31 dezembro, 2009

0 Só da Escritura se deve perscrutar a Predestinação - Calvino




Somente da Escritura se deve perscrutar a Predestinação, o que alijará a especulação temerária e mesmo danosa.


“Chegamos”, diz Agostinho, “ao caminho da fé; mantenhamo-lo com firme constância. Que ele nos conduza à câmara do Rei, na qual estão escondidos todos os tesouros do conhecimento e da sabedoria. Ora, a seus grandes e mui seletos discípulos não olhava com despeito o próprio Cristo Senhor, quando disse: ‘Muitas coisas tenho para vos dizer, porém não as podeis suportar agora’ [Jo 16.12]. Necessário se faz andar, necessário se faz avançar, necessário se faz crescer, para que nossos corações sejam capazes dessas coisas que não podemos presentemente apreender. Porque, se o último dia nos achar progredindo, aí aprenderemos o que aqui não pudemos aprender.”


Se reina em nós o pensamento de que a Palavra do Senhor é o único caminho que nos conduz a investigar tudo quanto é justo dele sustentar-se, é a única luz que à frente nos resplandece para bem perceber tudo quanto a respeito dele convém considerar-se, de toda temeridade facilmente nos conterá e coibirá. Porque sabemos que no momento em que transpusermos os limites assinalados pela Escritura, seremos perdidos fora do caminho e entre trevas espessas, no qual teremos necessariamente que vagar, muitas vezes, sem rumo, resvalar e a tropeçar.


Portanto, que antes de tudo isto esteja diante dos olhos: que procurar outro conhecimento da predestinação além daquele que se expõe na Palavra de Deus, é como se um homem quisesse andar fora do caminho por rochas e penhascos, ou quisesse ver em densa escuridão. Aliás, tampouco nos cause vergonha ignorar algo nessa matéria na qual há certa douta ignorância. Antes, de bom grado nos abstenhamos da perquirição desse conhecimento cuja afetação é tão estulta quão perigosa, e até mesmo fatal. Porque, se a intemperança da mente nos acossa, é oportuno que sempre se lhe oponha este provérbio com que seja repelida: “Comer mel demais não é bom; assim, a busca da própria glória não é glória” [Pv 25.27]. Ora, há razão para recuarmos atemorizados dessa ousadia, a qual nos pode precipitar à ruína.

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0 Eleição e Predestinação - Calvino




Já que o pacto de vida não é pregado entre todos os homens igualmente, e entre aqueles a quem é pregado não acha a mesma receptividade, quer qualitativa, quer continuativamente, nessa diversidade se manifesta a admirável profundeza do juízo divino. Pois não há dúvida de que esta variedade serve também ao arbítrio da eterna eleição de Deus. Porque, se é notório que pelo arbítrio de Deus suceder que a salvação é oferecida gratuitamente a uns, enquanto que outros são impedidos de seu acesso, aqui prontamente emergem grandes e árduas questões, as quais não podem ser explicadas de outra forma, se as mentes pias têm por definido o que se impõe manter a respeito de eleição e predestinação.



Questão assaz intrincada, como parece a muitos, porquanto pensam não ser de modo algum coerente que da multidão comum dos homens uns sejam predestinados à salvação, outros à perdição. Claramente se verá, pela argumentação que empregaremos nesta matéria, que são eles que, por falta de discernimento, se enredam.


Acresce ainda que na própria escuridão que aterra se põe à mostra não só o lado útil desta doutrina, como também seu fruto dulcíssimo. Jamais haveremos de ser claramente persuadidos, como convém, de que nossa salvação flui da fonte da graciosa misericórdia de Deus, até que sua eterna eleição se nos faça conhecida, a qual, mercê deste contraste, ilumina a graça de Deus, a saber, que ele não adota à esperança da salvação a todos indiscriminadamente; ao contrário, ele dá a uns o que nega a outros.


É notório quanto a ignorância deste princípio diminui da glória de Deus, e quanto prejudica a verdadeira humildade. Com efeito, o que é tão necessário que se conheça Paulo nega que se possa conhecer, a não ser que Deus, descartando inteiramente a consideração pelas obras, elege aqueles que para si decretou. “Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça. Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra” [Rm 11.5, 6]. Se para fazer patente que a salvação não nos provém de outra parte, senão da mera liberalidade de Deus, temos que retroceder-nos à origem da eleição, aqueles que querem extinguir isto, quanto lhes é possível, malignamente obscurecem o que se devia celebrar com magnificência e de bocas cheias e extirpam a própria raiz da humildade. Paulo atesta claramente, quando a salvação de um remanescente do povo é atribuída à eleição da graça, que afinal se conhece então que Deus preserva por seu mero beneplácito aqueles a quem quer, e que não lhes paga nenhum salário,  porquanto nenhum lhes pode dever.


Aqueles que fecham as portas para que alguém não ouse dar-se ao gosto desta doutrina, fazem aos homens não menor agravo que a Deus, porquanto nenhuma coisa fora desta será suficiente para que nos humilhemos como devemos, nem tampouco sentiremos deveras quão obrigados estamos para com Deus. Com efeito, em nenhum outro lugar sustentáculo à firme confiança, como o diz também Cristo, porque, para assegurar-nos e livrar-nos de todo temor em meio a tantos perigos, insídias e conflitos mortais, e para fazer-nos sair vitoriosos promete que nenhum perecerá de quantos o Pai lhe confiou [Jo 10.28, 29]. Disto concluímos que todos aqueles que não se reconhecem parte do povo de Deus são miseráveis, pois sempre estão num contínuo tremor; e por isso todos aqueles que fecham seus olhos e não querem ver nem ouvir estes três frutos que apontamos e se propõem a derrubar este fundamento, pensam de forma totalmente equivocada e fazem grande dano a si e a todos os fiéis. E ainda mais, afirmo que daqui nasce a Igreja, a qual, de outra sorte, como corretamente ensina Bernardo,312 não poderia ser achada, nem ser conhecida entre as criaturas, visto que, de modo algum admirável, jaz escondida no recesso da bem-aventurada predestinação e entre a massa miserável dos homens. Antes, porém, de entrar na matéria propriamente dita, tenho que abordar previamente, em dois lugares distintos, duplo gênero de homens. A discussão acerca da predestinação, quando por si mesma é matéria um tanto enredilhada, a curiosidade dos homens a torna assaz confusa e inclusive perigosa, visto que o entendimento humano não se pode refrear nem deter-se, por mais limites e termos que se lhes assinale, para não extraviar-se por caminhos proibidos e elevar-se com empenho, se fosse possível, de não deixar segredo de Deus sem revolver e esquadrinhar. Quando vemos a muitos, a cada passo, arrojar-se a esta audácia e improbidade, e entre esses alguns doutro modo não maus, importa que sejam, em tempo oportuno, advertidos sobre qual lhes é nesta parte a medida de seu dever.


