31 dezembro, 2010

0 Chamados com Santa Vocação – João Calvino


2 Timóteo 1.9,10.

Que nos salvou. Pela visão da grandeza da bênção, o apóstolo demonstra o quanto devemos a Deus, porque a salvação que ele nos outorgou facilmente absorve todos os males que suportamos neste mundo. O termo, 'salvou', ainda que seu significado seja de caráter geral, aqui, neste contexto, refere-se somente à salvação eterna. Seu significado consiste em que não haviam recebido através de Cristo nenhum livramento passageiro e transitório, e, sim, uma salvação eterna, e desse modo se revelariam extremamente ingratos, caso valorizassem sua vida fugaz, ou sua reputação, em vez de reconhecê-lo como seu Redentor.

E nos chamou com santa vocação. Ele faz de nossa vocação o selo infalível de nossa salvação. Pois como a salvação foi consumada na morte de Cristo, assim Deus nos faz partícipes dela através de Cristo. Para magnificar essa vocação ainda mais, ele a qualifica de santa. Tal fato deve ser cuidadosamente observado, pois assim como temos de buscar a salvação exclusivamente em Cristo, ele também teria morrido em vão e a troco de nada caso não nos chamasse para participarmos desta graça. Portanto, mesmo depois de haver, com sua morte, nos granjeado a salvação, uma segunda bênção resta ser outorgada, a saber: que ele nos uniria em seu Corpo e nos comunicaria seus benefícios a fim de desfrutarmo-los.

Não segundo nossas obras. Ele agora chama a atenção para a fonte, quer de nossa vocação, quer de nossa salvação total. Não possuímos obras que sejam capazes de tomar a iniciativa em lugar de Deus, de modo que a nossa salvação depende absolutamente de seu gracioso propósito e eleição. Em ambos os termos - 'propósito' e 'graça' - há uma hipálage (* Hipálage: "Figura de linguagem em que se dá realce a um determinante, associando-o a um termo que não é, logicamente, o seu correspondente detemiinado, assim se criando um sintagma inesperado. Ex.: 'o mistério hebreu das vozes dos profetas' (Guimarães, Poesias, 316), em vez de -o mistério das vozes dos profetas hebreus." -J. Mattoso Câmara Jr., Dicionário de Lingüística egramática, p. 137; 1977, Editora Vozes Ltda. [Nota do tradutor].), de modo que o segundo termo é considerado um adjetivo - "segundo o seu gracioso propósito". Ainda que Paulo geralmente use o termo 'propósito' no sentido de "o decreto secreto de Deus", o qual depende exclusivamente dele, o apóstolo, aqui, decide adicionar 'graça' com o fim de tornar sua tese ainda mais explícita e poder excluir completamente toda e qualquer referência às obras. A antítese, neste versículo, por si só é suficiente para deixar completamente claro que não há espaço algum para as obras onde reina a graça de Deus, especialmente quando somos lembrados da eleição divina, através da qual ele antecipou eleger-nos antes que viéssemos à existência. O mesmo tema é discutido mais amplamente em conexão com Efésios 1, e no momento toco nele mui de leve, já que o discuto mais amplamente ali.

A qual nos foi dada. Partindo da ordem do tempo, ele conclui que a salvação nos foi outorgada pela graça soberana, já que nada fizemos de antemão para merecê-la. Pois se Deus nos elegeu antes da fundação do mundo, então ele não poderia ter levado em conta obra alguma de nossa parte, porquanto nenhuma ainda existia e nós mesmos ainda não existíamos. A evasão sofistica, de que Deus fora influenciado pelas obras que previra, não demanda uma longa resposta. Que espécie de obras teriam sido essas, se Deus nos havia rejeitado, visto que a eleição propriamente dita é a fonte e origem de todas as coisas boas? Esse 'dar graças' de que ele faz menção, outra coisa não é senão a predestinação, pela qual fomos adotados como filhos de Deus. Gostaria que meus leitores se lembrassem disso, pois amiúde se diz que Deus nos 'dá7 sua graça somente quando ela começa a operar eficazmente em nós. Aqui, porém, Paulo está tratando daquilo que Deus determinou consigo mesmo desde o princípio; portanto, o que ele deu às pessoas que nem ainda existiam é algo que fica completamente fora de qualquer consideração meritória, e o conservou em seus tesouros até chegar o tempo em que pudesse trazê-lo a lume pelo resultado de que Deus nada determina em vão.

Tanto aqui quanto em Tito 1, o apóstolo chama a interminável série de anos, desde a fundação do mundo [Tt 1.2], de tempos eternos. A engenhosa discussão sobre este assunto, que Agostinho suscita em muitas passagens, é estranha ao pensamento de Paulo; o que este quer dizer é simplesmente isto: "antes que os tempos iniciassem sua trajetória, desde todas as eras passadas." Além do mais, é digno de nota o fato de ele colocar Cristo como o único fundamento da salvação, porque fora dele não há nem adoção nem salvação para ninguém, como diz ele em Efésios 1.

Mas que agora se manifestou. Note-se quão apropriadamente ele conecta a fé que recebemos do evangelho com a eleição secreta de Deus, e designa a cada uma o seu próprio lugar. Deus nos chamou pela proclamação do evangelho, não porque repentinamente tivesse consciência de nossa salvação, mas porque ele assim o determinou desde toda a eternidade. Cristo agora se manifestou para essa salvação; não porque o poder de salvar lhe tenha sido recentemente conferido, mas porque essa graça nos foi guardada nele antes da criação do mundo. O conhecimento dessas coisas nos foi revelado pela fé. E assim, o apóstolo sabiamente conecta o evangelho com as mais antigas promessas de Deus, para que sua suposta novidade não o expusesse ao desprezo.

Suscita-se, porém, a indagação, se tudo isso foi ocultado dos pais que viveram sob o regime da lei; pois se a graça só foi revelada no advento de Cristo, então conclui-se que antes ela estava oculta. Respondo que Paulo está falando da plena manifestação da realidade propriamente dita, sobre a qual os pais também edificaram sua fé, de modo que isso não os priva da realidade. Eis a razão por que Abel, Noé, Abraão, Moisés, Davi e todos os santos obtiveram a mesma salvação que obtivemos, pois também eles depositaram sua fé na manifestação [futura] de Cristo. Ao dizer que a graça nos foi revelada mediante a manifestação de Cristo, o apóstolo não exclui os pais da participação nela, pois a mesma fé os fez partícipes conosco nessa manifestação. O Cristo de ontem é o mesmo de hoje [Hb 13.8], mas que não se manifestara mediante sua morte e ressurreição antes do tempo prefixado pelo Pai. Nossa fé e a de nossos pais sempre olham para o mesmo ponto, porque neste fato jaz a única garantia e consumação de nossa salvação.

O qual aboliu a morte. Pelo fato de atribuir ao evangelho a manifestação da vida, o apóstolo não quer dizer que ela tenha sua origem na Palavra sem referência alguma à morte e ressurreição de Cristo, posto que o poder da Palavra repousa no assunto que ela contém; ao contrário, ele quer dizer que a única maneira pela qual o fruto dessa graça pode chegar até aos homens é através do evangelho, como expressou em 2 Coríntios 5.19: "Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação." É uma notável e memorável recomendação do evangelho, que seja ele denominado o meio pelo qual a vida se manifesta.

A Vida' ele adiciona imortalidade, querendo dizer: "uma vida genuína e imortal", a menos que o leitor prefira considerar vida no sentido de regeneração, à qual segue a bem-aventurada imortalidade que é ainda o objeto da esperança. Pois nossa vida não consiste do que temos em comum com as bestas brutas; ao contrário, consiste de nossa participação na imagem de Deus. Visto, porém, que a natureza e valor genuínos dessa vida não aparecem neste mundo [1 Jo 3.2], para explicá-la ele acrescentou oportunamente a imortalidade, a qual é a revelação dessa vida que ora está oculta.
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17 dezembro, 2010

0 Deus do Início ao Fim – João Calvino



Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou ( Rm 8. 28,29)


29. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou. Paulo mostra, portanto, pela própria ordem da eleição, que todas as aflições dos crentes são simplesmente os meios pelos quais são identificados com Cristo. Ele previamente declarara a necessidade disto. As aflições, portanto, não devem ser um motivo para nos sentirmos entristecidos, amargurados ou sobrecarregados, a menos que também reprovemos a eleição do Senhor, pela qual fomos predestinados para a vida, e vivamos relutantes em levar em nosso ser a imagem do Filho de Deus, por meio da qual somos preparados para a glória celestial. O conhecimento antecipado de Deus, mencionado aqui pelo apóstolo, não significa mera presciência, como alguns neófitos tolamente imaginam, mas significa, sim, a adoção, pela qual o Senhor sempre distingue seus filhos dos réprobos. Neste sentido, Pedro diz que os crentes foram eleitos para a santificação do Espírito segundo a presciência divina [1 Pedro 1:2]. Aqueles, pois, a quem me refiro aqui, tolamente concluem que Deus não elegeu a ninguém senão àqueles a quem previu que seriam dignos de sua graça. Pedro não incensa os crentes como se fossem todos eles eleitos segundos seus méritos pessoais, senão que, ao remetê-los ao eterno conselho de Deus, declara que estão todos inteiramente privados de qualquer dignidade. Nesta passagem, Paulo também reitera, em outras palavras, as afirmações que já havia feito concernentes ao propósito divino. Segue-se disto que este conhecimento depende do beneplácito divino, visto que, ao adotar aqueles a quem ele quis, Deus não teve qualquer conhecimento antecipado das coisas fora de si mesmo, senão que destacou aqueles a quem propôs eleger.

