16 janeiro, 2015

0 A Difrença entre Arrependimento e Fé!



O Arrependimento pode ser definido como a volta para Deus, em fé, a qual é indissoluvelmente associado, porém inconfudivelmente distinto.

Se bem que estas coisas todas são verdadeiras, contudo o termo arrependimento, em si, até onde posso alcançar das Escrituras, deve ser tomado em acepção diferente. Visto que querem confundir a fé com arrependimento, se põem em conflito com o que Paulo diz em Atos [20.21]: “Testificando a judeus e gentios o arrependimento para com Deus e a fé em Jesus Cristo”, onde enumera arrependimento e fé como duas coisas diversas. E então? Porventura pode o verdadeiro arrependimento subsistir à parte a fé? Absolutamente, não. Mas, embora não possam ser separados, devem, no entanto, ser distinguidos entre si. Da mesma forma que a fé não subsiste sem a esperança, e todavia fé e esperança são coisas diferentes, assim o arrependimento e a fé, embora sejam entre si ligados por um vínculo perpétuo, no entanto demandam que permaneçam unidos, e não confundidos.


Certamente não ignoro que sob o termo arrependimento se compreende toda a conversão a Deus, da qual a fé é parte não mínima; contudo, claramente se verá em que sentido se afirma isto, quando se explica sua força e natureza. O termo arrependimento foi, para os hebreus, derivado da palavra que significa expressamente conversão ou retorno; para os gregos, ele veio do vocábulo que quer dizer mudança da mente e de desígnio. À etimologia de um e outro desses dois termos não se enquadra mal o próprio fato, cuja síntese é que, emigrando de nós mesmos, nos voltemos para Deus; e, deposta a mente antiga, nos revistamos de uma nova. Isto posto, pelo menos em meu modo de julgar, não se poderá assim definir mal o arrependimento: é a verdadeira conversão de nossa vida a Deus, procedente de um sincero e real terror de Deus, que consiste da mortificação de nossa carne e do velho homem e da vivificação do Espírito.


Nesse sentido devem ser tomadas todas as alocuções com que ou os profetas outrora ou os apóstolos, mais tarde, exortavam os homens de seu tempo ao arrependimento. Pois, estavam pleiteando apenas que, confundidos por seus pecados e trespassados pelo medo do juízo divino, se prostrassem e se humilhassem diante desse contra quem haviam se revoltado e, em verdadeiro arrependimento, a seu reto caminho se volvessem. Por isso usaram esses termos indiscriminadamente, com o mesmo sentido: converter-se ou volver-se para o Senhor, arrepender-se e fazer penitência.


Quando até mesmo a História Sagrada diz que arrepender-se é ir após Deus, a saber, quando os homens, que não tinham a Deus em mínima conta, se esbaldavam em seus deleites, agora começam a obedecer-lhe à Palavra e se põem à disposição de seu Chefe para avançar aonde quer que ele os houver de chamar. E João Batista e Paulo usaram da expressão produzir frutos dignos de arrependimento [Lc 3.8; At 26.20; Rm 6.4] em lugar de levar uma vida que demonstre e comprove, em todas as ações, arrependimento desta natureza.

João Calvino (1509-1564)



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13 janeiro, 2015

0 "Eu não sou escravo, eu faço o que quero!"



A vontade humana se mantém agrilhoada pela servidão ao pecado, e não pode volver-se, muito menos aplicar-se ao bem, porque movimento desta natureza é o princípio da conversão a Deus, que nas Escrituras toda ela se atribui à graça de Deus. Por isso é que Jeremias [31.18] suplica do Senhor que converta a quem quiser converter. Donde, descrevendo no mesmo capítulo a redenção espiritual do povo fiel, o Profeta diz ser redimido pela mão de um mais forte [Jr 31.11], significando com isso de quão apertados grilhões está amarrado o pecador por todo o tempo em que, abandonado pelo Senhor, age debaixo do jugo do Diabo.


Entretanto, permanece a vontade que, com a mais acentuada inclinação, não só propende, mas até se apressa a pecar, uma vez que o homem, ao sujeitar-se a esta necessidade, não é privado da vontade, mas da sanidade da vontade. Com efeito, nem se pronunciou inadequadamente Bernardo, que ensina subsistir em todos nós o querer – porém, querer o bem ser proveito; querer o mau, efeito. Isto é, simplesmente querer provém do homem: querer mal, da natureza corrompida; querer bem, da graça. Além disso, ao afirmar que a vontade é despojada da liberdade, necessariamente ou arrastada ou conduzida para o mal, é de admirar se a alguém a expressão pareça enganosa, visto não ter qualquer coisa de dissonante, nem ser estranha ao uso dos santos. Contudo ofende aos que não sabem distinguir entre necessidade e compulsão.


Mas, se alguém lhes pergunta: Porventura Deus não é necessariamente bom? Porventura o Diabo não é necessariamente mau? Que responderiam? Ora, a bondade de Deus é a tal ponto entrelaçada com sua divindade, que não lhe é mais necessário ser Deus do que ser bom. O Diabo, porém, em decorrência de sua queda, a tal ponto se alienou da comunhão do bem, que nada pode fazer senão o mal. Porque, se algum sacrílego resmunga que a Deus se deve pouco de louvor por sua bondade, a qual ele é compelido a conservar, não se lhe dará uma resposta imediata, a saber: que ele não pode fazer o mal em razão de sua imensa bondade, não por forçosa compulsão?


Portanto, não se impede que a vontade de Deus seja livre em fazer o bem, só porque ele por necessidade opera o bem; se o Diabo, que outra coisa não pode fazer senão o mal, entretanto peca por vontade, quem por isso dirá que o homem peca menos voluntariamente, uma vez que está sujeito à necessidade de pecar? Como Agostinho proclama por toda parte esta necessidade, ainda quando era odientamente acossado pela cavilação de Celéstio, contudo nem ainda vacilou em afirmá-la nestas palavras: “Ocorreu que o homem caiu em pecado pelo uso de sua liberdade; mas já que a corrupção que se seguiu veio como castigo, ele fez da liberdade uma necessidade.” E sempre que ocorre nele menção desta matéria, não hesita em falar nesses termos acerca da servidão necessária do pecado.


Portanto, observe-se este ponto principal de distinção: o homem, como foi corrompido pela queda, certamente peca porque o quer, não contra a vontade, nem coagido; pela mui natural inclinação da mente, não por compulsão forçada pelo ardor de concupiscência pessoal, não por pressão externa; contudo, tudo faz por depravação da natureza, que não pode ser movido e impulsionado senão para o mal. Se isso é verdadeiro, então não se expressa obscuramente que de fato o homem está sujeito à necessidade de pecar.


Subscrevendo a Agostinho, assim escreve Bernardo: “Entre as criaturas, só o homem é livre; e todavia, em intervindo o pecado, até mesmo ele sofre certa pressão, mas da vontade, não da natureza, de sorte que realmente assim não se priva da liberdade ingênita. Ora, o que é da vontade, é também livre.” E pouco depois: “Desse modo, não sei por que modo depravado e estranho, mudada pelo pecado, em verdade para pior, a própria vontade para si engendra a necessidade, de modo que nem a necessidade, uma vez que provenha da vontade, pode escusar a vontade, nem a vontade, uma vez que tenha sido seduzida, pode excluir a necessidade.” Pois esta necessidade é, de certa forma, produto da vontade. A seguir, diz que somos oprimidos por um jugo, contudo não outro jugo, senão a servidão da vontade, razão por que somos miseráveis no tocante à servidão, inescusáveis no que tange à vontade; por isso a vontade, quando era livre, se fez serva do pecado. Finalmente, conclui: “E assim a alma, de certa maneira estranha e deplorável, sob esta necessidade, há um tempo, decorrente da vontade e perniciosamente livre, afirma ser não só escrava, mas também livre: escrava, em função da necessidade; livre, em função da vontade; e, o que é mais estranho e mais deplorável: é culposa, por ser livre; e é escrava, por  ser culposa; e, em decorrência disso, é escrava, quando é ‘livre.’”