Portanto, primeiro que se lembrem de que, enquanto investigam a predestinação, tentam penetrar nos íntimos recessos da divina sabedoria, na qual, se alguém segura e confiantemente irrompe, tampouco conseguirá saciar-se com que sua curiosidade, e estará a adentrar um labirinto do qual não achará nenhuma saída. Pois não é justo que impunemente procure o homem devassar as coisas que o Senhor quis que fossem escondidas em si próprio e esquadrinhe desde a própria eternidade a sublimidade da sabedoria que ele quis que seja adorada e não que seja apreendida, para que também por meio dela ele viesse a ser admirado. Os desígnios secretos de sua vontade que determinou devessem ser-nos desvendados, esses no-los revelou em sua Palavra. Mas determinou que é bom comunicar-nos tudo aquilo que via ser-nos necessário e proveitoso.


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30 dezembro, 2009

0 Só nos Eleitos a Fé é Real e Eficaz - Calvino




Só nos Eleitos é a fé real e eficaz; nos réprobos, ela é apenas aparente e ineficaz

Além disso, ainda que a fé seja o conhecimento da divina benevolência para conosco e a segura convicção de sua verdade, contudo não é de admirar que nos chamados justos, temporariamente, se desvaneça o senso do amor divino, o qual, embora seja afim à fé, entretanto difere muito dela. Declaro que a vontade de Deus é imutável e sua verdade é sempre consistente com a mesma. Contudo nego que os réprobos avancem até o ponto de penetrar essa secreta revelação que a Escritura reivindica só para os eleitos. Nego, porém, que eles ou apreendam a vontade de Deus, como é imutável, ou com real constância lhe abracem a verdade; por isso é que se detêm em um sentimento evanescente, como uma árvore, plantada não bastante funda para produzir raízes vivas, seca-se no decurso do tempo, ainda que por alguns anos simule não só flores e folhas, mas até mesmo frutos.

Enfim, assim como pela queda do primeiro homem pôde-se apagar de sua mente e de sua alma a imagem de Deus, assim também não é de admirar se a alguns réprobos Deus ilumine com os raios de sua graça, os quais, mais tarde, permite que se extingam. Tampouco coisa alguma impede que Deus a uns tinja levemente de conhecimento de seu evangelho, a outros infunda profundamente. Isto, contudo, devesse  manter: por mais exígua e débil que a fé seja nos eleitos, entretanto, uma vez que o Espírito de Deus lhes é o seguro penhor e selo de sua adoção [Ef 1.14], jamais se pode apagar de seus corações o que ele neles gravou. Quanto à iluminação dos réprobos, finalmente se dissipa e perece, sem que possamos dizer por isso que o Espírito engana a alguém, pelo fato de que não vivifica a semente que jaz em seu coração, de sorte que permaneça sempre incorruptível como nos eleitos.


Portanto, vou mais longe: uma vez que do ensino da Escritura e da experiência diária se faça patente que os réprobos são, por vezes, tocados pelo senso da graça divina, necessariamente se lhes desperta no coração certo desejo de amor mútuo.


Assim, por certo tempo vicejou em Saul um afeto piedoso para que amasse a Deus, de quem, reconhecendo ser tratado paternalmente, era tomado de algum dulçor de sua bondade. Mas, uma vez que nos réprobos não se arraiga profundamente a convicção do paterno amor de Deus, não o amam plenamente como filhos; pelo contrário, são conduzidos por certa disposição mercenária. Ora, só a Cristo foi dado esse Espírito de amor, com esta condição: que o instile em seus membros; na verdade esta afirmação de Paulo não se estende para além dos eleitos: “Porquanto o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” [Rm  5.5]; isto é, esse amor que gera aquela confiança de invocação que abordei acima [Gl 4.6].
Assim vemos, por outro lado, que Deus se ira paradoxalmente com seus filhos a quem não deixa de amar; não que em si os deteste, mas porque os quer aturdir com o senso de sua ira, para que lhes humilhe a soberba da carne, sacuda-lhes o torpor e os provoque ao arrependimento. E assim concebem-no ao mesmo tempo não só irado contra eles, ou contra seus pecados, mas também propício para com eles; pois eles não fingidamente suplicam que lhes seja desviada sua ira, enquanto nele se refugiam com serena confiança. Com estas considerações, de fato fica evidente que alguns não estão a simular fé, os quais, no entanto, carecem da verdadeira fé. Ao contrário, enquanto são levados de súbito impulso de zelo, enganam-se a si próprios com uma opinião falsa. Nem há dúvida de que deles se assenhoreie a displicência, de sorte que não examinam devidamente o próprio coração, como seria de esperar.


É provável que tais tenham sido aqueles em quem, conforme o testifica João, “Nem mesmo Jesus confiava neles, porque conhecia a todos; e não necessitava de que alguém testificasse do homem, porque ele bem sabia o que havia no homem” [Jo 2.24, 25].


Pois, se muitos não decaíssem da fé comum (chamo-a comum pela grande semelhança e afinidade da fé temporária com a fé viva e permanente), Cristo não teria dito aos discípulos: “Se permanecerdes em minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos fará livres” [Jo 8.31, 32]. Pois estava dirigindo a palavra àqueles que haviam abraçado seu ensino e os exorta ao progresso da fé, para que não viessem, por seu torpor, a extinguir a luz que lhes fora dada. Por isso Paulo reivindica a fé real exclusivamente para os eleitos [Tt 1.1], significando que muitos fenecem, porque não têm exibido a raiz viva. Assim também fala Cristo em Mateus [15.13]: “Toda árvore que meu Pai não plantou será desarraigada.” Em outros, sua zombaria é ainda mais crassa, os quais não se acanham de querer enganar a Deus e aos homens. Contra essa espécie de homens, que profanam impiamente a fé com  falaz pretexto, Tiago investe resoluto [Tg 2.14-26]. Tampouco Paulo requereria dos filhos de Deus “uma fé não fingida” [1Tm 1.5], a não ser pelo fato de que muitos arrogam para si ousadamente o que não têm, e com vã aparência enganam ou a outros, ou por vezes a si próprios. E assim ele compara a boa consciência a uma arca em que se guarda a fé, porquanto muitos, ao desviar-se daquela, tornaram-se náufragos no tocante a esta [1Tm 1.19].
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29 dezembro, 2009

0 A Atitude Positva de Calvino para com a Cultura




Calvino expressou sua gratidão a Deus, porque Deus, ao mesmo tempo em que trouxe à luz o Evangelho em sua pureza, trouxe à existência também o renascimento das humanidades. Foi Guilherme Budé que, ao tempo de Calvino, procurou introduzir na França um panorama da cultura humanística surgida na Renascença Italiana. Promoveu o gosto pelas artes liberais (bonae litterae) em contraposição aos estudos que preparavam o indivíduo para ganhar a vida (Teologia, Lei = Direito, Medicina). Calvino concordou resolutamente com Budé em que as artes liberais eram essenciais à formação do homem, ao desenvolvimento de sua humanidade. De fato, encontramos em Calvino acentuado gosto pelas artes liberais e interesse em instruir-se nelas, de modo que nada fica ele a dever aos humanistas seus contemporâneos. Não são necessárias muitas palavras, disse ele, para expressar quão cara nos é a aquisição das artes liberais.

