16 janeiro, 2010

0 Estávamos Mortos - João Calvino




1. E vós, quando estáveis mortos. (Ef 2.1,2) Eis aqui uma (epexergasia) das afirmações anteriores - ou seja, uma explicação e esclarecimento. Com o fim de aplicar com maior eficácia, aos efésios, a declaração geral da graça, o apóstolo lhes lembra sua condição anterior. Esta aplicação contém duas partes. "Vós, uma vez, estivestes perdidos; agora, porém, Deus, mediante sua graça, vos resgatou da destruição." Mas ao envidar esforços para salientar cada uma dessas partes, o apóstolo interrompe seu argumento por meio de hipérbato. Existe certa dificuldade na linguagem, mas o significado é claro. Temos apenas que nos reportar a ambas estas partes. Quanto à primeira, vemos que o apóstolo diz que os efésios estiveram mortos; e expõe, ao mesmo tempo, a causa da morte, a saber: os pecados. Sua intenção não é apenas dizer que viveram sob o risco de morte; senão que declara que ela era uma morte real e presente, pela qual foram subjugados. Como a morte espiritual não é outra coisa senão o estado de alienação em que a alma subsiste em relação a Deus, já nascemos todos mortos, bem como vivemos mortos até que nos tomamos participantes da vida de Cristo; daí João também dizer: "Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão" [Jo 5.25].


Os papistas, que são tão ávidos em agarrar-se a cada oportunidade que tenham para enfraquecer a graça de Deus, afirmam que fora de Cristo estamos meio mortos. Entretanto, não foi a troco de nada que o próprio Senhor, e bem assim este apóstolo, nos excluíram completamente da vida enquanto permanecermos em Adão, e declaram que a regeneração é a nova vida da alma, e que é por meio daquela que esta ressuscita dos mortos. Reconheço que algum gênero de vida permanece em nós durante o tempo em que somos estranhos em relação a Cristo; porquanto nem os sentidos, nem a vontade, nem as faculdades da alma foram extintos dos incrédulos. O que isso, porém, tem a ver com o reino de Deus? O que isso tem a ver com a vida bem-aventurada, quando tudo o que pensamos e desejamos é morte? Que seja indestrutível, pois, o seguinte pensamento: que a união de nossa alma com Deus é a genuína e única vida; e que fora de Cristo estamos completamente mortos, visto que o pecado, a causa da morte, reina em nós.


2. Nos quais andastes outrora. A partir dos efeitos ou frutos ele comprova que o pecado uma vez reinou neles; porque, a menos que o pecado se prorrompa em atos externos, os homens não se conscientizarão suficientemente de seu poder.


Ao adicionar: segundo o curso deste mundo, o apóstolo subentende que a morte que tem estado a mencionar devasta a natureza humana e se constitui numa enfermidade universal. Ele não se refere àquele curso do mundo ordenado por Deus, nem aos elementos, tais como o céu, a terra e o ar, e, sim, à depravação com a qual estamos todos contaminados; de modo que o pecado não é algo peculiar a uns poucos, senão que permeia o mundo inteiro.


Segundo o príncipe. Ele avança mais e explica que a causa de nossa corrupção deve ser encontrada no domínio que o diabo exerce sobre nós. Não se pode pronunciar uma condenação mais severa sobre a humanidade! O que ele nos deixa, quando declara que somos escravos de Satanás e submissos à sua vontade, enquanto nossas vidas se mantêm excluídas do reino de Cristo? Nossa condição, portanto, ainda que muitos vivam satisfeitos com ela (ou, pelo menos, pouco desprazerosos), deve, naturalmente, causar-nos horror. Onde, pois, está o livre-arbítrio, o governo da razão, a virtude moral, acerca dos quais os papistas palreiam tanto? O que encontrarão tão puro ou santo sob a tirania do diabo? Astutamente, porém, se fazem em extremo cuidadosos ao abominarem esta doutrina como sendo a pior heresia de Paulo. Digo, porém, que não há nessas palavras nenhuma obscuridade, e que todos os que vivem segundo o curso do mundo, ou seja, segundo as inclinações da carne, batalham sob o comando de Satanás.


O apóstolo fala do diabo no singular, segundo o uso comum da Escritura. Como os filhos de Deus possuem uma Cabeça, assim também os ímpios; pois cada grupo forma um corpo. Portanto, ele atribui à primeira o domínio sobre todo o mal, assim como a segunda tipifica a plenitude da impiedade. Quanto a atribuir ele ao diabo as potestades do ar, esse é um assunto a ser considerado no capítulo seis. No momento, notaremos apenas a estupidez irracional dos maniqueus, diligenciando-se por engendrar desta passagem dois princípios, como se Satanás pudesse realizar algo contra a vontade de Deus. Paulo não lhe concede o supremo governo, o qual pertence exclusivamente à vontade de Deus, a não ser que lhe atribui aquela tirania cujo exercício procede da permissão divina. O que é Satanás senão o verdugo de Deus para punir a ingratidão humana? Isso se encontra implícito na linguagem de Paulo, porquanto afirma que ele é poderoso somente em relação aos incrédulos, e assim isenta os filhos de Deus de seu poder destruidor. Se tal coisa procede, então presume-se que Satanás nada pode fazer senão aquilo que lho permite a vontade de um superior, e que ele não é autônomo.


Não obstante, ao mesmo tempo deduzimos que os ímpios não têm justificativa alguma de que são obrigados por Satanás acometerem todos os seus crimes. Como concluir que se encontram sujeitos à tirania do diabo, senão pelo fato de serem rebeldes contra Deus? Se ninguém mais é escravo de Satanás senão aqueles que quebram o jugo divino e que se recusam a devotar obediência a Deus, então que se considerem responsáveis por preferirem um senhor tão cruel.


Pela cláusula, filhos da desobediência, o apóstolo quer dizer, de acordo com o costume hebreu, os obstinados. O incrédulo vive associado com a desobediência; de modo que ela é a fonte e mãe de todos os obstinados. 


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