Daqui certamente os leitores reconhecem que não estou apresentando nada novo; ao contrário, apenas aquilo que, do senso comum de todos os piedosos, Agostinho publicou outrora, e por quase mil anos depois foi preservado nos claustros dos monges. Lombardo, porém, como não soubesse distinguir necessidade de compulsão, deu motivo a erro pernicioso.

João Calvino ( 1509-1564)
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09 janeiro, 2015

0 Um evangelho mutilado!


Espanta-me (Gl 1.6-9). O apóstolo começa com uma reprimenda, ainda que algo um tanto mais brando do que mereciam. Prefere, porém, dirigir sua ira contra os falsos apóstolos, como veremos. Ele acusa os gálatas de apostasia, não só em relação ao ensino do apóstolo, mas em relação a Cristo mesmo. Pois só poderiam conservar a Cristo através do reconhecimento de que é por meio de seu benefício que nos tornamos livres da escravidão da lei. Mas a necessidade de cerimônias que os falsos apóstolos estabelecem é frontalmente contrária a isso. Por isso estavam afastados de Cristo, não porque rejeitassem inteiramente o Cristianismo, mas porque, numa corrupção de tal proporção, só lhes fora deixado um Cristo fictício. Assim também hoje, os papistas decidiram conservar um Cristo pelas metades e um Cristo mutilado, e nada mais, e estão, portanto, separados de Cristo. Estão saturados de superstições, as quais são frontalmente opostas à natureza de Cristo. Deve-se observar criteriosamente que estamos separados de Cristo quando aceitamos o que é inconsistente com seu ofício mediatorial; porquanto a luz não pode misturar-se com as trevas.

Pela mesma razão, ele o chama outro evangelho, ou seja, outro evangelho além do genuíno. E no entanto os falsos apóstolos alegavam pregar o evangelho de Cristo; mas, ao mutilá-lo com suas próprias invenções, destruíam a força motriz do evangelho para em seguida defender um evangelho falso, corrompido e espúrio. O apóstolo usa o verbo no tempo presente, como se, até então, estivessem, por assim dizer, apenas em processo de queda. É como se dissesse: "No entanto, não digo que já estais separados. Se esse fosse o caso, teria sido muito mais difícil voltardes ao caminho. Agora, porém, enquanto vos achais ainda no caminho, retrocedei; não deis sequer um passo adiante."

Algumas versões trazem: "daquele que vos chamou pela graça de Cristo", subentendendo o Pai. Mas a redação que temos adotado é mais simples. Ao dizer que foram chamados por Cristo através da graça, é como se o apóstolo reprovasse sua ingratidão. Desertar-se do Filho de Deus é algo por si só desonroso e desditoso; mas desertamo-nos dele, quando ele nos chamou graciosamente para a salvação, é algo muito mais terrível, visto que sua bondade para conosco, tendo como resposta nossa ingratidão, intensifica ainda mais a gravidade do pecado.

“Tão depressa.” Ele põe ênfase na perversidade da inconstância dos gaiatas. Não existe ocasião que justifique nossa deserção de Cristo; mas os gálatas eram muito mais censuráveis diante do fato de que voltaram atrás no momento em que Paulo os deixou. Portanto, assim como sua ingratidão se revelara quando pela primeira vez o apóstolo a confrontou com a graça da vocação, assim agora ele intensifica sua leviandade ao mencionar o tempo decorrido.

“O qual não é outro.” Há quem apresente a seguinte explicação: "Embora não exista outro evangelho" - como se fosse uma freada contra alguém que cresse na existência de outro evangelho. No que tange à explicação das palavras, faço-a de uma forma mais simples, ou seja: o apóstolo fala desdenhosamente do ensino dos falsos apóstolos como sendo a única causa de confusão e destruição. Parafraseando: "O que eles propõem? Sobre que bases atacam a doutrina que tenho anunciado? Simplesmente vos perturbam e destroem o evangelho.

“É tudo o que sabem fazer." Mas isso vem a ser a mesma coisa, pois admito que essa expressão corrige o que ele disse acerca de outro evangelho. Ele declara que tal coisa não era o evangelho, senão uma mera sublevação. Tudo o que eu quis dizer é que, em minha opinião, 'outro' significa 'outra coisa'. Como às vezes dizemos: "Isso não significa outra coisa, senão que sua intenção é enganar."

“E querem perverter.” Ele os culpa de um segundo crime, ou seja, de fazer injúria a Cristo, querendo destruir o seu evangelho. E esse é um crime em extremo terrível; pois a destruição é pior que a corrupção. E ele os acusa com boas razões. Quando a glória de justificar uma pessoa é transferida para outro, e uma armadilha se arma para as consciências, o Salvador não mais permanece firme e o ensino do evangelho é arruinado. Pois devemos sempre tomar o máximo cuidado com os artigos primordiais do evangelho. Aquele que os ataca c um destruidor do evangelho.

Ao adicionar as palavras, de Cristo, isso pode explicar-se de duas formas: ou que ele [o evangelho] veio de Cristo, como seu Autor, ou que ele simplesmente exibe a Cristo. Mas não há dúvida de que o apóstolo, com esse termo, pretendia descrever o verdadeiro e genuíno evangelho, o único que deve ser considerado como evangelho.

“Mas ainda que nós...” Aqui o apóstolo se ergue com grande ousadia para defender a autoridade de seu ensino. Em primeiro lugar, ele declara que a doutrina que ele tinha pregado é o único evangelho, e que é uma atitude ímpia tentar subvertê-lo. Caso contrário, os falsos apóstolos poderiam objetar: "Nós também queremos manter o evangelho incorruptível, nem sentimos por ele menos reverência que a que tu sentes." Justamente como hoje os papistas proclamam quão santo lhes é o evangelho, e beijam a própria palavra [evangelho] com a mais profunda reverência. Mas quando chega o momento de provar tal coisa, promovem feroz perseguição à doutrina do evangelho em sua pureza e simplicidade. Portanto, Paulo não se satisfaz com essa declaração geral, senão que define o que o evangelho é e o que ele contém e pronuncia que seu ensino é o genuíno evangelho, para que não se vá buscá-lo em qualquer outra fonte.

Que costume é esse de professar o evangelho sem saber o ele significa? Para os papistas, por exemplo, que se deixam dominar pela fé implícita, tal coisa pode ser suficiente. Mas para os cristãos não existe fé onde não haja conhecimento. A fim de que os gaiatas, que ao contrário estavam dispostos a obedecer ao evangelho, não vagueassem sem rumo sem encontrar firme fundamento em que se apoiassem, Paulo lhes ordena a permanecerem na doutrina que ele lhes ensinara. Ele exige uma confiança tal em sua pregação, que pronuncia uma maldição sobre todos aqueles que ousassem contradizê-lo. Era-lhe também necessário começar consigo mesmo. E assim ele antecipa uma calúnia por parte de seus desafetos: "Tu queres ter tudo o que procede do que recebeste, e sem hesitação, só porque te pertence." Para mostrar que não há nisso o menor fundamento, o apóstolo é o primeiro a resignar o direito de promover qualquer coisa contra este ensino. Ao proceder assim, ele não se sujeita aos demais, senão que, como é justo, põe a todos juntamente consigo numa só categoria, para que todos se sujeitassem à Palavra de Deus.

Com o fim de fulminar os falsos apóstolos ainda mais violentamente, ele evoca os próprios anjos. Também não diz simplesmente que não deveriam ser ouvidos caso anunciassem algo diferente, mas declara que devem ser tidos como seres execráveis. Alguém pode concluir que era totalmente errôneo envolver os anjos numa controvérsia acerca de doutrina; mas qualquer um que considere a questão apropriadamente verá que ele tinha que proceder assim. Com toda certeza é impossível que os anjos celestiais ensinem qualquer coisa além da pura verdade de Deus. Mas quando havia controvérsia concernente à fé na doutrina que Deus revelara sobre a salvação dos homens, ele não considerava como suficiente refutar o julgamento humano sem também evocar o mais elevado julgamento angelical.