Também para com a retórica e as ciências naturais, Calvino teve uma atitude positiva. A influência dos princípios da retórica sobre seu método teológico pode ser constatada. Na introdução de seu Comentário às Cartas aos Tessalonicenses, Calvino reconhece que deve sua cultura humanística a seu método de ensino (discendi rationem) ao bem conhecido humanista Maturin Cordier. Como a retórica, as ciências naturais são dons de Deus, criados por Ele para o uso da humanidade. A fonte última da verdadeira ciência da natureza não é outra senão o Espírito Santo. Contudo, Calvino foi inflexível oponente da pseudociência da astrologia, que gozava de grande prestígio em seu tempo, tanto quanto goza em nossos dias. O clima espiritual no qual Lutero se desenvolveu, foi o do misticismo do final da Idade Média. Diferentemente de Calvino e Melanchthon, Lutero permaneceu muito tempo incólume às influências do Renascimento da Cultura humanística de seu tempo. Em contrapartida, Calvino cedo dedicou-se aos estudos humanísticos. Como teste de sua competência, de sua erudição humanística, ele escreveu seu famoso comentário sobre oDe Clementia, de Sêneca. Educado pelos humanistas e autorizados eruditos de seu tempo – Pierre de l’Etoile e Andréa Alciati -, bem versado na filosofia da cultura clássica, e ele mesmo reconhecido como um erudito humanista, Calvino revelou, através de toda a sua vida, domínio da cultura contemporânea e profundo interesse no seu desenvolvimento. Ele continuou a demonstrar empenho em relação à humanidade dos homens e em relação àquelas boas dádivas de Deus – que incluíam a arte e a música – e que eram capazes de contribuir para o seu desenvolvimento.

É um erro supor que o duradouro interesse de Calvino pelos estudos humanísticos e pelo desenvolvimento cultural do homem fosse um simples remanescente do tempo que precedeu sua conversão à fé evangélica. Sua preocupação para com os estudos humanísticos e para com aquilo que diz respeito ao que é humano, está muito inseparavelmente ligado ao seu modo global de pensar, para permitir uma tal interpretação. De fato, num sentido que precisa ser bem definido e cuidadosamente preservado de má compreensão, Calvino pode ser chamado de “humanista”. Através de toda a sua vida, ele teve um profundo compromisso para com aquilo que é humano.

De fato, Calvino criticou mordazmente àqueles cujo humanismo fazia supor que eles se tinham firmado contra a soberania de Deus, contra a Palavra de Deus, contra a depravação do homem e contra as doutrinas da graça. Aos vinte e sete anos, na famosa carta que serve de introdução à sua Instituio Religionis Christianae (Institutas da Religião Cristã), ele fala abertamente contra o humanismo que não leva em conta a doutrina evangélica. Mais do que contra um humanista cristão como Budé, Calvino ataca aqueles humanistas que fazem a apoteose do ser humano e pensam que a realização daquilo que é humano pode ser alcançada somente na presumida independência de Deus e de Sua revelação. Ele mesmo, como um humanista, rejeitou aquilo que era o coração da idéia de personalidade do Renascimento, a idéia de que o homem é a fonte criadora de seus próprios valores e, portanto, no fundo, incapaz de pecar. Se os estudos humanísticos eram caros a Calvino pelo fato de favorecerem o desenvolvimento das virtudes humanas, se as ciências devessem ser cultivadas como dons de Deus, os humanistas deviam opor-se àqueles que pensavam que as artes e as ciências podiam ser empregadas como se fossem suficientes em si mesmas. Era estranho à mente de Calvino o pensamento de que as artes e as ciências podiam estar livres da religião (non debare distrahi a religione scientia).

Ninguém deve supor que a atitude de Calvino para com aquilo que é humano e para com aquilo que pertence à realização humana não tem necessidade de correção. No entanto, sua atitude positiva para com esses valores é inerente ao seu pensamento e tem profundas implicações para aqueles que se consideram Calvinistas. Isto contribui para a compreensão do modo pelo qual o Calvinismo atua como uma força cultural.

Para Calvino, diferentemente do que ocorria com outros líderes da Reforma, não existe dicotomia básica entre o Evangelho e o mundo, entre o Evangelho e a cultura. Ao mesmo tempo, ele não aceitava simplesmente, sem crítica, as realizações do gênio humano. Sua atitude exigia que tais realizações fossem analisadas quanto às razões que as inspiravam, pois deviam estar sujeitas aos preceitos de Cristo.


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0 Providência ou Destino? João Calvino




-A Doutrina da Providências não é mera crença no Destino, na Sorte ou Acaso- 




Aqueles que desejam suscitar ódio em relação a esta doutrina, a caluniam de ser o dogma do destino dos estóicos, o que também foi, certa vez, lançado em rosto a Agostinho. Embora litiguemos a contragosto acerca de palavras, todavia não aceitamos o termo destino, quer por ser do gênero daqueles de cujas profanas novidades Paulo ensina a nos guardarmos [1Tm 6.20], ou porque, por sua odiosidade, esses homens tentam estigmatizar a verdade de Deus. Entretanto, falsa e maldosamente, essa mesma doutrina nos é imputada como sendo nossa. Ora, não engendramos com
os estóicos, em função da perene vinculação e da determinada seriação implícita das causas, uma necessidade que seja contida na natureza; ao contrário, de tudo constituímos a Deus árbitro e moderador, o qual, por sua sabedoria, decretou desde a extrema eternidade o que haveria de fazer, e agora, por seu poder, executa o que decretou. Daí, afirmamos que não só o céu e a terra, e as criaturas inanimadas, são de tal modo governados por sua providência, mas até os desígnios e intenções dos homens, são por ela retilineamente conduzidos à meta destinada.

Pois dirás: Porventura nada acontece por acaso? Nada ocorre contingentemente? Respondo com o que foi dito por Basílio, o Grande, com muita verdade, que sorte e acaso são termos dos pagãos de cujo significado não devem ocupar-se as mentes dos piedosos. Afinal de contas, se todo bom êxito é bênção de Deus, toda calamidade e adversidade são sua maldição, já não se deixa nenhum lugar à sorte ou ao acaso nas coisas humanas.

