05 janeiro, 2010

0 Três Passos do Verdadeiro Arrependimento - João Calvino




Será vantajoso expor mais claramente a definição proposta por nós, na qual se devem considerar especialmente três pontos.

Primeiro, quando o chamamos a volta da vida para Deus, requeremos uma transformação não apenas nas obras exteriores, mas inclusive na própria alma, a qual, quando é despojada de sua velha natureza, então, afinal, em si produz os frutos de obras que correspondam à sua renovação. Enquanto o Profeta quer expressar isto, ordena àqueles a quem chama ao arrependimento que façam para si um coração novo [Ez 18.31]. Donde, a fim de mostrar como os israelitas deviam voltar sinceramente para o Senhor, tocados de arrependimento, mais amiúde ensina Moisés que deviam fazer isso “de todo o coração e de toda a alma” [Dt 6.5; 10.12; 30.2, 6, 10], expressão que vemos constantemente repetida pelos profetas; e ao chamá-lo “circuncisão do coração” [Dt 10.16; 30.6], mexe com os afetos interiores.

Entretanto, não há nenhuma passagem na qual melhor se perceba qual é a real propriedade do arrependimento do que no quarto capítulo de Jeremias: “Se voltares, ó Israel”, diz o Senhor, “volta para mim. Preparai para vós o campo de lavoura, e não semeeis entre espinhos. Circuncidai-vos ao Senhor, e tirai os prepúcios de vosso coração” [Jr 4.1, 3, 4]. Pode-se ver como ele declara que, para viver honestamente, é necessário desarraigar a impiedade do íntimo do coração. E para tocá-los mais vividamente, os adverte que é Deus com quem hão de tratar, com o qual de nada serve andar com tergiversações, pois ele aborrece no homem a duplicidade do coração.  [Tg 1.7, 8].

Por esta causa, ri-se Isaías [58.6] dos baldados esforços dos hipócritas, que se empenhavam, de fato excessivamente, em desenvolver o arrependimento exterior expresso em cerimônias; mas, enquanto isso, não se preocupavam em desatar os feixes de iniqüidade com os quais mantinham atados os pobres; onde mostra, ademais, de forma admirável, em que se situa propriamente o arrependimento não fingido.

O segundo ponto era que ensinamos que o arrependimento procede do real temor de Deus. Pois, antes que a mente do pecador se incline ao arrependimento, importa seja ela despertada pelo senso do juízo divino. Quando, porém, este senso se tenha fixada profundamente, de que Deus um dia haverá de subir ao seu tribunal a fim de exigir a razão de todas as palavras e feitos, não permitirá que o mísero ser humano descanse, nem que respire um instante, sem que o aguilhoe constantemente a meditar em outro modo de vida em que possa postar-se em segurança diante desse Juízo. Daí, enquanto exorta ao arrependimento, a Escritura faz freqüente menção do juízo, como em Jeremias [4.4]: “Para que não saia, porventura, minha ira como fogo, e não haja quem a extinga, em razão da maldade de vossas obras.” E no sermão de Paulo aos atenienses [At 17.30, 31]: “E, com efeito, embora Deus tenha deixado passar até agora os tempos dessa ignorância, anuncia agora aos homens que por toda parte todos se arrependam, visto que ele fixou um dia em que haverá de julgar o mundo todo com eqüidade”; e em muitos outros lugares.

Por vezes a Escritura declara que Deus é Juiz mediante castigos já infligidos, para que os pecadores ponderem consigo mesmos que, a menos que se arrependam em tempo, coisas piores
os ameaçam. Os capítulos 20 e 29 de Deuteronômio são ricos em exemplos. Não obstante, uma vez que a conversão começa do horror e ódio ao pecado, por isso o Apóstolo faz a “tristeza que é segundo Deus” [2Co 7.10] a causa do arrependimento. Mas, ele chama tristeza segundo Deus quando temos não só horror ao castigo, mas também odiamos e execramos ao próprio pecado, ao compreendermos que ele desagrada a Deus. Nem é de admirar, porque, a não ser que sejamos severamente espicaçados, não nos seria possível corrigir a indolência da carne. De fato, ao seu embotamento e apatia não bastariam simples estugadas, a não ser que Deus penetre mais fundo, ostentando suas varas. Além disso, adiciona-se a contumácia que, para ser quebrada, se faz necessário que se use como que marretas. Portanto, a severidade de que Deus faz uso ao ameaçar-nos é provocada nele pela depravação de nossa natureza, porquanto ele em vão seduziria com brandura aos que estão a dormir. Deixo de mencionar as provas disto, as quais ocorrem reiteradamente na Escritura.

Ainda por outra razão o temor de Deus é o princípio do arrependimento, a saber, que embora a vida do homem seja repleta de todas as classes de virtudes, a não ser que ela se volva para o culto de Deus, poderá, sem dúvida, ser louvada pelo mundo, mas será pura abominação no céu, uma vez que a parte capital da justiça é render a Deus seu direito e honra, dos quais ele é impiamente fraudado quando não temos o propósito de nos sujeitar a seu governo.

Em terceiro lugar, resta explicar o que significa dizermos que o arrependimento consta de duas partes, a saber: da mortificação da carne e da vivificação do Espírito. Isto, contudo, ainda que um pouco simples e vulgarmente de acordo com a capacidade e mentalidade do povo, o expõem com toda clareza os profetas, quando dizem: “Desiste do mal e faz o bem [Sl 34.14; 37.27]; de igual modo: “Lavai-vos, sede limpos, removei de meus olhos o mal de vossas obras. Cessai de agir perversamente, aprendei a fazer o bem, buscai o juízo, vinde em socorro do oprimido” etc. [Is 1.16, 17].

Pois, quando mandam o homem retroceder da maldade, em seguida exigem a mortificação de toda a carne, a qual está saturada de maldade e de perversidade. Coisa mui difícil e árdua é despir-nos de nós mesmos e apartar-nos de nossa disposição natural. Ora, não se deve julgar que a carne já foi bem mortificada, a não ser que tenha sido abolido tudo quanto temos de nós próprios. Como, porém, todo afeto da carne é inimizade contra Deus [Rm 8.7], o primeiro passo para a obediência de sua lei é essa renúncia de nossa natureza.

Em seguida, os profetas assinalam a renovação do Espírito em termos dos frutos que daí se produzem, a saber: da justiça, do juízo e da misericórdia. Ora, na verdade, não terá sido bastante desincumbir-se corretamente de tais deveres, a não ser que a própria mente e o coração primeiro tenham se revestido do sentimento da justiça, do juízo e da misericórdia. Isto se dá quando o Espírito de Deus assim nos imbui a alma, embebida de sua santidade, não só de novos pensamentos, mas também de novos sentimentos, para que possa com razão ser tida por nova. E, na realidade, uma vez que por natureza estamos alienados de Deus, a menos que preceda a
renúncia de nós mesmos, jamais nos inclinaremos àquilo que é reto. Por isso, com muita freqüência somos exortados a despir-nos do velho homem, a renunciar ao mundo e à carne, dando adeus a nossas concupiscências e sendo renovados no espírito de nosso entendimento [Ef 4.22, 23]. Com efeito, a própria palavra mortificação nos adverte de quão difícil é esquecer a natureza antiga, porque daqui inferimos que, não de outra maneira, somos conformados ao temor de Deus e aprendemos os rudimentos da piedade, mas também que, violentamente imolados pela espada do Espírito, somos reduzidos a nada. Como se Deus declarasse que, para que sejamos contados entre seus filhos, é necessário que nossa comum natureza seja destruída!




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