14 janeiro, 2010

0 Como Ensinar a Palavra - João Calvino




A não ensinarem uma doutrina diferente(1Timóteo 1.3,4). O termo grego, [heterodidaskalein] que Paulo usa aqui, é composto, e pode ser traduzido no sentido ou de "ensinar de modo diferente, fazendo uso de um novo método", ou "ensinar uma nova doutrina". A tradução de Erasmo, "seguir uma nova doutrina", não me satisfaz, visto que a mesma poderia aplicar-se tanto aos ouvintes quanto aos mestres. Se lemos: "ensinar de uma forma diferente", o significado será mais amplo, pois Paulo estaria proibindo a Timóteo de permitir a introdução de novos métodos de ensino que sejam incompatíveis com o método legítimo e genuíno que lhe havia comunicado. Assim, na segunda epístola, ele não aconselha Timóteo a simplesmente conservar a substância de seu ensino, mas usa um termo que significa uma semelhança viva de seu ensino. Como a verdade de Deus é única, assim não há senão um só método de ensiná-la, o qual se acha livre de falsa pretensão e que degusta mais saborosamente a majestade do Espírito do que as demonstrações externas de eloqüência humana. Se alguém se aparta disso, ele deforma e vicia a própria doutrina; e assim, "ensinar de maneira diferente", aponta para a forma.


Se lermos: "ensinar algo diferente", então a referência será à substância do próprio ensino. E digno de nota que, por nova doutrina, significa não só o ensino que está em franco conflito com a sã doutrina do evangelho, mas também tudo o que, ou corrompe a pureza do evangelho por meio de invenções novas e adventícias, ou o obscurece por meio de especulações irreverentes. Todas as maquinações humanas são outras tantas corrupções do evangelho, e aqueles que fazem mau uso das Escrituras, como costumam fazer as pessoas ímpias, fazendo do Cristianismo uma engenhosa exibição, obscurecem o evangelho. Todo ensino desse gênero é oposto à Palavra de Deus e àquela pureza da doutrina na qual Paulo ordena aos efésios a permanecerem firmes.


4. Tampouco se ocupem de fábulas. Em minha opinião, o apóstolo quer dizer, por fábulas, não tanto as falsidades excogitadas, mas principalmente aqueles contos fúteis e levianos que não têm em si nada de sólido. Uma coisa pode não ser em si mesma falsa, e no entanto ser fabulosa. E nesse sentido que Suetônio falou de "história fabulosa", e Levi usa o verbo fabulari, [inventar fábulas], no sentido de palavrório tolo e irracional. Não há dúvida de que [muthos], o termo que Paulo usa aqui, significa em grego [fluaria], bagatelas, e quando ele menciona um tipo de fábula como exemplo do que tem em mente, toda dúvida se esvai. Ele inclui entre as fábulas as controvérsias sobre genealogias, não porque tudo o que se pode dizer sobre elas seja fictício, mas porque é tolice e perda de tempo.


A passagem, portanto, pode ser tomada no seguinte sentido: não devem atentar para as fábulas como se fossem do mesmo caráter e descrição das genealogias. De fato é isso precisamente o que Suetônio quis dizer por história fabulosa, a qual, mesmo entre os homens das letras, tem sido com justa razão criticada pelas pessoas de bom senso. Pois era impossível não considerar ridícula essa curiosidade que, negligenciando o conhecimento útil, passou a vida inteiro investigando a genealogia de Aquiles e Ajax, e despendeu suas energias em contar os filhos de Príamo. Se tal coisa é intolerável no aprendizado em salas de aulas onde há espaço para agradável passa-tempo, quanto mais intolerável será a mesma para o nosso conhecimento de Deus. Ele fala de genealogias intermináveis, porque a fútil curiosidade não tem limites, mas continuamente passa de um labirinto a outro.


Que mais produzem questionamentos. Ele julga a doutrina por seu fruto. Tudo o que não edifica deve ser rejeitado, ainda que não tenha nenhum outro defeito; e tudo o que só serve para suscitar controvérsia deve ser duplamente condenado. Tais são todas as questões sutis nas quais os homens ambiciosos praticam suas habilidades. É mister que nos lembremos de que todas as doutrinas devem ser comprovadas mediante esta regra: aquelas que contribuem para a edificação devem ser aprovadas, mas aquelas que ocasionam motivos para controvérsias infrutíferas devem ser rejeitadas como indignas da Igreja de Deus, Se este teste houvera sido aplicado há muitos séculos, então, ainda que a religião viesse a se corromper por muitos erros, ao menos a arte diabólica das controvérsias ferinas, a qual recebeu a aprovação da teologia escolástica, não haveria prevalecido em grau tão elevado, Pois tal teologia outra coisa não é senão contendas e vãs especulações sem qualquer conteúdo de real valor. Por mais versado um homem seja nela, mais miserável o devemos considerar. Estou cônscio dos argumentos plausíveis com que ela é defendida, mas jamais descobrirão que Paulo haja falado em vão ao condenar aqui tudo quanto é da mesma natureza.


A edificação de Deus [aedificationem Dei]. Sutilezas desse gênero edificam os homens na soberba e na vaidade, mas não em Deus. O apóstolo fala de edificação que é segundo a piedade, seja porque Deus a aprova, seja porque ela é obediente a Deus, e nisso ele inclui o amor uns pelos outros, o temor de Deus e o arrependimento, pois todos esses elementos são frutos da fé que sempre nos conduz à piedade. Sabendo que todo o culto divino é fundamentalmente tão-somente na fé, ele creu ser suficiente mencionar a fé da qual dependem todas as coisas. 


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