E assim, não é supérfluo que o apóstolo pronuncie um juízo de anátema sobre os anjos, caso ensinassem algo mais, ainda quando seu argumento tenha por base uma impossibilidade. Pois tal hipérbole contribuiu para aumentar a autoridade da pregação de Paulo. Ele percebeu que tanto ele como seu ensino eram atacados mediante o uso de nomes famosos. Então responde que nem mesmo os anjos têm autoridade para prejudicá-lo. Isso de forma alguma constitui uma ofensa aos anjos. Eles foram criados para realçar a glória de Deus por todos os meios possíveis. Portanto, se alguém, com esse mesmo intuito piedoso, os deprecia, não detrai um mínimo sequer de sua dignidade. Desse fato, porém, não só retemos a imensa majestade da Palavra de Deus, mas também nossa fé recebe um extraordinário revigoramento, quando, em confiança na Palavra de Deus, podemos triunfar sobre a tendência de falar mal dos anjos.
Quando o apóstolo diz: que o mesmo seja maldito, "que vós" deve ser subentendido. Falamos sobre a palavra 'anátema' em 1 Coríntios 12.3. Aqui ela denota maldição.

“Como vos dissemos antes.” Ele agora omite toda menção de si mesmo ou dos anjos, e repete em termos gerais que é ilícito que qualquer mortal transmita algo mais além do que aprendeu. Notem-se bem as palavras: que tendes recebido. Pois o apóstolo está sempre a insistir que não deviam considerar o evangelho como algo desconhecido, nutrindo incerteza em suas imaginações, de forma leviana, mas que deviam alimentar uma inabalável convicção e viver sinceramente convencidos de que o que lhes foi transmitido, e eles o abraçaram, era o genuíno evangelho de Cristo. Pois nada pode ser menos consistente com fé do que opinião. O que dizer, pois, se uma pessoa está em bancarrota só porque não sabe qual ou de que sorte é o evangelho? Portanto, o apóstolo lhes diz que considerassem como demônios aqueles que ousassem apresentar um evangelho diferente do dele, significando por outro evangelho um ao qual acrescentaram-se idéias estranhas ao evangelho. Pois o ensino dos falsos apóstolos não era inteiramente contrário ou mesmo diferente do de Paulo, mas era corrompido por falsas adições. Os subterfúgios dos papistas são infantis quando se esquivam das palavras de Paulo, dizendo, primeiramente, que a totalidade de seu ensino não mais existe, e que não temos como saber o que tal ensino contém a menos que os gálatas que o ouviram ressuscitassem dos mortos como testemunhas; e, em segundo lugar, que nem todo gênero de adição é proibido, a não ser aqueles outros evangelhos, os únicos que são condenados. A doutrina de Paulo pode ser aprendida mui claramente através de seus escritos, uma vez que sintamos necessidade de conhecê-la. A luz desse evangelho é evidente que todo o papado é uma terrível subversão. Finalmente, é evidente, à luz do presente caso, que qualquer doutrina diferente da proclamação de Paulo é espúria. Portanto, os sofismas não os ajudarão em nada.

João Calvino (1509-1564)


“Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho;
O qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o evangelho de Cristo.
Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema.

Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema.” - Gálatas 1:6-9
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26 outubro, 2012

0 Prazer de Andar com Deus - John Flavel (1628-1691)



O prazer e o proveito obtidos por contemplar o que Deus faz na providência.

Eu devo agora apresentar-lhes o grande prazer de andar com Deus e ver de perto diariamente Suas providências.

1. Desse modo podem desfrutar de uma íntima comunhão diária com Deus

O Salmo 104 constitui uma meditação sobre as obras da providência. O salmista diz: "A minha meditação a seu respeito será suave" (versículo 34). A comunhão consiste em duas coisas: Deus Se revelando à alma, e a alma respondendo a Deus. O efeito dessa comunhão sobre nós é visto de quatro modos:

(i) Como no caso de Jacó e outros santos do passado, nós somos levados a sentir que não merecemos nem sequer a mínima das misericórdias de Deus e nem a verdade que Ele tem nos manifestado. Somos levados a dizer: "Não sou digno da menor de todas as tuas beneficências, e de toda a fidelidade que tens usado para com teu servo" (Gênesis 32:10).

(ii) Nosso amor por Deus é engrandecido quando nos lembramos de Suas misericórdias. Todo homem ama as bênçãos de Deus, mas um santo ama o Deus das bênçãos.

(iii) Comunhão com Deus, fruto de meditação nas Suas providências, faz com que a alma vigie rigorosamente contra o pecado.

(iv) A comunhão nos facilita obedecer e servir ao Senhor. Davi e Josafá também tiveram essa experiência (Salmo 116:12; 11 Crônicas 17:5-6).

Assim, vemos quão maravilhosa é a comunhão que uma alma pode ter com Deus através do estudo de Suas providências. Oxalá vocês andassem dessa maneira com Ele! Quando tais efeitos forem produzidos nos seus corações o Senhor dirá: "Os favores pelos quais vocês foram beneficiados, não foram dados em vão!" Ele Se alegrará em lhes fazer o bem, para sempre.
2. Grande parte do prazer da vida cristã provém de contemplar o que Deus faz na providência. "Grandes são as obras do Senhor, procuradas por todos os que nelas tomam prazer" (Salmo 111:2)

(i) Vejam como diferentes partes do caráter de Deus cooperam juntas na providência. Às vezes parece que uma se opõe a outra, mas, no fim, elas se harmonizam. "A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram" (Salmo 85:10). Essas palavras se referem a volta de Israel do cativeiro na Babilônia. A verdade e a justiça de Deus contidas na promessa que Ele havia feito 70 anos antes, pareciam distantes da experiência de graça e paz com que Israel agora se deparava saindo do cativeiro! A promessa, feita tantos anos antes, e o cumprimento setenta anos depois, são descritas como dois amigos que riem e se beijam ao se encontrarem depois de longa ausência. Sempre que as promessas de Deus e as coisas prometidas se encontram, elas são alegremente aceitas por aqueles que crêem.

(ii) Vocês freqüentemente vêem suas próprias orações e esperanças ressuscitando-se da morte, por assim dizer, quando meditam nas obras da providência. Deus tarda em responder nossas orações e nós dizemos: "Já pereceu a minha força, como também a minha esperança no Senhor" (Lamentações 3:18). Por outro lado, ficamos cheios de conforto quando essas orações são atendidas, posto que havíamos perdido toda esperança de receber qualquer resposta a elas. As vidas de Jó, Jacó e Davi mostram como às vezes eles perderam toda esperança de sobreviver, mas após uma estranha e inesperada obra da providência, suas esperanças e confortos retor naram e receberam "vida vinda da morte".

(iii) Que grandes bênçãos a providência nos traz daquelas coisas que pensávamos capazes de nos trazer ruína ou miséria. José jamais imaginou, ao ser vendido ao Egito, que isso lhe traria algum benefício; todavia, ele viveu para ver um grande propósito em tudo aquilo (Gênesis 45:5). Quantas vezes nós somos levados a dizer como o salmista: "Foi-me bom ter sido afligido" (Salmo 119:71). A princípio recebemos nossos problemas com lamentos e lágrimas, porém mais tarde os contemplamos com alegria e louva mos a Deus por eles!

(iv) Que conforto imenso é para uma pessoa — que só vê o pecado em sua vida — ver como Deus a tem em alta estima. Enquanto a providência cuida dela, essa pessoa vê bondade e misericórdia lhe acompanharem todos os dias de sua vida (Salmo 23:6). Outros homens procuram o bem e este foge deles! Mas bondade e misericórdia seguem os filhos de Deus e eles não podem evitar de serem seguidos, embora às vezes eles pequem e saiam do caminho certo. Não há dúvida, o povo de Deus é Seu tesouro e "ele não tira os olhos do justo" (Jó 36:7).

v. O que mais poderia nos dar tanto conforto e alegria neste mundo como o conhecimento de quê tudo que nos acontece ajuda-nos na caminhada para o céu? Apesar dos ventos e marés da providência muitas vezes parecerem estar contra nós, nada é mais certo de que eles estão nos trazendo mais perto de Deus e nos preparando para a glória.