O verbo proorizw [proorizo], o qual é traduzido por predestinar, aponta para as circunstâncias desta passagem em pauta. O apóstolo quer dizer simplesmente que Deus determinara que todos quantos adotasse levariam a imagem de Cristo. Não diz simplesmente que deveriam ser conformados a Cristo, e, sim, à imagem de Cristo, com o fim de ensinar-nos que em Cristo há um vivo e nítido exemplo que é posto diante dos filhos de Deus para que imitem. A súmula da passagem consiste em que a graciosa adoção, na qual nossa salvação consiste, é inseparável deste outro decreto, a saber: que ele nos designou para que levemos a cruz. Ninguém pode ser herdeiro do reino celestial sem que antes seja conformado ao Filho Unigênito de Deus.

A fim de que ele seja [ou, fosse] o primogênito entre muitos irmãos. O infinitivo grego, einai [einai], pode ser traduzido de outra forma, porém preferi esta. Ao chamar Cristo de o primogênito, Paulo quis simplesmente expressar que, se Cristo possui a preeminência entre todos os filhos de Deus, então, com razão, ele nos foi dado como exemplo, de modo que não devemos recusar nada de tudo quando agradou-lhe suportar. Portanto, o Pai celestial, a fim de mostrar, por todos os meios, a autoridade e a excelência que conferiu a seu Filho, ele deseja que todos aqueles a quem adota como herdeiros de seu reino vivam de conformidade com o seu exemplo.

Embora a condição dos santos difira na aparência (assim como há diferença entre os membros do corpo humano), todavia há certa conexão entre cada indivíduo e sua cabeça. Como, pois, o primogênito leva o nome da família, assim Cristo é colocado numa posição de preeminência, não só para que sua honra seja enaltecida entre os crentes, mas também para que ele inclua todos os crentes em seu seio sob o selo comum de fraternidade.


30. E aos que predestinou, a esses também chamou. Paulo agora emprega um clímax a fim de confirmar, por meio de uma demonstração mais clara, quão verdadeiramente a nossa conformidade com a humildade de Cristo efetua a nossa salvação. Daqui ele nos ensina que a nossa participação na cruz é tão conectada com a nossa vocação, justificação e, finalmente, nossa glória, que não podem ser desmembradas.

A fim de que os leitores possam melhor entender a intenção do apóstolo, é bom que se lembrem de minha afirmação anterior, ou seja: que o verbo predestinar, aqui, não se refere à eleição, mas ao propósito ou decreto divino pelo qual ordenou que seu povo levasse a cruz. Ao ensinar-nos que agora são chamados, o apóstolo tencionava que Deus não oculta mais o que determinara fazer com eles, mas que o revelou a fim de que pudessem levar com equanimidade e paciência a condição a eles imposta. A vocação, aqui, é distinguida da eleição secreta, como sendo inferior a ela. Pode-se alegar que ninguém tem conhecimento algum da condição que Deus designou a cada indivíduo. Portanto, para evitar isto, o apóstolo diz que Deus, através de seu chamado, testifica publicamente de seu propósito oculto. Este testemunho, contudo, não consiste só na pregação externa, mas tem também o poder do Espírito conectado a ela, pois Paulo está tratando com os eleitos, a quem Deus não só compele por meio de sua Palavra falada, mas também convence interiormente.

A justificação, aqui, pode muito bem ser entendida como que incluindo a continuidade do favor divino desde o tempo da vocação do crente até sua morte. Mas, visto que Paulo usa esta palavra ao longo da Epístola, no sentido da imerecida imputação da justiça, não há necessidade de nos apartarmos deste significado. O propósito de Paulo é mostrar que a compensação que nos é oferecida é por demais preciosa para permitir-nos enfrentar com ânimo as aflições. O que é mais desejável que ser reconciliado com Deus, de modo que nossas misérias não mais são sinais da maldição divina, nem mais nos conduz à destruição?

O apóstolo acrescenta que aqueles que se vêem oprimidos pela cruz serão glorificados pela cruz serão glorificados, de modo que seus sofrimentos e opróbrios não lhes produzem dano algum. Embora a glorificação só foi exibida em nossa Cabeça, todavia, visto que agora percebemos nele a herança da vida eterna, sua glória nos traz uma segurança tal de nossa própria glória, que a nossa esperança pode muito bem ser comparada a uma possessão já presente.

Deve-se acrescentar ainda que o apóstolo empregou um hebraísmo e usou o tempo passado dos verbos, em vez do presente. O que ele pretende é, quase certo, um ato contínuo; por exemplo: “Aqueles a quem Deus agora educa sob a cruz, segundo seu conselho, ele chama e justifica, ato contínuo, para a esperança da salvação; de modo que, em sua humilhação, não perdem nada de sua glória. Embora seus sofrimentos atuais a deformem aos olhos do mundo, todavia, diante de Deus e dos anjos, ela está sempre a brilhar em perene perfeição”. O que Paulo, pois, pretende mostrar, por este clímax, é que as aflições dos crentes, as quais são a causa de sua atual humilhação, têm como único propósito fazê-los entender que possuem a glória do reino celestial e que vão alcançar a glória da ressurreição de Cristo, com quem já se acham crucificados.


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12 dezembro, 2010

0 Santa Vocação - João Calvino



E nos chamou com santa vocação. (2Tm 1.9) Ele faz de nossa vocação o selo infalível de nossa salvação. Pois como a salvação foi consumada na morte de Cristo, assim Deus nos faz partícipes dela através de Cristo. Para magnificar essa vocação ainda mais, ele a qualifica de santa. Tal fato deve ser cuidadosamente observado, pois assim como temos de buscar a salvação exclusivamente em Cristo, ele também teria morrido em vão e a troco de nada caso não nos chamasse para participarmos desta graça. Portanto, mesmo depois de haver, com sua morte, nos granjeado a salvação, uma segunda bênção resta ser outorgada, a saber: que ele nos uniria em seu Corpo e nos comunicaria seus benefícios a fim de desfrutarmo-los.

Não segundo nossas obras. Ele agora chama a atenção para a fonte, quer de nossa vocação, quer de nossa salvação total. Não possuímos obras que sejam capazes de tomar a iniciativa em lugar de Deus, de modo que a nossa salvação depende absolutamente de seu gracioso propósito e eleição. Em ambos os termos - 'propósito' e 'graça' - há uma hipálage*, de modo que o segundo termo é considerado um adjetivo - "segundo o seu gracioso propósito". Ainda que Paulo geralmente use o termo 'propósito' no sentido de "o decreto secreto de Deus", o qual depende exclusivamente dele, o apóstolo, aqui, decide adicionar 'graça' com o fim de tornar sua tese ainda mais explícita e poder excluir completamente toda e qualquer referência às obras. A antítese, neste versículo, por si só é suficiente para deixar completamente claro que não há espaço algum para as obras onde reina a graça de Deus, especialmente quando somos lembrados da eleição divina, através da qual ele antecipou eleger-nos antes que viéssemos à existência. O mesmo tema é discutido mais amplamente em conexão com Efésios 1, e no momento toco nele mui de leve, já que o discuto mais amplamente ali.

A qual nos foi dada. Partindo da ordem do tempo, ele conclui que a salvação nos foi outorgada pela graça soberana, já que nada fizemos de antemão para merecê-la. Pois se Deus nos elegeu antes da fundação do mundo, então ele não poderia ter levado em conta obra alguma de nossa parte, porquanto nenhuma ainda existia e nós mesmos ainda não existíamos. A evasão sofistica, de que Deus fora influenciado pelas obras que previra, não demanda uma longa resposta. Que espécie de obras teriam sido essas, se Deus nos havia rejeitado, visto que a eleição propriamente dita é a fonte e origem de todas as coisas boas? Esse 'dar graças' de que ele faz menção, outra coisa não é senão a predestinação, pela qual fomos adotados como filhos de Deus. Gostaria que meus leitores se lembrassem disso, pois amiúde se diz que Deus nos 'dá' sua graça somente quando ela começa a operar eficazmente em nós. Aqui, porém, Paulo está tratando daquilo que Deus determinou consigo mesmo desde o princípio; portanto, o que ele deu às pessoas que nem ainda existiam é algo que fica completamente fora de qualquer consideração meritória, e o conservou em seus tesouros até chegar o tempo em que pudesse trazê-lo a lume pelo resultado de que Deus nada determina em vão.

