assim a Escritura, coletando-nos na mente conhecimento de Deus que de outra sorte seria confuso, dissipada a escuridão, nos mostra em diáfana clareza o Deus verdadeiro.

É esta, portanto, uma dádiva singular, quando, para instruir a Igreja, Deus não
apenas se serve de mestres mudos, mas ainda abre seus sacrossantos lábios, não simplesmente para proclamar que se deve adorar a um Deus, mas ao mesmo tempo declara ser esse Aquele a quem se deve adorar; nem meramente ensina aos eleitos a atentarem para Deus, mas ainda se mostra como Aquele para quem devem atentar. Ele tem mantido esse proceder para com sua Igreja desde o princípio, para que, afora essas evidências comuns, também aplicasse a Palavra, a qual é a mais direta e segura marca para reconhecê-lo.

Não carece de dúvida que Adão, Noé, Abraão e os demais patriarcas tenham, mercê deste recurso, atingido íntimo conhecimento dele, o qual, de certo modo, os distinguia dos incrédulos. Não estou ainda falando da doutrina apropriada pela fé pela qual foram iluminados para a esperança da vida eterna. Ora, para que passassem da morte para a vida, foi-lhes necessário conhecer a Deus não apenas como Criador, mas ainda como Redentor, de sorte que chegaram seguramente a um e outro desses dois conceitos à base da Palavra.

Ora, na ordem, veio primeiro aquela modalidade de conhecimento mediante o qual fora dado alcançar quem é esse Deus por quem o mundo foi criado e é governado. Acrescentou-se depois a outra, interior, a única que vivifica as almas mortais, por meio da qual se conhece a Deus não apenas como Criador do universo e único Autor e Árbitro de todas as coisas que existem, mas ainda, na pessoa do Mediador, como Redentor. Entretanto, visto que ainda não chegamos à queda do mundo e à corrupção da natureza, deixo também de tratar de seu remédio.

Portanto, os leitores se lembrarão de que ainda não irei fazer considerações a respeito daquele pacto mediante o qual Deus adotou para si os filhos de Abraão, bem como daquela parte da doutrina por meio da qual os fiéis sempre foram devidamente separados das pessoas profanas, pois que ele se fundamentou em Cristo, doutrina essa que será abordada na seção cristológica, mas somente enfocarei como se deve aprender da Escritura que Deus, que é o Criador do mundo, se distingue, por marcas seguras, de toda a multidão forjada de deuses. Oportunamente, mais adiante, a própria seqüência nos conduzirá à Redenção. Mas, embora tenhamos de derivar do Novo Testamento muitos testemunhos, outros também da lei e dos profetas, onde se faz expressa menção de Cristo, contudo todos tendem a este fim: que Deus, o Artífice do universo, se nos patenteia na Escritura; e o que dele se deva pensar, nela se expõe, para que não busquemos por veredas ambíguas alguma deidade incerta.
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25 fevereiro, 2010

0 Impiedade e Injustiça - João Calvino



Porque a ira de Deus é revelada do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens(Rm 1.18). O apóstolo apresenta agora um argumento com base numa comparação de opostos a fim de provar que a justiça só pode ser concedida ou conferida por meio do evangelho, pois ele demonstra que sem este todos [os homens] estão condenados. A salvação, pois, será encontrada unicamente no evangelho. A primeira prova confirmativa que ele adiciona consiste no fato de que, embora a estrutura do mundo e a mais esplêndida ordem dos elementos deveriam induzir o homem a glorificar a Deus, todavia não há nada que o desobrigue de seus deveres. Isto é prova de que todos os homens são culpados de sacrilégio e de ingratidão ignóbil e iníqua.
Há quem sugira que esta é a primeira proposição de Paulo, de modo a iniciar seu discurso com o arrependimento porém sinto que é aqui que Paulo começa seu tema controversial, e que o tema central foi afirmado na cláusula precedente. Seu objetivo é instruir-nos sobre onde a salvação deve ser buscada. Ele garante que só podemos obtê-la por meio do evangelho, mas visto que a carne não se humilhará voluntariamente ao ponto de atribuir o louvor da salvação exclusivamente à graça divina, o apóstolo mostra que o mundo todo é culpado de morte eterna. Segue-se deste fato que devemos reaver a vida por algum outro meio, visto que por nós mesmos estamos todos perdidos. Um exame cuidadoso de cada palavra nos será de grande valia a fim de entendermos o significado da passagem.
Alguns intérpretes fazem distinção entre impiedade e injustiça, sustentando que impiedade aponta para á profanação do culto divino, enquanto que injustiça aponta para a carência de justiça nos homens. Entretanto, visto que o apóstolo se refere a esta injustiça em imediata relação com a negligência da religião genuína, interpretaremos ambas como tendo o mesmo sentido, Toda impiedade humana deve ser considerada à luz da figura de linguagem chamada hypallage significando a impiedade de todos os homens, ou a impiedade da qual todos os homens se acham convencidos. Uma coisa é designada por meio de duas expressões distintas, a saber: ingratidão para com Deus, visto que o injuriamos de duas formas. Impiedade implica na desonra de Deus, enquanto que, injustiça significa que o homem, ao transferir para si o que pertence a Deus, tem injustamente privado a Deus de sua devida honra. O termo ira referindo-se a Deus em termos humanos como é usual na Escritura, significa a vingança de Deus, pois quando ele pune, segundo o nosso modo de pensar, aparenta estar irado. O termo, pois, revela não a atitude emocional de Deus, e, sim, as sensações do pecador que é punido. Paulo, pois, diz que a ira de Deus é revelada do céu, conquanto a expressão do céu é tomada por alguns como um adjetivo, como se ele dissesse: a ira do Deus do céu. Em minha opinião, contudo, é mais enfático dizer: "Para qualquer parte que o homem olhe, ele não encontrará salvação alguma, pois a ira de Deus é derramada sobre o mundo inteiro e pervade toda a extensão do céu”.
A verdade de Deus significa o genuíno conhecimento de Deus, e substituir a verdade é suprimi-la ou obscurecê-la; daí serem eles acusados de latrocínio. Em injustiça é um hebraísmo, e significa injustamente [=injuste], mas que temos tentado manter o significado claro.

