06 janeiro, 2010

0 Propagação do Calvinismo no Sec XVI - W. Stanford Reid




Ao tentarmos compreender esta questão da comunicação, devemos reconhecer que a transmissão de idéias depende muito da sociedade em que estas idéias são expressas. Temos tido muito bons exemplos deste fato nos jargões criados por estudantes universitários e pela geração hippie dos anos sessenta. Além disto, a questão de tecnologia da comunicação e da transmissão de idéias na sociedade hoje é de importância crucial. Haja vista que hoje o computador está assumindo uma função completamente revolucionária neste mesmo campo. No entanto, dada à técnica desta maneira de comunicar, ela é compreendida por muitos poucos, ou seja, apenas por aqueles que foram tecnicamente treinados para usá-la. Desta forma, para compreender o sucesso da transmissão das idéias de Calvino, e para explicar parcialmente o sucesso obtido em divulgá-las, é necessário que olhemos primeiro os antecedentes sociais da Reforma e o desenvolvimento dos meios de comunicação.

Desenvolvimento no Final do Período Medieval e no Início dos Tempos Modernos


Os dois séculos que se passaram entre 1300 e 1500 foram séculos de mudanças rápidas, e mesmo revolucionárias, na sociedade da Europa Ocidental. Se Petrarca ou Dantepudessem voltar para conversar com Erasmo, teriam se encontrado em um mundo completamente diferente daquele que haviam conhecido. De um lado, a Europa havia sofrido o ataque devastador da Peste Negra ou peste bubônica que matara um terço da população de alguns países. Esta tragédia produzira efeitos e implicações de longo alcance. Precisamos nos lembrar também de que foi durante estes séculos que eclodiu aRenascença, que o Grande Cisma e o Movimento Conciliatório na Igreja seguiam seu curso e, finalmente, que descobertas geográficas modificaram muitas das perspectivas dos europeus ocidentais – inclusive a descoberta da América e a circunavegação do Cabo de Boa Esperança, e a abertura posterior de um caminho direto para o distante Oriente. Por volta de 1500 a Europa era um continente diferente, com uma sociedade fundamentalmente modificada.

Um dos efeitos da Peste Negra foi o declínio da economia na Europa Ocidental, quando diminuiu a demanda de bens, assim como a mão-de-obra que os produzia. Contudo, por volta da metade do século quinze, na medida em que as pessoas se tornavam mais resistentes à doença, as populações começaram a crescer e, mesmo que seu número não tenha chegado aos níveis anteriores à praga – senão quando o século dezesseis já ia bem adiantado -, a indústria e o comércio começaram a se recuperar. Novas técnicas criadas nas indústrias de manufatura de tecidos de lã, nas de mineração do carvão e nas de produção de armamentos, tudo contribuía para estimular a economia; especialmente nos países do noroeste, como a Inglaterra e Holanda. Em função disto, aumentou a necessidade de um fluxo maior de dinheiro, resultando no aperfeiçoamento dos métodos de financiamento, e no surgimento de importantes empresas de operações bancárias, como a dos Médicis deFlorença e a dos Fuggers de Augsburg. Todos estes fatores contribuíram para a expansão geral do comércio depois de 1450, o que levou, por sua vez, à formação de uma rede de comunicações que viria a desempenhar papel muito importante na transmissão de idéias durante o século dezesseis.

Esta rede surgiu também em função das mudanças de classe que estavam ocorrendo em algumas regiões da Europa, em conseqüência dos desenvolvimentos econômicos. Apesar de sempre ter havido mercadores e artesãos aos quais podemos chamar de classe média por estarem entre a nobreza e a classe dos servos, não foi senão na última parte do século quinze que a verdadeira classe média começou a surgir. Ao invés de alguns poucos comerciantes e banqueiros, um número muito maior de homens interessados em comércio, mesmo que em escala bastante pequena, começou a desempenhar esta função na sociedade. Ao noroeste da Europa, em países como a Inglaterra, Holanda e Alemanha, a nova classe de homens começava a desalojar a nobreza de sua posição de comando da sociedade. Enquanto a nobreza sofria por causa da inflação que grassava, a nova classe comercial vicejava em decorrência da expansão econômica e se tornava o suporte de reis que tinham uma necessidade cada vez maior de dinheiro vivo.

Politicamente, os séculos quatorze e quinze viram o rápido crescimento de um sentimento de nacionalismo em muitas regiões. Foi o período do esforço de expansão dos ingleses, tanto nas ilhas Britânicas como na França, do outro lado do Canal, esforços que resultaram no desenvolvimento e na consolidação do sentimento nacionalista não apenas dos ingleses, mas também dos franceses e escoceses. Já no final do período, o nacionalismo espanhol fortaleceu-se na luta contra os mouros. Este nacionalismo popular, por sua vez, auxiliou o surgimento do que veio a ser conhecido como as “novas monarquias”. Os monarcas das nações em desenvolvimento, com o objetivo de consolidarem seu poder, tanto dentro de seus próprios países como na oposição a inimigos externos, precisavam de uma administração e de exércitos que só podiam ser mantidos com o apoio financeiro da nova classe média. Desta forma, o equilíbrio político do poder estava começando a se modificar em alguns países.