Tanto aqui quanto em Tito 1, o apóstolo chama a inter-minável série de anos, desde a fundação do mundo [Tt 1.2], de tempos eternos. A engenhosa discussão sobre este assunto, que Agostinho suscita em muitas passagens, é estranha ao pensamento de Paulo; o que este quer dizer é simplesmente isto: "antes que os tempos iniciassem sua trajetória, desde todas as eras passadas." Além do mais, é digno de nota o fato de ele colocar Cristo como o único fundamento da salvação, porque fora dele não há nem adoção nem salvação para ninguém, como diz ele em Efésios 1.
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08 dezembro, 2010

0 Como o Pecado Original nos Afeta - João Calvino



O Pecado Original de Adão afeta toda a sua Posteridade

Como a vida espiritual de Adão era permanecer ele unido e ligado a seu Criador, assim também, ao alienar-se dele veio-lhe a morte da alma. Portanto, não surpreende se, por sua defecção, afundou na ruína sua posteridade aquele que perverteu, no céu e na terra, toda a ordem da própria natureza. “Gemem todas as criaturas”, diz 5. Primeira edição: “Se vil e execrável ofensa é a apostasia, pela qual o homem se Paulo, “não por sua própria vontade, sujeitas à corrupção” [Rm 8.20, 22]. Caso se busque a causa disso, não há dúvida de que estão a sofrer parte daquele castigo que o homem mereceu, para cujo proveito elas foram criadas. Portanto, quando, de alto a baixo, por sua culpa atraiu a maldição que grassa por todos os recantos do mundo, nada há de ilógico se ela foi propagada a toda sua descendência. Logo, depois que a imagem celeste foi nele obliterada, não sofreu sozinho esta punição que, em lugar de sabedoria, poder, santidade, verdade, justiça, ornamentos de que fora ataviado, lhe sobreviessem as mais abomináveis pragas: cegueira, fraqueza, impureza, fatuidade, iniqüidade, mas ainda nas mesmas misérias enredilhou e submergiu sua progênie.

Esta é a corrupção hereditária que os antigos designaram de “pecado original”, entendendo pelo termo pecado a depravação de uma natureza antes disso boa e pura, matéria a respeito da qual muita lhes foi a contenção, uma vez que nada seja mais remoto do consenso geral que pela culpa de um só todos se façam culpados e, assim, o pecado se torne comum a todos. Esta parece ter sido a razão por que os doutores mais antigos da Igreja abordaram este assunto de forma tão obscura, pelo menos por que o explanaram menos lucidamente do que se fazia necessário.

Contudo, esta relutância não pôde impedir que Pelágio entrasse em cena, cuja profana invenção foi haver Adão pecado tão-somente para seu próprio dano, mas que aos descendentes nada afetou. Naturalmente, com esta artimanha de encobrir a enfermidade, Satanás tentou torná-la incurável. Como, porém, pelo claro testemunho da Escritura se mostrasse que o pecado foi transmitido do primeiro homem a toda a posteridade [Rm 5.12], sofismavam haver-se transmitido por imitação, não por geração. Portanto, bons homens, e acima dos demais Agostinho, nisto laboraram afincadamente para mostrar que não somos corrompidos mediante impiedade adquirida; ao contrário, trazemos depravação ingênita desde o ventre materno.
O não reconhecimento desse fato foi o supremo descaramento. Mas ninguém se surpreenderá da temeridade dos pelagianos e dos celestianos quem, pela leitura dos escritos daquele santo varão, Agostinho, tenha percebido que monstros de perversa catadura foram eles em todos os demais pontos.

Por certo que não é ambíguo o que Davi confessa, a saber, ter sido gerado em iniqüidades e de sua mãe concebido em pecado [Sl 51.5]. Não está ele aí a censurar as faltas do pai ou da mãe; antes, para que melhor enalteça a bondade de Deus para consigo, faz remontar a confissão de sua iniqüidade à própria concepção. Uma vez ser evidente não ter sido isso peculiar a Davi, segue-se que sob seu exemplo se denota a sorte comum do gênero humano.

Portanto, todos que descendemos de uma semente impura, nascemos infeccionados pelo contágio do pecado. Na verdade, antes que contemplemos esta luz da vida, à vista de Deus já estamos manchados e poluídos. Pois, “quem do imundo tirará o puro?” Certamente, como está no livro de Jó [14.4], ninguém!
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30 novembro, 2010

0 Pela Hipocrisia falam Mentiras - Calvino



Alguns apostatarão da fé (1Tm 4.2). Não fica muito claro se ele está falando dos mestres ou dos ouvintes, mas prefiro tomá-lo como uma aplicação aos últimos, visto que prossegue tratando dos mestres quando os chama de espíritos sedutores. É mais enfático dizer que não só haverá quem divulgue os ensinos ímpios e corrompa a pureza da fé, mas também dizer que não faltarão alunos que sejam atraídos para suas seitas. E quando uma mentira aumenta sua influência, ela avoluma as dificuldades. Mas ele não está falando de um erro trivial, e, sim, de um mal terrível, a apostasia da fé, embora à primeira vista não pareceria ser tão mal assim à luz do ensino que ele menciona. Pois como é possível ser a fé completamente subvertida pela proibição de certos alimentos ou do matrimônio? Devemos, porém, levar em conta uma razão mais ampla, ou seja, que aqui os homens estão inventando um culto divino pervertido para a satisfação de seu ego; e ao ousarem proibir o uso de coisas saudáveis que Deus permitiu, estão alegando que são os mestres de suas próprias consciências. E tão logo a pureza do culto é pervertida, não permanece nada íntegro e saudável, e a fé é completamente subvertida. Por isso, ainda que os papistas debochem de nós, ao criticarmos suas leis tirânicas acerca de observâncias externas, temos consciência de que estamos lidando com um assunto seríssimo e importantíssimo; porque, assim que o culto divino é contaminado com tais corrupções, a doutrina da fé é também subvertida. A controvérsia não é acerca de carne e peixe, ou acerca das cores preto ou cinza, acerca de quarta-feira ou sexta-feira, e, sim, acerca das más superstições dos homens que desejam obter o favor divino por meio de tais futilidades e pela invenção de um culto carnal, fabricando para si ídolos no lugar de Deus. Quem ousaria negar que fazer isso é apostatar da fé?

Espíritos sedutores. Ele está se referindo a profetas ou mestres, aplicando-lhes esse título porque se vangloriavam de possuir o Espírito, e ao procederem assim estavam causando impressão sobre o povo. Em geral, é deveras verdade que todas as classes de pessoas falam da inspiração de uni espírito, mas não o mesmo espírito que inspira a todos. Pois às vezes Satanás passa por espírito mentiroso na boca dos falsos profetas, com o fim de iludir os incrédulos que merecem ser enganados [1 Rs 22.21-23]. Mas todos quantos atribuem a Cristo a devida honra falam pelo Espírito de Deus, no dizer de Paulo [1 Co 12.3]. Esse modo de expressar-se teve sua origem na reivindicação feita pelos servos de Deus, a saber, que todos os seus pronun¬ciamentos públicos lhes vieram por revelação do Espírito; e, visto que eram os instrumentos do Espírito, lhes foi atribuído o nome do Espírito. Mais tarde, porém, os ministros de Satanás, através de uma falsa imitação, como fazem os símios, começaram a fazer a mesma reivindicação em seu favor, e da mesma forma falsamente assumiram o mesmo nome. Eis a razão por que João diz: "provai os espíritos, se realmente procedem de Deus" [1 Jo4.1].

Além do mais, Paulo explica o que quis dizer, acrescentando: e doutrinas de demônios, o que eqüivale dizer: "atentando para os falsos profetas e suas doutrinas diabólicas". Uma vez mais digamos que isso não constitui um erro de somenos importância ou algo que deva ser dissimulado, quando as consciências dos homens são constrangidas por invenções humanas, ao mesmo tempo que o culto divino é pervertido.

Pela hipocrisia, falam mentiras. Se esta frase for considerada como uma referência aos demônios, então falar mentiras será uma referência aos seres humanos que falam falsamente pela inspiração do diabo. Mas é possível substituí-la por: "através da hipocrisia dos homens que falam mentiras". Evocando um exemplo particular, ele diz que falam mentiras hipocritamente, e são marcados com ferretes em sua consciência. E devemos observar que essas duas coisas se relacionam intimamente, e que a primeira flui da segunda. As más consciências que são marcadas com o ferrete de seus maus feitos lançam mão da hipocrisia como um refúgio seguro, a saber, engendram pretensões hipócritas com o fim de embaralhar os olhos de Deus. Aliás, esse é o mesmo expediente usado por aqueles que tentam agradar a Deus com ilusórias observâncias externas.