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23 fevereiro, 2010

0 O Evangelho de Seu Filho – João Calvino

Antes de tudo, sou grato a meu Deus.(Rm 1.8). A introdução à presente passagem é a mais adequada ao caso que Paulo queria apresentar, visto que ele aproveita a oportunidade de prepará-los para receberem seu ensinamento por razões relacionadas tanto com ele como com eles próprios. Seu argumento tinha por base o que sabia sobre eles. Assim evoca a notória fama da fé deles, insinuando que, se são honrados com a pública aprovação das igrejas, então não podem rejeitar o apóstolo do Senhor sem frustrar o bom nome de que desfrutavam universalmente. Tal conduta seria uma descortesia e de certa forma uma violação da confiança. Como essa reputação [dos romanos] deve, pois, com boas razões, ter induzido o apóstolo, que formara um conceito positivo acerca de sua obediência, a empreender o ensino e a instrução deles de acordo com o seu ofício, assim se viram obrigados a não desdenhar de sua autoridade. Ele os dispôs a assumirem uma atitude receptiva de acordo com um exame de seu próprio caráter, ao testificar sua sincera afeição para com eles. Não há nada mais eficaz em garantir a confiança num conselheiro do que a impressão que fica de que ele está sinceramente solícito por nós, e que se põe a investigar nossos interesses.
E digno de nota, acima de tudo, o fato de que Paulo exalta a fé deles, de tal maneira, que deixa subentendido que a haviam recebido de Deus mesmo. Daqui aprendemos que a fé ê um dom de Deus. Se ação de graça é o reconhecimento de um benefício, todo aquele que agradece a Deus por sua fé reconhece que ela é irai dom [provindo] dele. Ao descobrirmos que o apóstolo sempre inicia suas congratulações com ação de graça, descobrimos que a lição que nos é transmitida consiste em que todas as nossas bênçãos são também dons divinos. Devemos igualmente habituar-nos a tais formas de expressão, e as mesmas nos despertam sempre mais ardentemente a fim de reconhecermos a Deus como o Doador de todas as boas dádivas, e estimularmos a outrem para, ao mesmo tempo, cultivarem atitude similar. Se é correto proceder assim em relação às pequenas bênçãos, quanto mais em se tratando da fé, a qual nem é uma banalidade nem um dom indiscriminado de Deus. Além do mais, temos aqui uma ilustração de como a ação de graça deve ser oferecida através de Jesus Cristo, segundo o mandamento do apóstolo em Hebreus 13.15, o qual nos mostra que é em Seu nome que devemos buscar e achar misericórdia da parte do Pai. Finalmente, Paulo se refere a Deus como meu Deus. Este é um privilégio especial de que o fiel desfruta, a quem Deus, exclusivamente, concede tal honra. Há implícita aqui uma mútua relação, a qual é expressa na promessa: "E sereis o meu povo, e eu serei o vosso Deus" [Jr 30.22], ainda que prefira restringir a frase ao caráter que Paulo portava como marca da aprovação divina à obediência que ele prestava ao Senhor na pregação do evangelho. Daí Ezequias denominá-lo de o Deus de Isaias, quando deseja declarar que este era um genuíno e fiel profeta [Is 37.4]. Assim também Deus é chamado par excellence [=por excelência'] o Deus de Daniel, visto que Daniel havia conservado a pureza do culto divino [Dn 6.20].
Porque em todo o mundo está sendo proclamada a vossa
fé. A aprovação por parte de homens honrados era para Paulo equivalente à apreciação que o mundo todo fazia em relação à fé dos romanos, já que o testemunho de incrédulos, que detestavam a fé, não podia ser sincero e creditável. Devemos, pois, entender que a fé dos romanos estava ecoando por todo o mundo, por parte de todos os fiéis que eram capazes de formar seu próprio juízo sobre ela e transmitir um juízo justo dela. O fato de que este pequeno grupo de homens desprezíveis ser desconhecido dos incrédulos, mesmo em Roma, não significava nada, visto que seu veredito não tinha a menor importância para Paulo.
9. Pois Deus é minha testemunha. Ele demonstra seu amor através de seus efeitos. Não houvesse Paulo se lhes afeiçoado tanto, não os teria recomendado ao Senhor com tanta solicitude. Ele não teria, particularmente, desejado tão ardentemente promover a salvação deles através de seus próprios esforços. Seu desvelo e desejo, pois, eram provas inequívocas de sua afeição por eles, pois estas atitudes não podem jamais existir a menos que sua fonte esteja radicada no amor. Contudo, visto que Paulo tinha consciência de que era indispensável convencer os romanos de sua sinceridade para com eles, a fim de estabelecer a confiança em sua pregação, ele acrescenta um juramento - caminho inevitável de toda e qualquer assertiva que precisa ser estabelecida com isenção de qualquer dúvida, a fim de ser aceita. Se um juramento é um mero apelo a Deus para a confirmação do que vamos dizer, devemos atribuir sabedoria ao juramento do apóstolo, o qual ele assumiu sem com isso infringir o mandamento de Cristo.
É evidente disto que não era o propósito de Cristo (como os anabatistas supersticiosamente concluem) abolir sumariamente os juramentos, senão que, ao contrário, restaura a legítima observância da Lei. Esta, ao permitir um juramento, condena tão-somente o perjúrio e a promessa desnecessária no juramento. Portanto, se vamos fazer um juramento de maneira apropriada, devemos imitar a seriedade e atitude reverente que foram demonstradas pelos apóstolos. Entretanto, para entendermos esta forma de juramento, é necessário que entendamos que, ao evocarmos a Deus como testemunha, evoquemo-lo como Aquele que comuta uma falta se juramos dolosamente, como Paulo afirma alhures, nestas palavras: "Eu, porém, por minha alma, tomo a Deus por testemunha... [2 Co 1.23].
A quem sirvo em meu espírito. Já que indivíduos irreverentes e zombadores de Deus cultivam o hábito de escudar-se em Seu Nome como mero pretexto, tanto em busca de segurança como para dissimular sua pretensão, Paulo aqui recomenda sua própria devoção a fim de assegurar-se da confiança dos romanos. Aqueles que se revestem do temor do Senhor e de reverência para com ele se retrairão de assumir qualquer falso juramento. Paulo, igualmente, firma seu espírito contra qualquer aparência externa de religião. Visto que muitos gostam de passar por adoradores de Deus, e conservam a aparência externa como tais, ele testifica que adora a Deus desde os recessos de seu coração. E possível também que ele esteja fazendo alusão às cerimônias antigas, nas quais os judeus baseavam o culto divino. O que ele pretende dizer, portanto, é que, embora não estivesse preparado para sua prática, não obstante era um sincero adorador de Deus, como afirma em Filipenses 3.3: "Porque nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne. Ele, pois, se gloria no fato de que servia a Deus com um coração sinceramente devotado, o que consiste na religião genuína e no culto legítimo.
Como já mencionei acima, era também de suma importância para Paulo que declarasse sua devoção a Deus, a fim de que o seu juramento viesse a ser prontamente crido» O perjúrio, para os ímpios, é objeto de escárnio, enquanto que, para o crente piedoso, ele é muito mais temido do que mil mortes. Onde existe um real temor de Deus, deve igualmente existir um real respeito por seu Nome. Portanto, é como se Paulo estivesse dizendo que estava bem cônscio da sacralidade do juramento e da reverência requerida ao pronunciá-lo, e que não estava levianamente evocando a Deus como testemunha, como os irreverentes costumam fazer. Seu exemplo pessoal, pois, nos ensina que, ao fazermos um juramento, devemos evidenciar profundo respeito pelo Nome de Deus, o qual usamos em nossa conversação, para que o mesmo conserve sua devida autoridade. Ele, pois, prova, a partir de seu próprio ministério, que sua adoração dedicada a Deus não emana de mera pretensão. A mais plena evidência de sua devoção à glória de Deus foi a própria negação que ele fez de si mesmo, e o fato de não hesitar a encarar todas as misérias traduzidas nas reprovações, na pobreza, na morte e no ódio, ao promover o reino de Deus.
Alguns interpretam esta cláusula como se Paulo quisesse enaltecer o culto que declarou prestar a Deus porque estava em harmonia com o mandamento do evangelho, no qual um culto espiritual nos é imposto. A primeira interpretação é de todas a melhor, ou seja: ele dedicava seu serviço a Deus na pregação do evangelho. Nesse ínterim, contudo, ele se distingue dos hipócritas que ocultavam outros motivos além do culto devido a Deus, visto que a maioria deles era dominada pela ambição ou algo parecido, e se achavam longe de desincumbir-se de seu ministério fiel e devotadamente. A conclusão consiste em que Paulo é sincero em seu ofício magisterial, pois falar de sua própria devoção é algo bem apropriado para o caso par­ticular em mãos. Deduzimos disto alguns pontos úteis, os quais devem somar não pouco encorajamento aos ministros do evangelho, quando ouvem que ao pregar o evangelho estão prestando um aceitável e valioso serviço a Deus. Há porventura algo que deve impedi-los de procederem assim quando sabem que seu labor é muitíssimo agradável e aprovado por Deus, e deve ser considerado como um sublime culto? Paulo, finalmente, chama-o o evangelho de seu Filho. E por meio dele que Cristo se faz conhecido, e este é designado pelo Pai para o glorificar, quando, em contrapartida, ele mesmo é glorificado. 

