11 janeiro, 2010

0 A Idade de Ouro do Calvinismo na França (1533-1633)



Por que os anos de 1533 e 1633 foram escolhidos para marcar o Início e o fim da Idade de Ouro do Calvinismo na França?
O ano de 1533 marca a repentina conversão de João Calvino à fé "evangélica". Este foi o ano em que, durante uma curta temporada com seu amigo Louis du Tillet, pároco de Claix, Calvino colocou no papel as suas primeiras anotações para a futura Instituição da Reli­gião Cristã. Em 4 de maio de 1534, ele renunciou aos seus "benefí­cios eclesiásticos", sustentados pelos cânones da Catedral de Noyon,
a onde nasceu. Naquele mesmo ano, pregou o "evangelho puro" em Poitiers, estabelecendo assim os fundamentos da futura Igreja Re­formada daquela cidade.
No ano de 1633, foi publicada, por Paul Testard, a obra Eirenicon seu Synopsis doctrine de natura et gratia. Foi a primeira obra de um teólogo das Igrejas Reformadas na França, obra que mi­nou, ainda que de forma encoberta, a fé destas Igrejas, conforme esta­va declarada em sua Confissão de 1559 e nos Cânones de Dordrecht, aceitos e ratificados em Alis, em 1620, pelo Sínodo Nacional que as jurisdicionava. A obra de Testard tratava da questão central da divina predestinação. No ano seguinte, em 1634, Moíse Amyraut (Amiraldus) publicou seu Breve Tratado Sobre a Predestinação e as Princi­pais Coisas que dela dependem, obra que se inclinava ainda mais distintamente para o Arminianismo. Apesar das esplêndidas advertên­cias de Pierre du Moulin (Moünaeus) e de André Rivet, contra os ensi­nos de Testard e Amyraut, o Sínodo Nacional de Alençon, que se reu­niu em 1637, não aplicou nenhuma sanção contra eles(1l
O período anterior a 1533 foi o período pré-calvinista do Protestantismo na França. Naquela época, o Protestantismo francês era for­mado por duas correntes de pensamento. A primeira era nacional, ini­ciada e defendida por católicos romanos que eram mais ou menos "evangélicos" e "reformados" de espírito, tais como Jacques Lefèvre d’Étaples (1450-1537) e Guiliaume Briçonnet (1472-1534). A segunda corrente veio de Lutero e, especialmente, do reformador francês Guillaume Farel (1489-1565) e de reformadores suíços tais como Zwínglio. Já, em 1523, Farel estabelecera uma pequena Igreja Evangélica secreta em Paris. Neste período pré-calvinista, a fé evangélica já tinha muitos mártires, tais como Jean Valliéres (morto em 1523), Jacques Pavan ou Pouent (morto em 1524), Jean Leclerc (morto em 1524), Louis de Ber-quin (morto em 1529) e Jean de Cartuce (morto em 1532).
O período posterior a 1633 foi o período do declínio do Calvinismo na França. Como diz um provérbio provençal: "O apodrecimento do peixe começa pela cabeça". Assim, sob as influências lamentáveis dos teólogos da Academia de Saumur, tais como Moíse Amyraut (1596-1664), Louis Cappel (1585-1658) e Josué de La Place (1596-1655), a fé de um número crescente de pastores e de Igrejas tornou-se impregna­da de influências arminianas. Pessoas de Fé Reformada tornaram-se uma raridade. Com isso, a idade de ouro do Calvinismo na França ter­minou. Apesar disso, permanecem a expectativa e a esperança que têm sido sempre aguardadas por alguns, expectativa de um renascimento, cuja aurora estamos finalmente começando a ver.
No primeiro período heróico (1533-1562), quando houve cruel perseguição, nos dias terríveis da guerra civil e religiosa dos trinta anos (de 1562 a 1593), e em um período de relativa paz nos reinados de Henrique IV e Luiz XIII (de 1593 a 1633), a Fé Reformada, semeada inicialmente pelo testemunho e martírio de muitos, espalhou-se e, en­tão, transbordou dos corações de multidão de crentes. Ela se manifes­tou em cada área da existência humana - na teologia e na filosofia, nas ciências e nas artes, na cidade e no campo, na vida familiar e profis­sional e até mesmo na política. Esta mesma fé se fez presente em todas as classes sociais - camponeses e nobres, burgueses e artistas. Os huguenotes ganhos para Jesus Cristo colocaram em prática as exortações do admirável tratado sobre a vida cristã que compõem os capítulos de 6 a 10 das Institutas:
"Se nós não somos de nós mesmos, mas do Senhor, fica cla­ro de qual erro devemos fugir e em que direção devemos orientar todos os atos de nossa vida."
"Não somos de nós mesmos: não permitamos que nossa ra­zão ou vontade façam oscilar nossos planos e ações. Não somos de nós mesmos: assim, não estabeleçamos como nos­so alvo a busca do que é conveniente à nossa carne. Não
somos de nós mesmos: de modo que, tanto quanto puder­mos, esqueçamo-nos de nós mesmos e de tudo que é nos­so."