E assim, a palavra hipocrisia deve ser entendida em relação ao presente contexto. Ela deve ser considerada primeiramente em relação à doutrina, e significando que gênero de doutrina é esse que substitui o culto espiritual de Deus por gesticulações corporais, e assim adultera sua genuína pureza, e então inclui todos os métodos inventados pelos homens para apaziguar a Deus ou obter seu favor. Seu significado pode ser assim sumariado: em primeiro lugar, que todos os que introduzem uma santidade forjada estão agindo em imitação ao diabo, porquanto Deus jamais é adorado corretamente através de meros ritos externos. Os verdadeiros adoradores "o adorarão em espírito e em verdade" [Jo 4.24]. E, em segundo lugar, que esse culto externo é uma medicina inútil por meio da qual os hipócritas tentam mitigar suas dores, ou, melhor, um curativo sob o qual as más consciências ocultam suas feridas sem qualquer valia, a não ser para agravar ainda mais sua própria ruína.
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24 novembro, 2010

0 Há Um Só Deus – João Calvino



Porquanto há um só Deus (1 Tm 2.5).

Crisóstomo e muitos outros forçam o seguinte significado: não há tantos deuses como os idólatras imaginam. Quanto a mim, porém, creio que a intenção de Paulo era diferente, a saber, que há aqui uma comparação implícita entre o único Deus e o único mundo com suas diversas nações, e desta comparação surge uma perspectiva de ambos em relação um ao outro. E assim ele diz em Romanos 3.29: "E porventura Deus somente dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, também dos gentios." Portanto, qualquer que fosse a diversidade entre os homens, naquele tempo, pelo fato de muitas classes e nações serem estranhas à fé, Paulo lembra aos crentes a existência da unicidade de Deus, para que soubessem que existe um vínculo entre eles e todos os homens, visto que há um só Deus sobre todos, para que soubessem que aqueles que se encontram sob o governo do mesmo Deus não são excluídos para sempre da esperança de salvação.

Sua intenção, aqui, tem a mesma conotação daquilo que ele prossegue afirmando: há um só Mediador. Pois como há um só Deus, o Criador e Pai de todos, assim, declara o apóstolo, há um só Mediador, através de quem se nos abre acesso para Deus, e este Mediador não é oferecido a uma só nação, ou a umas poucas pessoas de uma classe específica, mas a todos, pois o benefício do sacrifício, por meio do qual ele fez expiação por nossos pecados, se aplica a todos. Visto que, naquele tempo, grande parte do mundo se encontrava alienada de Deus, o apóstolo explicitamente menciona o Mediador através de quem os que estavam longe agora ficaram perto. O termo universal, 'todos', deve sempre referir-se a classes de pessoas, mas nunca a indivíduos. E como se ele quisesse dizer: "Não só os judeus, mas também os gentios; não só as pessoas de classe humilde, mas também os príncipes foram redimidos pela morte de Cristo." Portanto, visto que sua intenção é que a morte do Mediador seja um benefício comum destinado a todos, aqueles eme mantêm um ponto de vista que exclui alguns da esperança de salvação lhe fazem injúria.

Cristo Jesus, homem. Ao denominá-lo de homem, o apóstolo não está negando que Cristo seja igualmente Deus; visto, porém, que seu propósito, aqui, é atrair a atenção para o vínculo que nos liga a Deus, ele menciona a natureza humana de Cristo em vez de mencionar a divina, e esse fato deve ser atentamente observado. Pois a razão pela qual, desde o princípio, os homens têm se apartado cada vez mais de Deus, inventando para si um mediador após outro, é que foram dominados pela errônea noção de que Deus estava muitíssimo distante deles, e assim não sabiam onde buscar socorro. Paulo remedia esse mal, mostrando que Deus se encontra presente conosco, pois que desceu até nós para que não tivéssemos que buscá-lo para além das nuvens. Aqui ele está dizendo a mesma coisa, como em Hebreus 4.15: "Porque não temos sumo sacerdote que não se compadeça de nossas fraquezas, antes foi ele tentado em todas as coisas." E se ficasse impresso nos corações de todos os homens que o Filho de Deus nos estende a mão de irmão, e que está unido a nós por participar de nossa natureza, quem não escolheria andar nessa vereda plana em vez de vaguear por trilhos irregulares e íngremes? Por conseguinte, sempre que orarmos a Deus, se porventura a lembrança de sua sublime e inacessível majestade toldar de medo nosso espírito, lembremo-nos também de que o homem Cristo gentilmente nos convida e nos toma em sua mão, de modo que o Pai, de quem tínhamos medo e tremíamos, se nos tornou favorável e amigável. Eis a única chave capaz de reabrir-nos a porta do reino do céu, de modo que agora podemos comparecer confiantes na presença de Deus.

Portanto, ao longo de todos os tempos, Satanás tem tentado transtornar essa confiança com o fim de extraviar os homens. Não digo nada sobre como antes da vinda de Cristo ele distraía os homens de muitas e variadas formas, inventando outros meios de se alcançar a Deus. Desde o princípio da Igreja Cristã, porém, até ao tempo quando Cristo acabara de surgir como um penhor infinitamente valioso da graça divina, e quando sua deleitosa e amorável palavra: "Vinde a mim todos os que estais cansados" etc. [Mt 11.28] ainda ressoava por toda a terra, já havia alguns enganadores vis que apresentavam em seu lugar anjos mediadores, como se pode facilmente deduzir de Colossenses 2.1-18. E essa corrupção que Satanás, naquele tempo, inventara em secreto levou a cabo de tal forma, du-rante o papado, que dificilmente uma pessoa entre mil reconhecia a Cristo como Mediador, mesmo nominalmente -e se o nome era desconhecido, ainda mais o era a realidade.

E agora, ao levantar Deus mestres íntegros e piedosos, cuja preocupação tem sido restaurar e trazer de volta ao espírito humano aqueles grandes e mui notórios princípios de nossa fé, os sofistas da Igreja de Roma recorrem a toda sorte de inventos com o fim de obscurecer algo que é tão óbvio. Em primeiro lugar, o nome se lhes afigura tão odioso que, se alguém menciona a mediação de Cristo sem mencionar a dos santos, cai imediatamente sob suspeita de heresia. E já que eles não ousam rejeitar sumariamente o que Paulo diz aqui, então evadem-se com um comentário pueril de que ele é chamado "um só mediador", e não "o único mediador", como se Paulo houvera feito menção de Deus como um entre uma grande multidão de deuses, porquanto ambas as afirmações de que há um só Deus e um só mediador estão estreitamente entrelaçadas. Dessa forma, aqueles que fazem de Cristo um entre muitos devem apresentar a mesma interpretação também em relação a Deus. Acaso se atreveriam a destruir a glória de Cristo, se não fossem impelidos por sua cega fúria e impudência?

Há outros que se imaginam mais argutos, fazendo de Cristo o único Mediador da redenção, enquanto que denominam os santos de mediadores da intercessão. O contexto desta passagem revela a insensatez de tal interpretação, visto que Paulo, aqui, está implicitamente tratando da oração. O Espírito Santo nos concita a orarmos em favor de todos, porquanto nosso único Mediador concita a todos a virem a ele, visto que ele, por intermédio de sua morte, reconcilia todos com o Pai. Não obstante, aqueles que, com sacrilégio tão ultrajante, despojam a Cristo de sua honra, desejam ainda ser considerados cristãos. Ainda se objeta que aqui parece haver contradição, porque nesta passagem Paulo nos concita a intercedermos por outros, enquanto que em Romanos 8.34 ele diz que a obra de intercessão pertence tão-somente a Cristo. Minha resposta é que as intercessões pelas quais os santos auxiliam uns aos outros não se conflitam com o fato de que todos eles têm um só Intercessor, porquanto ninguém é ouvido, seja em seu próprio favor ou em favor de outrem, a menos que confie em Cristo como seu Advogado. Nossas intercessões recíprocas, longe de denegrirem a intercessão única de Cristo, na verdade dependem completamente dela.

É possível imaginar-se que atingir harmonia entre nós e os papistas é algo muito fácil, se eles apenas subordinassem à intercessão de Cristo tudo quanto atribuem aos santos. Não é tão fácil assim, pois a razão pela qual transferem o ofício da intercessão para os santos é porque imaginam que de outra forma ficariam privados de um advogado. Comumente se crê entre eles que necessitamos de um intercessor, visto que, por nós mesmos, somos indignos de comparecer perante a face de Deus. Ao fazerem tal afirmação, estão privando a Cristo da honra que lhe pertence. É uma chocante blasfêmia atribuir aos santos a dignidade de granjear-nos o favor divino. Todos os profetas, apóstolos e mártires, bem como os próprios anjos, muito longe estão de reivindicar para si tais prerrogativas, uma vez que eles também necessitam, como nós, da mesma intercessão.