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22 fevereiro, 2010

0 Como interpretar as Escrituras - (Int. Romanos ) Calvino

Strasburgo, 18 de outubro de 1539
Lembro-me de que há três anos atrás tivemos uma agradável discussão sobre a melhor maneira de se interpretar a Escritura. E o método que particularmente aprováveis coincidiu ser também o mesmo que, naquele tempo, eu preferia a qualquer outro. Ambos sentíamos que a lúcida brevidade constituía a peculiar virtude de um bom intérprete. Visto que quase a única tarefa do intérprete é penetrar fundo a mente do escritor a quem deseja interpretar, o mesmo erra seu alvo, ou, no mínimo, ultrapassa seus limites, se leva seus leitores para além do significado original do autor. Nosso desejo, pois, é que se possa achar alguém, do número daqueles que na presente época se propõem a promover a causa da teologia, nesta área, que não só se esforce por ser compreensível, mas que também não tente deter seus leitores com comentários demasiadamente prolixos. Este ponto de vista, estou bem consciente, não é universalmente aceito, e aqueles que não o aceitam têm suas razões para assumirem tal posição. Eu, particularmente, confesso que sou incapaz de me demover do amor à sucintez.
Mas, visto que a variação do pensamento, a qual percebemos existir na mente humana, faz certas coisas mais aprazíveis a uns do que a outros, que cada um de meus leitores formule aqui seu próprio juízo, contanto que ninguém queira forçar a todos os mais a obedecerem suas próprias regras. Assim, aqueles que dentre nós preferirem a sucintez, não rejeitarão nem desprezarão os esforços daqueles cujas exposições dos livros sacros são mais prolixas e mais extensas; por outro lado, nos suportarão, ainda quando entendam que somos demasiadamente lacônicos e comprimidos.
No que se refere a mim, não pude impedir-me de tentar descobrir o que de positivo meus esforços, neste campo, poderiam realizar em favor da Igreja de Deus. No momento, não me sinto convencido de ter alcançado o que naquele tempo aos olhos de ambos parecia ser o melhor, nem esperava que o alcançaria quando comecei. Mas tenho tentado modificar meu estilo, de modo que não transparecesse que deixei de prestar atenção a esse exemplo. Deixo a vós, bem como aos que fazem parte, como vós, da tarefa de julgar, que alcance teve o meu êxito, visto que não me pertence julgar a mim mesmo. O próprio fato de enfrentar o risco de interpretar esta Epístola de Paulo, em particular, segundo o vejo, exporá meu plano ao criticismo já bastante difuso. Visto que tantos eruditos de proeminente cultura têm devotado seus esforços na exposição desta Epístola, pareceu-me improvável que ainda haja algum espaço deixado por eles para que se produza algo melhor. Confesso que, embora tenha prometido a mim mesmo algum prêmio pelos meus esforços, este pensamento a princípio me fez recuar. Fiquei temeroso de incorrer na fama de presunçoso ou aventureiro, fosse eu lançar mão desta tarefa depois de havê-la encetado obreiros de tão excelente reputação. Existem muitos comentários antigos que tratam desta Epístola, e outros tantos de autores modernos. Eles não poderiam ter um objetivo mais oportuno para preencher seu tempo e ministério, pois se tivermos um bom entendimento desta Epístola, teremos exposta diante de nós uma porta amplamente aberta para a sólida compreensão de todo o restante da Escritura.
Nada direi dos comentaristas antigos, cuja piedade, cultura, santidade e experiência lhes têm granjeado tão proeminente autoridade, que não seria sensato menosprezar o que eles já produziram. Com referência aos que vivem ainda conosco, hoje, não há como mencioná-los todos nominalmente. Expressarei, contudo, minha opinião sobre aqueles que têm realizado uma obra muitíssimo proeminente.
Filipe Melanchthon nos tem transmitido muita luz em razão de seu excelente caráter, tanto em erudição, em dinâmica, quanto também em sua habilidade, em todos os campos do conhecimento, nas quais ele excede a todos quantos publicaram comentários antes dele. Seu único objetivo, entretanto, pareceu-me ater-se à discussão de pontos que nada possuíam de concreto ou de especial. Ele, pois, se deteve quase que somente nisso, e deliberadamente passa por alto muitas questões que geralmente trazem grande ansiedade àquelas pessoas de cultura mediana.
Após Melanchthon surgiu Bullinger que, com justa razão, conquistou grande aprovação. Bullinger expôs questões doutrinais com facilidade de expressão, e daí ser ele tão amplamente recomendado.
Finalmente, vem Bucer, o qual proferiu a palavra final sobre o assunto, com a publicação de seus escritos. Além de sua profunda erudição, seu rico conhecimento, sua perspicácia intelectual, seu aguçado tino interpretativo, bem como muitas outras e variadas excelências nas quais ele se sobressaiu, quase como nenhum outro, no campo da erudição moderna; como sabemos, ele foi imitado por poucos e sobrepujou a grande maioria. O crédito é seu, se nenhum outro, em nosso tempo, conseguiu ser mais preciso nem mais diligente na interpretação da Escritura.
Confesso, pois, que seria um lamentável sinal de rematada arrogância pretender competir com eruditos de tal estirpe, e jamais me ocorreu em detrair um mínimo sequer de seu mérito. Que retenham, pois, tanto o favor como a autoridade que, pela franca confissão de todos os homens de bem, com justiça conquistaram. Entretanto, espero que me seja dado admitir que nada jamais foi tão perfeitamente elaborado pelos homens que não tenha ficado espaço algum para aqueles que os queiram imitar, aprimorando, adornando ou ilustrando suas obras. Não ouso dizer nada de mim mesmo, exceto que acredito que a presente obra deverá ser de algum proveito, e que não fui levado a efetuá-la por outra razão senão aquela que visa ao bem comum da Igreja. Além do mais, esperava que, ao usar um tipo distinto de escrito, não viesse a expor-me à acusação de inveja. Nisto consistia o meu particular temor.
Meianchthon atingiu seu intuito, aclarando os pontos principais. Enquanto se ocupava desta tarefa inicial, negligenciava muitas questões que exigem atenção. No entanto, não criou obstáculo àqueles que desejam examinar também tais questões.