E deve impressionar-nos também essa observação de Agostinho: “Nos livros Contra os Acadêmicos”, diz ele, “não me agrada tantas vezes ter mencionado a Sorte, visto que não desejava que se entendesse por esse termo alguma deusa, mas apenas a eventuação fortuita das coisas, em sua expressão externa, seja boa, seja má. Desse termo [fortûn&] procedem também esses vocábulos que nenhuma religiosidade proíbe pronunciar: forte [talvez], forsan [quem sabe], forsitan [provavelmente], fortasse [porventura], fortuito [por acaso], o que se deve, no entanto, atribuir
tudo à divina providência. Nem guardei silêncio sobre isso, pois afirmei: ‘Com efeito, porventura o que vulgarmente se designa Sorte é também governado por ordenação oculta, e nas coisas nada mais chamamos Acaso senão aquilo do qual a razão e causa são desconhecidas.’ De fato eu falei isso. Arrependo-me, porém, de haver assim usado aqui o termo Sorte, quando vejo que os homens têm o péssimo costume de dizer: ‘Isto quis a sorte’, onde se deve dizer: ‘Isto quis Deus’.”
Em suma, Agostinho ensina reiteradamente que, se algo é deixado à sorte, o mundo revolve ao léu. E visto que ele estabelece em outro lugar que tudo se processa em parte pelo livre-arbítrio do homem, em parte pela providência de Deus, contudo pouco depois deixa bastante claro que os homens estão sujeitos a esta, e são por ela governados, uma vez ser sustentado o princípio de que nada há mais absurdo do que alguma coisa acontecer sem que Deus o ordene, pois doutra sorte aconteceria às cegas. Razão pela qual até exclui a contingência que depende do arbítrio dos homens, asseverando, ainda mais claramente logo depois, que não se deve buscar qual é a causa da vontade de Deus.113 Quantas vezes, porém, é por ele feita menção do termo permissão, como se deva entender que isso se evidenciará perfeitamente de uma passagem onde ele prova que a vontade de Deus é a suprema e primeira causa de todas as coisas, já que nada acontece a não ser por sua determinação ou permissão. Certamente, ele não imagina Deus a repousar em ociosa torre de observação, enquanto se dispõe a permitir algo, quando intervém uma, por assim dizer, vontade presente, de qualquer modo não se poderia declarar como causa.


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28 dezembro, 2009

1 ARREPENDIMENTO - João Calvino






-ARREPENDIMENTO SEGUNDO A LEI, E ARREPENDIMENTO SEGUNDO O EVANGELHO-




Outros, vendo que este vocábulo é empregado na Escritura com variada acepção, determinaram duas formas de arrependimento, às quais, para que as distinguissem com algum traço, a uma chamaram arrependimento legal, pelo qual o pecador, ferido pelo cautério do pecado e triturado pelo terror da ira de Deus, sente-se como que enredado nesta inquietação, nem dela consegue desvencilhar; à outra chamaram arrependimento evangélico, pelo qual o pecador, na verdade, gravemente aflito em si, entretanto se ergue mais alto e recebe a Cristo como o remédio de sua ferida, o consolo de seu terror, o porto de refúgio de sua miséria.


Do arrependimento legal invocam por exemplos Caim, Saul, Judas, cujo arrependimento, embora no-lo relate a Escritura, dá ela a saber que, reconhecida a gravidade de seu pecado, se deixaram dominar-se de pavor da ira de Deus, mas, a Deus cogitando apenas como Vingador e Juiz, neste sentimento realmente falharam. Portanto, o arrependimento destes outra coisa não foi senão como que uma antecâmara do inferno, na qual, havendo já entrado nesta vida, começaram a sofrer os castigos perante a ira da majestade de Deus.


Vemos o arrependimento evangélico em todos os que, em si espicaçados pelo aguilhão do pecado, porém soerguidos e refeitos pela confiança na misericórdia de Deus, voltaram-se para o Senhor. Profundamente aterrado ficou Ezequias ao receber o anúncio de sua morte; mas, a chorar, orou [2Rs 20.2; Is 38.2], e tendo firmemente visualizado a bondade de Deus recobrou a confiança. Conturbados foram os ninivitas pela horrível ameaça de destruição; mas, vestidos de saco e cinza, oraram, esperando que o Senhor pudesse demover-se e ser desviado do furor de sua ira [Jn 3.5, 9]. Davi confessou que havia pecado sobremaneira, recenseando o povo, porém acrescentou: “Remove, Senhor, a iniqüidade de teu servo” [2Sm 24.10]. Repreendendo-o Natã, ele reconheceu o crime de adultério e se prostrou diante do Senhor; mas, ao mesmo tempo, esperou seu perdão [2Sm 12.13, 16].


Tal foi o arrependimento dos que sentiram a compunção de seu coração ante a pregação de Pedro, contudo, confiados na bondade de Deus, acrescentaram: “Que faremos, irmãos?” [At 2.37]. Tal foi também o arrependimento do próprio Pedro, que chorou real e amargamente, entretanto não cessou de esperar [Mt 26.75; Lc 22.62]. 





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0 ESPETÁCULO VAZIO DE CONTEÚDO – CALVINO




“Se alguém ensina uma doutrina diferente...” – (1Tm 6.3) – A palavra no grego é um verbo composto e pode ser traduzido: “ensinar outras coisas”. Mas não há dúvida sobre o seu significado; o apóstolo está condenando todos os que não aceitam esse tipo de ensino, mesmo que não se oponham aberta e irrestritamente à sã doutrina.


É possível não professar um erro ímpio e público, e no entanto corromper a doutrina da piedade através de sofismas ostentosos. Porque, quando não há progresso ou edificação procedente de algum ensino, o afastamento da instituição de Cristo já está concretizado. Mas ainda que Paulo não esteja falando dos confessos originadores de doutrinas ímpias, e , sim, acerca de mestres fúteis e destituídos de verdadeira espiritualidade, que do egoísmo ou avareza deformam a simples e genuína doutrina da piedade, não obstante percebemos quão aguda e veementemente ele os ATACA. E não é de estranhar, pois é quase impossível exagerar o volume de prejuízo causado pela pregação hipócrita, cujo único alvo é a ostentação e o espetáculo vazio de conteúdo. Torna-se, porém, ainda mais evidente, à luz do que segue, a quem precisamente ele está responsabilizando aqui. Pois a próxima cláusula – e não consente com as sãs palavras – é tencionada como uma descrição de homens desse tipo, desviados por tola curiosidade, comumente desprezam tudo o que é benéfico e sólido e se entregam a excentricidades extravagantes, à semelhança de cavalos obstinados. E o que é isso senão a rejeição das sãs palavras de Cristo? São chamadas sãs em virtude de seu efeito de conferir-nos solidez, ou porque são qualificadas para promover a solidez.