Não passa de mera ficção de suas imaginações que os mortos intercedam pelos vivos, e basear nossas orações em tal conjectura é desviar completamente de Deus nossa confiança e nossas orações. Paulo estabelece a fé baseada na Palavra de Deus [Rm 10.17] como a forma correta para se invocar a Deus.

Estamos, pois, certíssimos em rejeitar as coisas imaginárias que a mente humana engendra à parte da Palavra de Deus.

Não nos detendo no assunto mais do que a exposição da passagem requer, podemos sumariá-lo, dizendo que aqueles que têm aprendido da obra de Cristo ficarão satisfeitos somente com ele, enquanto que aqueles que não conhecem tanto a Deus quanto a Cristo criarão mediadores segundo sua imaginação alienada de Deus. Daqui concluo que o ensino dos papistas, que obscurece e quase que sepulta a mediação de Cristo, e introduz mediadores fictícios sem qualquer autoridade bíblica, está saturado de desconfiança e de temeridade perversa.
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12 novembro, 2010

0 A Estrutura do Pensamento de Calvino - Alister McGrath



Calvino é considerado, de um modo geral, como um sistematizador frio e impassível, um cérebro, em vez de uma pessoa, uma figura introspectiva e socialmente isolada que se sentia mais à vontade no mundo das idéias do que no mundo real de carne e osso, o mundo das relações humanas. A concepção popular sobre o pensamento religioso de Calvino é a de um sistema rigorosamente lógico, centrado na doutrina da predestinação. Embora essa crença popular possa representar um pensamento de grande influência, ela guarda pouca relação com a realidade; ainda que a doutrina da predestinação possa ser importante para o posterior movimento Calvinista, isso não está refletido na exposição de Calvino sobre essa idéia. Porém, essa crença popular levanta um importante questionamento. Alguém pode falar a respeito do pensamento de Calvino como sendo, acima de tudo, um sistema! A palavra "sistema" implica pressupostos acerca de unidade. Ela requer coerência. Contudo, Calvino compartilhava do profundo desgosto característico da república humanista das letras pelos teólogos escolásticos, cujos lemas parecem haver sido "sistematização" e "coerência". Referir-se a Calvino como um sistematizador teológico implica um grau de afinidade com o escolasticismo medieval, o que contradiz suas próprias atitudes. Isso também sugere uma significativa descontextualização entre Calvino e sua cultura, a qual não possuía os recursos intelectuais nem percebia qualquer razão em particular para produzir obras de "teologia sistemática" - um gênero literário que era, de qualquer forma, reconhecido como uma reserva do tão desprezado Escolasticismo. Apenas através de uma postu¬ra que considera as Institutas como sendo consistentes com o Humanismo bíblico da época de Calvino, em vez de uma radical exceção a ele, torna-se possível apreciar o pleno significado da obra.

Certamente é fato que as Institutas de 1559 têm sido, freqüentemente, comparadas à Summa Theologiae de Tomás de Aquino - com suas 512 questões, 2.669 artigos e mais de 10.000 críticas e réplicas - em termos de sua abrangência e influência. Contudo, isso significa confundir, evidentemente, o volume literário e a influência histórica com a afinidade teológica. Como indica um estudo do desenvolvimento das Institutas, originalmente Calvino concebeu a obra em termos modestos, sem quaisquer pretensões de uma abrangência metodológica. A reorganização do material entre uma edição e outra, no período de 1536 a 1559, reflete uma preocupação pedagógica, e não metodológica; o interesse de Calvino é humanista, em vez de escolástico

- ou seja, o de auxiliar seus leitores, e não o de impor um método a seu próprio pensamento. As Institutos de 1559 combinam as virtudes cardeais do educador humanista- clareza e compreensão - permitindo a seus leitores o acesso a uma apresentação clara e abrangente dos principais pontos da fé cristã, da maneira como Calvino desejava que fossem entendidos. Em ponto algum há qualquer evidência que sugira que um princípio dominante, um axioma ou uma doutrina - exceto o da clareza da apresentação - tenham controlado a forma ou a substância da obra. Esta é uma expressão da eloquentia, tão valorizada pela Renascença, tanto em sua estrutura quanto em sua prosa.

O estudioso que, por quaisquer motivos, pressupõe a existência de um princípio unificador no pensamento de Calvino está, naturalmente, predisposto a encontrá-lo. As pesquisas acadêmicas sobre Calvino apresentam uma série de estudos que, presumindo a existência de um princípio unificador no pensamento de Calvino, procederam à identificação deste princípio em suas doutrinas da predestinação, do conhecimento de Deus ou em sua eclesiologia.10 Um enfoque mais modesto (e, deve-se dizer, mais realista) consiste em admitir o óbvio e em aceitar que não há qualquer doutrina central no pensamento de Calvino.11 Apropria idéia de um "dogma central" tem suas origens no monismo dedutivo do Iluminismo, e não na teologia do século 16. Alguém pode identificar, com certeza, certos temas de importância central, certas metáforas essenciais que permitem alguma compreensão acerca do pensamento de Calvino - porém, a noção de uma doutrina central ou de um axioma que o controle não pode ser sustentada. Não existe algo como "o cerne", "o princípio básico", "a premissa central" ou "a essência" do pensamento religioso de Calvino.

Contudo, é evidente que, em toda a sua discussão sobre o relacionamento de Deus com a humanidade, Calvino considera um único paradigma como normativo. O paradigma em questão é aquele que foi obtido através da encarnação, mais especificamente através da união, sem a fusão, da divindade e da humanidade na pessoa de Jesus Cristo. Repetidamente Calvino apela para a fórmula baseada na cristologia, distinctio sed non separatio, significando que as duas idéias podem ser distinguidas, mas não separadas. Assim, o "conhecimento de Deus" e o "conhecimento de nós mesmos" podem ser diferenciados, mas não podem ser alcançados de forma isolada, um em relação ao outro. Da mesma maneira que a encarnação representa uma manifestação paradigmática dessa complexio oppositorum, o mesmo padrão é, assim, repetido e deve ser percebido através das várias manifestações do relacionamento entre Deus e a humanidade. Pelo fato de enfatizar que a teologia é centrada no "conhecimento de Deus e no conhecimento de nós mesmos" (Institutas I.i.l), esse paradigma é, obviamente, relevante. Em todas as suas obras, Calvino demonstra uma forte tendência de distinguir, de forma radical, as dimensões divina e humana - insistindo, contudo, em sua unidade. Não há qualquer possibilidade de se separar Deus e o mundo ou Deus e os seres humanos.

Pode-se perceber esse princípio em ação do início ao fim das Institutas: a relação entre a Palavra de Deus e as palavras dos seres humanos, na pre¬gação; entre o símbolo e significado da eucaristia; entre o fiel e Cristo, na justificação, onde existe uma real comunhão de pessoas, ainda que não haja a fusão dos seres; entre o poder secular e o espiritual. O pensamento de Calvino é dominantemente cristocêntrico, não apenas pelo fato de que ele se centraliza na revelação de Deus em Jesus Cristo, mas também porque essa revelação desvenda um paradigma que governa outras áreas centrais do pensamento cristão. Onde quer que Deus e a humanidade entrem em contacto, o paradigma da encarnação ilumina esse relacionamento. Se existe um ponto central no pensamento religioso de Calvino, este pode, perfeitamente, ser identificado como sendo o próprio Jesus Cristo.

Sugerir que não é inteiramente apropriado designar o pensamento religioso de Calvino como um "sistema" não significa, de forma alguma, que este não possua coerência ou consistência interna. Ao contrário, significa ressaltar a habilidade com que Calvino, agindo aparentemente mais como um teólogo bíblico do que filosófico, foi capaz de integrar uma série de elementos na estrutura global de seu pensamento. Ele pode não ter desenvolvido um "sistema teológico", no sentido estrito do termo; entretanto ele foi, indubitavelmente, um pensador sistemático, que reconheceu plenamente a necessidade de assegurar a consistência interna, entre os vários componen¬tes de seu pensamento.