Bucer é por demais prolixo para ser lido com rapidez por aqueles que têm outras questões em vista, e também muito profundo para ser facilmente compreendido pelos leitores de inteligência mediana e com mais dificuldade de introspecção. Pois tão pronto começa a tratar de alguma matéria, qualquer que seja ela, a incrível e vigorosa fertilidade de sua mente lhe sugere tantas outras coisas que não lhe permite concluir o que começara a escrever. Portanto, enquanto que o primeiro não chega a entrar em muitos detalhes, o segundo avança numa extensão tão ampla, que não pode ser lido num curto espaço de tempo. E assim não acredito que o que propus fazer ostente alguma aparência de rivalidade. Não obstante, fiquei em dúvida, por algum tempo, se seria vantajoso seguir a estes ou a outros eruditos ao respigar certas passagens nas quais pudesse trazer auxílio às mentes mais humildes, ou se comporia um comentário contínuo onde tivesse que repetir muito daquilo que já havia sido expresso por todos estes comentaristas, ou no mínimo por alguns deles. Todavia, estes escritores, com muita freqüência, não concordam entre si, e tal fato cria muita dificuldade àqueles leitores de menos capacidade assimilativa, os quais hesitam sobre qual opinião adotarão. Portanto, concluí que me sentiria pesaroso no desempenho desta tarefa se porventura, ao primar pela melhor interpretação, não propiciasse a esses leitores a condição de formar um critério justo. Seu critério em si mesmo, creio eu, é um tanto irregu­lar, mas, particularmente, decidi tratar cada questão com tal sucintez, que meus leitores não perderiam muito tempo em ler na presente obra o que já se acha contido em outros escritos.
Resumindo, esforcei-me por evitar alguma reclamação de que a presente obra é supérflua em muitos detalhes. No tocante à sua utilidade, não tenho nada a dizer. Os que são dotados de um espírito mais disposto, talvez admitirão, quando a tiverem lido, que descobriram em meu comentário mais do que em minha modéstia ousei prometer. Ainda que com freqüência discordo de outros escritores, ou, pelo menos, difiro deles em alguns aspectos, é justo que eu seja escusado nesta matéria. Devemos cultivar tal respeito pela Palavra de Deus, que qualquer diferença de interpretação haja de nossa parte a altere o mínimo possível. Sua majestade será consideravelmente diminuída, especialmente se não a interpretarmos com a devida discrição e moderação. Porque, se é um fato axiomático que é ilícito contaminar algo que se acha dedicado a Deus, indubitavelmente não podemos tolerar que alguém manuseie o que há de mais sagrado entre todas as demais coisas sobre a terra sem que antes se lavem bem as mãos.
Portanto, é pretensão, e quase mesmo uma blasfêmia, alterar o significado da Escritura, manipulando-a sem o devido critério, como se ela fosse um gênero de jogo com o qual pudéssemos nos divertir. No entanto, é precisamente isso o que muitos estudiosos têm feito o tempo todo. Não obstante, percebemos com freqüência que não é possível existir concordância universal, mesmo entre aqueles que não são achados carentes de zelo, nem de piedade, nem de devoção e nem de moderação quando se discutem os mistérios de Deus. Este jamais abençoou a seus servos numa medida tal que nenhum deles chegasse a possuir pleno e perfeito conhecimento de todas as áreas do saber humano. E evidente que o propósito divino em limitar assim nosso conhecimento foi, antes de tudo, para que nos conservemos humildes, bem como para que continuemos a cultivar a fraternidade de nossos semelhantes. Ainda quando, sob outros aspectos, é algo extremamente desejável, não devemos esperar que haja na presente vida concordância durável entre nós na exposição de passagens da Escritura. Quando, pois, dissentimos dos pontos de vista de nossos predecessores, não devemos, contudo, deixar-nos estimular por algum forte desejo a inovação, nem impelidos por algum intuito de difamar outros, nem despertados por algum ódio, nem induzidos por alguma fortuita ambição. A nossa única necessidade é a de não ter em vista nenhum outro objetivo além do desejo sincero de só fazer o bem. Assim devemos também proceder no tocante à exposição da Escritura. Mas, quanto ao doutrinamento na santa religião, sobre a qual Deus particularmente deseja que a mente de seu povo esteja em concordância, devemos ter menos liberdade. Meus leitores não terão dificuldade alguma em perceber que tenho procurado enfocar ambos estes pontos. Mas, visto que não me é próprio fazer algum juízo ou pronunciamento sobre mim mesmo, espontaneamente deixo convosco este veredicto. Se todos os homens têm justo motivo de submeter-se em grande parte ao vosso juízo, então devo também submeter-me a ele em todos os pontos sobre os quais estais ainda mais informado do que eu, visto que os mesmos vos são bem mais relacionados. Tal conhecimento geralmente diminui em alguma extensão o conceito que temos dos demais; mas, em vosso caso, como é do conhecimento de todos os eruditos, tal conhecimento se agiganta ainda mais. Adeus.

João Calvino
a
Simon Grynaeus,
Um homem digno de toda honra,
Saudações

Strasburgo, 18 de outubro de 1539 

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21 fevereiro, 2010

0 Levando o Seu Vitupério (Sermão) - João Calvino


Saiamos, pois, a ele [Jesus] fora do arraial, levando o seu vitupério." (Hb 13-13) 

TODAS as exortações que nos são dadas para padecermos pacientemente pelo nome de Jesus Cristo e em defesa do Evangelho não terão efeito, se não nos sentirmos seguros da causa pela qual lutamos.Quando somos chamados a nos desfazer da vida, é absolutamente necessário saber em que base. Não podemos possuir a firmeza necessária, a menos que esteja fundamentada na certeza da fé. É verdade que há pessoas que se expõem tolamente à morte, na defesa de algumas opiniões absurdas e devaneios concebidos pelo próprio cérebro, mas tal impetuosidade deve ser considerada mais como frenesi do que zelo cristão; e, de fato, não há firmeza nem bom senso naqueles que, em certo tipo de casualidade, se empolgam dessa maneira. Mas embora isso ocorra, é somente numa boa causa que Deus nos reconhece como seus mártires. A morte é comum a todos, e os filhos de Deus são condenados à ignomínia c torturas exatamente como os criminosos o são; mas Deus faz a distinção entre eles, já que Ele não pode negar sua verdade. De nossa parte, exige-se que tenhamos provas firmes e infalíveis da doutrina que defendemos; e, por conseguinte, como eu disse, não podemos ser racionalmente impressionados pela exortação que recebemos para sofrer perseguição pelo Evangelho, se nenhuma certeza verdadeira de fé foi impressa em nosso coração.