Uma outra mudança, que ocorreu entre 1300 e 1500, teve lugar na orientação do pensamento ocidental. A teologia de Thomas de Aquino, com sua aceitação da realidade dos universais, nos quais participavam os particulares, perdeu a primazia com o surgimento de idéias “modernas” anunciadas por homens como Marsílio de Pádua e Guilherme de Occam. O individual ou o particular passou então a ser considerado como a única entidade real, ao passo que os universais passaram a ser considerados apenas como classificações nominais. Este novo modo de pensar foi ainda mais enfatizado com o interesse demonstrado pelo pensamento clássico expresso nas então recém-descobertas ou recém-estudadas obras de autores gregos e latinos. O humanismo renascentista, com sua ênfase sobre o indivíduo, particularmente sobre homem de “virtu”, deu uma força adicional ao ponto de vista de que o indivíduo é a figura central de qualquer conceito a respeito do homem e de suas atividades, visão esta concretamente demonstrada por Pico dela Mirandolla em sua “Oration on the Glory of Man” (= “Oração à Glória do Homem”).

Todas estas mudanças tiveram sua influência sobre o padrão de comunicação. Certamente, a Idade Média tinha seu próprio método de transmitir idéias, mas esse método alcançava um número relativamente pequeno de pessoas e, por isso, o movimento de idéias era bastante limitado. Considerando que a grande maioria das pessoas era analfabeta, a sociedade medieval era uma sociedade basicamente oral e visual. A Igreja transmitia seus ensinamentos às pessoas através de quadros, imagens e cerimônias. Mesmo a pregação não era comum. Normalmente, quando os governos precisavam registrar muitos atos, privilégios e eventos, usavam os serviços do clero, a única classe letrada. As novas idéias, desenvolvidas nas escolas daqueles dias por pensadores revolucionários, como Pedro Abelardo, eram geralmente transmitidas por alunos que haviam estudado com estes homens. Os livros e documentos daquele tempo, produzidos em pergaminho até 1300, eram normalmente escritos em latim. Desta forma, sua leitura era limitada àqueles que tinham educação universitária e dinheiro suficiente para comprar artigos extremamente caros.

O século quinze assistiu a uma mudança radical de mentalidade. De um lado, a redescoberta da literatura clássica despertou um novo interesse pela educação e pela cultura, interesse fortalecido pelo uso do papel na produção de livros, fato que reduziu consideravelmente seu preço. Além disso, apesar dos conflitos internacionais constantes, o surgimento de estados nacionais facilitou um pouco a circulação pela Europa, resultando no aumento do número de estudantes que se deslocavam de uma universidade para outra. O fato deCopérnico, depois de estudar na Polônia, poder ir estudar ciência na Universidade de Pádua, na Itália, demonstra o quanto a situação estava se modificando. À medida que a classe média crescia, era indispensável, que os que a integravam, tivessem ao menos uma educação elementar para poderem comerciar e negociar. Um novo grupo de leitores começou a surgir; contudo, um público capaz de ler no vernáculo e não no latim das universidades.

Tudo isto fornecia as bases para o mais revolucionário desenvolvimento do século quinze: a invenção da imprensa. No início do século, havia sido divulgado o uso de blocos de madeira entalhada para a reprodução de ilustrações e de textos relativamente curtos. Apesar de os livros poderem ser reproduzidos desta maneira, sua publicação era lenta e bastante dispendiosa. Foi por volta de 1450, no entanto, que John Gutenberg, um alemão de Mainz, desenvolveu uma liga de metal que podia ser usada para fazer tipos móveis. O resultado foi uma verdadeira revolução em todo o processo de transmissão e comunicação de idéias.

Trabalhando primeiro em Mainz e depois em Estrasburgo, Gutenberg conseguiu uma reputação bastante rápida para suas publicações e, conseqüentemente, outros indivíduos destas duas cidades passaram a se dedicar também ao ofício de impressor. A partir da Alemanha, as técnicas do novo processo logo se espalharam para a Itália, e Veneza se tornou o principal centro de obras impressas. Pouco tempo depois, outras cidades, como Basiléia, na Suíça, seguiram seu exemplo, de forma que por volta de 1500 a imprensa se tornara relativamente comum. Estima-se que entre 1450 e 1500 tenham sido produzidos entre 10.000 a 15.000 textos diferentes, atingindo um total de quinze a vinte milhões de cópias. O uso do papel e do tipo móvel deu, à produção de livros, um caráter completamente diferente do que tivera antes de 1450.

Além de tornar possível a produção de livros baratos e em grande quantidade, a imprensa contribuiu para o surgimento de uma revolução intelectual em muitos outros aspectos também. Embora seja verdade que, até 1500, a maioria dos livros impressos eram antigas obras de autores latinos, obras novas começaram a surgir com freqüência cada vez maior, nas línguas vernáculas. Isto significa que os novos métodos de produção de livros visavam aos novos leitores. Estas obras não eram mais produzidas só para as pessoas que tinham formação universitária, mas também para aqueles que só podiam ler em sua língua materna. Talvez, de igual importância, como apontado por Marshall McLuhan, uma nova disposição de espírito foi gerada pela revolução da imprensa. Conquanto seja um pouco difícil pensar segundo o padrão linear de pensamento de McLuhan, resta pouca dúvida de que a ênfase passou a ser dada muito mais à palavra escrita e à sua compreensão intelectual. A comunicação visual tornou-se menos importante do que a capacidade de compreender o raciocínio intelectual ou, mesmo, abstrato.

A nova classe de leitores, tendo recebido um tipo de treinamento diferente daquele que era dado um século antes, começava agora a pensar em diferentes termos, podendo avaliar e absorver novas idéias. Além disto, com a possibilidade de produzir livros mais rápida e economicamente, as novas idéias podiam ser espalhadas mais facilmente, alcançando classes sociais que, até aquele momento, haviam estado à margem de tais questões. Mesmo que muitas pessoas não pudessem ler, outros liam para elas, dando-lhes condições para aceitar e avaliar não apenas a necessidade de instrução, mas também as idéias contidas nos livros. Esta foi a base sobre a qual se deu a transmissão dos ensinamentos dos Reformadores protestantes e, particularmente, dos de João Calvino.





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