"Pelo contrário, nós somos de Deus: que sua sabedoria e vontade dirijam todas as nossas ações. Somos de Deus: que nos esforcemos para andar em Sua direção como nosso úni­co alvo legítimo, em todos os momentos de nossa vida. Oh, quanto tem lucrado o homem que, tendo sido ensinado que não pertence a si mesmo, rejeita o domínio e o governo de sua própria razão podendo rendê-la a Deus!".
O primeiro período heróico, o período de terrível perseguição que durou até 1562, divide-se em duas partes: a primeira e maior vai até 1555, foi uma época de semeadura. Não havia Igrejas Reformadas estabelecidas ou organizadas. Quando o crescente número de crentes se reunia, isso acontecia em assembléias clandestinas. A congregação de Paris, por exemplo, não foi organizada como uma Igreja e dirigida regularmente por pastores e anciãos até setembro de 1555. O período muito breve de grande crescimento e de estabelecimento de igrejas durou sete anos: de 1555 a 1562. Os fatos falam por si mesmos: havia somente 5 igrejas organizadas em 1555 (em Paris, Meaux, Angers, Poi-tiers e Loudun) perto de quatro anos depois, quando se reuniu o Pri­meiro Sínodo Nacional em Paris, em 1559, havia cerca de cem igrejas; no ano de 1562, que marca o início das guerras religiosas, o número de igrejas chegou a 2.150. Samuel Mours escreve: "Não há dúvida de que se o flagelo das guerras religiosas não tivesse atingido o país, a Fran­ça teria se tornado predominantemente protestante".
Até 1555, época em que as Igrejas Reformadas foram "estabeleci­das", Calvino, que estava em Genebra, não cessava de orar por sua pá­tria e por seus compatriotas para que eles pudessem render-se ao Se­nhor e à Sua Palavra, para que verdadeiras igrejas pudessem ser esta­belecidas na França e para que os crentes franceses pudessem ser for­talecidos a fim de permanecerem firmes e, se necessário, tornarem-se mártires. Já no ano de 1535, conforme testifica a Epístola ao Rei Francisco I (destinada a ser inserida no prefácio das Institutas), o Reformador procurava ajudar e consolar Ia pauvrette Église ("a po­brezinha igreja" da França. Foi com ela em mente, e desejando "servir ao nosso povo francês", e através de seus labores, que ele traduziu a edição latina de 1536 (um sumário da qual ele publicara em francês já no ano de 1537 sob o título Instrução e Confissão de Fé). No pre­fácio da primeira edição francesa de suas Institutas (1541), ele escreveu a respeito de sua obra principal, que continuou a desenvolver e a enriquecer no decorrer dos anos:
"Em primeiro lugar, a fim de servir a todos os homens de ciência, seja qual for a nação a que pertençam, eu a escrevi em Latim; em seguida, desejando comunicar aquilo que pu­desse render fruto ao nosso povo (francês), traduzi-a para a nossa língua".
Apesar das perseguições que se intensificaram depois de um edi­to proclamado por Francisco I, em 24 de junho de 1539, perseguições que se tornaram ainda mais severas com a criação de uma câmara “ar­dente", por Henrique II, em Paris, em 1547, e com a criação de tribunais semelhantes nas outras províncias, as conversões ao Evangelho puro e as congregações evangélicas Es­tas congregações designavam líderes por toda parte. Isto, por exemplo, aconteceu com a Igreja em Paris que, em 1540 escolheu como seu pregador um ourives viajante, chamado Glaude Le Peintre, que passara apenas três anos em Genebra* (Após ter sido denunciado, Le Peintre foi queimado em uma estaca,) A Igreja de Meaux também escolheu, em 1546, um simples cardador, Pierre Le Clerc, como seu "ministro res­ponsável pela proclamação da Palavra de Deus e pela administração dos sacramentos'.
Muitos huguenotes naqueles dias, quer estivessem visitando quer estivessem de viagem, levavam no bolso de seu grande casaco uma Bí­blia em francês ou uma cópia das Institutas, pessoalmente anotadas e com as passagens-chaves sublinhadas, ou levavam, ainda, algum folhe­to reformado de Genebra a Basiléia! Quantos, deles foram lançados nas chamas das estacas simplesmente porque tais obras foram desco­bertas com eles ou em suas casas, na gaveta de uma mesa, num armá­rio ou em outro esconderijo, ou mesmo, em lugar de trabalho ou ainda em sua fazenda!
Poucos sacerdotes e monges haviam se tornado reformados, tais como Ponthus de Saint Georges, um abade de perto de Couhé, em Poitou; Jérôme Vindocin, da Gasconha; Jean Michel de Bourges; Secenat e Ramondy, de Cévennes. Ainda mais importante foi o fato de que um número muito maior de homens de praticamente todas as atividades exercerem "ministérios secretos", naqueles dias. Nas igrejas clandes­tinas, os novos crentes reformados encontravam-se para ler as Sagra­das Escrituras, orar e cantar Salmos, utilizando-se de qualquer prega­dor que estivesse passando ou estivesse por ali.
Editores, tais como Simon Dubois, em Lyon, já em 1528, e Robert Estienne, em Paris, de 1523 a 1551, publicaram folhetos proibidos.