3. Um estudo do que Deus faz pela providência corrigirá .a incredulidade natural dos nossos corações Há uma impiedade natural nos melhores corações, e essa é fortalecida quando nós pensamos erroneamente sobre as obras da providência. Nós somos tentados a dizer como Asafe, "Eis que estes são ímpios; e, todavia, estão sempre em segurança, e se lhes aumentam as riquezas" (Salmo 73:12). Mas se observarmos cuidadosamente o modo pelo qual Deus castiga homens ímpios, alguns neste mundo, e todos eles no mundo vindouro, nossa fé será plena mente confirmada. As providências que revelam a sabedoria, poder, amor e fidelidade de Deus em guardar e livrar Seu povo de todos os perigos, tristezas e dificuldades que lhe sobrevêm, são muito evidentes! O Senhor mostra-Se ao Seu povo nessas coisas (Salmo 94:1). Pensem em suas próprias experiências e perguntem-se quem supriu todas as suas necessidades nos tempos difíceis. Foi o Senhor, não foi? "Deu mantimento aos que o temem; lembrar-se-á sempre do seu concerto" (Salmo 111:5). Como é que vocês têm sobrevi vido a tantos perigos, doenças e acidentes? Não há dúvida de que Deus estava nessas coisas, e que somente pelo Seu cuidado têm sido preservados. A mão de Deus também é vista claramente nas respostas às suas orações. "Busquei ao Senhor, e ele me respondeu, livrou-me de todos os meus temores. Clamou este pobre, e o Senhor o ouviu, e o salvou de todas as suas angústias" (Salmo 34:4-6). Porventura não descobriram, também a mão de Deus guiando e dirigindo seus passos, de forma que bênçãos nunca imaginadas lhes foram dadas? O povo de Deus Lhe é muito querido. Ele executa todas as coisas para Seus filhos (Salmo 57:2).

4. Fazer anotações do que a providência nos tem feito, será um apoio para a fé em tempos difíceis no futuro

É muito mais fácil para a fé percorrer uma vereda bem conhecida do que trilhar uma nova, onde não se pode ver um passo à frente. Quando começamos a crer em Cristo, o mais difícil era o exercer a fé, Todos os atos posteriores de fé se tornaram mais fáceis devido nossas primeiras experiências. Quando nos sobrevêm uma série de problemas, é um grande auxílio poder dizer: "não é a primeira vez que passo por tais provações, mas sempre saí vitorioso". Quando os discípulos se acharam desprovidos de pão, Cristo teve que lembrá-los dos milagres que Ele já fizera anterior mente (Mateus 16:8-11). Ele chamou-os de homens de "pouca fé" porque eles deveriam ter confiado em Deus, depois de terem visto tanto do Seu poder no passado. Há duas maneiras pelas quais mostramos nossa incredulidade: duvidamos do poder de Deus e duvidamos da Sua disposição para nos ajudar. Os filhos de Israel julgaram que algumas coisas eram impossíveis para Deus. "Poderá Deus porventura preparar-nos uma mesa no deserto? Poderá também dar-nos pão, ou preparar carne para o seu povo?" (Salmo 78:19-20). Visto que não entendemos o caminho pelo qual o auxílio possa vir, achamos que nenhum pode ser esperado. Mas todos esses raciocínios da incredulidade são superados se lembrarmos as nossas experiências anteriores. Deus tem nos ajudado, portanto pode nos ajudar. Ele tem tanto poder e capacidade agora quanto teve no passado.

A incredulidade sempre questiona se Deus será tão bondoso agora quanto foi no passado. Davi e Paulo raciocinaram baseados naquilo que Deus fez no passado, para afirmarem o que Ele faria no presente (I Samuel 17:36; II Coríntios 1:10). Que dúvida pode haver, após tantas provas da bondade de Deus no passado?

Talvez o incrédulo pergunte: como pode uma criatura má e pecadora como eu, esperar que Deus faça isso ou aquilo por mim? Você pode responder que a graça de Deus veio a mim quando eu era pior do que sou agora; portanto esperarei que Sua bondade para mim continue, embora eu não a mereça. "Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida" (Romanos 5:10).

5. Lembrarmos de providências passadas será uma motivação para louvor e agradecimento contínuos, os quais são a tarefa dos anjos no céu, e a mais aprazível ocupação de nossas vidas na terra

O salmista disse do povo de Deus no passado: "Cedo, porém, se esqueceram das suas obras (Salmo 106:13). Apesar da providência os ter alimentado de maneira marcante no deserto, eles não deram a Deus o devido louvor (Números 11:6). Mas Davi reuniu todas as suas forças para louvar e agradecer a Deus pelas misericórdias recebidas dEle. "Bendize, ó minha alma ao Senhor, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome" (Salmo 103:1). Não é tanto as bênçãos que a providência nos dá que faz uma pessoa grata ocupar-se em louvar a Deus, e sim a graça e a bondade dEle em dá-las. Como Davi diz: "Porque a tua benignidade é melhor do que a vida; os meus lábios te louvarão" (Salmo 63:3). Doar a vida e preservá-la, são preciosos atos da providência; mas a graça que leva Deus a fazer tudo isso é muito melhor do que os atos em si. Nós recebemos bênçãos diariamente, e elas são um bom motivo para sermos gratos. "Bendito seja o Senhor, que de dia em dia nos cumula de benefícios" (Salmo 68:19). A ternura da graça de Deus é vista em Suas providências. "Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece daqueles que o temem (Salmo 103:13). Seus profundos sentimentos, demonstrados enquanto conforta o Seu povo, são como os que uma mãe tem por seu filho (Isaías 49:15). Então, prostrar-nos aos Seus pés em santo louvor pelo modo que Ele graciosamente Se inclina ao nosso baixo plano nos Seus procedimentos, é uma coisa muito agradável.

6. A observação cuidadosa da providência fará com que Jesus Cristo Se torne mais e mais precioso para as suas almas.

Através de Cristo a bondade de Deus chega a nós, e todo louvor volta a Deus por nós. Toda as coisas são nossas, porque nós somos dEle (I Coríntios 3:21-23).
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24 outubro, 2012

0 Entendimento espiritual – Richard Baxter (1615-1691)




Esforce-se para obter um correto entendimento da natureza do Cristianismo, e do significado do evangelho que visa salvá-lo.


Você é por natureza escravo do Príncipe das Trevas, vive em um estado de trevas, pratica as obras das trevas, e precipita-se para a mais completa escuridão; e é a luz do conhecimento salvífico que pode recuperá-lo, ou não haverá recuperação. Deus é 'o Deus de luz, e habita na luz'; Cristo é 'a luz do mundo'; seus ministros são também os ' luzeiros do mundo ' , desde que se submetam a Ele; e são enviados para ' retirarem os homens das trevas para a luz, pelo evangelho que é a luz para os nossos pés; e isto para fazer-nos filhos da luz, para que não mais pratiquemos as obras das trevas, mas possamos ser participantes da herança dos santos na luz '. Acredite nisto, as trevas não são o caminho para a glória celestial.


A sua doença é a ignorância espiritual, e o conhecimento espiritual precisa ser a sua cura. Eu sei que os ignorantes espirituais têm muitas desculpas, e que pensam que o caso deles não é assim tão ruim como queremos sugerir, achando que não há tal necessidade de conhecimento, e que um homem pode ser salvo sem ele. Mas eles pensam assim, exatamente porque carecem deste conhecimento, que lhes mostraria a miséria da sua ignorância e o valor do conhecimento. Não diz a Escritura claramente que, 'se o evangelho está encoberto, é para os que se perdem que está, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus' ( 2 Cor 4:3,4)?
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28 maio, 2012

0 Por que Deus se deleita em ser louvado? – Jonathan Edwards (1703-1758)



Se louvar a Deus é algo excelente, Deus estaria errado em não se deleitar com o louvor


Se a excelência e a glória de Deus são dignas de ser altamente estimadas e desfrutadas por ele, a estima de tais atributos por outros é digna de sua deferência, uma vez que se trata de uma consequência necessária.