À medida que Calvino envelhecia, surgia uma nova preocupação com o método. Ocorreu uma alteração significativa no clima intelectual, conforme se desenvolvia um novo interesse humanista por questões metodológicas, com o efeito essencial de que a sistematização não era mais considerada a reserva exclusiva dos tão abominados teólogos escolásticos. Em parte, isso se deve à crescente influência da escola humanista de Pádua, cuja ênfase sobre a importância do método (e das contribuições de Aristóteles a essa ciência) alcançou uma audiência progressivamente favorável, ao final da Renascença. Se pretendesse manter a respeitabilidade e a credibilidade intelectual, o Calvinismo tinha que se adequar ao novo molde sistemático. Os sucessores de Calvino, ao final do século 16, confrontados com a necessidade de impor um método ao seu pensamento, descobriram que sua teologia era eminentemente adequada a uma readaptação, dentro das estruturas lógicas mais rigorosas sugeridas pela metodologia aristotélica, a qual era privilegiada ao final da Renascença italiana. Isso, talvez, tenha conduzido à conclusão precipitada de que o próprio pensamento de Calvino possuía a forma sistemática e o rigor lógico da ortodoxia reformada do período posterior e tenha permitido que a preocupação da ortodoxia, sobre a doutrina da predestinação, fosse imposta às Institutas de 1559. Como devemos sugerir, há uma sutil diferença entre Calvino e o Calvinismo nesse aspecto, assinalando e refletindo uma reviravolta relevante na história intelectual em geral. Se os discípulos de Calvino desenvolveram suas idéias, isso ocorreu em resposta a um novo espírito da época, o qual considerava a sistematização e a preocupação com o método como intelectualmente respeitáveis e desejáveis. O Luteranismo falhou em reconhecer a importância dessa decisiva mudança no contexto intelectual; na época em que os escritores luteranos adotaram os novos métodos, praticamente uma geração inteira havia se passado e a superioridade do Calvinismo parecia certa

Antes de considerar as principais características do pensamento de Calvino, pode ser útil identificar pelo menos algumas das influências mais relevantes sobre as suas idéias. Em primeiro lugar, deve-se ressaltar que Calvino é um teólogo bíblico. A primeira e mais relevante fonte de suas idéias religiosas era a Bíblia. A obra de Calvino, como comentarista bíblico, serve para reforçar a impressão geral que alguém adquire, a partir de uma leitura mais cuidadosa das Institutas: a de que ele considerava a si mesmo como um obediente expositor da Bíblia. Textos, contudo, demandam interpretação. Calvino tinha acesso às principais técnicas da teoria literária, do criticismo textual e da análise filológica que a Renascença havia colocado à sua disposição e não teve dúvidas em usá-las. Ele era um humanista e empregava as técnicas do mundo das letras a seu serviço, como expositor bíblico.

Embora a principal preocupação de Calvino fosse a interpretação das Escrituras, sua leitura desse texto era informada e enriquecida pela tradição cristã. Ele não hesitava em desenvolver a tese que havia, originalmente, defendido na Disputa de Lausanne - a tese de que a Reforma representava a restauração dos autênticos ensinamentos da Igreja primitiva, com a eliminação das distorções e das adições ilegítimas do período medieval. Sobretudo, Calvino considerava seu pensamento como uma exposição fiel das principais idéias de Agostinho de Hipona: "Agostinho é totalmente nosso!". Ele tinha em alta conta alguns dos anteriores escritores medievais, tais como Bernard de Clairvaux. Embora tivesse a tendência de considerar a antiga teologia medieval como algo irrelevante, é evidente que Calvino incorporou em seu pensamento pelo menos alguns de seus métodos e pressupostos. Seu voluntarismo e o apelo sutil ao método lógico-crítico são exemplos de uma afinidade ligada não necessariamente a algum escritor ou escola de pensamento em particular, mas ao acervo intelectual característico da teologia contemporânea. Por fim, sua dívida frente à primeira geração de Reformadores é em tudo evidente - a Lutero, a seu amigo Bucero, de Estrasburgo, e ao erudito Filipe Melanchthon, para mencionar apenas três deles.

Obviamente, é impossível fornecer uma análise detalhada do pensamento de Calvino no espaço do qual dispomos. Nossa proposta é, portanto, apresentar um resumo do Cristianismo segundo Calvino, da forma como é apresentado nas Institutas.
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05 novembro, 2010

0 A Prioridade das Institutas – Alister McGrath



A forma mais conveniente - e, como devemos sugerir, a mais confiável -de apresentar um esboço da perspectiva de Calvino sobre o Cristianismo consiste em distinguir os temas centrais da edição de 1559 das Institutas da Religião Cristã. O próprio Calvino, de forma explícita, identificou as Institutas como a única apresentação oficial de suas idéias religiosas. Isso não quer dizer que outras fontes em potencial para essas idéias - por exemplo, seus comentários bíblicos ou seus sermões - sejam totalmente apagados pelas Institutas. Tampouco significa subestimar as incríveis habilidades de Calvino como comentarista bíblico ou pregador. Certamente é verdade que, ao menos em alguns casos, é possível construir os principais esboços de suas doutrinas a partir de uma pesquisa em seus comentários bíblicos.' Além do mais, os comentários geralmente não possuem o tom irritadiço e petulante, ocasionalmente beirando o desagradável, que é característico de certos trechos das Institutas de 1559. Afigura nada atraente de Calvino como autor, provavelmente um reflexo das progressivas debilidades que o desgastavam, relacionadas tanto ao seu envelhecimento quanto à sua enfermidade, é considerada, geralmente, como uma das principais deficiências de sua obra. O tratamento que ele dispensava a seus oponentes, particularmente a Andréas Osiander, é agressivo e arrogante, com uma lamentável tendência de combinar o criticismo de idéias ao criticismo da pessoa daqueles que as defendiam. O contraste com Tomás de Aquino é particularmente acentuado: sua obra Summa Theologiae se caracteriza pela considerável moderação, mesmo naqueles pontos em que Aquino está claramente expondo idéias que ele considera equivocadas. Por outro lado, os comentários de Calvino constituem uma leitura muito mais agradável. No entanto, devem ser observados dois potenciais perigos, no fato de se priorizar os comentários.

Em primeiro lugar, a rigorosa concepção de Calvino sobre o papel do comentarista em relação ao texto, evidenciada desde o comentário de Sêneca, coloca severas restrições à sua liberdade para proceder à transição hermenêutica crucial entre a exposição das Escrituras e a afirmação teológica. Calvino não concebe o termo "teologia" como algo que signifique apenas uma "explicação da Bíblia", embora ele não possua a menor intenção de

separar a teologia da explicação das Escrituras. Ainda que ele considere a teologia como "um eco do texto bíblico", esta não representa, estritamente falando, um comentário sobre o texto, mas uma estrutura de interpretação através da qual o texto pudesse ser compreendido. Fica claro que, ao comentar os textos, Calvino freqüentemente sente que não é adequado fornecer uma explicação detalhada sobre todas as implicações doutrinárias presentes em uma dada passagem. Em parte, isso reflete sua consciência da necessidade de lidar com os aspectos históricos, lingüísticos e literários, levantados por aquela passagem. Contudo, isso também se baseia na sua clara pressuposição de que seus leitores iriam se referir às Institutas como a fonte principal de toda a sua teologia - e, conseqüentemente, de seu método de interpretação das Escrituras. Os comentários podem esclarecer aspectos particulares dos textos bíblicos; as Institutas fornecem uma estrutura através da qual a essência da proclamação bíblica pode ser percebida e compreendida. Calvino claramente considerava seus comentários bíblicos como subordinados às Institutas, em alguns aspectos; estes não pretendiam ser um substituto independente e não podem ser tratados como se assim o fossem. Se é que existe um único auxilio à leitura das Escrituras, que supera todos os demais dentre suas obras e que foi idealizado como tal pelo próprio Calvino, este são as próprias Institutas, mais do que qualquer comentário sobre uma passagem bíblica especifica.

Em segundo lugar, as exposições teológicas de Calvino freqüentemente se baseavam em uma análise detalhada da relação das diversas partes que constituíam seu sistema, incluindo a exploração de possíveis dificuldades e a avaliação de alternativas contrárias. Esse esforço é real no contexto das Institutas, especialmente na edição de 1559. A plenitude das nuances, ênfases e sutilezas do pensamento de Calvino pode ser, dessa forma, identificada e avaliada. Ao tratar de qualquer tópico em particular, na edi¬ção de 1559, o leitor pode estar seguro de que ele ou ela encontrará tudo o que Calvino considerava como essencial para compreender seu posicionamento em relação àquele tópico. Essa extensão não será encontrada pelo leitor dos comentários bíblicos que tentar determinar a posição de Calvino através do estudo de sua explicação sobre passagens bíblicas potencialmente relevantes. A pessoa é, efetivamente, forçada a consultar as Institutas para determinar se houve omissão de algum componente es¬sencial do pensamento de Calvino em um dado tema, admitindo, portanto, a prioridade daquela obra.
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03 novembro, 2010

0 Satanás é Ministro da Ira Divina – João Calvino



A impiedade é um mal secreto, ( “por isso Deus os entregou...” Rm 1.24) daí o apóstolo fazer uma demonstração muito enfática a fim de patentear que eles não podem escapar sem justa condenação, visto que esta impiedade era seguida dos efeitos que provam a manifesta evidência da IRA do Senhor. Entretanto, se a ira do Senhor é sempre justa, segue-se que tem havido algo neles que era digno de condenação. Paulo, portanto, agora usa estes sinais para provar a apostasia e deserção dos homens, benevolência ao lançá-los de cabeça para baixo na destruição e ruína de todo gênero. Ao comparar os vícios de que eram culpados com a impiedade de que os acusara anteriormente, ele mostra que estavam sofrendo castigo proveniente do justo juízo de Deus. Visto que nada nos é mais precioso do que nossa própria honra, é o cúmulo da cegueira não hesitarmos em atrair desgraça sobre nós mesmos. Portanto, é um castigo muitíssimo justo para a desonra praticada contra a Majestade divina.

