23 janeiro, 2010

0 A Providência não anula a responsabilidade humana - Calvino


Todos quantos se deixarem conduzir por esta moderação, não murmurarão contra Deus em vista das adversidades do passado, nem lançarão contra ele a culpa de suas iniqüidades, como o faz o Agamenão de Homero – eu, porém, não sou causador, e, sim, Zeus e o Destino]. Nem tampouco em desespero, como se arrebatados pelos fados, à morte se atirarão, como aquele  jovem Plauto: “Instável é a sorte das coisas; a seu talante, os fados conduzem os homens; lançar-me-ei contra um rochedo, para que ali com a vida eu perca os haveres.” Nem, com o exemplo de um outro, a seus maus feitos acobertarão com o nome de Deus. Pois, assim fala Licônides, em outra comédia de Plauto: “Deus foi o impulsor; creio que os deuses o quiseram, porquanto se não o quisessem, sei que não teria acontecido.” Antes, bem ao contrário, indagarão e aprenderão da Escritura o que agrade a Deus, para que, sob a direção do Espírito, a isso se esforcem.

Ao mesmo tempo, preparados para seguir a Deus aonde quer que os chame, deveras haverão de mostrar que nada é mais útil do que o conhecimento desta doutrina, doutrina que homens perversos invectivam, sem razão, pelo fato de que certos indivíduos, desassisadamente, dela abusam. Com suas parvoíces, homens profanos nesciamente provocam balbúrdia, de tal sorte que, como se diz, quase misturam o céu à terra. Se o Senhor assinalou o momento de nossa morte, argumentam que não há como fugir dela, logo é debalde diligenciar-se em tomar precauções. Portanto, continuam eles, um deles não ousa entregar-se a um caminho que ouve ser perigoso, para que não seja trucidado por ladrões; o outro recorre a médicos e se cansa de medicamentos, para que lhe assista a vida; o outro se abstém de alimentos mais pesados, para que não prejudique a saúde já precária; o outro se arreceia de morar em casa que ameaça ruir; todos, afinal, cogitam meios, e os forjam com grande decisão de espírito, mercê dos quais alcancem aquilo que almejam: ou são todas estas coisas remédios fúteis, que se tomam para corrigir a vontade de Deus, ou a vida e a morte, a saúde e a doença, a paz e a guerra, e outras coisas que os homens, segundo ou as apetecem, ou as abominam, tanto se esforçam, por sua diligência, seja por obtê-las, seja por evitá-las, não são determinadas por seu decreto fixo. Até mesmo concluem que haverão de ser perversas, não só totalmente supérfluas, as orações dos fiéis nas quais se pede que o Senhor proveja àquelas coisas que decretou já desde a eternidade.

Em síntese, cancelam a todas as deliberações que se tomam em relação ao porvir, como se fossem diametralmente contrárias à providência de Deus, que, sem serem eles consultados, ele decretou o que queria que viesse a acontecer. Por outro lado, de tal maneira imputam à providência de Deus quanto acontece, que não levam em conta o homem que se sabe muito bem ter cometido tal coisa.119 Um cidadão íntegro mata um sicário? Então dizem que “executou o desígnio de Deus”. Alguém furtou ou cometeu adultério? Já que fez o que fora previsto e ordenado pelo Senhor, este é ministro de sua providência. Um filho negligenciou os remédios e aguardou displicentemente a morte do genitor? Não pôde resistir a Deus, que havia assim pré-estabelecido desde a eternidade. E assim a todos os crimes chamam virtudes, porquanto são subservientes à ordenação de Deus.

A Providência divina longe está de dispensar todos os meios de proteção e socorro.


Com efeito, no que tange às coisas futuras, Salomão concilia facilmente as deliberações humanas com a providência de Deus. Pois, assim como se ri da obtusidade daqueles que, à parte do Senhor, audaciosamente empreendem o que lhes apraz, como se não fossem governados por sua mão, também desta sorte assim fala em outro lugar [Pv 16.9]: “O coração do homem planeja seu caminho, e o Senhor lhe dirigirá os passos”, deixando evidente que não somos de modo algum impedidos pelos eternos decretos de Deus de, sob sua vontade, não só olharmos por nós mesmos, como também de regularmos todas as nossas coisas. Isso nem mesmo carece de razão clara. Afinal de contas, aquele que nos limitou a vida com seus termos, ao mesmo tempo, depondo diante dele nossa solicitude, proveu-nos de meios e recursos de conservá-la; também nos fez capazes de antecipar os perigos; para que não nos apanhassem desprevenidos, ministrou-nos precauções e remédios.
Agora, pois, salta à vista qual é nosso dever, isto é, se o Senhor nos confiou a proteção de nossa vida, então que a cerquemos de cuidados; se oferece recursos, então que os usemos; se nos previne dos perigos, então não nos lancemos temerariamente a eles; se fornece remédios, não os negligenciemos. Com efeito, dirão que nenhum perigo nos fará mal, se não lhe é ordenado que nos prejudique, pois isso de maneira nenhuma se pode evitar.  Mas, ao contrário, que sucederá se os riscos não são fatais, que o Senhor já destinou remédios para repeli-los e superá-los? Vê como te é ajustado o raciocínio à ordem da administração divina. Tu concluis que não se deve precaver do perigo, porque, desde que não seja fatal, mesmo à parte de qualquer precaução o haveremos de ludibriar. O Senhor, no entanto, prescreve que te acauteles, porque não quer que te seja fatal.
Esses desvairados não consideram o que lhes está debaixo dos olhos, que as artes de se aconselhar e se acautelar foram inspiradas pelo Senhor aos homens, as quais se tornam subservientes à providência na conservação da própria vida, da mesma forma que, em sentido contrário, por negligência e inércia, atraem sobre si os males que lhes impôs. Pois, donde acontece que o homem providente, enquanto cuida bem de si, se desvencilha até de males iminentes, o insipiente pereça levado por temeridade, senão que tanto a insipiência quanto a prudência são instrumentos da divina administração para um e outro desses dois aspectos?
Essa é a causa por que Deus quis que não conhecêssemos o futuro, para que, sendo ele incerto, nos preveníssemos e não deixássemos de usar os remédios que ele nos dá contra os perigos, até que, ou os vençamos, ou sejamos deles vencidos. Por esse motivo, ponderei de antemão que a providência de Deus nem sempre se manifesta a descoberto; ao contrário, é como se Deus, de certo modo, a vestisse dos meios aplicados.



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