Arriscar a vida numa incerteza não é natural, e ainda que o fizéssemos, seria só precipitação e não coragem cristã. Numa palavra, nada que fazemos será aprovado por Deus, se não estivermos completamente persuadidos de que é para Ele e sua causa que sofremos perseguição e o mundo é nosso inimigo. Quando falo de tal persuasão, não quero dizer meramente que temos de saber distinguir entre a verdadeira religião e os abusos ou loucuras dos homens, mas também que devemos estar inteiramente persuadidos da vida divina e da coroa, que nos é prometida nos céus, depois que tivermos lutado aqui na terra. Entendamos que estes requisitos são necessários e não podem ser separados um do outro.

For conseguinte, os pontos com os quais devemos começar são estes: Temos de saber bem qual é o nosso cristianismo, qual é a fé que temos de defender e seguir — qual é a regra que Deus nos deu; e, assim, temos de estar bem inteirados de tal instrução para que sejamos capazes de condenar com ousadia todas as falsidades, erros e superstições que Satanás introduziu para corromper a pura simplicidade da doutrina de Deus.

Veremos agora o verdadeiro método de nos preparar para sofrer pelo Evangelho. Primeiramente, devemos estar nos beneficiando até aqui na escola de Deus quanto a estarmos decididos com relação à verdadeira religião e à doutrina que vamos defender. Temos de menosprezar todos os artifícios e imposturas de Satanás e todas as invenções humanas como coisas frívolas e carnais, já que corrompem a pureza cristã; nesse particular diferindo, como verdadeiros mártires de Cristo, das pessoas irracionais que sofrem por meras absurdidades.

Em segundo lugar, assegurando-nos da boa causa, conseqüentemente, temos de ser inflamados para seguir a Deus aonde quer formos por Ele chamados. Sua Palavra tem de ter tal autoridade para conosco como ela merece, e, havendo-nos retirado deste mundo, temos de nos sentir arrebatados na busca da vida santificada.

Porém, é mais que estranho que, embora a luz de Deus esteja brilhando mais radiantemente que nunca, haja uma lamentável' falta de zelo. Em resumo, é impossível negar que é para nossa grande vergonha, para não dizer temível condenação, que conhecemos tão bem a verdade de Deus e temos tão pouca coragem em defendê-la.

Acima de tudo, quando olhamos para os mártires do passado, nos envergonhamos de nossa covardia! Em sua maioria não eram pessoas muito versadas nas Santas Escrituras para poderem disputar cm todos os assuntos. Eles sabiam que havia um Deus, a quem convinham adorar e servir; que haviam sido remidos pelo sangue de Jesus Cristo a fim de colocarem a confiança de salvação nEle e em sua graça; e que todas as invenções dos homens, sendo mera inutilidade e lixo, eles deviam condenar todas as idolatrias e superstições. Numa palavra, sua teologia era, em substância, esta: Há um Deus que criou todo o mundo e nos declarou sua vontade por Moisés e pelos profetas, e, finalmente, por Jesus Cristo e seus apóstolos; e temos um Redentor exclusivo, que nos comprou por seu sangue e por cuja graça esperamos ser salvos. Todos os ídolos do mundo são amaldiçoados e merecem abominação.

Com um sistema abarcando nenhum outro ponto que não esses, eles foram corajosamente às chamas ou a qualquer outro tipo de morte. Não entravam de dois em dois ou de três em três, mas em tamanhos grupos, cujo número dos que caíram pelas mãos dos tiranos é quase infinito.

O que então deve ser feito para inspirar nosso peito com a verdadeira coragem? Temos, em primeiro lugar, de considerar quão preciosa é a confissão de nossa fé aos olhos de Deus. Pouco sabemos o quanto Deus preza isso, se nossa vida, que não é nada, é estimada mais altamente por nós. Quando isso se dá, manifestamos maravilhoso grau de estupidez. Não podemos salvar nossa vida à custa de nossa confissão sem reconhecermos que a mantemos em mais alta estima que a honra de Deus e a salvação de nossa alma.

Um pagão poderia dizer: "Foi coisa miserável salvar a vida deixando as únicas coisas que tornavam a vida desejável!" E, não obstante, tal indivíduo e outros como ele nunca souberam por que propósito os homens são colocados no mundo, e por que vivem aqui. Sabemos muito bem qual deve ser a principal meta de vida, isto é, glorificar a Deus, para que Ele seja nossa glória. Quando isso não é feito, ai de nós! Não podemos continuar vivendo por um único momento na terra sem amontoarmos outras maldições sobre nossas cabeças. Contudo, não estamos envergonhados de   obter alguns dias para nos enlanguescer aqui embaixo, renunciando o Reino eterno ao nos separarmos dEle, por cuja energia somos sustentados em vida.

Mas como a perseguição sempre é severa e amarga, consideremos: Como e por quais meios os cristãos podem se fortalecer com paciência, para resolutamente exporem a vida pela verdade de Deus. O texto que lemos em voz alta, quando corretamente compreendido, é suficiente para nos induzir a agirmos assim. O apóstolo diz: ''Saiamos da cidade para o Senhor Jesus, levando seu vitupério".

Em primeiro lugar, Ele nos lembra que, embora as espadas não sejam desembainhadas contra nós, nem o fogo aceso para nos queimar, não podemos ser verdadeiramente unidos ao Filho de Deus, enquanto estamos arraigados neste mundo. Portanto, um cristão, mesmo em repouso, sempre tem de ter um pé pronto a marchar para a batalha, e não só isso, mas tem de ter seus afetos retirados do mundo, ainda que o corpo esteja habitando aqui.

Enquanto isso, para consolar nossas enfermidades e mitigar a vexação e tristeza que a perseguição nos causa, é-nos oferecida uma boa recompensa. Sofrendo pela causa de Deus, estamos caminhando passo a passo após o Filho de Deus e o temos por nosso Guia. Fosse dito simplesmente que para sermos cristãos tivéssemos de corajosamente passar por todos os insultos do mundo, encontrar a morte em todo momento e da maneira que Deus se agradasse designar, teríamos aparentemente algum pretexto para replicar.
É um caminho desconhecido para irmos na dúvida. Mas quando somos ordenados a seguir o Senhor Jesus, sua direção é muito boa e honrada para ser recusada.Somos tão melindrosos quanto à disposição de suportar qualquer coisa? Então temos de renunciar a graça de Deus pela qual Ele nos chamou à esperança de salvação. Há duas coisas que não podem ser separadas — ser membro de Cristo e ser provado por muitas aflições.

Quem dera fosse realmente fácil, mesmo para Deus, nos coroar imediatamente sem exigir que sustentássemos qualquer combate. Mas assim como é seu prazer que Cristo reine em meio aos seus inimigos, assim também é sua vontade que nós, sendo colocados no meio deles, soframos a opressão e violência que nos infligem até que "Ele nos liberte. Sei, de fato, que a carne esperneia quando deve ser levada a este ponto, mas não obstante a vontade de Deus tem de sobrepor-se.