“E com a doutrina da piedade... tem o mesmo sentido. Pois ela só será consistente com a piedade se nos estabelecer no temor e no culto divino, se edificar nossa fé, se nos exercitar na paciência e na humildade e em todos os deveres do amor. Portanto, aquele que não tenta ensinar com o intuito de beneficiar, não pode ensinar corretamente; por mais que faça boa apresentação, a doutrinação não será sã, a menos que cuide para que seja proveitosa a seus ouvintes.


“...é enfatuado (soberbo), nada sabe” – Paulo acusa a esses infrutíferos mestres, primeiro de insensatez e de fútil orgulho. Em segundo lugar, visto que o melhor castigo para os interesseiros é condenar todas as coisas nas quais, em sua ignorância, se deleitam, o apóstolo diz que eles nada sabem, embora estejam inchados com argumentos inúmeros e sutis. Não tem nada sólido senão vácuo. Ao mesmo tempo, o apóstolo adverte a todos os piedosos a não se permitirem que se desviam por esse gênero de exibição fútil, mas que, ao contrário, permaneçam firmes na simplicidade do evangelho.
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27 dezembro, 2009

0 O Castigo como Favor Divino - João Calvino




-O CASTIGO INFLIGIDO A DAVI E A OUTROS, NA ESCRITURA, É CLARA EVIDÊNCIA DESSE FAVOR DIVINO, E NÃO EXPRESSÃO DE SUA JUSTIÇA PUNITIVA OU FORMA DE SATISFAÇÃO PELO PECADO-



Todos podem agora compreender, se não me engano, a que propósito teve esse castigo do Senhor para com Davi, isto é, para que fosse uma prova de que o homicídio e o adultério desagradam gravemente a Deus, contra os quais havia declarado ser tão grande ofensa em seu dileto e fiel servo, que daí fosse o próprio Davi ensinado, para que depois disso não mais ousasse praticar tal crime. Não, porém, que fosse uma penalidade pela qual pagasse a Deus uma certa compensação por sua falta.


Assim também se deve julgar acerca do outro castigo, com que o Senhor aflige ao povo com violenta praga [2Sm 24.15] por causa da desobediência de Davi, no qual caíra quando ordenou o censo do próprio povo. Ora, na verdade, Deus perdoou graciosamente a Davi a gravidade da culpa de seu pecado, mas, porque era pertinente, não apenas como exemplo público de todos os séculos, como também para a humilhação de Davi; é por isso que tal crime não podia ficar impune, castigando-o mui severamente com seu azorrague.


Convém ter diante dos olhos também este propósito na maldição universal do gênero humano [Gn 3.16-19]. Pois, uma vez que depois de obtida a graça, no entanto sofremos ainda todas as misérias que foram infligidas a nosso pai como pena do pecado, sentimos que, com tais medidas disciplinares, somos advertidos de quão seriamente desagrada a Deus a transgressão de sua lei, para que, abatidos e humilhados pela consciência de nossa miserável sorte, aspiremos mais ardentemente à verdadeira bem-aventurança.


Mui estulto, de fato, haverá de ser quem julgue que as calamidades da presente vida nos foram impostas como punição de pecado. Isto, parece-me, foi o que Crisóstomo quis dizer quando assim escreveu: “Se Deus nos castiga por esta causa: para chamar ao arrependimento aos que perseveram em seus maus feitos, havendo-nos já arrependido, a penalidade seria supérflua.” Por isso, conforme reconhece ser mais adequado à natural disposição de cada um, assim trata a este com severidade maior, àquele com indulgência mais benigna. E dessa forma, quando quer ensinar que não é imoderado em impor punições, exprobra ao povo duro e obstinado, porque, castigado, entretanto não cessa de pecar [Jr 5.3]. Nesse sentido, queixa-se ele de que Efraim é como um bolo assado de uma banda, e cru de outra banda [Os 7.8], obviamente porque os açoites de Deus não penetravam as almas; daí, cozidas as falhas, o próprio povo se fizesse apto para o perdão.


Com efeito, Aquele que assim fala mostra que, tão logo alguém tenha se arrependido, o mesmo haverá ele de ser prontamente aplacado, e que em decorrência de nossa obstinação para consigo, se exprime o rigor que exerce castigando as transgressões, rigor ao encontro do qual ocorreria a espontânea correção. No entanto, uma vez que de todos é esta a dureza e desconhecimento que em geral é preciso castigar, aprouve ao sapientíssimo Pai a todos, sem exceção, exercitar por toda a vida com comum flagelação.


Entretanto, é estranho por que assim os olhos se volvem somente para exemplo de Davi e não sejam movidos fundamente de tantos exemplos nos quais lhes era facultado contemplar a graciosa remissão dos pecados. Lê-se que o publicano desceu do templo justificado [Lc 18.14]. Não há nenhuma menção de pena. Pedro obteve perdão de sua falta. Diz Ambrósio: “Lemos de suas lágrimas [Lc 22.62], nada lemos de satisfação.” E o paralítico ouve: “Levanta-te; teus pecados estão perdoados” [Mt 9.2]. Nenhuma pena lhe é imposta. Todas as absolvições que se registram
na Escritura são descritas como gratuitas. Desta abundância de exemplos devia buscar-se a regra, e não do único exemplo de Davi, que contém não sei quê de singular. 
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26 dezembro, 2009

0 Calvinismo - Sobre a Base da Religião - A. Kuyper




A posição do Calvinismo é diametralmente oposta a tudo isto. Ele não nega que a religião tem igualmente seu lado humano e subjetivo; não discute o fato de que a religião é promovida, encorajada e fortalecida por nossa disposição de buscar ajuda em tempo de necessidade e consagração espiritual diante de paixões sensuais; porém, sustenta que isto inverte a própria ordem das coisas para buscar, nestes motivos acidentais, a essência e o verdadeiro propósito da religião. O Calvinismo valoriza tudo isto como frutos que são produzidos pela religião, ou como âncoras que lhe dão apoio, mas rejeita honrá-los como a razão de sua existência. Certamente, a religião, como tal, produz também uma bênção para o homem, mas ela não existe por causa do homem. Não é Deus quem existe por causa de sua criação; a criação existe por causa de Deus. Pois, como diz a Escritura, ele tem criado todas as coisas para si mesmo.


