18 dezembro, 2009

2 O Consensus Tigurinus






Ao considerarmos a influência de Calvino e do Calvinismo na Suíça, o Consensus Tigurinus – ou Consensus de Zurique – não apenas nos fornece um ponto de partida adequado como, também, elucida o contexto teológico da Suíça neste período crítico. Na Suíça de fala alemã, desenvolveu-se uma doutrina amadurecida acerca dos sacramentos, especialmente o da Ceia do Senhor, que é abordado no Consensus. Zwínglio considerou muito e, freqüentemente, debateu acerca da natureza dos elementos da Ceia do Senhor; tanto ele quanto Lutero rejeitaram a idéia católico-romana da transubstanciação, que afirma que o pão e o vinho se tornam, de fato, o corpo e sangue de Cristo de modo tal que ocorre um milagre e, então, Cristo é sacrificado no altar. Calvino diz: “Mas a questão e a seguinte: Qual é a natureza dessa comunicação?” – esta é uma questão que necessita ser investigada se quisermos entender a interpretação das palavras de Cristo: “Isto é meu corpo”.


Zwínglio e Lutero não puderam concordar entre si quanto a este assunto. Em 1529, eles tiveram uma discussão em Marburgo, e concordaram sobre quatorze pontos principais de teologia, mas não puderam adotar uma posição idêntica nesse assunto. A posição de Lutero era a de que o pão e o vinho eram o corpo e o sangue de Cristo; não uma transubstanciação dos elementos, porém antes uma consubstanciação. Consubstanciação era a posição de que o corpo e o sangue de Cristo estão “em, com e sob” o pão e o vinho. A posição de Zwínglio, por outro lado, era de que o pão e vinho não são naturalmente unidos com o corpo e o sangue de Cristo; o corpo e o sangue de Cristo não estão nem incluídos localmente nos elementos, nem sensivelmente presentes, mas são símbolos através dos quais nós temos comunhão no corpo de sangue de Cristo.



Zuínglio e Lutero, efetivamente, nunca resolveram essa dificuldade. Mais tarde, outra complicação surgiu por causa das posições de Calvino sobre a Ceia do Senhor, posições que não eram idênticas nem à compreensão de Lutero, nem à Zuínglio. Calvino estava esperançoso de poder alcançar um acordo entre os protestantes, pelo menos entre os protestantes da Suíça. O Consensus Tigurinus teve sucesso em unir a Suíça com relação à doutrina da Ceia do Senhor.



Antes de começarmos a examinar o pensamento de Bullinger e de Calvino, em relação à Ceia do Senhor, investigaremos as circunstâncias históricas em torno do Consensus. Em 1544/1545, Lutero atacou a concepção zwingliana de Ceia do Senhor com sua obra “Kurzes Bekenntnis der Diener der Kirche zu Zürich... insbesondere über das Nachtmahl...” (A Verdadeira Confissão dos Pastores de Zurique... em Relação à Ceia do Senhor...). Conforme mencionado anteriormente, a posição de Calvino não concordava nem com Lutero nem com Bullinger, que seguiu de perto o seu predecessor. Entretanto, Calvino conseguiu entrar em discussão com Bullinger acerca de suas respectivas posições sobre a Ceia. Bullinger lhe ofereceu uma cópia de sua obra “De Sacramentis”, escrita em 1546, quando Calvino estava em Zurique no início de 1547. Conforme veremos, Calvino não concordava completamente com a concepção de Bullinger e lhe apresentou um esboço de sua posição em vinte e quatro proposições o qual foi enviado a Zurique em junho de 1548. Bullinger fez certas anotações a este texto e então o enviou de volta a Calvino, que o revisou em janeiro de 1549. Calvino então considerou o projeto importante e bastante para viajar com Farel a Zurique, em maio de 1549, onde se chegou a um consenso entre Calvino e Bullinger em poucas horas. Este acordo resultou no Consensus Tigurinus. Para nos ajudar a entender a importância desse documento esboçaremos brevemente as convicções de Bullinger e de Calvino a respeito da Ceia do Senhor.