Este é o tema que o apóstolo desenvolve no fim do capítulo, porém lida com ele de várias formas, pois o requeria considerável de ampliação.

Em resumo, pois, o que o apóstolo está dizendo significa que a ingratidão humana para com Deus é injustificável. O próprio exemplo deles prova sem rodeios que a ira de Deus contra eles é sem misericórdia. Porque jamais teriam se precipitado, como bestas, em tão detestáveis atos de luxúria, se porventura não tivessem incorrido no ódio e inimizade de Deus em sua Majestade. Portanto, visto que o vício mais flagrantes é praticado em todos os lugares, ele conclui que as provas indubitáveis da vingança divina são evidentes na raça humana. Ora, se esta vingança divina nunca age sem motivo ou de forma injusta, Paulo nos afirma que é evidente deste fato que essa destruição, não menos certa do que justa, ameaça a humanidade toda.

É totalmente desnecessário, aqui, entrar numa infindável discussão sobre como Deus entrega os homens à vida de iniqüidade. É deveras certo que ele não só PERMITE que os homens caiam em pecado, aprovando que vivem assim, fingindo não ver sua queda, mas também ORDENA por seu justo juízo, de modo que são forçosamente conduzidos a tal loucura, não só por seus desejos maus, mas também pelo Diabo.

Paulo, pois, adota o termo ENTREGAR em concordância com o constante uso da Escritura. Aqueles que acreditam que somos levados a pecar tão-somente pela PERMISSÃO divina provocam forte violência contra esta palavra, pois Satanás é o MINISTRO DA IRA DIVINA, bem como seu ‘EXECUTOR’, ele também se acha fortemente armado contra nós, não simplesmente na aparência, mas segundo as ordens do JUIZ.

Deus, contudo, não deveria ser tido na conta de cruel, nem somos nós inocentes, visto que o apóstolo claramente mostra que somos entregues ao seu poder somente quando merecemos tal punição. Só uma exceção se deve fazer, a saber: que a CAUSA do pecado, as raízes do que sempre reside no próprio pecador; não tem origem em Deus, pois resulta sempre verdadeiro que “A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim o teu socorro” (Os 13.9).

Ao conectar os desejos perversos do coração humano com a IMPUREZA, o apóstolo indiretamente nos dá a entender o fruto que o nosso coração produzirá ao ser entregue a si mesmo. A expressão “entre eles mesmos” – é enfática, pois de modo significativo expressa quão profundas e indeléveis são as marcas da conduta depravada que trazem impureza a seus corpos.
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23 outubro, 2010

1 Calvino – A Gênese de um Enigma



Sugerir que Calvino representa algo como um enigma histórico pode, à primeira vista, parecer absurdo. Não sabemos mais a seu respeito do que sobre várias outras figuras do século 16? Antes de iniciar a análise histórica e a reconstituição da incrível carreira de Calvino, porém, é relevante atentarmos para o fato de que sabemos muito menos sobre ele, particularmente sobre seu período inicial, do que gostaríamos de saber. Seu maior legado para a civilização ocidental foram suas idéias e as formas literárias com que elas foram expostas. Na verdade, mais de um historiador sugeriu a existência de paralelos entre Calvino e Lênin, alegando que os dois possuíam um grau extraordinário de visão teórica e aptidão organizacional.30 Ambos forneceram fundamentos teóricos para movimentos revolucionários, os quais dependeram justamente de tais fundamentos para sua organização, direção e posterior sucesso. O próprio Calvino, porém, como figura humana, de carne e osso, por detrás dessas idéias, permanece vago. As razões para isso não são difíceis de se entender, sendo, talvez, melhor compreendidas pela comparação de Calvino com o grande Reformador saxão, Martinho Lutero.

Em primeiro lugar, possuímos um material abundante, proveniente da pena generosa de Lutero, datado do período anterior ao seu surgimento como importante Reformador. Sua carreira como Reformador tem por marcos iniciais as suas Noventa e Cinco Teses, referentes às indulgências (3 í de outubro de 1517), o debate de Leipzig de junho-julho de 1519 e os três tratados reformistas de 1520. Por volta de 1520, Lutero era tido como um Reformador carismático e popular. Essa vocação, entretanto, fundamentava-se em um conjunto de idéias religiosas que se desenvolveram anteriormente a seu engajamento público. De 1513 a 1517, Lutero tinha-se engajado no ensino teológico, na Universidade de Wittenberg, período em ele refletiu sobre as idéias que exerceram tão grande influência sobre os acontecimentos que se seguiram. Possuímos a maioria de seus escritos, em uma ou outra forma, daqueles primeiros anos, o que nos habilita a traçar a evolução destes conceitos religiosos básicos.


No caso de Calvino, contudo, somos confrontados com uma ausência quase que absoluta de material de sua autoria, relacionado a seu período de formação. As origens de sua carreira como Reformador podem ser fixadas a partir de algum ponto entre o final de 1533 ou o início de 1534, mas não se sabe, precisamente, quando. Seu comentário sobre a obra De clementia, de Séneca, que surgiu em abril de 1532, pouco revela em relação a seu autor, exceto quanto a sua erudição e as prováveis ambições juvenis de um estudioso humanista. Arazão para essa escassez de material não é difícil de entender. As relações entre a coroa francesa e os ativistas evangélicos vinham se deteriorando, continuamente, durante o início da década de 1530. No início da manhã de domingo, do dia 18 de outubro de 1534, a nuvem negra, que já vinha se formando há algum tempo, finalmente se rompeu com o "Incidente dos Panfletos". Ocorreu que, naquele dia, panfletos que atacavam violentamente práticas religiosas católicas, escritos pelo panfletista Antoine Marcourt, foram afixados em importantes locais, por todo o reino da França, inclusive na antecâmara do quarto do rei, em Amboise.

Enfurecido por esses acontecimentos, Francisco I foi levado a deflagrar uma série intimidante de medidas repressivas contra os evangélicos, na França, tornando desaconselhável, àqueles que tivessem uma visão reformista, chamar atenção para este fato. João Calvino já havia chegado a essa conclusão, em novembro de 1533, quando deixou Paris pela segurança relativa de Angoulême, um dia após Nicolas Cop - o recém empossado reitor - ter feito um discurso inflamado pelo Dia de Todos os Santos, na Universidade de Paris. Devemos ressaltar que o discurso de Cop, que parecia promover convicções evangélicas, provocou considerável oposição por parte dos mais conservadores. Calvino, provável suspeito de haver escrito o discurso, achou aconselhável deixar Paris o mais rápido possível, atitude totalmente justificável em face dos acontecimentos posteriores. Como ressaltam seus biógrafos, ele escapou por pouco:33 dentro de algumas horas, a polícia havia revistado suas salas e confiscado seus trabalhos. Esses trabalhos que, sem dúvida, possuíam um valor inestimável para o esclarecimento da evolução do pensamento de Calvino durante esta fase tão importante, jamais foram encontrados. Assim, somos obrigados a considerar esse período de formação como um enigma. No entanto, relutando em se deixarem conter por essa falta de evidências, alguns relatos destes primeiros anos parecem ter cedido à tentação de apresentar suposições históricas como fatos históricos. Até mesmo Doumergue, que corretamente afirma que se deve reconhecer ao menos parte da carreira de Calvino como "une enigme chronologique", tende a aceitar essas suposições históricas de seus estudiosos, em vez de se empenhar na sua reconstituição crítica.

Em segundo lugar, Lutero é excepcionalmente generoso com relação a referências autobiográficas, as quais encontram-se espalhadas por todas as suas obras. Talvez a referência mais famosa seja o "fragmento autobiográfico", de 1545, escrito no ano anterior à sua morte. Esse segmento funciona como uma introdução à primeira edição da coletânea de suas obras escritas em latim, na qual ele se apresenta a seus leitores. Ao longo desse prefácio, ele descreve com detalhes sua experiência pessoal, a evolução de suas idéias religiosas e o modo como se desenrolou a crise que levou à origem da Reforma Luterana. Embora reminiscências pessoais de homens idosos não sejam, em regra, muito confiáveis, as memórias de Lutero parecem acuradas, até onde podem ser comprovadas. O modo como ele sugere que se desenvolveram suas idéias religiosas (sobre as quais sua proposta de reforma se fundamentaria) também pode ser comprovado pela comparação com suas obras relativas ao período inicial de sua carreira. Calvino, contudo, parece ter sido reticente quanto a inserir qualquer referência pessoal em suas obras. É provável que uma passa¬gem da obra Réplica a Sadoleto (1539), na qual um representante evangélico descreve seu rompimento com a Igreja medieval, possa ser autobiográfica;36 entretanto, Calvino não faz qualquer afirmação neste sentido. Aparte explicitamente autobiográfica do prefácio de seu Comentário sobre os Salmos,1" de 1557, é, porém, de uma brevidade intrigante e, em certos pontos, de difícil interpretação. Em seus sermões Calvino usa, freqüentemente, a primeira pessoa - mas não se pode, necessariamente, concluir que revele muito sobre si mesmo ao fazê-lo. Sua modéstia o impediu de revelar" as reflexões e reminiscências, das quais tanto depende a reconstituição histórica.