Por esta razão, Deus mesmo imprimiu uma expressão religiosa no conjunto da natureza inconsciente, - nas plantas, nos animais e também nas crianças. “Toda a terra está cheia de sua glória”. “Grande é o teu nome, Deus, em toda a terra”. “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de suas mãos”. “Da boca de pequeninos e crianças de peito tiraste perfeito louvor”. Fogo e saraiva, neve e vapor, e ventos procelosos – todos louvam a Deus. Mas, do mesmo modo como a criação toda alcança seu ponto culminante no homem, assim também a religião encontra sua clara expressão somente no homem que é feito à imagem de Deus, e isto não porque o homem a busque, mas porque o próprio Deus implantou na natureza do homem a verdadeira expressão religiosa essencial, por meio da “semente da religião” (semen religionis), como Calvino a define, semeada em nosso coração humano. [1]


O próprio Deus fez o homem religioso por meio do sensus divinitatis, isto é, o senso do Divino, que ele faz tocar as cordas da harpa de sua alma. Um ruído de necessidade interrompe a harmonia pura desta melodia divina, mas somente em conseqüência do pecado. Em sua forma original, em sua condição natural, a religião é exclusivamente um sentimento de admiração e adoração que eleva e une, não uma sensação de dependência que separa e deprime. Do mesmo modo como o hino dos Serafins ao redor do trono é um clamor ininterrupto de “Santo, Santo, Santo!”, assim também a religião do homem sobre esta terra deveria consistir em um ecoar da glória de Deus, como nosso Criador e Inspirador.


O ponto de partida de todo motivo na religião é Deus e não o homem. O homem é o instrumento e o meio, somente Deus é o alvo aqui, o ponto de partida e o ponto de chegada, a fonte da qual as águas fluem e, ao mesmo tempo, o oceano para o qual elas finalmente retornam. Ser irreligioso é abandonar o propósito mais alto de nossa existência, e por outro lado não cobiçar outra existência senão a vivida para Deus, não ansiar por nada exceto a vontade de Deus, e estar totalmente absorvido na glória do nome do Senhor, isto é a essência e o cerne de toda verdadeira religião. “Santificado seja o teu nome. Venha teu reino. Seja feita tua vontade”, é a tripla petição, que dá expressão à verdadeira religião. Nossa senha deve ser - “Buscai primeiro o reino de Deus”, e depois disto, pense em suas próprias necessidades. Primeiro permanece a confissão da absoluta soberania do Deus Trino; pois dele, através dele, e para ele são todas as coisas. E por isso, nossa oração continua a mais profunda expressão de toda vida religiosa.


Esta é a concepção fundamental da religião mantida pelo Calvinismo, e até agora, ninguém jamais encontrou uma concepção superior, pois nenhuma concepção superior pode ser encontrada. O pensamento fundamental do Calvinismo, ao mesmo tempo o pensamento fundamental da Bíblia e do próprio Cristianismo, conduz, no campo da religião, à realização do mais alto ideal. A Filosofia da religião em nosso próprio século, em seus vôos mais ousados, não tem jamais atingido um ponto de vista superior nem uma concepção mais ideal.


[1] Institutas de Calvino, tradução inglesa de Edinburgo, Vol. I, Livro I, Capítulo 3: “Que existe ali na mente humana e certamente por instinto natural, algum senso de deidade, nós sustentamos estar além de discussão ...” Capítulo 4, Parágrafo 1. “Mas embora a experiência testifique que uma semente da religião esta divinamente semeada em todos, apenas um numa centena é encontrado que a nutre em seu coração, e nenhum em quem ela chegou a maturidade, até agora ela é de fruto submisso a sua estação. Em nenhuma parte do mundo pode ser encontrada genuína bondade.”
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23 dezembro, 2009

0 O Calvinismo e o Governo de Deus



O Calvinismo e o Governo de Deus Através da Lei

Verificamos facilmente que, para Calvino, a vontade soberana do Deus Criador não tem limites. Está presente em todas as coisas, mesmo naquelas que, aparentemente, são as mais insignificantes. Tudo revela Deus e expressa, de um modo ou de outro, Sua majestade e glória. Observamos, além disso, que esta vontade soberana de Deus não pode ser entendida se a separarmos da revelação que Ele faz de Si mesmo e da expressão de Sua vontade, na Sua lei, à qual o homem e toda a criação, na verdade, estão sujeitos. Corresponde ao pensamento de Calvino dizer que o homem se realiza como pessoa quando, em sua resposta a Deus, compartilha com Ele em Sua revelação. O próprio homem responde livremente à chamada de Deus, obedecendo à vontade soberana de Deus que, certamente, não o deixa encurralado, mas lhe serve de meio dentro do qual ele se realiza como homem.

Entendemos desta maneira, volto à minha terceira proposição: Para Calvino, toda a vida, inclusive aquilo que é chamado livremente “cultura”, é teônoma, isto é, tem a sua razão de ser enquanto sujeita a Deus e à Sua lei.

O que vem particularmente à luz, aqui, é o que Calvino pensa da lei. Se Deus, como Criador, está acima da lei (deus legibus solutus), sem que coisa alguma fora do Seu próprio Ser possa limitá-lo, o homem e todo o cosmo como ele estão sob a Lei, sujeitos a ela. Pois tudo aquilo que se refere à natureza da criação, em sua totalidade, está ligado pela lei de Deus: Separada destes laços, a existência da criação não tem sentido.

Assim, a imagem que nos vem à mente, quando consideramos o ponto de vista de Calvino a respeito da soberania divina, não é a de um tirano despótico, porém a de um grande arquiteto, termo com que Calvino designa a Deus freqüentemente. Quando falava da criação, Calvino podia referi-se facilmente ao seu aspecto arquitetônico, à sua arquitetura, como revelação da grandeza e da bondade de Deus. Para Calvino, a idéia da criação traz consigo a idéia de ordem, ordem em que tudo é construído com uma estrutura magnificente, uma expressão de beleza.

Entendendo desta maneira, é impossível ver, na idéia calvinista da soberania de Deus, sanção para qualquer espécie de soberania humana ilimitada. Mesmo que o homem possa ter sua autoridade sancionada por Deus, essa autoridade é limitada. A soberania humana é sempre restrita aos limites estabelecidos para ela.

Estes dois fatos, que integram totalmente o caráter do Deus soberano criador, como Ele se revela na Sua Palavra e na existência imensurável de toda a Sua criação, aparecem na idéia reformada da vocação.

A Lutero é atribuído o fato de ter provocado uma revolução de tipo copernicana na idéia devocação, em relação ao que se pensava dela na Idade Média. Esse conceito tinha sido aplicado apenas a algumas áreas especiais, chamadas de “ordens santas”, para as quais era necessária uma consagração especial. Na verdade, a idéia corrente era de que só o monasticismo constituía verdadeira vocação. Do mesmo modo, a vida de contemplação espiritual era mais valorizada do que a vida ativa. Ao reconhecer que toda a vida é santa quando reflete o propósito de Deus, Lutero faz a idéia de vocação estender-se para abranger toda atividade humana legítima.