Bullinger, assim como Zwínglio, rejeitou a idéia luterana de consubstanciação. Além de rejeitar a idéia de que o sacramento possa ser um meio direto de graça, Bullinger considerou o princípio fundamental da Ceia do Senhor como sendo uma ilustração religiosa e um estímulo à fé; o conteúdo inteiro do sacramento consiste na relembrança de Cristo. Para o crente, a presença real de Cristo está na Ceia, mas o incrédulo recebe somente pão e vinho. É pelo Espírito Santo que se torna possível aos crentes serem participantes de Cristo.



Observando as formulações de Calvino a respeito da Ceia do Senhor, lembramos que a posição de Calvino está em algum lugar entre as de Lutero e Zwínglio. Sua posição não satisfaz aos extremistas de nenhum dos lados. Calvino foi primeiramente influenciado por Lutero, talvez mais fortemente do que por Zwínglio, por essa razão as perspectivas de um acordo com os Reformadores de Zurique não eram muito grandes.

Mesmo assim, está claro, pelos escritos de Calvino, que ele rejeitou a idéia luterana de consubstanciação. Entretanto, embora rejeitando essa idéia, ele concordava com os luteranos em que o corpo de Cristo é dado na Ceia do Senhor. Cristo está presente no sacramento.

Como isso pode acontecer? Calvino também afirmou muito claramente que o corpo de Cristo permanece no céu e retém suas propriedades humanas. A resposta a essa questão é encontrada na ação do Espírito Santo em relação à Ceia; Cristo não vem a nós do céu, mas o poder do Espírito nos eleva a Ele nos céus. Então, nós tomamos parte de Cristo na Ceia de um modo espiritual e celestial. Há uma presença real de Cristo na Ceia do Senhor, mas é um modo celestial de presença.



Calvino, rapidamente, salienta que essa presença de Cristo não é recebida por um incrédulo. Não é porque não são oferecidos ao incrédulo o corpo e o sangue e Cristo, pois ele é oferecido a bons e a maus, mas o verdadeiro recebimento é possível unicamente pela fé, sendo o próprio recebedor o obstáculo que o impede de desfrutar do dom. A participação do incrédulo não significa que ele o receba para seu próprio prejuízo, conforme alguns luteranos afirmam.



Que é que se pode concluir de uma análise do conteúdo do Consensus Tigurinus? Somos nós capazes de determinar se a compreensão de Calvino, a respeito do sacramento da Ceia do Senhor se tornou normativa em toda a Suíça? Têm sido tiradas duas conclusões com relação ao Consensus: ou ele foi um triunfo para a doutrina de Calvino, ou houve um genuíno dar e receber entre Bullinger e Calvino, no acordo de ambos. Não é correto dizer que não houve influência bullingeriana no Consensus, embora também esteja claro que é a compreensão de Calvino, a respeito da Ceia do Senhor, que é apresentada no Consensus Tigurinus. O Consensus afirma que há, no sacramento, uma verdadeira união de vida com Cristo, e que os elementos não são “vazios”. Eles são meios da graça e transmitem os benefícios da redenção.



Após a redação do Consensus Tigurinus, o Calvinismo começou a crescer em força na Suíça: na cidade de Zurique, onde Bullinger ainda era o antistes ou pastor principal, o Calvinismo de certa forma substituiu o zwinglianismo como corrente teológica dominante. O primeiro reformador da cidade de St. Gallen, Vadian (Joachim Vom Watt, 1484-1551), foi influenciado pessoalmente por Zuínglio e, já em 1536, tinha ouvido acerca de Calvino. Vadian considerara importante para Calvino estar unido com os teólogos de Zurique em relação à natureza da Ceia do Senhor, e Calvino percebeu nele um discernimento aguçado ao desejar essa união. Calvino o tinha em alta consideração e dedicou a Vadian sua obra “De Scandalis”. Conforme indicam as cartas de Calvino daquela época, ele foi profundamente tocado ela morte de Vadian. Outro Reformador de St. Gallen, Johan Kessler (1502-1574), tinha um espírito humilde e desejava sinceramente uma visita de Calvino. Embora até onde saibamos esse encontro nunca tenha ocorrido, Kessler foi um defensor fiel de Calvino por toda a sua vida. Basiléia, entretanto, estava sob a liderança eclesiástica de Simon Sulzer, que tinha tendências luteranas; por essa razão, a cidade de Basiléia não foi muito receptiva a Calvino e à sua teologia até o próximo antistes.