Em tempos passados, muitas pessoas, para obter simples coroas de folhas, não recusavam o trabalho duro, a dor e a dificuldade. Até mesmo a morte não lhes era grande preço, e, ainda assim, cada um deles disputava uma corrida, não sabendo se iria ganhar ou perder o prêmio. Deus nos oferece a coroa imortal pela qual nos tornarmos participantes da sua glória. Ele não quer dizer que devemos lutar a esmo, mas todos temos a promessa do prêmio pelo qual nos empenhamos. Temos algum motivo para nos recusarmos a lutar? Achamos que foi dito em vão: "Se morremos com Jesus, também com ele viveremos"? Nosso triunfo está preparado, e contudo fazemos tudo o que podemos para evitar o combate. Para não deixar meios sem serem empregados que sejam adequados para nos estimular, Deus coloca diante de nós Promessas, de um lado, e Ameaças, do outro. Sentindo que as promessas não têm influência suficiente, fortaleçamo-nos acrescentando as ameaças. É verdade que devemos ser obstinados no extremo de não pôr mais fé nas promessas de Deus, quando o Senhor Jesus diz que Ele nos confessará como seus diante de seu Pai, contanto que o confessemos diante dos homens.

Mas se Deus não pode nos alcançar por meios gentis, não devemos ser meros obstáculos se suas ameaças também falham? Jesus convoca todos aqueles que, por medo da morte temporal, negam a verdade, a comparecerem no tribunal de seu Pai, e diz que então o corpo e a alma serão entregues à perdição. Em outra passagem, Ele afirma que negará todos o que o tiverem negado diante dos homens. Estas palavras, se não somos completamente impérvios para sentir, bem que podem fazer nossos cabelos se levantarem enfim! É em vão alegarmos que piedade deve nos ser mostrada, já que nossas naturezas são tão delicadas; pois é dito, pelo contrário, que Moisés, tendo buscado a Deus pela fé, foi fortalecido para não se entregar sob tentação. Portanto, quando somos flexíveis e fáceis de dobrar, é sinal manifesto. Não estou dizendo que não temos zelo, nem firmeza, mas que não sabemos nada de Deus ou de seu Reino.

Há dois pontos a considerar. O primeiro é que todo o Corpo da Igreja em geral sempre esteve, e até ao fim estará, sujeito a ser afligido pelos ímpios. Vendo como a Igreja de Deus é pisoteada nos dias atuais pelos orgulhosos indivíduos mundanos, como um late e outro morde, como torturam, como conspiram contra ela. como ela é assaltada incessantemente por cães raivosos e bestas selvagens, não nos esqueçamos de que a mesma coisa foi feita em todos os tempos passados.

Enquanto isso, o assunto de suas aflições sempre foi afortunado. Em todos os eventos, Deus fez com que, embora fosse oprimida por muitas calamidades, ela nunca tenha sido completamente esmagada; como está escrito: "Os ímpios com todos os seus esforços não tiveram sucesso no que intentaram". O apóstolo Paulo se gloria no fato e mostra que este é o curso que Deus, em misericórdia, sempre toma. Ele diz: "Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre por toda parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos" (2 Co 4.8-10).

Só menciono brevemente neste sermão para ir ao segundo ponto, que está mais a nosso propósito, que devemos tirar vantagem dos exemplos particulares dos mártires que foram antes de nós. Não são limitados a dois ou três, mas são, como diz o apóstolo, "uma tão grande nuvem". Com esta expressão, ele intima que o número é tão grande que deve ocupar toda nossa visão. Para não ser tedioso, mencionarei somente os judeus, que foram perseguidos pela verdadeira religião, não apenas sob a tirania do rei Antioco, mas também um pouco depois da sua morte. Não podemos alegar que o número dos sofredores foi pequeno, pois formava um grande exército de mártires. Não podemos dizer que consistia em profetas a quem Deus tinha separado das pessoas comuns, pois mulheres e criancinhas faziam parte do grupo. Não podemos dizer que eles escaparam por pouca coisa, porque foram torturados tão cruelmente quanto possível.

Por conseguinte, ouvimos o que o apóstolo diz: "Uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; e outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos a fio de espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra (Hb 11.35-38).

Comparemos agora o caso deles com o nosso. Se eles suportaram tais coisas pela verdade, que naquela época era tão obscura, o que devemos fazer com a luz que agora brilha? Deus nos fala claramente; a grande porta do Reino dos céus foi aberta, c Jesus Cristo nos chama para si mesmo, depois de ter descido até nós para que pudéssemos tê-lo presente diante dos olhos.
Que repreensão nos seria suficiente para termos menos zelo para sofrer pelo Evangelho do que eles, que só tinham saudado as promessas de longe, que só tinham um pequeno postigo aberto para entrar no Reino de Deus e que só tinham um memorial e símbolo de Jesus Cristo? Estas coisas não podem ser expressas em palavras como merecem, e, então, deixo cada um a ponderar sobre elas consigo mesmo.

Em primeiro lugar, onde quer que esteja, o cristão tem de resolver, apesar dos perigos ou ameaças, andar em simplicidade como Deus ordenou. Que ele se guarde tanto quanto possa contra a voracidade dos lobos, mas que não seja com astúcia carnal. Acima de tudo, que ele coloque a vida nas mãos de Deus. Ele fez assim? Então, se acaso vier a cair nas mãos do inimigo, que ele saiba que Deus, tendo arranjado as coisas deste modo, se agrada de tê-lo como testemunha de seu Filho. Portanto, ele não tem meios de recuar sem quebrar a fé em Deus, a quem prometemos todo o dever na vida e na morte; Ele de quem somos e a quem pertencemos, ainda que não tenhamos feito nenhuma promessa.

Que seja mantido como ponto fixo entre todos os cristãos, que eles não devem considerar a vida mais preciosa do que o testemunho da verdade, já que Deus deseja ser glorificado assim. É em vão que Ele dá o nome de testemunhas (pois este é o significado da palavra mártir) a todos os que têm de responder perante os inimigos da fé? Aqui cada um não deve olhar para seu companheiro, pois Deus não honra a todos igualmente com a chamada. E como somos inclinados a olhar, devemos estar muito mais em guarda contra isso. Pedro, tendo ouvido dos lábios de Jesus que na velhice seria levado para onde não quereria ir. perguntou o que aconteceria com seu companheiro João. Não há nenhum de nós que não teria prontamente feito a mesma pergunta, pois o pensamento que imediatamente nos vem é: Por que sofro em lugar dos outros? Pelo contrário. Jesus Cristo nos exorta — não só a todos em geral, mas a cada um em particular — a nos mantermos "'prontos", a fim de que conforme Ele for chamando este ou aquele, marchemos avante por nossa vez.