A fim de deixar isso claro, devemos considerar o que acontece no caso da deferência para com as qualidades excelentes de outrem. Se temos em alta estima as virtudes e excelências de um amigo, devemos, na mesma medida, aprovar a estima de outros por ele e desaprovar o desprezo de outros por ele. Se essas virtudes são verdadeiramente preciosas, também são dignas de que aprovemos a estima de outros e desaprovemos o desprezo de outros.


O mesmo se aplica às próprias qualidades e aos próprios atributos de qualquer ser. Se ele os tem em alta estima e se deleita grandemente neles terá, natural e necessariamente, grande prazer em vê-los ser estimados por outros e grande desprazer em vê-los ser desprezados por outros. E, se os atributos são dignos da mais alta estima pelo ser que os possui, a estima desses atributos por outros também é digna de aprovação e respeito proporcionais.


Desejo que levemos em consideração se é inapropriado Deus se desagradar do desprezo de outros para com ele. Em caso negativo, sendo antes conveniente e apropriado que ele se desagrade do desprezo, os mesmos motivos justificam que ele se agrade com a estima, a honra e o amor verdadeiro para com ele.


Também poderíamos esclarecer a questão considerando o que é adequado aprovar e estimar em qualquer sociedade pública à qual pertencemos; por exemplo, o nosso país. Convém amar o nosso país e, portanto, estimar a sua honra legítima. Então, assim como convém estimar e desejar para um amigo e assim como convém desejar e buscar para uma comunidade, também convém a Deus estimar e buscar para si mesmo; ou seja, tomemos por base a suposição de que convém a Deus amar-se do mesmo modo como convém aos homens amar um amigo ou uma sociedade.
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21 maio, 2012

0 Desde a eternidade Deus tem um plano imutável – A. A. Hodge (1823-1886)




Como Criador e Governador infinitamente inteligente e providente, Deus certamente teve um propósito definido com referência à existência e destino de tudo quanto criou, compreendendo em um só sistema todo-perfeito seu fim principal nesse particular e todos os fins e meios subordinados em referência a esse fim principal. E já que ele é um Ser eterno e imutável, seu plano certamente existiu em todos os seus elementos, perfeito e imutável, desde a eternidade. Visto ser Deus uma Pessoa infinita, eterna, imutável e absolutamente sábia, poderosa e soberana, certamente que seu propósito participa dos atributos essenciais de seu próprio ser. E visto que a inteligência de Deus é absolutamente perfeita e seu plano eterno; visto que seu fim último é revelado como que almejando unicamente sua própria glória, e toda a obra da criação e da providência é observada como a formar um sistema único, segue-se que seu plano é também único — uma intenção todo-compreensiva, provida de todos os meios e condições, bem como dos fins predestinados.

O plano de Deus compreende e determina todas as coisas e eventos de todo gênero que venham suceder.

Isso se faz infalível à luz do fato de que todas as obras de Deus, da criação e da providência, se constituem num sistema.

Nenhum evento é isolado, quer no mundo físico quer no mundo moral, quer no céu quer na terra. Todas as revelações super-naturais de Deus, e cada avanço da ciência humana, corroboram para tornar esta verdade conspicuamente luminosa. Daí a intenção original que determina um evento deve também determinar todos os outros eventos relacionados a ela, como causa, condição, ou conseqüente, direto e indireto, imediato ou remoto. Por isso, o plano que determina os fins gerais deve também determinar até mesmo o elemento mais minúsculo compreendido no sistema do qual esses fins são partes. As ações livres de agentes livres constituem um elemento eminentemente importante e efetivo no sistema de coisas. Se o plano de Deus não determinou eventos dessa classe, ele não poderia ter feito nada certo, e seu governo do mundo seria feito contingente e dependente, e todos os seus propósitos, falíveis e mutáveis.

As Escrituras expressamente declaram essa verdade:

a.       De todo o sistema em geral. Ele "opera todas as coisas segundo o conselho de sua própria vontade". Ef 1.11.

b.      Dos eventos fortuitos. Pv 16.33; Mt 10.29,30.

c.       Das livres ações dos homens. "Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do Senhor, que o inclina a todo o seu querer." Pv 21.1. "Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas." Ef 2.10. "Porque Deus é quem opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo sua boa vontade." Fp 2.13.

d.      Das ações pecaminosas dos homens. "A este que foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos." At 2.23. "Porque verdadeiramente contra o teu Santo Filho Jesus, que tu ungiste, se juntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel; para fazerem tudo o que tua mão e teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer." At 4.27-28. Compare-se Gn 37.28 com Gn 45.7-8; Is 10.5.

Deve lembrar-se, contudo, que o propósito de Deus com respeito aos atos pecaminosos dos homens e anjos réprobos, em nenhum aspecto causa o mal nem o aprova, mas apenas permite que o agente mau o realize, e então o administra para seus próprios sapientíssimos e santíssimos fins. O mesmo decreto infinitamente perfeito e autoconsistente ordena a lei moral que proíbe e condena todo o pecado, e ao mesmo tempo permite sua ocorrência, limitando e determinando o canal preciso ao qual ele se confinará, o fim preciso ao qual se dirigirá e governando suas conseqüências para o bem. "Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para o bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar muita gente com vida." Gn 50.20.

Esse propósito todo-compreensivo não é condicional, nem no todo nem em qualquer de seus elementos constituintes. Em nenhum aspecto sua presciência depende de eventos não compreendidos em e determinados por seu propósito. Ele é absolutamente soberano, dependendo somente do "sábio e santo conselho de sua própria vontade".

Uma distinção bastante óbvia deve sempre ser mantida em mente entre um evento ser condicionado a outros eventos, e o decreto de Deus, com referência a esse evento, ser condicionado. Os calvinistas crêem, como todos os homens deveriam, que todos os eventos no sistema de coisas dependem de suas causas e são pendentes de condições. Isto é, se um homem não semeou, também não colherá; se semeou, e todas as influências climáticas favoráveis agem, ele colherá. Se um homem crê, ele será salvo; se não crê, também não será salvo. Mas o propósito todo-compreensivo de Deus abarca e determina a causa e as condições, tanto quanto o evento interrompido nelas. O decreto, em vez de alterar, determina a natureza dos eventos e suas relações mútuas. Ele faz as ações livres, livres em relação aos seus agentes; e os eventos contingentes, contingentes em relação às suas condições. Enquanto que, ao mesmo tempo, ele faz todo o sistema de eventos, e muitos elementos envolvidos nele, infalivelmente futuros. Decreto absoluto é aquele que, enquanto pode determinar muitos eventos condicio-nais, determinando suas condições, ele mesmo não é interrompido em nenhuma condição. Decreto condicional é aquele que determina que certo evento acontecerá sob a condição que algum outro evento não decretado aconteça, a que evento não decretado o próprio decreto, tanto quanto o evento decretado, se acha pendente.

Os decretos de Deus são incondicionais.

Todos quantos crêem num governo divino concordam com os calvinistas em que os decretos de Deus relativos aos eventos produzidos por causas necessárias são incondicionais. O único debate se relaciona aos decretos que são concernentes às livres ações dos homens e dos anjos. Os socinianos e racionalistas mantêm que Deus não pode infalivelmente prever as livres ações, porque à luz de sua própria natureza elas são incertas até que sejam realizadas. Os arminianos admitem que ele infalivelmente as prevê, mas negam que ele as determine. Os calvinistas afirmam que ele as prevê como infalivelmente futuras, porque ele determinou que elas assim o fossem.

A veracidade do ponto de vista calvinista prova-se:

À luz do fato de que, como demonstrado supra, os decretos de Deus determinam todas as classes de eventos. Se cada evento que vem a lume é preordenado, é evidente que não há nada indeterminado sobre o qual o decreto pudesse ser condicionado.

Porque os decretos de Deus são soberanos. Isso é evidente — (a) Porque Deus é o eterno e absoluto Criador de todas as coisas. Todas as criaturas existem, e são o que são, e possuem as propriedades peculiares a elas, e agem sob as próprias condições em que agem, em obediência ao plano divino, (b) É diretamente afirmado na Escritura. Dn 4.35; Is 40.13-14; Rm 9.15-18; Ef 1.5.