O pleno impacto da revolucionária concepção de Lutero só pode ser sentido, contudo, se se escapa da espécie de dualismo em que ele mesmo caiu, ao distinguir entre um campo espiritual, íntimo, e uma esfera de ordenanças externas. Calvino, como já afirmei, nunca participou de tal ponto de vista dualístico. Na verdade, como Lutero também fez, Calvino rejeitou a idéia de que a natureza é o preâmbulo da graça, sustentando que Deus opera imediatamente no coração humano, através da Sua Palavra. Calvino, porém, não foi atingido pelas influências nominalistas que afetaram o sistema de pensamento de Lutero. O ponto de vista de Calvino, como demonstrei na seção precedente, não envolve de modo algum qualquer depreciação da atividade cultural, nem das instituições humanas. Na Reforma Calvinista, a idéia de vocação podia assumir a mais pura expressão de sua significação universal.

Para Calvino, a vida do homem, em sua totalidade, é compreendida como uma resposta à chamada de Deus. O homem é um ser do pacto. Como Lutero bem disse, o homem tem uma lei certa segundo a qual ele deve viver e morrer (certa regula tum vivendi tum moriendi). Em todos os aspectos de sua vida, o indivíduo é confrontado com o Deus soberano, perante quem ele deve prestar conta de si mesmo.

Na verdade, a vocação ou chamada de Deus tem sentido universal. A idéia reformada da vocação, contudo, não atinge sua expressão plena, separada da idéia de que há vocações particulares. A Reforma recuperou a idéia da santidade de todas as atividades humanas legítimas. O que está em jogo, portanto, não é se alguém é objeto de uma vocação particular, mas se na esfera em que exerce sua atividade, ele realiza o seu trabalho à luz da vocação divina e ali serve a Deus de todo o seu coração.

Um dos aspectos principais do ponto de vista de Calvino a respeito da vocação estava no fato de ele entender que a grande diversidade de dons tinha sido dada aos indivíduos, de acordo com a soberana vontade do Espírito Santo de Deus. Assim como não é apenas um raio de sol que ilumina o mundo, mas todos os raios se combinam num conjunto para realizar a tarefa dele, do mesmo modo Deus distribui amplamente os Seus dons, com o fim de manter a humanidade em mútua interdependência. Entre os homens há uma diversidade de dons que possibilitam uma diversidade de funções. Aquele que tem um lugar particular e uma tarefa, pressupõe que tem uma vocação para ela. Ao assumir este lugar e suas obrigações, o indivíduo tem uma vocação definida (certa vocatio). A vocação que alguém tem, é uma resposta obediente à divina vocação.

Em conexão com isto, Calvino empregou outra figura, a do corpo. Estendeu esta figura à Igreja, à família e ao Estado. As vocações seculares pertencem ao Estado. Os membros do Estado bem como os da Igreja, com seus diversos dons, estão unidos num corpo com funções mutuamente dependentes. Assim, Calvino desenvolveu aquilo que tem sido chamado um conceito “orgânico” da Igreja, do Estado e da família, etc.

A idéia reformada da vocação, especialmente como ela foi desenvolvida por Calvino, conduz à idéia de que a santidade prende-se àquilo que é chamado de “atividades culturais” do homem. Esta atividade cultural do homem é considerada como sendo uma resposta à chamada divina, que envolve uma tarefa cultural divinamente determinada. Portanto, a atividade cultural do homem é teônoma ou só tem sentido como uma resposta a Deus e à Sua Lei que, por sua vez, estabelece os seus laços e determina o seu significado. Este passo, na verdade, foi anteriormente dado por Calvino.

Calvino vislumbrava uma tal esfera orgânica na família. A família é uma ordenança da criação fundada por Deus. É uma eterna e indestrutível instituição divina. Ao chefe da família, no sentido restrito da palavra, o marido, foram concedidos dons especiais do Espírito. Em virtude de tais dons, ele foi dotado de autoridade, autoridade que foi chamado a exercer na esfera particular em que foi colocado. Dentro da família há uma relação especial de super-ordenação e subordinação. De acordo com a disposição divina, o marido é o cabeça da esposa, mas o é de tal modo, porém, que ele deve cuidar dela como cuida do seu próprio corpo. Na verdade, ele deve amá-la como Cristo amou a Sua Igreja e Se entregou a Si mesmo por ela. Por seu lado, a esposa deve ser submissa ao marido, no Senhor, oferecendo-lhe o amor e a obediência a que ele tem direito como seu cabeça. Acima dos dois – marido e mulher –, no entanto, está o Cabeça de todas as coisas, Jesus Cristo. Ambos, marido e mulher, são limitados em sua autoridade e atividade. Suas vidas, como casados, alcançam sua realização em sua obediência à Lei de Deus, naquilo que diz respeito à esfera para a qual foram chamados.

O ponto de vista de estrutura orgânica, de Calvino, está presente também em sua maneira de conceber o Estado, no qual ele viu uma analogia com a família. Ele relacionou com o Estado, também, sua idéia de diversidade do gênero humano, quanto aos dons e esferas de atividades. O Estado também é análogo a um corpo, no qual os vários membros têm seu próprio lugar e função. No Estado, os indivíduos são reunidos uns aos outros numa unidade orgânica, com diferentes posições na vida e diferentes funções.

Acima do Estado está o governo. A autoridade deste, ensinou Calvino, não se deriva, antes de tudo, da vontade do povo; antes de tudo, ela é dada por Deus. A fonte divina da autoridade do magistrado está no fato de ter ele recebido dons peculiares do Espírito para governar. Dentro da esfera do Estado, portanto, há uma autoridade, há um centro de poder divinamente legitimado.

Calvino partilhou da antiga idéia de que o governo está acima da Lei, porque ele é a sua fonte (princeps legibus solutus). De fato, ele admitiu que o governador é a fonte da Lei Positiva, que obriga nos limites do seu território. Nesse sentido, Calvino falou do governador como a lei personificada (lex animata). Na verdade, em sua concepção geral, contudo, Calvino sustentou que a autoridade de um governador é limitada. Um governador deve, ele mesmo, submeter-se à Lei Positiva, que vige nos limites do seu território. Lei Positiva, além do mais, é apenas uma expressão da Lei, pois, além dela, há a Lei Natural, aLei da Natureza, que Calvino associou estreitamente com a probidade. Cada Lei Positiva deve expressar o princípio da probidade. Se não for assim, será inútil.