Expliquei acima quão pouco preparados estaremos para sofrer martírio, se não estivermos armados com as promessas divinas. Agora resta mostrar um pouco mais completamente quais são o propósito e o alvo destas promessas — não para especificar todos em detalhes, mas para mostrar o que Deus deseja que esperemos dEle a fim de que nos consolemos em nossas aflições. Considerando-se sumariamente, podemos citar três coisas.
A primeira, é que já que nossa vida e morte estão em suas mãos, Ele nos preservará por seu poder, de modo que nem um fio de cabelo será arrancado de nossa cabeça sem a sua permissão. Portanto, os crentes devem se sentir seguros em quaisquer mãos que venham a cair, pois Deus não está despojado da tutela que Ele exerce sobre seu povo. Estivesse tal persuasão bem impressa em nosso coração, ficaríamos livres da maior parte das dúvidas e perplexidades que nos atormentam e nos obstruem em nossos deveres.

Vemos tiranos livres; a esse respeito, parece-nos que Deus já não possui meio de nos salvar, e somos tentados a cuidar de nossos próprios interesses, como se nada mais se esperasse dEle. Pelo contrário, sua providência, à medida que Ele a revela, deve ser considerada por nós como fortaleza inconquistável. Trabalhemos, então, para nos conscientizarmos da plena importância da expressão que nosso corpo está em suas mãos, que o criaram. Por isso. às vezes Ele libertou seu povo de maneira milagrosa e além de toda expectativa humana, como se deu a Sadraque, Mesaque e Abede-Nego na fornalha ardente; a Daniel, na cova dos leões; a Pedro, na prisão de Herodes, onde estava preso, acorrentado e rigorosamente guardado. Por estes exemplos, Ele quis testificar que Ele mantém nossos inimigos sob controle, embora possa não parecer, e que, quando quer, tem o poder de nos tirar dos grilhões da morte. Não que Ele sempre o faça, mas reservando a autoridade para si de dispor de nós para a vida e para a morte, Ele quer que nos sintamos completamente seguros de que Ele nos tem sob seu cuidado. Qualquer tirano que nos tente e com qualquer fúria que se arroje contra nós. pertence a Ele somente ordenar nossa vida.

Se Ele permite que tiranos nos matem, não é porque nossa vida não lhe é querida, é em maior honra cem vezes mais do que merece. Sendo esse o caso, tendo declarado pela boca de Davi que a morte dos santos é preciosa aos seus olhos, Ele também diz pela boca de Isaías que a terra descobrirá o sangue que parece estar oculto. Que os inimigos do Evangelho, então, sejam tão pródigos quanto serão do sangue dos mártires, pois terão de prestar contas dele ate a última gota. Nos dias atuais, eles se viciam em derrisão orgulhosa, enquanto entregam os crentes às chamas; e depois de terem se banhado no sangue deles, ficam tão intoxicados desse sangue que consideram todos os assassinatos que cometem como mero esporte festivo. Mas se temos paciência para esperar, por fim Deus mostrará que não é em vão que Ele estimou nossa vida em tão alto valor. Nesse entretempo, não nos ofendamos por parecer confirmar o Evangelho, que em valor ultrapassa o céu e a terra.

Para ficarmos mais seguros de que Deus não nos abandona nas mãos dos tiranos, lembremo-nos da declaração de Jesus Cristo, quando disse que Ele mesmo é perseguido nos seus membros. Deus de fato tinha dito antes por Zacarias: "Aquele que tocar em vós toca na menina do seu olho" (Zc 2.8). Mas aqui é dito com muito mais expressividade que. se sofrermos pelo Evangelho, é tanto quanto se o Filho de Deus estivesse sofrendo pessoalmente. Que saibamos que Jesus Cristo tem de se esquecer de si mesmo antes de deixar de pensar em nós, quando estamos em prisão ou em perigo de morte por sua causa. Que saibamos que Deus tomará no coração todas as afrontas que os tiranos cometem contra nós, da mesma maneira como se tivessem cometido contra o próprio Filho.

Vamos agora ao segundo ponto que Deus nos declara em sua promessa para nossa consolação. É que Ele nos sustentará assim pelo poder do seu Espírito para que nossos inimigos, façam o que fizerem, mesmo com Satanás à cabeça, não obtenham vantagem sobre nós. E vemos como Ele mostra seus dons em tal emergência; pois a constância invencível que encontramos nos mártires mostra abundante e formosamente que Deus trabalha poderosamente neles.

Na perseguição. Há duas coisas revoltantes para a carne: a vituperação e insulto dos homens e as torturas que o corpo sofre. Deus promete nos oferecer sua mão tão efetivamente, que superaremos ambas pela paciência.  O que Ele nos diz,  ele confirma por fato. Tomemos este escudo para nos precaver de todos os medos pelos quais somos assaltados, e não restrinjamos a operação do Espírito Santo dentro de tais limites estreitos, como a supor que Ele não sobrepujará facilmente todas as crueldades dos homens. Disto tivemos, entre outros exemplos, um que é particularmente memorável. Um jovem que certa vez viveu aqui conosco, tendo sido preso na cidade de Tournay, seria condenado à guilhotina, desde que se retratasse, e se continuasse firme em seu propósito, seria queimado vivo! Quando perguntado o que pretendia fazer, simplesmente respondeu: "Aquele que me dará graça para morrer pacientemente por seu nome, sem dúvida me dará graça para suportar o fogo!"

Devemos tomar esta expressão, não como a de um homem mortal, mas como do Espírito Santo, para nos assegurarmos que Deus não é menos poderoso para nos fortalecer e nos tornar vitoriosos sobre as torturas, do que nos fazer submeter de boa vontade a uma morte mais suave. Além disso, vemos muitas vezes que firmeza Ele dá a malfeitores infelizes que sofrem por seus crimes. Não falo dos endurecidos, mas dos que obtêm consolação da graça de Jesus Cristo, e, por esse meio, com corações tranqüilos, sofrem os castigos mais cruéis que podem ser infligidos. Um belo exemplo é visto no ladrão que foi convertido à morte de nosso Senhor. Será que Deus, que assim ajuda poderosamente pobres criminosos quando suportam o castigo de suas más ações, estará tão ausente do seu povo, enquanto lutam pela causa santa, quanto a não lhes dar coragem invencível?

O terceiro ponto a considerar acerca das promessas de Deus aos seus mártires é o fruto que eles devem esperar por seus sofrimentos, e no fim, se for necessário, por suas mortes. Este fruto se manifestará depois de terem glorificado o seu nome, depois de terem edificado a Igreja pela constância, quando serão reunidos com o Senhor Jesus na sua glória eterna. Mas como falamos acima brevemente, é bastante aqui apenas lembrar. Que os crentes aprendam a erguer a cabeça para as coroas de glória e imortalidade para as quais Deus os convida, a fim de que assim eles não se sintam relutantes em deixar a vida presente por tal recompensa.

Para que se sintam bem seguros desta bênção inestimável, que sempre tenham diante dos olhos a conformidade que eles têm a nosso Senhor Jesus Cristo. E exatamente como Ele que, pela repreensão da cruz, chegou à ressurreição gloriosa, vejam que a morte consiste em toda a nossa felicidade, alegria e triunfo!
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19 fevereiro, 2010

0 A Graça Restringe a Depravação Humana - João Calvino


Ora, em todos os tempos, alguns têm existido que, guiados pela natureza, têm-se inclinado para a virtude por toda a vida. Nem levo em conta se nos costumes se possam notar neles muitos deslizes, uma vez que, pelo próprio empenho para com a honestidade, têm dado prova de que na natureza algo de pureza lhes subsistia.