O decreto de Deus inclui e determina os meios e condições dos quais os eventos dependem, tanto quanto dos eventos propriamente ditos: "Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis." Ef 1.4. "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós, é o dom de Deus." Ef 2.8. "Deus desde o princípio vos elegeu para a salvação, pela santificação do Espírito e fé da verdade." 2 Ts 2.13. No caso do naufrágio de Paulo, Deus primeiramente prometeu a Paulo que absolutamente nenhuma vida se perderia. At 27.24. Paulo, porém, disse, no versículo 31: "Se estes não ficarem no navio, não podereis salvar-vos."

As Escrituras declaram que a salvação de indivíduos está condicionada ao ato pessoal de fé, e ao mesmo tempo que o decreto de Deus com respeito à salvação dos indivíduos repousa tão-só em "o conselho de sua própria vontade", "seu próprio beneplácito". "Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama)." Rm 9.11. "Sendo predestinados segundo o propósito daquele que opera todas as coisas segundo o conselho de sua própria vontade." Ef 1.11; 1.5; Mt 11.25-26.
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02 maio, 2012

0 Enfraquecimento da raiz do desejo mau – John Owen (1616-1683)



1. Um enfraquecimento habitual do mau desejo


Toda lascívia (desejo mau) é um hábito depravado, que continuamente inclina o coração para o mal. Em Gênesis 6:5, temos uma descrição de um coração no qual o pecado não foi mortificado: "era continuamente mau todo desígnio do seu coração". Em todo homem não convertido, há um coração que não foi mortificado e que está cheio de uma variedade de desejos ímpios, e cada um desses desejos está continuamente clamando por satisfação.

Concentrar-nos-emos apenas na mortificação de um desses desejos. Este desejo (pense no pecado que mais lhe atrai) é uma disposição forte, habitual, e profundamente enraizada, que inclina a vontade e os sentimentos para certo pecado em particular. Uma das grandes evidências de tal desejo mau é a tendência para se pensar nas diversas maneiras de gratificá-lo (veja Rom. 13:14). Este hábito pecaminoso (ou seja, a lascívia ou desejo mau) opera violentamente. "Fazem guerra contra a alma" (1 Ped. 2:11) e buscam tornar a pessoa um "prisioneiro da lei do pecado" (Rom. 7:23). Ora, a primeira coisa que a mortificação efetua é o enfraquecimento deste desejo mau, de modo que se torna cada vez menos violento nos seus esforços para provocar e seduzir a pecar (veja Tiago 1:14,15).

A esta altura, é preciso que se faça uma advertência. Todos os desejos maus têm o poder de seduzir e provocar alguém a pecar, porém parece que não têm, todos eles, o mesmo poder. Há pelo menos duas razões pelas quais alguns desejos maus parecem ser muito mais fortes do que outros:

a)      Um desejo mau pode ser mais forte do que outros na mesma pessoa e também mais forte do que o desejo numa outra pessoa. Há muitas maneiras pelas quais este poder e vida extras são dados, mas especialmente isso ocorre por meio da tentação.

b)      A ação violenta de alguns desejos maus é mais óbvia do que a de outros. Paulo sublinha uma diferença entre impureza e todos os outros pecados. "Fugi da impureza! Qualquer outro pecado que uma pessoa cometer, é fora do corpo; mas aquele que pratica a imoralidade peca contra o próprio corpo" (1 Cor. 6:18). Isso significa que pecados dessa natureza são mais facilmente discerníveis do que outros. Contudo, uma pessoa com um amor desordenado pelo mundo pode estar debaixo do poder desse desejo mau (embora esse poder não seja tão óbvio) tanto quanto outro homem que é cativado por um desejo mau ou por uma imoralidade sexual.

A primeira coisa, então, que a mortificação efetua é um enfraquecimento gradual dos atos violentos do desejo mau, de modo que seu poder para impelir, despertar, perturbar e deixar a alma perplexa seja diminuído. Isso é chamado de crucificar "a carne, com as suas paixões e concupiscências" (Gál. 5:24). Esta linguagem é muito gráfica, como se pode ver na seguinte ilustração:

Pense num homem pregado numa cruz. A princípio o homem se esforçará, lutará e clamará com grande intensidade e poder. Depois de certo tempo, à medida em que vai perdendo sangue, seus esforços se tornam fracos e seus gritos baixos e roucos. Da mesma maneira, quando um homem se propõe a cumprir seu dever de mortificar o pecado, há uma luta violenta; todavia à medida em que a força e a energia do desejo mau se esvai, seus esforços e gritos diminuem. A mortificação radical e inicial do pecado é descrita em Romanos, capítulo 6, e especialmente no versículo 6:

"Sabendo isto, que foi crucificado com ele o nosso velho homem" - para qual propósito? ~ "para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos ao pecado como escravos".

Sem esta mortificação inicial e radical, realizada mediante união com Jesus Cristo, como descrita em Romanos, capítulo 6 (no próximo capítulo diremos mais sobre isto), uma pessoa não pode fazer progresso na mortificação de um único desejo mau. Uma pessoa pode dar pauladas no mau fruto de uma árvore má até ficar esgotada, porém enquanto a raiz permanecer forte e vigorosa nenhum grau de espancamento impedirá que a raiz produza mais frutos maus. Esta é a tolice que muitas pessoas praticam quando se dispõem com todo fervor a quebrar o poder de qualquer pecado em particular, sem realmente atacar e ferir a raiz do pecado (como acontece quando um cristão é unido a Jesus Cristo).

2. Uma contenda e uma luta constante contra o pecado

Quando o pecado é forte e vigoroso, a alma não consegue fazer grande progresso espiritual. A não ser que constante-mente lutemos contra o pecado, ele crescerá forte e vigorosa-mente, e nosso progresso espiritual será constantemente impedido. Há três coisas importantes no contendermos com o pecado. São as seguintes:

a)      Precisamos conhecer nosso inimigo e estar determinados a destruí-lo por todos os meios possíveis. Temos que lembrar que estamos num conflito acirrado e árduo, um conflito que tem sérias consequências. Precisamos estar alertas "conhecendo cada um a chaga do seu coração" (1 Reis 8:38). Precisamos guardar-nos de pensar levianamente nessa chaga. E de se lamentar que muitos tenham tão pouco conhecimento do grande inimigo que levam com eles nos seus corações. Isso os torna dispostos a se justificarem e a ficarem impacientes com qualquer reprovação ou admoestação, não se apercebendo de que estão correndo perigo (veja 2 Cron. 16:10).

b)      Precisamos nos esforçar para aprender os modos de agir de nosso inimigo, suas estratégias e os métodos de combate que ele emprega, as vantagens que ele procura obter e, até mesmo, detectar as ocasiões quando o seu ataque é mais bem sucedido. Quanto mais soubermos estas coisas, melhor estaremos preparados para lutar e contender com o pecado. Por exemplo: se observarmos que o inimigo repetidamente se aproveita de nós, e leva vantagem, em determinada situação, então procuraremos evitar essa situação. Precisamos buscar a sabedoria do Espírito contra as ciladas do pecado que habita em nós, para que possamos rapidamente discernir as sutilezas do nosso inimigo e frustrar seus planos maus contra nós.

c) Precisamos empenhar-nos diariamente para utilizar todos os meios que Deus ordenou para ferir e destruir o nosso inimigo (alguns desses serão mencionados mais adiante). Jamais devemos permitir que sejamos conduzidos a uma falsa segurança, pensando que nossos desejos pecaminosos já estão mortos devido estarem quietos. Em vez disso precisamos aplicar-lhes novos golpes e surras todos os dias (vejaCol. 3:5).

3. Sucesso na nossa oposição e no nosso conflito com o pecado que habita em nós. Quando há frequente sucesso contra qualquer desejo mau, isso é uma outra evidência da mortificação do pecado. Por sucesso queremos significar uma vitória sobre ele, acompanhada da intenção de dar sequência a essa vitória e atacar novamente. Por exemplo: quando o coração detecta as ações do pecado que habita em nós (procurando nos seduzir, nos atiçar, influenciar nossa imaginação, etc) ele imediatamente ataca o pecado, o expõe à lei de Deus e ao amor de Cristo; ele o condena e o executa.