Colportores, tais como Mace Moreau e Jean Joerry, que foram posteriormente queimados em estacas, o primeiro em Troyes e o se­gundo em Toulouse, espalharam a Bíblia em língua francesa, folhetos reformados como o folheto, Sobre a Ceia do Senhor, (de Calvino), e livros de cânticos espirituais".
As chamas das estacas subiram bem alto, mas a chama da fé re­formada subiu ainda- mais alto! Jean Crespin (1500-1572), em,seu "Martiriologia ou Livro de Mártires", de 1554, completado com acréscimos em 1619 pelo Pastor Simon Goulart, conta a história de 789 mártires e menciona os nomes de 2.120 outros protestantes sentencia­dos à morte ou assassinados. Apesar disto, esta é também a época em que "as correntes do Evangelho, das puras fontes de pregação de Ge­nebra, escorrem vagarosamente e irrigam a terra da França."
Os crentes franceses, em meio a teste tão severo, entenderam que tinham recebido uma missão e uma responsabilidade como evangelis­tas e testemunhas. Assim, Calvino podia regozijar-se de que o Evan­gelho, apesar de toda oposição, progredia em seu país de origem* Em 10 de junho de 1549, ele escreveu a Madame de Ia Roche-Ponçay:
"Quão alegres devemos estar quando o reino do Filho de Deus, nosso Salvador, multiplica-se e quando a boa semente de Sua doutrina se espalha, chamando-nos para Si mesmo, Ele nos consagra para que toda nossa vida possa servir para honrá-lo... Que, vós, porém, possais estar conscientes de que onde quer que formos, a cruz de Jesus Cristo nos seguirá.
E em uma carta de 3 de setembro de 1554, ele exortou os crentes em Poitou, onde Igrejas Reformadas estavam se desenvolvendo:
"Que cada um de vós procure atrair e ganhar para Jesus Cristo aqueles que puder e, em seguida, que os que considerardes capazes, depois de acurado exame, sejam recebidos (na igreja) mediante a aceitação de todos... Mostrai que o Evangelho de nosso Senhor Jesus vos ilumina para mostrar-vos o caminho certo, a fim de que não erreis como filhos das trevas".
O Reformador também se preocupou com a perseverança final dos que estavam presos por causa de sua fé. Em 12 de março de 1553, ele escreveu aos cinco prisioneiros de Lyon:
"Estou plenamente seguro de que nada pode abalar a força que Deus colocou em vós. Já por um longo tempo, tendes estado meditando na batalha final que tereis que suportar, se é da boa vontade dEle levar-vos até esse ponto. Confiai em que Aquele a quem servis reinará em vossos corações através de seu Santo Espírito, de tal modo que Sua graça triunfará sobre toda tentação. Aquele que habita em vós é mais forte do que o mundo.' Aqui cumpriremos o nos­so dever de orar para que Ele seja crescentemente glorificado na vossa constância e que, pela consolação de Seu Espíri­to, Ele suavize e amenize tudo o que é doloroso para o vos­so corpo, e assim dirija para Si, todas as vossas emoções pa­ra que, ao olhardes para a coroa celestial, possais estar prontos para deixar tudo o que é do mundo, sem arrependimento".
Cerca de dois meses mais tarde, ele escreveu novamente para os mesmos prisioneiros de Lyon que estavam para morrer como mártires, em 16 de maio de 1553, dizendo um ao outro: "Coragem, meu irmão, coragem!":
"Uma vez que parece que Deus deseja usar vosso sangue para confirmar Sua verdade, não há nada melhor do que preparar-se a si mesmo para este fim, orando para que Ele vos faça submissos à Sua boa vontade, de tal modo que na­da vos impeça de ir para onde Ele vos chama".
De 26 a 28 de maio de 1559, ainda em meio a perseguições, o pri­meiro Sínodo Nacional das Igrejas Reformadas, na França, reuniu-se secretamente em Paris.
A idéia de tal Sínodo cristalizara-se vagarosamente. "Deus inspirou todas as Igrejas Cristãs (reformadas) estabelecidas na França para reunirem-se a fim de estabelecerem um acordo na doutrina e na disciplina, em conformidade com a Palavra de Deus", escreveu Theodore Beza, em sua História da Igreja (1580). Foi uma reunião de "ministros" e fiéis, ocorrida em Poitiers, no natal de 1557, na época da visita do pastor parisiense Antoine de Chandieu, que definiu o projeto do Sínodo.
Um outro pastor parisiense, François de Morei, presidiu este Sínodo que reuniu representantes de mais de sessenta das cem igrejas que existiam na França. Este Primeiro Sínodo Nacional das Igrejas Re­formadas, na França, adotou uma Confissão de Fé e uma Norma de Disciplina. A Confissão de Fé veio de um esboço dos trinta e cinco 7 artigos preparados por Calvino. Quanto à Norma de Disciplina, foi inspirada igualmente pelo que o Reformador escrevera em suas Institutas e pelos exemplos das igrejas de Estrasburgo e Genebra.


Pierre Courthial 


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