De que valor se revestem diante de Deus virtudes desta espécie, embora tenhamos de discuti-lo mais plenamente onde se haverá de tratar dos méritos das obras; contudo, até onde se faz necessário à elucidação do presente argumento, também neste lugar se nos impõe falar do assunto. Portanto, estes exemplos nos parecem avisar, para que não pensemos ser de todo corrompida a natureza do homem, visto que, de sua inclinação, alguns não só excederam em sublimadas ações, mas até se conduziram com a máxima dignidade por todo o curso da vida. Contudo, aqui nos deve ocorrer que, por entre esta corrupção de nossa natureza, algum lugar há para a graça de Deus, não aquela que a expurgue, mas aquela que a coíba interiormente. Ora, se o Senhor permitisse à mente de cada um esbaldar-se de rédeas soltas em todos os desejos, sem dúvida ninguém haveria que, de fato, não propiciasse confirmação de que, mui verdadeiramente, em si concorreriam todas aquelas coisas más pelas quais Paulo condena toda a natureza [Rm 3.12].

E então? Porventura te eximes ao número desses cujos pés são velozes para derramar sangue [Rm 3.15], as mãos aviltadas em rapinas e assassinatos, a garganta semelhante a sepulcros abertos, a língua enganosa, os lábios pejados de veneno [Rm 3.13], as obras inúteis, iníquas, pútridas, letais, cuja mente é sem Deus, cujas entranhas são depravações, cujos olhos estão voltados para as insídias, o ânimo alçado para ultrajar; em suma, todas as partes engrenadas para infindas impiedades?

Se, como o declara o Apóstolo inqualificadamente, cada alma é sujeita a todas as abominações desta espécie, seguramente vemos o que haveria de ser, se o Senhor deixasse que a licenciosidade humana vagasse, conforme sua inclinação. Não há nenhuma fera raivosa que seja impelida tão desbragadamente; rio nenhum, por mais caudaloso e violento, que o desbordamento seja tão impetuoso. Em seus eleitos, o Senhor cura estes achaques na maneira que logo exporemos; nos outros, aplicado um freio, apenas os coíbe, só para que não se arrojem a extremos, até onde antevê ser conveniente para a preservação da totalidade das coisas.

Daqui, uns são contidos pelo senso de vergonha, outros, pelo temor das leis, para que não se lancem a muitas espécies de torpezas, se bem que, em larga medida, não dissimulam sua impureza; outros, porque julguem ser de vantagem uma forma honesta de viver, a ela, de certa maneira, aspiram; outros se alteiam acima da condição vulgar para que, mercê de sua própria importância, contenham os demais na linha da deferência apropriada.

E assim, mediante sua providência, Deus nos refreia a perversidade da natureza para que não irrompa em ação; entretanto, não a purifica interiormente.

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18 fevereiro, 2010

0 A Depravação Humana em Romanos 3 - João Calvino


A Depravação humana é confirmada pelo que diz Paulo em Romanos 3

Em nada é mais branda a condenação do coração, quando se diz ser enganoso acima de todas as coisas e depravado [Jr 17.9]. Mas, visto que estou tentando ser breve, contentar-me-ei com apenas uma passagem, a qual, no entanto, haverá de ser como um espelho caríssimo, em que contemplamos a imagem integral de nossa natureza. Ora, o Apóstolo, quando quer lançar por terra a arrogância do gênero humano, o faz com estes testemunhos [Rm 3.10-16, 18]: “Pois não há nenhum justo, não há quem tenha entendimento, ou que busque a Deus; todos se desviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, nem um sequer” [Sl 14.1-3; 53.1-3]; “sepulcro aberto é a garganta deles; com suas línguas agem dolosamente” [Sl 5.9]; “veneno de áspides há debaixo de seus lábios” [Sl 140.3]; “dos quais a boca está cheia de maldição e amargor” [Sl 10.7]; “cujos pés são velozes para derramar sangue; em cujas veredas há destruição e infortúnio” [Is 59.71]; “diante de cujos olhos não há temor de Deus” [Rm 3.18].

Com esses raios, o Apóstolo não está investindo apenas contra certos homens, mas contra toda a raça dos filhos de Adão. Nem está ele a censurar os costumes depravados de uma ou outra era, mas está acusando a perpétua corrupção de nossa natureza. Com efeito, nesta passagem, seu propósito não é simplesmente censurar  os homens, para que caiam em si, mas, antes, ensinar que todos têm sido acossados de inelutável calamidade, da qual não podem sair, a não ser que sejam retirados pela misericórdia de Deus.

Visto que isso não podia ser provado, a não ser que fosse estabelecido da ruína e destruição de nossa natureza, trouxe ele à baila estes testemunhos, mediante os quais se convence de que nossa natureza está mais do que perdida. Portanto, fique isto demonstrado: os homens são tais quais aqui descritos, não apenas pelo vezo do costume depravado, mas ainda pela depravação de sua natureza. Porquanto não se pode de outra forma sustentar a argumentação do Apóstolo: não há para o homem nenhuma salvação, senão pela misericórdia do Senhor, porquanto, em si, ele está inexoravelmente perdido.

Não me darei aqui ao trabalho de provar a aplicabilidade desses testemunhos, para que não pareçam, aos olhos de alguém,64 indevidamente usados pelo Apóstolo. Procederei exatamente como se essas coisas fossem originalmente ditas por Paulo, não tomadas dos profetas. Ele priva o homem, de início, da justiça, isto é, da integridade e da pureza; a seguir, do entendimento [Rm 3.10, 11]. Ora, a carência de entendimento é demonstrada pela apostasia para com Deus, a busca de quem é o primeiro degrau da sabedoria. Mas essa deficiência necessariamente se acha naqueles que se têm afastado de Deus. Acrescenta em seguida que todos se têm transviado e se têm tornado como que putrefatos, que nenhum há que faça o bem; então adiciona as ignomínias com as quais contaminam a cada um de seus membros aqueles que uma vez se espojaram na dissolução. Finalmente, atesta que são vazios do temor de Deus,o que deveria ser a regra a dirigir-nos os passos.

Se forem estes os dotes hereditários do gênero humano, em vão se busca algo de bom em nossa natureza. Reconheço, sem dúvida, que nem todas estas abominações vêm à tona em cada ser humano, entretanto não se pode negar que esta hidra jaz oculta no coração de cada um. Ora, como o corpo, quando já mantém incubada em si a causa e matéria de uma doença, se bem que ainda não efervesça a dor, por isso não se julgará ser sã nem mesmo a alma, enquanto borbulha em tais achaques de vícios, embora a comparação não se enquadre em todos os aspectos, porque, no corpo, por mais enfermo, subsiste um alento de vida; a alma, porém, imersa neste abismo fatal, não só padece desses achaques, mas ainda é inteiramente vazia de todo bem.
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