29 dezembro, 2009

0 A Atitude Positva de Calvino para com a Cultura




Calvino expressou sua gratidão a Deus, porque Deus, ao mesmo tempo em que trouxe à luz o Evangelho em sua pureza, trouxe à existência também o renascimento das humanidades. Foi Guilherme Budé que, ao tempo de Calvino, procurou introduzir na França um panorama da cultura humanística surgida na Renascença Italiana. Promoveu o gosto pelas artes liberais (bonae litterae) em contraposição aos estudos que preparavam o indivíduo para ganhar a vida (Teologia, Lei = Direito, Medicina). Calvino concordou resolutamente com Budé em que as artes liberais eram essenciais à formação do homem, ao desenvolvimento de sua humanidade. De fato, encontramos em Calvino acentuado gosto pelas artes liberais e interesse em instruir-se nelas, de modo que nada fica ele a dever aos humanistas seus contemporâneos. Não são necessárias muitas palavras, disse ele, para expressar quão cara nos é a aquisição das artes liberais.

Também para com a retórica e as ciências naturais, Calvino teve uma atitude positiva. A influência dos princípios da retórica sobre seu método teológico pode ser constatada. Na introdução de seu Comentário às Cartas aos Tessalonicenses, Calvino reconhece que deve sua cultura humanística a seu método de ensino (discendi rationem) ao bem conhecido humanista Maturin Cordier. Como a retórica, as ciências naturais são dons de Deus, criados por Ele para o uso da humanidade. A fonte última da verdadeira ciência da natureza não é outra senão o Espírito Santo. Contudo, Calvino foi inflexível oponente da pseudociência da astrologia, que gozava de grande prestígio em seu tempo, tanto quanto goza em nossos dias. O clima espiritual no qual Lutero se desenvolveu, foi o do misticismo do final da Idade Média. Diferentemente de Calvino e Melanchthon, Lutero permaneceu muito tempo incólume às influências do Renascimento da Cultura humanística de seu tempo. Em contrapartida, Calvino cedo dedicou-se aos estudos humanísticos. Como teste de sua competência, de sua erudição humanística, ele escreveu seu famoso comentário sobre oDe Clementia, de Sêneca. Educado pelos humanistas e autorizados eruditos de seu tempo – Pierre de l’Etoile e Andréa Alciati -, bem versado na filosofia da cultura clássica, e ele mesmo reconhecido como um erudito humanista, Calvino revelou, através de toda a sua vida, domínio da cultura contemporânea e profundo interesse no seu desenvolvimento. Ele continuou a demonstrar empenho em relação à humanidade dos homens e em relação àquelas boas dádivas de Deus – que incluíam a arte e a música – e que eram capazes de contribuir para o seu desenvolvimento.

É um erro supor que o duradouro interesse de Calvino pelos estudos humanísticos e pelo desenvolvimento cultural do homem fosse um simples remanescente do tempo que precedeu sua conversão à fé evangélica. Sua preocupação para com os estudos humanísticos e para com aquilo que diz respeito ao que é humano, está muito inseparavelmente ligado ao seu modo global de pensar, para permitir uma tal interpretação. De fato, num sentido que precisa ser bem definido e cuidadosamente preservado de má compreensão, Calvino pode ser chamado de “humanista”. Através de toda a sua vida, ele teve um profundo compromisso para com aquilo que é humano.

De fato, Calvino criticou mordazmente àqueles cujo humanismo fazia supor que eles se tinham firmado contra a soberania de Deus, contra a Palavra de Deus, contra a depravação do homem e contra as doutrinas da graça. Aos vinte e sete anos, na famosa carta que serve de introdução à sua Instituio Religionis Christianae (Institutas da Religião Cristã), ele fala abertamente contra o humanismo que não leva em conta a doutrina evangélica. Mais do que contra um humanista cristão como Budé, Calvino ataca aqueles humanistas que fazem a apoteose do ser humano e pensam que a realização daquilo que é humano pode ser alcançada somente na presumida independência de Deus e de Sua revelação. Ele mesmo, como um humanista, rejeitou aquilo que era o coração da idéia de personalidade do Renascimento, a idéia de que o homem é a fonte criadora de seus próprios valores e, portanto, no fundo, incapaz de pecar. Se os estudos humanísticos eram caros a Calvino pelo fato de favorecerem o desenvolvimento das virtudes humanas, se as ciências devessem ser cultivadas como dons de Deus, os humanistas deviam opor-se àqueles que pensavam que as artes e as ciências podiam ser empregadas como se fossem suficientes em si mesmas. Era estranho à mente de Calvino o pensamento de que as artes e as ciências podiam estar livres da religião (non debare distrahi a religione scientia).

Ninguém deve supor que a atitude de Calvino para com aquilo que é humano e para com aquilo que pertence à realização humana não tem necessidade de correção. No entanto, sua atitude positiva para com esses valores é inerente ao seu pensamento e tem profundas implicações para aqueles que se consideram Calvinistas. Isto contribui para a compreensão do modo pelo qual o Calvinismo atua como uma força cultural.

Para Calvino, diferentemente do que ocorria com outros líderes da Reforma, não existe dicotomia básica entre o Evangelho e o mundo, entre o Evangelho e a cultura. Ao mesmo tempo, ele não aceitava simplesmente, sem crítica, as realizações do gênio humano. Sua atitude exigia que tais realizações fossem analisadas quanto às razões que as inspiravam, pois deviam estar sujeitas aos preceitos de Cristo.




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