Que significa para Calvino a Lei Natural? A resposta a esta questão não é simples. Como Lutero e Melanchthon, Calvino tinha viva apreciação pela Lei Romana largamente aceita, e interpretava os sistemas legais correntes. Ele compartilhou da distinção que o jurista romano Quintilhamo fez entre as leis dadas a cada um, pela natureza – isto é, o direito natural (iustus natura), e as leis que pertencem ao folk ou ao povo, em cujo contexto as leis recebem sua formal expressão judicial (iustum constitutione). A abertura de Calvino para com a Lei Romana neste ponto, envolvendo, como envolve, um acordo formal com a idéia de que há uma Lei Natural, está em consonância com a sua atitude, em geral, para com as realizações culturais humanas e, mais particularmente, está de acordo com a sua atitude para com o sistema de Lei Romana, no qual ele introduziu muito poucas correções. O fato de aceitar a Lei Natural não significa, contudo, que ele não a colocasse numa perspectiva que, naturalmente, pudesse mudar o seu significado. Sustentar um ponto de vista a respeito da Lei da Natureza, como Calvino fez, não significava entrar no campo dos Estóicos, com sua concepção de razão universal, ou num acordo substancial com a Lei Romana, em seu ponto de vista a respeito da origem e do sentido da Lei Natural.

Que Calvino pudesse aceitar a Lei Romana, de modo algum dependia de como ele interpretava seu lugar no plano providencial de Deus, ou envolvesse a necessidade de ele reinterpretá-la, fazendo suas distinções dentro do contexto de seu modo de entender a doutrina cristã. Aceitá-la era agradável à sua idéia de que Deus não tinha permitido ao mundo ir à ruína por causa do pecado, mas que o tinha preservado por meio de sua graça comum. A aceitação, por parte de Calvino, de alguma espécie de doutrina de Lei Natural reflete, também, sua interpretação do ensino da Escritura, no que se refere àquilo que entendem por natureza (= physcei) os que estão fora do âmbito da revelação especial de Deus e que, diferentemente dos judeus, não receberam os oráculos (= ta logia) de Deus. O fato de estes, não obstante, fazerem por natureza as coisas que estão escritas na Lei de Deus deve ser, segundo Calvino, atribuído às sensibilidades humanas distribuídas a todos os homens (= sensus communis), fato que reflete a vontade divina e que tem sido preservado do aniquilamento pela graça comum de Deus. Segue-se, deste fato, que Calvino não podia pensar na Lei da Natureza como um direito inerente à razão universal, entendida como separada da mensagem bíblica. A Lei da Natureza tinha de ser relacionada com a ordem da criação, através da qual, a despeito das devastações provocadas pelo pecado, Deus continua a revelar-se em toda parte e em todos os tempos.

Um governador, então – que na verdade, para Calvino, é a fonte das Leis Positivas inscritas nos códigos de seu território -, está sujeito à Lei da Natureza. Segundo Calvino, esta Lei da Natureza é o princípio e o objetivo de todas as Leis Positivas, e é a Lei que estabelece os seus limites. Um governador, portanto, está sujeito a uma Lei (da Natureza) cuja autoridade excede, em muito, à de quaisquer leis que ele mesmo possa gerar. Em última análise, ele está sujeito a Deus, que é a fonte final de toda lei e de toda autoridade.

De fato, o respeito que Calvino tinha para com o magistrado e para com os dons de governar, era enorme. O homem é obrigado a aproximar-se de um governador como de alguém dotado, pelo Espírito do próprio Deus, de extraordinários dons que o qualificam para governar. Contudo, esta autoridade humana, conquanto seja sancionada pela autoridade divina, é sempre restrita, sendo demarcada pelos limites próprios do ofício de governador.

O ponto de vista de Calvino a respeito da vocação, tanto da atividade na esfera do lar, do Estado, do magistério ou da Igreja, exibe sempre estas duas faces. Há, de um lado, a idéia de que tudo, na vida, é resposta à vocação universal de Deus, cuja vontade soberana abrange todas as coisas e cuja providência se estende a cada pormenor da existência humana. De outro lado, há a idéia paralela de que a resposta humana é canalizada por vocações específicas, de modo que cada um tem o seu lugar e desempenha suas funções dentro do corpo.

Caberia ao grande estadista e teólogo holandês Abraham Kuyper, unir as linhas do ensino reformado e desenvolver a idéia da “esfera soberana” ou, como ela tem sido chamada, “soberania nas esferas individuas da vida”, pois Deus, cuja soberania se estende sobre a totalidade da vida, tem ordenado várias esferas na sociedade, cada uma das quais dispõe de uma soberania dentro de sua própria órbita. Calvinho já tinha compreendido, contudo, que há uma diversidade de dons e vocações, e que cada uma tem de ser compreendida em relação com Deus e com Sua soberana vontade. Segundo Calvino, bem como segundo Kuyper, cada um pode servir de acordo com seus dons peculiares, suas capacidades especiais e em seu próprio lugar, e ser agraciado com o conhecimento de que foi incumbido de realizar uma particular vocação de Deus.

O ponto de vista de Calvino a respeito da diversidade de vocações, estabelecidas por Deus, torna imperativo reconstruir a difundida noção dos tempos modernos, concernente à natureza da cultura e da sociedade. Até aqui tenho empregado a palavra cultura em sentido mais amplo e indiscriminado, sem levar em conta a questão do uso comum do termo. Segundo este uso, cultura é o termo geral que denota a ordem trazida à existência pela agência humana. Tem-se como cultura tudo aquilo que não surge pronto, como parte integrante da natureza. Assim, ela inclui toda linguagem, todas as leis, todas as convenções sociais, etc.

Na maior parte das vezes, quando um contemporâneo discute um tópico tal como “Cristianismo e Cultura”, ele tem em mente o termo cultura interpretado deste modo. A cultura abrangendo todo engenho humano e seus produtos é posta em contraste com aquilo que pertence à esfera do divino. Introduz-se, deste modo, uma discussão de relação do Cristianismo – como sendo de origem divina – com aquilo que é produto da engenhosidade humana, no mais amplo sentido da palavra.

O ponto de vista de Calvino a respeito da Natureza e da Lei Natural sugere que esta maneira de ver precisa ser reconstruída. Seu ponto de vista não admite que toda lei e toda estrutura (que não é parte da natureza) sejam compreendidas como produtos do engenho humano. O próprio engenho humano (para Calvino), ao contrário, adquire sentido dentro da estrutura estabelecida pelas ordenações divinas, que a prerrogativa humana está longe de poder mudar.

Outra vez Calvino não admite que se considerem o divino e o humano em bloco. A atividade humana é plena de sentido só dentro dos limites estabelecidos pela vontade soberana de Deus, expressa em Sua Lei. A Lei de Deus constitui uma permanente estrtura para a atividade humana, fora da qual esta atividade perde o significado. A atividade cultural humana, na verdade a totalidade da cultura, é teônoma e só tem sentido em sua relação com Deus e Sua Lei.


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