17 dezembro, 2009

0 O Calvinismo e a Atividade Cultural




Calvino viveu num tempo de fermentação e mudanças, numa época que ele mesmo descreveu em termos ou mais elogiosos. Foi um tempo de renovação do pensamento, de profundos transtornos sociais e de conflitos religiosos. Tanto em relação aoRenascimento quanto à Reforma havia não apenas uma vívida consciência de retorno àquilo que, durante longo tempo, tinha ficado obscurecido – um retorno às fontes (= ad fontes) -, mas também havia a consciência de que esse retorno era o março de um novo começo, a emergência de uma nova idade que seria diferente, em grau marcante, daquela que a precedia imediatamente.

No meio de uma tal fermentação, não surpreende o fato de ter surgido, também, um sentido de transformação histórica. Esta consciência dominou também a Calvino. Seu ponto de vista a respeita da Lei Natural não o impediu de ser flexível com respeito às mudanças que tinham lugar por toda parte, ao redor dele. Ele sabia que era impossível associar a vontade de Deus com a ordem existente, pois fazer isto significaria sancionar as forças do conservantismo e da reação. A investida característica do seu tempo, contra as idéias e costumes bem estabelecidos, não era simplesmente destrutiva e destituída de sentido. Contudo, é claro que Calvino não abandonou tudo às formas da história, como já nos mostrou a discussão a respeito da Lei. Quando ele abraçou a doutrina da Lei Natural, ela mesma estava num tal abandono. Ele não repudiou seu ponto de vista de mudança - de Deus ou de Sua Lei – de forma a ser conduzido derrotando a trilha da revolução. Ainda que fosse mais controlado do que Lutero, em sua atitude para com essas forças, Calvino desprezou aqueles que, à margem da Reforma, combatiam com fervor revolucionário aquilo que estava estabelecido.

Não obstante, é verdade que Calvino tinha uma visão aguçada para (compreender) o papel da história. Além do mais, ele foi um homem moderno no sentido de não considerar a história simplesmente como um movimento de imagem de eternidade. Sua recusa em limitar a vontade soberana do Deus criador não poderia obstruir a história. Para Calvino, o sentido da história reside nela mesma. A história e as mudanças históricas estão incluídas na esfera da atividade soberana de Deus e realizam os propósitos de Sua vontade.

Possuiria então, Calvino, um princípio bem elaborado de mudanças históricas, princípio que favorecia a proeminência que ele dava à história sem cair, por um lado, no conservadorismo e, por outro, sem cair numa posição revolucionária? Teria ele uma clara noção daquilo que constitui a cultura, de modo a poder ver com clareza como a história e a formação da cultura histórica têm seu lugar dentro da ordem do cosmo, como Deus o criou? Na verdade, ele estava plenamente ciente daquilo que tinha sido feito no passado para a construção de um ponto de vista cristão a respeito da história pois lera os Pais da Igreja, inclusive Agostinho, que foi o primeiro a desenvolver aquilo que poderia ser chamado uma filosofia cristã da história. De fato, ele mesmo desenvolveu um ponto de vista a respeito da história. Contudo, a resposta às questões acima deve ser negativa. Calvino não desenvolveu uma filosofia da história, no sentido técnico desta palavra.

É melhor dizer que Calvino possuía um sentido sumamente afinado de atitude que o cristão deve ter com respeito à mudança histórica, um sentido que foi desenvolvido por seu estudo da história, na sua instrução e, especialmente, na sua profunda compreensão do ensino bíblico.

É significativo a esse respeito que, antes de sua conversão à fé evangélica, Calvino já estava plenamente envolvido naquilo que foi uma das mais poderosas forças modernizantes de seu tempo: o Renascimento humanístico. Isto já tinha produzido poderoso impacto nos círculos católico-romanos. Dá testemunho disto o fato de o líder do humanismo francês, Budé, ser um católico romano e ter influenciado alguns dos mais chegados companheiros de Calvino. Calvino firma-se primeiro como um humanista. Só depois alcançou ele o desenvolvimento que o transformou no maior sistematizador da Reforma. Tendo já colocado seus pés no mundo moderno, o problema de Calvino não seria o de como entrar na modernidade, mas o de como relacionar-se, ele mesmo e a nova cultura, com as velhas verdades do Evangelho, verdades que tinham sido outra vez trazidas à luz pela Reforma, e de como interpretar o mundo moderno à luz dessas verdades.

Não se deve também esquecer que Calvino, no interesse de aplicar as verdades do Evangelho à vida, foi levado à arena da vida prática. Seus princípios não tiveram, a respeito dessas verdades, aquele ar de irrealismo que caracteriza os esquemas ideais que têm pouco ou nenhum contato com a vida real. Há em Calvino um saudável realismo. Tem sido sugerido que seus princípios tiveram efeito porque ele estava em contato com as situações reais da vida e estava em condições de mudar essas situações.

Vemos Calvino, por exemplo, tentando, tanto quanto possível, repor as Leis Canônicas em Genebra, juntamente com os princípios da Lei Romana. Vemo-lo em cooperação comMarot, elevando o nível de apreciação pela música no culto. Vemo-lo entrando no campo da educação, com a fundação da Academia de Genebra, e tentando desenvolver uma verdadeira concepção cristã da cultura. Encontramo-lo, através de sua intensa atividade literária, elevando a alturas inabituais, o nível da Língua francesa. Na introdução de suasInstitutas da Religião Cristã, ele dirige ao rei de uma forma que lembra os antigos apologistas, pleiteando o bem-estar dos verdadeiros seguidores do Evangelho, mas afirmando, também, de uma forma que evidencia o mais profundo interesse pela situação política corrente, que os verdadeiros interesses do Estado só alcançam o progresso quando há verdadeira obediência a Cristo e às verdades de Sua Palavra. Na verdade, para Calvino, a Palavra de Deus não devia permanecer enclausurada no coração humano. Suas energias deviam irradiar-se por todo o mundo, em toda vida, incluindo o domínio da cultura.

No fundo, contudo, foi pelo fato de Calvino ter penetrado tão profundamente na concepção do mundo, que ele foi capaz de desenvolver um sentido próprio da história e da sua dinâmica. Foi por ter entendido, como Agostinho antes dele, o significado reprodutivo da doutrina bíblica da criação, que ele reconheceu a soberania e a providência de Deus sobre todas as coisas, de modo que coisa alguma escapa à vontade criadora de Deus. Isto tornou possível, para ele, ver que esta vontade se estende a toda história e àquilo que é central à história ou, seja, à atividade formadora do homem, que é o coração do desenvolvimento cultural.

Quem se coloca na posição de Calvino, não tem necessidade de conceber a atividade cultural humana como contrastada com a presumida esfera da atividade divina. A cultura pode ser concebida como um aspecto da atividade humana distinta da natureza, mas não como independente da Lei divina, do plano divino e da divina vocação. A atividade cultural humana pode ser concebida como uma resposta à chamada de Deus, do mesmo modo como o é toda a vida, e pode ser julgada quanto a se é ou não levada a efeito de acordo com a vontade do Deus criador. O que se exige é uma reconstrução da idéia de cultura, idéia concebida dentro do contexto da revelação divina, contexto dentro do qual a cultura se torna plena de sentido. A atividade cultural humana, levada a efeito em obediência à Lei de Deus, é uma expressão da Sua vontade. Está na linha do pensamento de Calvino dizer que aquilo que flui da cultura, tem um lugar no plano de Deus, enquanto se relaciona com o fim desta era e com a vida de um novo céu e de uma nova terra.



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