Quando uma pessoa experimenta tal sucesso e sabe que a raiz do desejo mau foi, na verdade, enfraquecida, e que sua atividade foi contida de modo que não pode mais impedi-lo de cumprir o seu dever ou interromper sua paz como acontecia antes, então o pecado foi, em considerável medida, mortificado.

Este enfraquecimento da raiz do desejo mau é realizada principalmente pela implantação, continuidade e cultivo constante da vida espiritual da graça, que se coloca em oposição direta ao desejo mau, e lhe é destruidora (compare com o capítulo 4, pág. 110, item 2). Desse modo, pela implantação e pelo crescimento da humildade, o orgulho será enfraquecido. Da mesma maneira, a paciência tratará da paixão; a pureza da mente e da consciência cuidará da impureza; a mente celestial porá fim ao amor deste mundo, e assim por diante.
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18 abril, 2012

0 Santidade - Objetivo todo-abrangente na vida de John Owen


O que gostaria de fazer agora é tentar me aproximar do cerne daquilo que fez este homem notável e daquilo que o fez grande. Acredito que o Senhor quer que sejamos inspirados por este homem de uma profunda forma pessoal e espiritual. Parece que esta é a forma que ele tocou tanto as pessoas – como J.I. Packer e Sinclair Ferguson.

Acredito que as palavras dele que nos trazem mais próximos do coração e do objetivo de sua vida são encontradas no prefácio do pequeno livro A Mortificação do Pecado nos Crentes, que foi baseado nos sermões pregados aos estudantes e à comunidade acadêmica em Oxford:

Espero que eu possa possuir em sinceridade que o meu desejo de coração para com Deus, e o principal desígnio de minha vida.... é, que a mortificação e a santidade universal possam ser promovidas no meu e nos corações e caminhos dos outros, para a glória de Deus, a fim de que o Evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo possa ser adornado em todas as coisas.

Isto foi em 1656. Owen tinha 40 anos de idade. Vinte e cinco anos depois ele ainda estava tocando a mesma nota em suas pregações e escritos. Em 1681, ele publicou The Grace and Duty of Being Spiritually Minded [A Graça e o Dever de Ser Espiritualmente Orientado].

Sinclair Ferguson está provavelmente correto quando diz “Tudo que ele escreveu a seus contemporâneos têm um objetivo prático e pastoral em vista – a promoção da verdadeira vida cristã”– em outras palavras, a mortificação do pecado e o avanço da santidade.

Este foi seu encargo não somente para as igrejas, mas também para a Universidade, quando estava lá. Peter Toon diz: “A ênfase especial de Owen era insistir que o inteiro currículo acadêmico deveria ser imerso em pregação, catecismo e oração. Ele queria que os graduados de Oxford não somente fossem proficientes em Artes e Ciências, mas que também aspirassem à piedade.”

Mesmo em suas mensagens políticas – os sermões ao Parlamento – o tema era repetidamente santidade. Ele baseou isto na linha de pensamento do Antigo Testamento – que “o povo de Israel estava nas melhores condições quando seus líderes eram piedosos.”

Portanto, o ponto principal dele era que o legislativo deveria ser composto por pessoas santas. Sua preocupação de que o Evangelho se espalhasse e fosse adornado com santidade não era apenas um encargo para sua terra natal, a Inglaterra. Quando ele voltou para a Irlanda em 1650, onde viu as forças inglesas, sob as ordens de Cromwell, dizimar a Irlanda, ele pregou no Parlamento e clamou por outro tipo de guerra:

“Como Jesus Cristo pode estar na Irlanda apenas como um leão que mancha suas vestes com o sangue dos seus inimigos; e ninguém o sustenta como um Cordeiro que derramou Seu próprio sangue por seus amigos?... Isto é lidar corretamente com o Senhor Jesus? – chamá-lo para a batalha e tirar-lhe a coroa? Deus foi fiel convosco ao fazer grandes coisas por vocês; sejam fiéis nisto – dêem o seu máximo pela pregação do Evangelho na Irlanda”.

De seus próprios escritos, e do testemunho de outros, parece justo dizer que o objetivo da santidade pessoal em toda a vida, e a mortificação de todo pecado conhecido, foi o trabalho não somente de seus ensinamentos, mas de sua própria vida pessoal também.

David Clarkson, seu associado pastoral nos anos finais do ministério de Owen, dirigiu o seu funeral. Nele, ele disse: Uma grande luz se apagou; uma de eminência pela santidade, conhecimento, qualidades e habilidades; um pastor, um erudito, um santo de primeira magnitude; a santidade deu um resplender divino às suas outras realizações, ela brilhou em todo o seu curso, e foi difundida através de toda a sua conversação.

John Stoughton disse que “Sua piedade igualou-se a sua erudição”. Thomans Chalmers da Escócia comenta em On Nature, Power, Deceit, and Prevalence of Indwelling Sin in Believers [Sobre a Natureza, Poder, Engano e Prevalência do Pecado Interior nos Crentes]: “É mais importante ser instruído neste assunto por alguém que alcançou tais patamares em santidade, e cujo conhecimento profundo e experimental da vida espiritual o capacitou tão bem a detalhar sua natureza e operações”.

John Piper

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11 abril, 2012

0 Tristeza segundo Deus - João Calvino



- Arrependimento verdadeiro  –

2Co 7.9-11




9.         Não porque fostes entristecidos. O que Paulo está dizendo é que ele não se deleitava no sofrimento dos coríntios, e se lhe fosse dado escolher, tentaria, ao mesmo tempo, promover o seu bem-estar e a sua felicidade; porém, visto que lhe falta alternativa, o seu bem-estar lhe era de pouca importância, visto que ele se alegrava no fato de que fostes entristecidos para arrependimento. Há médicos que são amáveis e leais, porém, em certas ocasiões, têm de portar-se com severidade, e até mesmo com crueldade, com seus clientes. Paulo diz que não é homem de empregar remédios dolorosos, a não ser que seja necessário. Mas, visto que sua experiência com a cura por meios rudes provou ser bem sucedida, então ele se congratula com tal expediente. Eleja usou uma forma muito semelhante de expressão em 5.4: "Pois, na verdade, os que estamos neste tabernáculo gememos angustiados, não por querermos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida."

10.      Tristeza de Deus. A fim de entendermos o que significa "tristeza de, ou segundo Deus", precisamos observar como Paulo contrasta isto com o seu oposto — "a tristeza do mundo". Devemos considerar também o mesmo contraste entre duas espécies de alegria. Há a alegria do mundo, na qual os homens, em seus desatinos e sem qualquer reverência para com Deus, se deleitam nas coisas ilusórias deste mundo e se embriagam com os seus deleites transitórios, de tal maneira que de nada mais cuidam senão das coisas terrenas. Por outro lado, há a alegria segundo Deus, alegria esta na qual os homens buscam em Deus toda a sua felicidade, se deleitam em sua graça; e ao menosprezarem o mundo, realçam o fato de que ao desfrutarem das prosperidades terrenas é como se delas não desfrutassem, e mesmo na adversidade têm o seu coração iluminado. Da mesma forma, a tristeza deste mundo existe quando o coração humano se perturba em meio às aflições terrenas e é submerso em pranto; mas a tristeza segundo Deus existe quando os homens elevam seus olhos para Deus e consideram que a sua miséria consiste em serem eles privados da graça divina, e, temendo o seu juízo, choram seus pecados. Paulo afirma que este tipo de tristeza é a causa e a origem do arrependimento. Isto precisa ser cuidadosamente observado porque, a menos que o pecador se aborreça de si mesmo, de tal modo que odeie sua própria vida e, em profunda tristeza, confesse seu pecado, ele jamais se converterá ao Senhor. Mas uma pessoa não pode sentir este tipo de tristeza sem que experimente uma mudança de coração. Assim, o arrependimento tem início com a tristeza, porque, como já disse, ninguém pode tomar o caminho certo sem que primeiro odeie seu pecado, e onde não existe ódio ao pecado também não pode haver auto-recriminação e tristeza. Paulo nos apresenta uma belíssima descrição de arrependimento quando diz que esse arrependimento não traz nenhum pesar. Porque, por mais amargo possa ele ser no primeiro teste, os resultados benéficos que fluem dele o fazem desejável. A frase pode ser tomada como referindo-se à salvação antes que ao arrependimento; porém, em minha opinião, ela se ajusta melhor ao arrependimento, como se dissesse: "O resultado final nos ensina que esse tipo de tristeza não nos deve ser penoso nem humilhante, porque, por mais amargo que seja o arrependimento que nos domine, ele é denominado como sendo algo que não nos traz nenhum pesar, em virtude do precioso e agradável fruto que ele produz.