Na Suíça, após a atenção ter sido concentrada, por alguns anos, na natureza da Ceia do Senhor, embora não tivesse desaparecido totalmente, esse assunto passou a ter uma importância secundária devido ao surgimento de uma nova questão controvertida, ou seja, a doutrina da predestinação. Beza levantou a questão dessa doutrina como ponto importante de discussão, ao afirmar que Deus primeiramente decretou que algumas pessoas seriam salvas por Sua misericórdia, e que outras seriam entregues à desgraça e, após esse decreto, bem como em subordinação a ele, Deus criou o homem. Esta doutrina tornou-se conhecida como supralapsarianismo. Especialmente em Zurique, o assunto da predestinação e suas implicações tornou-se matéria de conflitos agudos. Theodore Bibliander (1504-1562), professor de Velho Testamento naquela universidade, ensinava que havia uma diferença entre a predestinação e a presciência de Deus, e tentava enfatizar acima de tudo a universalidade do amor. Peter Martyr Vermigli (1500-1562), que havia há pouco sido chamado de Estrasburgo para Zurique, indignou-se com essa doutrina. Ele propôs uma predestinação dupla, uma eleição tanto para a perdição como para a felicidade eterna e, por essa razão, criticou ferrenhamente a Bibliander. Mesmo que Bullinger, geralmente, só queria enfatizar a eleição para a salvação, a faculdade teológica de Zurique acabou concordando com Vermigli e demitiu Bibliander em 8 de fevereiro de 1560.



Enquanto em Zurique se armava o conflito sobre a predestinação, Berna e Genebra disputavam acerca de outra questão. A discordância agora não era nem sobre o sacramento da Ceia do Senhor nem sobra a predestinação; nessas frentes havia uma relativa paz. A área de conflito centrava-se na disputa acerca da natureza das relações Igreja/Estado, que eram interpretadas diferentemente pelos principais teólogos de ambas as cidades. Wolfgang Musculus (1497-1563), professor de grego e de teologia em Berna, desde 1549, liderava o partido de Berna, que estava convencido de ser correto unir o Estado e a Igreja, com a Igreja subordinada ao governo e os servidores da Igreja como empregados do governo. Em suas lutas por um governo cristão, ele considerava ser sua obrigação lutar contra qualquer separação entre Igreja e Estado, quer isso implicasse em lutar contra Roma ou contra Genebra. O conceito de ius reformandi era uma das partes mais importantes do pensamento de Musculus; ius reformandi era o direito de reformar e renovar o caráter e a organização da Igreja. Este direito pertencia aos magistrados, e colocava a autoridade dos magistrados no centro de seu sistema. A posição de Calvino não concordava com essas conclusões. Calvino via os direitos da Igreja como pertencendo inerentemente à igreja. A Igreja, e só ela, é responsável pela Igreja. Ao continuarmos nossa análise sobre a Suíça, perceberemos alguns resultados do conflito ideológico nas relações Igreja/Estado.



Conforme o Calvinismo se fortalecia na Suíça, também estava se propagando em outras partes da Europa, como outros artigos desta série o demonstram. É importante, para a história Suíça, a disseminação do Calvinismo para o Norte, na Alemanha, especialmente na área ao redor da cidade de Heidelberg. A crise que se desenvolveu quando o Calvinismo encontrou o Luteranismo em solo alemão, forneceu a base para a confissão suíça conhecida como a Segunda Confissão Helvética.



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sarina disse...

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