Porque Calvino deveria ser tão relutante em se revelar? A explicação para sua personalidade complexa encontra-se na forma pela qual ele entendia seu chamado. Em um raro momento de revelação pessoal, ele deixou clara sua crença veemente de que teria sido separado por Deus para um propósito específico. Ao meditar sobre sua carreira, ele pôde perceber a mão oculta de Deus dirigindo sua vida nos momentos cruciais. Ele acreditava que, apesar de não possuir qualquer mérito pessoal, Deus o chamou, mudou o curso de sua vida, conduziu-o a Genebra e o investiu na função de pastor e pregador do Evangelho. Qualquer que fosse a autoridade que Calvino possuísse, ele a entendia como sendo derivada de Deus, e não de seus talentos e habilidades inatos. Ele não era nada mais do que um instrumento nas mãos de Deus. Deve-se ressaltar que Calvino compartilhava da ênfase comum à Reforma, expressa na doutrina da justificação pela fé de Lutero e na doutrina reformada da eleição imerecida (ante praevisa merita), na pecaminosidade e na insignificância da humanidade caída. O fato de que Deus o tivesse escolhido era uma expressão da compaixão e generosidade divinas, e não de qualquer mérito ou qualidade pessoal que Calvino pudesse possuir. Sugerir que seu senso de chamado divino reflete sua arrogância revela uma peculiar falta dé conhecimento a respeito da espiritualidade da Reforma.

A compreensão a respeito de seu chamado é o que contém as aparentes tensões em nosso conhecimento sobre a personalidade de Calvino. Tímido e reservado, ainda assim, ele era capaz de uma coragem que beirava a intransigência, recusando-se a fazer concessões quando acreditava que a vontade de Deus estava em jogo. Pronto a ser ridicularizado, se preciso (embora isto costumasse feri-lo profundamente), Calvino não estava pronto a permitir que este ridículo fosse transferido dele, como indivíduo, para a sua causa e ao Deus que ele acreditava servir. Acima de tudo, aparentava estar convencido de que era apenas um simples instrumento, através do qual Deus poderia trabalhar; um porta-voz, através do qual Deus poderia falar. Considerava sua personalidade como um obstáculo potencial a essas ações divinas e, em resposta, aparentava ter cultivado a modéstia.

Desde o início o leitor deve estar, portanto, atento às dificuldades existentes em torno de qualquer reconstituição histórica da carreira e da personalidade de Calvino e também em relação à natural - e totalmente compreensível - tendência a se adotar uma atitude antagônica em relação a ele. Adiante, tentaremos fazer uso dos recursos disponíveis aos historiadores, ao final da Renascença, para desenvolver, do modo mais plausível que pudermos, um quadro das forças religiosas, sociais, políticas e intelectuais que modelaram alguns dos contextos em que Calvino viveu e, posteriormente, transformou. Existem, entretanto, lacunas significativas em nosso conhecimento. Calvino era um indivíduo extraordinariamente introspectivo, que optou por reter o material histórico que teria iluminado as sombras de sua história. Assim, é inevitável que ele seja retratado como uma figura um tanto quanto pálida, sem vida, um homem cujos mais íntimos pensamentos, atitudes e ambições aos são totalmente negados. Insatisfeitos com o esboço monocromático resultante, alguns historiadores caíram na eterna tentação de expandir os limites da história. Ainda que esta atitude seja compreensível, seu perigo deve ser prontamente reconhecido: o perfil retratado pode refletir pressuposições ocultas, por parte de historiadores tendenciosos, cujas lentes coloridas podem até mesmo nos negar acesso ao Calvino histórico.


Alister McGrath

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13 outubro, 2010

0 Onde o Pecado Transbordou – João Calvino



- (Rm 5. 20,21) -

Sobreveio a lei para que o delito sobressaísse. O que a apóstolo afirma aqui depende de sua observação anterior, ou seja: que o pecado existiu antes que a lei fosse promulgada. Quando este ponto é estabelecido, então surge, imediatamente, a pergunta: "Então, com que propósito a lei nos foi dada?" Portanto, era indispensável que esta dificuldade fosse também resolvida. Contudo, visto que não tivera oportunidade, naquela ocasião, de apresentar uma digressão mais extensa, então prorrogou sua consideração para a presente passagem. Ele agora mostra, suficientemente, que a lei entrou [em cena] a fim de que o pecado pudesse sobressair. Ele não está aqui a descrever todo o uso e função da lei, mas trata só daquela parte que servia ao seu presente propósito. A fim de estabelecer a graça de Deus, ele afirma que era indispensável que a destruição dos homens fosse-lhes mais nitidamente revelada. Em verdade, os homens já se achavam naufragados antes mesmo que a lei fosse promulgada; porém, visto que eles aparentemente sobreviviam, mesmo em sua destruição, achavam-se submersos nas profundezas, a fim de que seu livramento parecesse ainda mais extraordinário quando, ao contrário da expectativa humana, emergissem dos dilúvios que os subvertiam. Não é ilógico concluir que a lei fora em parte promulgada em razão de que ela pudesse outra vez condenar as mesmas pessoas que uma vez já haviam sido condenadas. Seremos plenamente justificados em usar todos e quaisquer meios para trazer os homens, e até mesmo forçá-los pela comprovação de sua culpabilidade, a ter consciência de sua própria impiedade.

Onde o pecado transbordou. E bem notório o método geral de interpretar-se esta passagem desde os tempos de Agostinho. Quando a concupiscência é reprimida pelos restringimentos da lei, a mesma é intensamente estimulada. Há no homem inerente tendência de esforçar-se por fazer aquilo que lhe é proibido. Mas acredito que aqui a referência é simplesmente ao aumento do conhecimento e à intensificação da obstinada, porquanto o pecado é, pela lei, exposto aos olhos humanos, de modo que se vêem constantemente compelidos a ter consiciência da condenação que lhes está reservada. Assim o pecado, que de outra forma seria por eles completamente desdenhado, toma posse de suas consciências. Agora que a lei já foi promulgada, e a vontade de Deus, que brutalmente pisoteavam sob a planta de seus pés, se torna conhecida, aqueles que antes simplesmente desrespeitavam as fronteiras da justiça, agora chegam ao cúmulo de desdenhar da autoridade divina. Segue-se disto que o pecado é intensificado pela lei, visto que a autoridade do Legislador é então menosprezada e sua majestade, degradada.

A graça se plenificou infinitamente. A graça veio em auxílio do gênero humano depois que o pecado subjugou a todos, e a todos manteve sob seu domínio. Paulo, pois, nos ensina que a extensão da graça é ainda mais admiravelmente revelada, visto ser derramada mui copiosamente à medida que o pecado pervade tudo, não só para conter a avalanche do pecado, mas também para que ela o destrua completamente. Aprendemos deste fato que nossa condenação não nos é exibida pela lei com o propósito de fazer-nos continuar nele, mas com o fim de familiarizar-nos intimamente com nossa própria miséria, bem como para guiar-nos a Cristo, o qual nos foi enviado como Médico ao encontro de nossa enfermidade, como Libertador ao encontro de cativos, como Consolador ao encontro de aflitos e como Defensor ao encontro de oprimidos [Is 61.1].

Para que, como o pecado reinou para a morte, assim também reinasse a graça através da justiça. Como o pecado é descrito em termos de aguilhão da morte, visto que esta não tem poder algum sobre os homens exceto em decorrência do pecado, assim ele executa seu domínio por meio da morte. E por isso que se nos diz que ele exerce seu domínio por meio da morte. Na última cláusula, a ordem das palavras é confusa, porém não involuntariamente. Se Paulo houvera dito "a fim de que a justiça viesse a reinar por meio de Cristo", seu contraste teria sido direto. Entretanto, ele não se sentia satisfeito em comparar os opostos, e então acrescenta a palavra graça, de modo a imprimir ainda mais profundamente em nossa memória a verdade de que toda a nossa justiça não tem sua procedência em nossos próprios méritos, e, sim, na divina munificência. Ele previamente dissera que a morte mesma havia reinado. Ele agora atribui ao pecado o conceito de reinado. Mas o fim ou efeito do pecado é a morte. Afirma que ele reinou no passado, não porque cessou de reinar naqueles que são nascidos somente da carne, senão que distingue entre Adão e Cristo de tal forma como a designar a cada um o seu próprio tempo. Portanto, tão logo a graça de Cristo começa a prevalecer nos indivíduos, o reinado do pecado e da morte também cessa.
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