Para a salvação. Paulo parece estar fazendo do arrependimento a causa da salvação; e se assim fosse, seguir-se-ia que somos justificados pelas obras. A minha resposta é que devemos notar bem o ponto específico que Paulo discute aqui. Ele não se preocupa com a causa da salvação, e, sim, apenas recomenda o arrependimento para realçar o fruto que ele produz e para compará-lo ao caminho que conduz à salvação. E assim o é, Cristo, deveras, nos chama por sua livre graça, porém nos chama para o arrependimento; e Deus perdoa os nossos pecados gratuitamente, mas somente quando os renunciamos. Deus opera em nós ambas as coisas, concomitantemente, de modo que somos tanto renovados por meio do arrependimento e libertados da escravidão do pecado, como também somos justificados por meio da fé e libertados da maldição que o pecado gera. Estes são os inseparáveis dons da graça, e em razão dos invariáveis laços que existem entre eles, o arrependimento pode correta e adequadamente ser chamado o início do caminho que conduz à salvação, porém mais como acompanhamento do que como causa. Este argumento não é uma evasiva sutil, mas uma simples explicação da dificuldade, pois enquanto a Escritura ensina que jamais obtemos o perdão de nossos pecados sem o arrependimento, concomitantemente ensina, em muitos lugares, que a única base de nosso perdão é a misericórdia divina.

11. Quanto cuidado não produziu em vós. Não entrarei em disputa alguma sobre se o que Paulo enumera aqui são os efeitos ou se são partes do arrependimento, ou se são preparativos para ele, já que podemos entender o pensamento de Paulo sem tomar esse caminho. Ele está simplesmente atestando o arrependimento dos coríntios pelos sinais exteriores que o seguem. Ele faz da "tristeza segundo Deus" o primeiro destes sinais dos quais o restante emana, e na verdade isto é assim, pois tão logo começamos a ficar insatisfeitos conosco mesmos, somos incitados a buscar todo o restante. O que 'tanto cuidado' significa podemos entender com-parando-o com o seu oposto. Enquanto não houver reconhecimento do pecado, permanecemos modorrentos e inativos. E esta modorra, ou displicência, ou indiferença é o oposto deste 'quanto cuidado', de modo que um desejo ardente e ativo passa a corrigir o que fora pecaminoso e a emendar nossa vida.

Que justificativa. Porque Erasmo traduziu esta frase por 'satisfação', comentaristas inexperientes, enganados pela ambiguidade desta palavra, a têm aplicado às satisfações papais, enquanto que, na verdade, o termo em grego, usado por Paulo, significa 'defesa'. Esta é a razão por que preferi seguir a Vulgata e conservar a palavra defensio, em latim, porém devemos observar que este é um tipo de defesa que tem mais a ver com a busca do perdão do que com a refutação de acusações. É semelhante a um filho que, desejando justificar-se diante de seu pai, não inicia com uma súplica advocatícia de sua causa, senão que reconhece sua culpa e se desculpa com um humilde pedido em lugar de confiantes protestos. Os hipócritas também se desculpam e orgulhosamente se defendem, porém mais com o intuito de ter um debate legal com Deus do que retornar ao seu favor. Se o termo 'escusa' é mais aceitável a alguém, não faço nenhuma objeção, desde que não faça nenhuma diferença ao significado, o qual aponta para o fato de que os coríntios estavam agora prontos a justificar-se, considerando que antes não tiveram cuidado com a opinião que Paulo pudesse ter deles.

Que indignação. Isto também coaduna-se com a tristeza santa, de maneira tal que o pecador se arde em ira contra suas faltas e ainda contra si mesmo, da mesma forma que aqueles que são zelosos pelo bem e pela divindade, e se iram quando percebem que Deus foi ofendido. Este sentimento é ainda mais intenso que a tristeza. O primeiro passo consiste no fato de que o mal nos traz desprazer, enquanto que o segundo consiste no fato de que devemos despertar a nossa indignação ao tratarmos severamente conosco mesmos e ter a nossa consciência sensibilizada. Isto pode, também, ser considerado como que significando a indignação dos coríntios contra as faltas do homem ou do pequeno grupo que antes tinham poupado, de modo que se sentiam arrependidos de sua aquiescência e conivência em seus pecados.

Temor vem da percepção do juízo divino, quando o pecador pondera: "Lembra-te de que deves atender a uma intimação, e que defesa apresentarás diante do juiz?'. Alarmado por tais pensamentos, ele tremerá de medo; porém, visto que os ímpios são às vezes afetados por semelhante temor, Paulo adiciona saudade, que é de natureza mais voluntária do que temor. Às vezes somos atemorizados contra a nossa vontade, porém jamais desejamos algo senão por nossa própria inclinação. Portanto, enquanto que, pela advertência de Paulo, tiveram medo da punição, também agora estavam ansiosamente saudosos pela correção. Porém, o que significa saudade! Não há dúvida de que Paulo a introduziu no clímax desta lista, de modo que deve significar mais do que intensa preocupação. O termo pode ser considerado com a implicação de que estavam incitando uns aos outros à rivalidade mútua, porém é mais simples entendê-lo no sentido de que cada um se esforçava com grande e fervoroso zelo para dar mostras de seu arrependimento. Portanto, saudade é o intenso esforço do desejo.

Que punição. O que foi dito sobre indignação pode aplicar-se também a 'punição', pois a maldade que uma vez estimularam por meio de sua conivência e indulgência, mais tarde se mostraram rigorosos consigo mesmos na punição. Por algum tempo, foram tolerantes com o incestuoso, porém, após as advertências de Paulo, não só cessaram de favorecê-lo, como também se fizeram juízes severos no julgamento, e esta foi a sua 'punição'. Mas, visto que devemos castigar os pecados em qualquer parte onde forem encontrados, e é preciso que antes comecemos por nós mesmos, há uma aplicação mais ampla do que o apóstolo está dizendo aqui. Ele está falando dos sinais de arrependimento, e entre os quais há este sinal especial, por meio do qual nós, ao punirmos os pecados, de certa forma antecipamos o próprio juízo de Deus, como ele ensina alhures: "Se julgássemos anos mesmos, não seríamos julgados pelo Senhor" (1 Co 11.31). Não se deve inferir disto que, pela autopunição, os homens podem compensar a Deus pelas faltas cometidas contra ele, de modo a livrarem-se de Suas mãos. A verdade da questão é que é plano de Deus disciplinar-nos a fim de que nos despertemos de nossa indiferença, de modo que, nos lembrando de Sua ira, possamos ser mais precavidos no futuro. Assim, quando o pecador primeiro se pune voluntariamente, não há necessidade desse tipo de admoestação da parte de Deus.

Pode-se perguntar se os coríntios estavam assumindo esta punição, esta saudade, este desejo etc, por causa de Paulo ou por causa de Deus. Respondo que todas estas coisas são os acompanhantes invariáveis do arrependimento, mas que há diferença entre pecado secreto, visto só por Deus, e pecado público, visto por todos os homens. Se se trata de pecado secreto, então o arrependimento diante de Deus é suficiente; porém, se o pecado é público, exige-se também uma manifestação publica de arrependimento. Desta forma, os coríntios, que tinham pecado publicamente e ofendido grandemente a homens de bem, tinham de demonstrar estes sinais publicamente como testemunho de seu arrependimento.
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